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<publisher-name><![CDATA[DINÂMIA'CET-IUL, Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A arte como arma em território hostil: Enfrentamentos nas produções de Lyz Parayzo]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Art as a weapon in a hostile territory: Confrontation in Lyz Parayzo's productions]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The purpose of this research will be to analyze how art can be used as a powerful tool in order to contribute to the visibility, empowerment and confrontation trying to create personal narratives within the artistic field as a form of resistance from the work of Brazilian trans artist Lyz Parayzo inserted in the context of the city of São Paulo, which stands out as one of the most important of the art circuit in Brazil but, at the same time, is one of the most violent ones regarding the LGBTQIA+ population.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENSAIO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">A arte como arma em territ&oacute;rio hostil: Enfrentamentos nas produ&ccedil;&otilde;es de Lyz Parayzo</font></b>     <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3">Art as a weapon in a hostile territory Confrontation in Lyz Parayzo's productions</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Debora Armelin Ferreira<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro Universit&aacute;rio Belas Artes de S&atilde;o Paulo, Brasil. e-mail: <a href="mailto:deboraarmelin@hotmail.com" target="_blank">deboraarmelin@hotmail.com</a>.</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><br /> </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><br/>   </font><br /> </p> <hr size="1" noshade="noshade"/>     <p></p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>RESUMO</b>     <p> A proposta deste ensaio &eacute; a de analisar como a linguagem da performance (body art) pode ser utilizada como uma potente ferramenta na contribui&ccedil;&atilde;o para o empoderamento e visibilidade de artistas transexuais, a partir da leitura do conjunto de obras da artista brasileira Lyz Parayzo. Pretende-se demonstrar como estas produ&ccedil;&otilde;es promovem espa&ccedil;o para a cria&ccedil;&atilde;o de suas pr&oacute;prias narrativas dentro do campo das artes, assim como dentro do espa&ccedil;o urbano, atuando como forma de resist&ecirc;ncia e sobreviv&ecirc;ncia em S&atilde;o Paulo, uma das cidades mais violentas e que, ao mesmo tempo, &eacute; uma das mais importantes no que se refere ao circuito art&iacute;stico no Brasil. </p> <b>Palavras-chave</b> : Arte Contempor&acirc;nea, escultura, corpo, transexualidade, S&atilde;o Paulo, viol&ecirc;ncia.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> <hr size="1" noshade="noshade" /> <b>ABSTRACT</b>     <p> The purpose of this research will be to analyze how art can be used as a powerful tool in order to contribute to the visibility, empowerment and confrontation trying to create personal narratives within the artistic field as a form of resistance from the work of Brazilian trans artist Lyz Parayzo inserted in the context of the city of S&atilde;o Paulo, which stands out as one of the most important of the art circuit in Brazil but, at the same time, is one of the most violent ones regarding the LGBTQIA+ population. </p> <b>Keywords:</b> Contemporary Art, Sculpture, Body, Transexuality, Sao Paulo, violence.     <p></p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size=3><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font> </p>     <p> O presente texto tem como objetivo compreender como a produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica de autoria da artista brasileira transexual Lyz Parayzo assume um papel social, pol&iacute;tico e cultural na afirma&ccedil;&atilde;o da identidade de g&ecirc;nero e suas quest&otilde;es dentro do territ&oacute;rio brasileiro, mais especificamente na cidade de S&atilde;o Paulo. </p>     <p> Parayzo pensa o seu trabalho como instrumento de resist&ecirc;ncia e de luta, uma forma de defesa num contexto de extrema viol&ecirc;ncia contra a popula&ccedil;&atilde;o trans em que a artista est&aacute; inserida. Iniciando sua carreira na cidade do Rio de Janeiro, a artista vive atualmente em S&atilde;o Paulo, duas cidades que refletem, cada uma &agrave; sua maneira, fortes marcas de um colonialismo patriarcal, de pensamentos e a&ccedil;&otilde;es que seguem a l&oacute;gica hetero-cis-normativa, insistindo na dicotomia sexo-g&ecirc;nero. Frequentemente esses padr&otilde;es de comportamento acabam por impor rela&ccedil;&otilde;es de poder, em que se tem como consequ&ecirc;ncia uma viol&ecirc;ncia f&iacute;sica e/ou psicol&oacute;gica. </p>     <p> Na primeira parte desta pesquisa apresenta-se uma leitura dos dados sobre a viol&ecirc;ncia contra transexuais no Brasil, analisando como o discurso pol&iacute;tico atual pode influenciar toda uma sociedade e propondo tamb&eacute;m uma breve compreens&atilde;o do conceito de identidade de g&ecirc;nero a partir do olhar de Judith Butler e Michel Foucault. Na segunda parte ser&aacute; feito um curto panorama das representa&ccedil;&otilde;es LGBTI+ [<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">2</a>] na Hist&oacute;ria da Arte desde a Arte Romana, passando pelo Renascimento at&eacute; o modernismo, ressaltando a import&acirc;ncia do corpo como linguagem potente. Por fim apresenta-se uma biografia da artista Lyz Parayzo propondo a leitura de algumas de suas obras. </p>     <p> Parayzo, a partir da constru&ccedil;&atilde;o de esculturas e joias, utiliza seu corpo para dar vida a esses objetos. Corpo este que carrega mem&oacute;rias e viv&ecirc;ncias servindo como local de fomento para seu pr&oacute;prio fazer art&iacute;stico e questionando o papel da arte visual como uma poss&iacute;vel linguagem produtora de sentidos e significados. </p>     <p> A relev&acirc;ncia desse trabalho encontra-se no fato de que as abordagens art&iacute;sticas de Lyz Parayzo, bem como o de muitas ativistas LGBTI+, s&atilde;o descritas como tendo um car&aacute;ter e m&eacute;rito social e que, portanto, suas pr&aacute;ticas art&iacute;sticas poder&atilde;o revelar como a arte se insere no contexto da arte pol&iacute;tica na defesa contra a viol&ecirc;ncia de g&ecirc;nero no Brasil. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> H&aacute; uma urg&ecirc;ncia em se tratar da quest&atilde;o de g&ecirc;nero no Brasil devido ao grande n&uacute;mero de assassinatos de transexuais. Em 2018 foram contabilizadas 163 mortes [<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">3</a>] e, apesar do surgimento de muitos movimentos sociais e culturais, ainda se faz necess&aacute;ria a luta por visibilidade e inser&ccedil;&atilde;o social dentro do seu pr&oacute;prio territ&oacute;rio, em que continuam a ser marginalizados. </p>     <p> <b></b> </p>     <p> <font size="3"> <b>Enfrentamentos num territ&oacute;rio hostil</b></font> </p>     <p align="right"> &ldquo;Ser trans &eacute; cruzar uma fronteira pol&iacute;tica&rdquo; </p>     <p align="right"> (Paul B. Preciado) </p>     <p> &Eacute; urgente abordar a quest&atilde;o de g&ecirc;nero no Brasil como forma de consciencializar a popula&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia de uma variedade de g&ecirc;neros (LGBTI+) gerando debates sobre a tem&aacute;tica e exigindo dos governos federais, estaduais e municipais pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que assegurem uma qualidade de vida a essa popula&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> De acordo com o relat&oacute;rio da TGEU - Transgender Europe (<a href="#f1">Figura 1</a>), entre os anos de 2011 e 2017, o Brasil liderou o <i>ranking</i> de pa&iacute;ses que mais mataram transexuais no mundo e, em 2018, a ANTRA - Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Travestis e Transexuais [<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4">4</a>] registrou 163 assassinatos, dentre eles 158 foram de travestis e mulheres trans, 4 homens trans e 1 pessoa n&atilde;o-bin&aacute;ria. E s&oacute; este ano (at&eacute; dezembro 2019) j&aacute; foram contabilizadas 62 mortes em todo o pa&iacute;s. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1" id="f1"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f1.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> O discurso homof&oacute;bico e transf&oacute;bico no Brasil ganhou legitimidade pela voz do atual presidente Jair Bolsonaro (PSL – Partido Social Liberal) em declara&ccedil;&otilde;es de intoler&acirc;ncia contra a popula&ccedil;&atilde;o LGBTI+, ganhando refor&ccedil;o da bancada conservadora e evang&eacute;lica do Congresso, que se apoiava no cristianismo neopentecostal na tentativa de oprimir e perseguir identidades de g&ecirc;nero que n&atilde;o sigam a heteronormatividade. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O jornal <i>El Pa&iacute;s Brasil</i> [<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5">5</a>] relatou numa reportagem publicada em mar&ccedil;o de 2019 que, durante o per&iacute;odo eleitoral ocorrido em setembro e outubro de 2018, 51% dos entrevistados LGBTI+ sofreram pelo menos uma agress&atilde;o, sendo 56% deles travestis e transexuais. E 83% dessas agress&otilde;es ocorreram em espa&ccedil;os p&uacute;blicos. Como tamb&eacute;m pode ser confirmado na tabela do Observat&oacute;rio de Pessoas Trans Assassinadas, da TGEU (<a href="#q1">quadro 1</a>), a grande maioria das mortes se deu nas ruas. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="q1" id="q1"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03q1.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Por&eacute;m, na &uacute;ltima elei&ccedil;&atilde;o, o Estado de S&atilde;o Paulo elegeu sua primeira representante transexual como deputada, &Eacute;rica Malunguinho, e Minas Gerais elegeu uma senadora, Duda Salabert, ambas do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) que diante de todo panorama nacional surgem como uma oportunidade de promover o debate contra o preconceito e as desigualdades em diferentes esferas e, principalmente, na pol&iacute;tica. </p>     <p> Conservadores e religiosos refor&ccedil;am o preconceito e a intoler&acirc;ncia e podem, inclusive, incitar a viol&ecirc;ncia contra a popula&ccedil;&atilde;o LGBTI+ se apoiando em estruturas sociais heteronormativas sob o vi&eacute;s da &ldquo;moral e bons costumes&rdquo;, determinadas pela classe hegem&ocirc;nica que acredita no bin&ocirc;mio masculino e feminino e da obrigatoriedade do sexo biol&oacute;gico e a identidade de g&ecirc;nero serem correlatas. </p>     <p> Tendo como base os Estudos Culturais de Stuart Hall, podemos afirmar que identidade n&atilde;o &eacute; algo inato, ela se desenvolve gradativamente por meio da rela&ccedil;&atilde;o entre indiv&iacute;duos e grupos dentro de uma sociedade, construindo identidades que s&atilde;o m&uacute;ltiplas mas, ao mesmo tempo s&atilde;o indissoci&aacute;veis, como ra&ccedil;a, etnia, classe social e assim como a identidade de g&ecirc;nero. </p>     <p> Como aponta Judith Butler (2003), essa dicotomia sexo vs. g&ecirc;nero &eacute; criada pela sociedade a partir de uma &ldquo;ordem compuls&oacute;ria&rdquo; que exige essa rela&ccedil;&atilde;o, procurando quebrar velhos paradigmas impostos, assim como da estabilidade bin&aacute;ria do sexo como somente feminino e masculino. A fil&oacute;sofa sugere pensar que: </p>     <p> &ldquo;Essa produ&ccedil;&atilde;o do sexo como pr&eacute;-discursivo deve ser compreendida como efeito do aparato de constru&ccedil;&atilde;o cultural que designamos como g&ecirc;nero. (&hellip;) Quando a &ldquo;cultura&rdquo; relevante que &ldquo;constr&oacute;i&rdquo; o g&ecirc;nero &eacute; compreendida nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impress&atilde;o de que o g&ecirc;nero &eacute; t&atilde;o determinado e fixo quanto na formula&ccedil;&atilde;o de que a biologia &eacute; o destino. Neste caso, n&atilde;o a biologia, mas a cultura se torna o destino (Butler, 2003: 25 – 26). </p>     <p> Ainda de acordo com Butler (2015), a partir da interpela&ccedil;&atilde;o em que possibilita circunst&acirc;ncias para as constru&ccedil;&otilde;es das identidades, &ldquo;Relatamos a n&oacute;s mesmos simplesmente porque somos interpelados como seres que foram obrigados a fazer um relato de si mesmos por um sistema de justi&ccedil;a e castigo&rdquo; (Butler, 2015: 22), que encontra em Foucault, em <i>scientia sexualis</i>, o estabelecimento de uma rela&ccedil;&atilde;o de poder sobre a sexualidade dos sujeitos a partir do ato da confiss&atilde;o, e essa rela&ccedil;&atilde;o de poder faz com que a divis&atilde;o bin&aacute;ria de sexo/g&ecirc;nero seja constru&iacute;da de forma austera seguindo o modelo heterossexual. </p>     <p> O corpo do sujeito se torna uma linguagem que revela a contraposi&ccedil;&atilde;o entre sexo e g&ecirc;nero que vai al&eacute;m do normativo, e permite, assim, que interven&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas sejam feitas, modifica&ccedil;&otilde;es estas permanentes, fisiol&oacute;gicas e/ou atrav&eacute;s do uso de ornamentos e indument&aacute;rias que adequem seu visual ao seu desejo identit&aacute;rio de g&ecirc;nero. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Pensar a identidade de g&ecirc;nero &eacute; compreend&ecirc;-la como uma constitui&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica e cultural, como nos exp&otilde;e Guacira Lopes Louro (1997), como o reconhecimento de si pr&oacute;prio a partir de rela&ccedil;&otilde;es dadas dentro de um determinado espa&ccedil;o f&iacute;sico, cada qual carregando suas hist&oacute;rias e suas mem&oacute;rias. Os sujeitos, portanto, s&atilde;o moldados de forma constante a partir de caracter&iacute;sticas que os diferenciam e os definem, compreendendo que nascer com determinada sexualidade n&atilde;o determinar&aacute; sua identidade de g&ecirc;nero.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b> LGBTI+ nas Artes</b></font> </p>     <p> O territ&oacute;rio do campo do conhecimento como o das artes tamb&eacute;m apresenta caracter&iacute;sticas hegem&ocirc;nicas legitimadas por institui&ccedil;&otilde;es que seguem um pensamento euroc&ecirc;ntrico e que acarretou (e ainda acarreta) exclus&otilde;es de determinados grupos durante toda Hist&oacute;ria da Arte. Dentro de um contexto brasileiro vemos a necessidade de descentralizar pensamentos hier&aacute;rquicos no objetivo de decolonizar [<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6">6</a>] o olhar, romper com velhos discursos normativos a partir de novas narrativas nas produ&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas contempor&acirc;neas. </p>     <p> Ao analisarmos obra de artes desde o Renascimento &agrave; modernidade no que se refere &agrave;s representa&ccedil;&otilde;es de sexualidade e g&ecirc;nero vemos, quase que exclusivamente, homens brancos se relacionando, uma vez que na Gr&eacute;cia Antiga, essas rela&ccedil;&otilde;es eram aceites desde que entre homens jovens. Como exemplo, um detalhe do teto da Capela Sistina, uma obra renascentista pintada por Michelangelo entre os anos de 1508 e 1512 (<a href="#f2">Figura 2</a>). Nela se observa uma cena de homens se beijando o que representa, no contexto do Ju&iacute;zo Final, o beijo <i>gay</i> no lugar do pecado conden&aacute;vel, o pecado da sodomia. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2" id="f2"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f2.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> Enquanto representa&ccedil;&otilde;es andr&oacute;ginas que ilustravam os deuses em esculturas presentes na arte Romana em que eram atribu&iacute;dos os dois sexos, somente eram aceitos por se tratarem de divindades como na escultura de Hermafrodito (<a href="#f3">Figura 3</a>), filho de Hermes e Afrodite, apresentando aspectos femininos e masculinos. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3" id="f3"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f3.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Durante a modernidade, encontramos o caso de Lili Elbe (1882-1931), artista <i>queer</i> conhecido como Einar Mogens, casado com a tamb&eacute;m artista Gerda Wegener e que em determinado momento deixa aflorar a sua identidade feminina. Lili Elbe chegou a fazer cirurgias para mudan&ccedil;a de sexo e se tornou refer&ecirc;ncia na hist&oacute;ria LGBTI+ ap&oacute;s sua hist&oacute;ria ser conhecida quando foi retratada no cinema com o filme &ldquo;The Danish Girl&rdquo;, 2015, dirigido por Tom Hooper. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4" id="f4"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f4.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> A produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica contempor&acirc;nea se apresenta de forma descentralizada, deixando-se um pouco o peso da utopia das vanguardas ao interagir a arte com a realidade. Encontramos tamb&eacute;m um pluralismo nas diferentes linguagens e formas de representa&ccedil;&atilde;o, as quais s&atilde;o baseadas n&atilde;o somente nas experi&ecirc;ncias do cotidiano, mas igualmente na rela&ccedil;&atilde;o entre sujeitos, e na compreens&atilde;o e percep&ccedil;&atilde;o do outro. </p>     <p> A <i>performance</i> se apresenta como uma potente linguagem provocadora de questionamentos e reflex&otilde;es, uma vez que corpos dissidentes assumem seu local de fala. S&atilde;o sujeitos que, a partir da ideia de Spivak (2010), &ldquo;sob a condi&ccedil;&atilde;o de subalternidade&rdquo;, a popula&ccedil;&atilde;o transexual nunca ganhou espa&ccedil;o para falar de si e por si e essas vozes, quando conquistam uma posi&ccedil;&atilde;o de prest&iacute;gio e, nesse casom o acesso ao circuito de artes, obt&eacute;m certa &ldquo;visibilidade&rdquo;. </p>     <p> E esta linguagem faz com que todo o processo seja muito mais significativo que o resultado final, nos remetendo ao conceito de &ldquo;artifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; proposto por Roberta Shapiro (2007) em que a &ldquo;arte como atividade (e n&atilde;o como objeto)&rdquo; aumenta &ldquo;as inst&acirc;ncias de legitima&ccedil;&atilde;o&rdquo; que n&atilde;o apenas a academia, curadores e cr&iacute;ticos de arte e promovendo um mecanismo de reconhecimento de objetos considerados &ldquo;n&atilde;o-arte&rdquo; em arte, a partir de um contexto que abrange quest&otilde;es de &acirc;mbito social, econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b> Lyz Parayzo: objetos para sua auto-defesa</b></font> </p>     <p> A artista nasceu Lisandro Coelho de Souza, no ano de 1994, em Campo Grande, sub&uacute;rbio do Rio de Janeiro em uma casa entre mulheres: m&atilde;e, av&oacute; e suas tias. Lyz conta durante uma entrevista [<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7">7</a>] que foi na adolesc&ecirc;ncia que sua sexualidade se manifestou e tomou consci&ecirc;ncia de que n&atilde;o se encaixava nos padr&otilde;es heteronormativos, relatando que &ldquo;o primeiro contato feminino com o meu corpo foi pintar as unhas, a&iacute;, eu tive uma rela&ccedil;&atilde;o diferente socialmente porque eu vi que pintar as unhas catalisava uma s&eacute;rie de sensa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia.&rdquo; </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5" id="f5"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f5.jpg"/>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> A fam&iacute;lia, sendo grande parte evang&eacute;lica e outra parte esp&iacute;rita, teve grandes dificuldades em entender e aceitar a declara&ccedil;&atilde;o do ent&atilde;o Lisandro, o que teve como consequ&ecirc;ncia rela&ccedil;&otilde;es bastante complicadas. Exceto com a sua av&oacute; que, ap&oacute;s um tempo, percebeu a necessidade de estar ao lado da neta, embora ainda tenha dificuldade em usar o artigo &ldquo;a&rdquo; para se referir a ela e cham&aacute;-la de Lyz. </p>     <p> Ingressa no curso de teatro, mas devido ao seu distanciamento e de sua fam&iacute;lia com as artes (em especial o teatro, visto que em Campo Grande havia apenas um cinema) sentiu dificuldade em lidar com o curso, o que a fez questionar a continuidade dos estudos. Decide ent&atilde;o cursar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro e ali conquista seu espa&ccedil;o, n&atilde;o s&oacute; no que se refere &agrave; quest&atilde;o de g&ecirc;nero, mas de classe tamb&eacute;m. Recebe uma bolsa de estudos e, ao ocupar aquele lugar, concebe seu entendimento de quem era e qual o seu papel como artista. </p>     <p> Lyz narra que sua ida at&eacute; &agrave; escola de artes sofria varia&ccedil;&otilde;es. Seu trajeto de Campo Grande at&eacute; o Parque Lage, localizado em uma &aacute;rea mais nobre da cidade, levava duas horas entre &ocirc;nibus, metr&ocirc; e &ocirc;nibus e sentia certos marcadores sociais. Enquanto em Campo Grande, os moradores faziam piadas quanto ao seu g&ecirc;nero, ao chegar ao local de destino, era como se houvesse um certo respeito, um &ldquo;perd&atilde;o de classe&rdquo; por ela estar transitando aquele espa&ccedil;o. </p>     <p> Adota, ent&atilde;o, o nome de Lyz Big Field, escolhendo este sobrenome que faz refer&ecirc;ncia &agrave; sua origem geogr&aacute;fica, considerada periferia do Rio de Janeiro, como forma de falar de suas urg&ecirc;ncias, questionar os corpos que s&atilde;o julgados unicamente por serem de &aacute;reas perif&eacute;ricas pois, no Brasil, o seu sobrenome e seu local de origem ditam quais s&atilde;o seus privil&eacute;gios e, no seu caso, os acessos aos espa&ccedil;os de artes. </p>     <p> Com sua ousadia, a artista queria romper fronteiras, queria desafiar a l&oacute;gica colonial e patriarcal do Parque Lage, que defendia um discurso superficial de inclus&atilde;o. Foi censurada em tr&ecirc;s apresenta&ccedil;&otilde;es, a primeira, n&atilde;o tendo sua obra selecionada para uma exposi&ccedil;&atilde;o, fez uma interven&ccedil;&atilde;o dispondo uma s&eacute;rie de fotografias de seu pr&oacute;prio &acirc;nus dentro dos banheiros masculinos. Foi neste momento que assumiu como nome social Lyz Parayzo, com o intuito de &ldquo;abrasileirar&rdquo; seu nome, devido a uma critica feita por um professor do Parque Lage que lhe perguntou como queria que fosse chamada. </p>     <p> Na segunda fez uma cr&iacute;tica &agrave; &ldquo;gourmetiza&ccedil;&atilde;o&rdquo; da cantina da universidade, o que faria com que os pre&ccedil;os dos produtos se tornassem inacess&iacute;veis aos alunos bolsistas. E por &uacute;ltimo, na abertura de uma exposi&ccedil;&atilde;o, Lyz se posta seminua sob um tijolo enquanto Augusto Braz rasga grandes peda&ccedil;os de um papel cor-de-rosa (que se assemelha aos pap&eacute;is higi&ecirc;nicos considerados baratos e de baixa qualidade) e posteriormente cola em seu corpo tomando forma de um vestido de gala com o qual, ao fim, Lyz caminha lentamente pelo espa&ccedil;o. </p>     <p> Os trabalhos da artista tratam n&atilde;o somente da tem&aacute;tica do g&ecirc;nero e do corpo, que n&atilde;o anseia em ser encaixado em determinadas classifica&ccedil;&otilde;es, um corpo que &eacute; fluido, transitando entre o masculino e feminino, mas tamb&eacute;m fala sobre classes refletindo como os espa&ccedil;os institucionais no Brasil s&atilde;o elitistas e segregantes, um &ldquo;local de disputa&rdquo; em suas palavras. Suas obras seguiam uma l&oacute;gica de cr&iacute;tica n&atilde;o somente dos espa&ccedil;os, mas tamb&eacute;m sobre quem os ocupava. </p>     <p> Uma de suas obras &eacute; &ldquo;Putinha Terrorista&rdquo; (<a href="#f6">Figura 6</a>), de 2017, em que panfletos impressos com sua foto nua ou seminua, afirmando o lugar de prostituta e suas respectivas descri&ccedil;&otilde;es, com telefone e endere&ccedil;o de galerias de artes do Rio de Janeiro, s&atilde;o jogados durante aberturas aleat&oacute;rias de exposi&ccedil;&otilde;es pela cidade. Assim, Lyz pensa em &ldquo;transfigurar o lugar marginalizado da prostitui&ccedil;&atilde;o dentro da sociedade em algo potente, criticando os espa&ccedil;os museol&oacute;gicos&rdquo; como um espa&ccedil;o que se vende, colocando-os como as pr&oacute;prias prostitutas. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6" id="f6"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f6.jpg"/>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> A consciencializa&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o poderia permanecer por muito tempo numa posi&ccedil;&atilde;o de apenas cr&iacute;tica &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas chega quando decide revisitar sua hist&oacute;ria, sua ancestralidade. Com a obra &ldquo;Manicure Pol&iacute;tica&rdquo; (<a href="#f7">Figura 7</a>), a artista traz &agrave; tona a hist&oacute;ria das mulheres de sua fam&iacute;lia: sua av&oacute; era manicure e sua m&atilde;e esteticista. </p>     <p> Neste trabalho monta um sal&atilde;o de beleza intitulado &ldquo;Sal&atilde;o Parayzo&rdquo; construindo um cen&aacute;rio totalmente cor-de-rosa, em que pinta a unha do espectador enquanto conversam. E entre os assuntos discutidos, questiona o que &eacute; ser mulher na sociedade atual, fazendo o p&uacute;blico refletir quanto ao preconceito, discrimina&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia. Essa interac&ccedil;&atilde;o com o espectador faz com que tamb&eacute;m ele seja inclu&iacute;do na <i>performance</i>. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7" id="f7"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f7.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> No primeiro semestre de 2018, Lyz se muda para S&atilde;o Paulo, para uma resid&ecirc;ncia art&iacute;stica na FAAP – Funda&ccedil;&atilde;o Armando &Aacute;lvares Penteado. Nesse momento resolve criar objetos, algo que sempre resistiu fazer por acreditar que estes n&atilde;o dariam conta de suas urg&ecirc;ncias, tal como o seu pr&oacute;prio corpo dava. </p>     <p> Nesse momento segue com a ideia de olhar para a sua hist&oacute;ria: grande parte dos homens de sua fam&iacute;lia era ourives. Inicia ent&atilde;o a s&eacute;rie de joias no ateli&ecirc; da faculdade, que era maioritariamente frequentado por homens. E ali sofre constantes ataques de viol&ecirc;ncia psicol&oacute;gica por parte do t&eacute;cnico respons&aacute;vel pelo ateli&ecirc; (que chegou a quebrar uma de suas pe&ccedil;as e dizer-lhe &ldquo;Voc&ecirc; n&atilde;o deveria estar ali&rdquo;). A artista que, nessa &eacute;poca, acreditava que ao vestir-se de forma feminina conseguiria melhor aceita&ccedil;&atilde;o, chegou a cortar os cabelos a fim de amenizar os ataques que sofria. </p>     <p> Lyz Parayzo estudou sobre a Hist&oacute;ria da Arte Brasileira no Parque Lage e um dos movimentos do qual se identificava foi o Movimento Construtivista que tinha representantes artistas como Franz Weissmann (1911-2005), Waldemar Cordeiro (1925-1973), Lygia Clark (1920-1988) e Amilcar de Castro (1920-2002), tomando como refer&ecirc;ncia a t&eacute;cnica de corte e dobra em suas pe&ccedil;as de alum&iacute;nio, uma vez que lhe faltavam recursos para a solda. </p>     <p> Sua s&eacute;rie &ldquo;Bichinhas&rdquo; faz refer&ecirc;ncia &agrave; s&eacute;rie &ldquo;Bichos&rdquo; de Lygia Clark, atualizando a sua est&eacute;tica e utilizando o nome no diminutivo de uma maneira ir&ocirc;nica em raz&atilde;o de suas pe&ccedil;as possu&iacute;rem &ldquo;um toque de viol&ecirc;ncia no intuito de criar uma po&eacute;tica, da necessidade de se defenderem&rdquo;, diz a artista. S&atilde;o objetos escult&oacute;ricos que transcendem a fun&ccedil;&atilde;o de ser apenas apreciado, num estado de passividade, tornando-se uma &ldquo;arma&rdquo; de defesa para que ela possa se defender da viol&ecirc;ncia sofrida cotidianamente, resistir e sobreviver. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8" id="f8"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f8.jpg"/>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> H&aacute; tamb&eacute;m a ideia de revisitar o Movimento Construtivista como uma &ldquo;estrat&eacute;gia de hackeamento desse espa&ccedil;o&rdquo;, em suas palavras para se referir a este territ&oacute;rio que era, em sua maioria, masculino, branco e de elite. Fala tamb&eacute;m de suas urg&ecirc;ncias, ressignificando a est&eacute;tica concreta como forma de dialogar com v&aacute;rios lugares e um p&uacute;blico diverso, que conhe&ccedil;a ou n&atilde;o as obras de Lygia Clark. </p>     <p> E como desdobramento de &ldquo;Bixinhas', a artista desenvolve as &ldquo;Pr&oacute;teses B&eacute;licas&rdquo; (figuras <a href="#f9">9</a> e <a href="#f10">10</a>) numa s&eacute;rie de colares e an&eacute;is feitos com prata e algumas pe&ccedil;as s&atilde;o banhadas a ouro e cravejadas com strass que, ao primeiro olhar, demonstram requinte em sua combina&ccedil;&atilde;o, estilo e est&eacute;tica, mas que, na verdade, servem como um ornamento de auto-defesa. Essas obras s&atilde;o resultado de uma pesquisa dentro da hist&oacute;ria da comunidade LGBTI+ no Brasil e sua resist&ecirc;ncia e enfrentamento quanto &agrave;s opress&otilde;es, repress&otilde;es e viol&ecirc;ncia [<a name="top8" id="top8"></a><a href="#8">8</a>]. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9" id="f9"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f9.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f10" id="f10"></a><img src="/img/revistas/cct/n39/n39a03f10.jpg"/>     
<p>&nbsp;</p>     <p> A partir de suas produ&ccedil;&otilde;es, Lyz Parayzo reflete sobre sua corporalidade, na tentativa de decolonizar o olhar num exerc&iacute;cio que &eacute; constante e feito atrav&eacute;s de pesquisas e viv&ecirc;ncias dentro de territ&oacute;rio que se mostra hostil, apesar das conquistas feitas ao longo do tempo a partir do seu pr&oacute;prio trabalho. A artista assumiu um modo de se vestir mais androg&ecirc;nio e entende que seu g&ecirc;nero &eacute; flu&iacute;do, muito al&eacute;m da l&oacute;gica bin&aacute;ria. </p>     <p> Lyz participou do projeto Piv&ocirc; Pesquisa, associa&ccedil;&atilde;o cultural sem fins lucrativos que serve como plataforma para experimenta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas [<a name="top9" id="top9"></a><a href="#9">9</a>] . Foi indicada para pr&ecirc;mio PIPA 2017 e foi finalista do pr&ecirc;mio EDP do Instituto Tomie Ohtake que visa &agrave; forma&ccedil;&atilde;o e valoriza&ccedil;&atilde;o de jovens artistas. Tem obras compondo a cole&ccedil;&atilde;o do MAC – Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Niter&oacute;i e do MAR – Museu de Arte do Rio, e j&aacute; participou em diversas mostras coletivas nacionais e internacionais. Em 2019, uma de suas obras comp&ocirc;s a exposi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Hist&oacute;rias Femininas: Artistas depois de 2000&rdquo;, no MASP (Museu de Arte de S&atilde;o Paulo) e teve uma exposi&ccedil;&atilde;o individual na Galeria Verve. Atualmente, faz resid&ecirc;ncia art&iacute;stica em Paris, Fran&ccedil;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="3"><b> Considera&ccedil;&otilde;es Finais</b></font> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Optar pela arte como um meio &eacute; contribuir n&atilde;o s&oacute; para empoderamento de artistas LGBTI+ como tamb&eacute;m para a legitimidade e reconhecimento de seus trabalhos, desconstruindo a vis&atilde;o hegem&ocirc;nica atuante sobre as produ&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas e possibilitando a estes artistas criarem as suas pr&oacute;prias narrativas, sendo estes os sujeitos do fazer e n&atilde;o mais objetos de representa&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> &Eacute; preciso levar a identidade de g&ecirc;nero para debate num &acirc;mbito social, pol&iacute;tico e cultural, dentro e fora da academia a fim de compreender sexualidades dissidentes e assim potencializar os enfrentamentos contra preconceitos e viol&ecirc;ncias. Quando damos visibilidade a essa popula&ccedil;&atilde;o permitindo que estes corpos ocupem diferentes lugares do espa&ccedil;o urbano e n&atilde;o apenas espa&ccedil;os marginalizados, damos a ela possibilidades de uma vida mais digna [<a name="top10" id="top10"></a><a href="#10">10</a>] e segura. Seu local de circula&ccedil;&atilde;o na cidade reflete diretamente em sua qualidade de vida. </p>     <p> Lyz Parayzo encontrou na arte uma maneira de se defender e de resistir em seu cotidiano, e seu pr&oacute;prio corpo surge como um local potente para levantar discuss&otilde;es quanto a g&ecirc;nero e classes dentro de espa&ccedil;os que s&atilde;o essencialmente elitistas, brancos e machistas. Hoje a artista se d&aacute; conta que esse preconceito tem a ver tamb&eacute;m com classe, com o territ&oacute;rio ao qual transita e/ou pertence fazendo um paralelo entre Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo. </p>     <p> No Rio de Janeiro, moradora de periferia, sofria constantes ataques verbais; j&aacute; em S&atilde;o Paulo, transitando em locais de elite como galerias de artes e museus, esta viol&ecirc;ncia &eacute; mais furtiva, uma vez que mesmo havendo ainda um preconceito, artistas transexuais t&ecirc;m, aos poucos, conquistando espa&ccedil;os dentro dessas institui&ccedil;&otilde;es. </p>     <p> Lyz, atrav&eacute;s de suas obras, fala n&atilde;o somente de suas urg&ecirc;ncias mas, num &acirc;mbito muito mais amplo, de corpos que est&atilde;o vulner&aacute;veis a ataques f&iacute;sicos e verbais. Fala de uma popula&ccedil;&atilde;o que est&aacute; &agrave; margem da sociedade, restando como uma das poucas op&ccedil;&otilde;es a prostitui&ccedil;&atilde;o, pois este mesmo corpo que &eacute; recha&ccedil;ado e violentado, &eacute; tamb&eacute;m desejado sexualmente, embora de forma velada. </p>     <p> A partir da democratiza&ccedil;&atilde;o das artes, de acesso a espa&ccedil;os p&uacute;blicos e privados da popula&ccedil;&atilde;o como um todo, independente de idade, sexo, g&ecirc;nero, ra&ccedil;a e classe social, a arte pode, ent&atilde;o, assumir um car&aacute;ter informativo e potente ao tratar de quest&otilde;es t&atilde;o importantes quanto o genoc&iacute;dio e a viol&ecirc;ncia da popula&ccedil;&atilde;o transexual e toda popula&ccedil;&atilde;o LGBTI+ a fim de consciencializar para a diversidade de corpos que transitam no mesmo territ&oacute;rio e que devem ser respeitados. </p>     <p> <b></b> </p>     <p> <font size="3"> <b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font> </p>     <p> Alfageme, A. (2019) &ldquo;Morrer por ser gay: o mapa-m&uacute;ndi da homofobia&rdquo;, <i>El Pa&iacute;s Brasil</i>, mar&ccedil;o/2019. Dispon&iacute;vel em: <a         href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html"     > https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html </a> . </p>     <p> Ballestrin, L. (2013) &ldquo;Am&eacute;rica Latina e o giro decolonial&rdquo;, <i>Revista Brasileira de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica</i>, n.11, pp.89-117. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://dx.doi.org/10.1590/S0103-33522013000200004"> http://dx.doi.org/10.1590/S0103-33522013000200004 </a> . </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Benevides, B., Sayonara, N. B. (2019) Dossi&ecirc;: Assassinatos e Viol&ecirc;ncia contra Travestis e Transexuais no Brasil em 2018, Brasil: ANTRA/IBTE. Dispon&iacute;vel em: <a         href="https://antrabrasil.files.wordpress.com/2019/01/dossie-dos-assassinatos-e-violencia-contra-pessoas-trans-em-2018.pdf"     > https://antrabrasil.files.wordpress.com/2019/01/dossie-dos-assassinatos-e-violencia-contra-pessoas-trans-em-2018.pdf </a> .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695975&pid=S2182-3030201900020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Butler, J. P. (2003) <i>Problemas de g&ecirc;nero: feminismo e subvers&atilde;o da identidade</i>, Rio de Janeiro: Editora Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695977&pid=S2182-3030201900020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Butler, J. P. (2015) <i>Relatar a si mesmo. Cr&iacute;tica da viol&ecirc;ncia &eacute;tica</i>, Belo Horizonte: Aut&ecirc;ntica Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695979&pid=S2182-3030201900020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Foucault, M. (1988) <i>Hist&oacute;ria da sexualidade I: a vontade de saber</i>, Trad. M. T. C. Albuquerque e J. A. G. Albuquerque, Rio de Janeiro: Edi&ccedil;&otilde;es Graal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695981&pid=S2182-3030201900020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Hall, S. (2011) <i>A identidade cultural na p&oacute;s-modernidade</i>, Tradu&ccedil;&atilde;o de T. T. da Silva e G. Louro, Rio de Janeiro: DP&amp;A. </p>     <!-- ref --><p> Louro, G. L. (1997) <i>G&ecirc;nero, sexualidade e educa&ccedil;&atilde;o. Uma perspectiva p&oacute;s-estruturalista</i>, Petr&oacute;polis: Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695984&pid=S2182-3030201900020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Marques Filho, A. (2007) Arte e cotidiano: experi&ecirc;ncia homossexual, teoria queer e educa&ccedil;&atilde;o, Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado em Cultura Visual, G&oacute;is, Faculdade de Artes Visuais, UFG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695986&pid=S2182-3030201900020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Preciado, P. B. (2019) <i>Un apartamento em Urano: cr&ocirc;nicas del cruce</i>, Barcelona: Editora Anagrama.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695988&pid=S2182-3030201900020000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Saphiro, R. (2007) &ldquo;Que &eacute; artifica&ccedil;&atilde;o?&rdquo;, <i>Revista Sociedade e Estado</i>, Bras&iacute;lia, v. 22, n. 1, p. 135-151, jan./abr. 2007. </p>     <!-- ref --><p> Spivak, G. C. (2010) <i>Pode o subalterno falar?</i>, Belo Horizonte: Editora UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1695991&pid=S2182-3030201900020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Documento sonoro: </p>     <p> Entrevista a Lyz Parayzo (2019) Entrevistadora: Debora Armelin Ferreira. S&atilde;o Paulo, 1 arquivo.m4a (28 min.), registado em Setembro de 2019. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Websites: </p>     <p> <a href="https://cargocollective.com/lyzparayzo"> https://cargocollective.com/lyzparayzo </a> </p>     <p> <a         href="https://transrespect.org/wp-content/uploads/2017/11/TvT_TMM_TDoR2017_Map_ES.pdf"     > https://transrespect.org/wp-content/uploads/2017/11/TvT_TMM_TDoR2017_Map_ES.pdf </a> </p>     <p> V&iacute;deos: </p>     <p> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=YdwLHaGOxK0"> https://www.youtube.com/watch?v=YdwLHaGOxK0 </a> </p>     <p> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=iuafej-C6V4"> https://www.youtube.com/watch?v=iuafej-C6V4 </a> </p> </font>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Received: 15-07-2019; Accepted: 03-12-2019.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">NOTAS</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">2</a>] A sigla LGBTQI+ representa L&eacute;sbicas, <i>Gays</i>, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Intersexuais e as demais orienta&ccedil;&otilde;es sexuais, identidades e express&otilde;es de g&ecirc;nero.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">3</a>] Dispon&iacute;vel em <a                 href="https://antrabrasil.files.wordpress.com/2019/01/dossie-dos-assassinatos-e-violencia-contra-pessoas-trans-em-2018.pdf" target="_blank"             > https://antrabrasil.files.wordpress.com/2019/01/dossie-dos-assassinatos-e-violencia-contra-pessoas-trans-em-2018.pdf </a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="4" id="4"></a>[<a href="#top4">4</a>]Dispon&iacute;vel em: <a href="" target="_blank"> https://antrabrasil.files.wordpress.com/2019/01/dossie-dos-assassinatos-e-violencia-contra-pessoas-trans-em-2018.pdf </a></font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="5" id="5"></a>[<a href="#top5">5</a>] Dispon&iacute;vel em: <a                 href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html" target="_blank"             > https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html </a></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="6" id="6"></a>[<a href="#top6">6</a>]Termo cunhado pelo grupo Modernidade/Colonialidade nos anos 2000, definindo que decolinalidade indica o transcender da colonialidade e n&atilde;o apenas a sua supera&ccedil;&atilde;o (Ballestrin, 2013).</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="7" id="7"></a>[<a href="#top7">7</a>]Entrevista concedida por Lyz Parayzo em setembro de 2019. Entrevistadora: Debora Armelin Ferreira. S&atilde;o Paulo, 2019. 1 arquivo .m4a (28 min.)</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="8" id="8"></a>[<a href="#top8">8</a>]Na d&eacute;cada de 1987, ocorreu a chamada &ldquo;Opera&ccedil;&atilde;o Tar&acirc;ntula&rdquo; em que policiais perseguiam travestis que se prostitu&iacute;am com o argumento de que seria um controle do VIH (v&iacute;rus da imunodefici&ecirc;ncia humana). Alguns travestis escondiam navalhas nas gengivas e se cortavam perante os policias, que se afastavam com medo que, do contato com o sangue, pudessem contrair a doen&ccedil;a.</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="9" id="9"></a>[<a href="#top9">9</a>]Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.pivo.org.br/sobre/" target="_blank">https://www.pivo.org.br/sobre/</a>.</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="10" id="10"></a>[<a href="#top10">10</a>]Segundo levantamento realizado pela Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida de transexuais e travestis no Brasil &eacute; de 35 anos. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://antrabrasil.files.wordpress.com/2018/02/relatc3b3rio-mapa-dos-assassinatos-2017-antra.pdf" target="_blank"> https://antrabrasil.files.wordpress.com/2018/02/relatc3b3rio-mapa-dos-assassinatos-2017-antra.pdf </a></font></p> </font>     ]]></body>
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