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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O património público dever ser usado para responder às solicitações de cada tempo: Entrevista com Paula Marques, Vereadora da Câmara Municipal de Lisboa]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">O património público dever ser usado para responder  às solicitações de cada tempo: Entrevista com Paula Marques, Vereadora da Câmara  Municipal de Lisboa </font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> &lsquo;O património público dever ser usado para    responder às solicitações de cada tempo&rsquo;: Interview with Paula Marques, City    Councilor of Lisbon Ana Estevens </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2"> Ana Estevens <a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a></font>;<font face="Verdana" size="2">    Eduardo Ascensão<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">II</a>; Rita Cachado<a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">III</a>;</font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território,    Universidade de Lisboa. e-mail: <a href="mailto:anaestevens@campus.ul.pt" target="_blank">anaestevens@campus.ul.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">II</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território,    Universidade de Lisboa. e-mail: <a href="mailto:eduardoascensao@campus.ul.pt" target="_blank">eduardoascensao@campus.ul.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">III</a>]</font><font size="2" face="Verdana">CIES-IUL,    Instituto Universitário de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:rita.cachado@iscte-iul.pt" target="_blank">rita.cachado@iscte-iul.pt</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">      <p>      <p> <b>Paula Marques </b> é vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, com os pelouros    da Habitação e do Desenvolvimento Local. Licenciada em Teatro com pós-graduação    em Ciência Política (ISCTE-IUL, 2013), ajudou a fundar o Movimento Cidadãos    por Lisboa em 2007. Entre 2009 e 2013 foi assessora e deputada municipal, tendo    em 2013 sido eleita vereadora como independente do Movimento Cidadãos Por Lisboa    nas listas do Partido Socialista, mandato que mantém actualmente. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p>Nesta entrevista aborda questões relacionadas com o balanço do PER em Lisboa,    o Programa de Renda Acessível de Lisboa, o papel dos seus pelouros no mitigar    dos problemas resultantes da atual atratividade imobiliária de Lisboa e dos    correspondentes processos de gentrificação, bem como quais as cidades com cujas    políticas habitacionais se revê. </p>     <p> <b> Começando pelo balanço do Programa Especial de Realojamento (PER), há    uma narrativa de que em Lisboa já está há muito resolvido, mas no levantamento    de necessidades de realojamento habitacional de 2018 do Instituto da Habitação    e da Reabilitação Urbana (IHRU) existem ainda cerca de 2000 famílias que a câmara    indicou para realojamento... </b> </p>     <p> O PER no município de Lisboa foi fechado,<b> </b>se não estou em erro, em    2015, com o Relatório do PER. Quando o IHRU elaborou o questionário de levantamento    das necessidades habitacionais, fizemos chegar à Secretária de Estado que considerávamos    que a forma como o questionário tinha sido feito era muito fechada, não permitia    responder à situação atual no município de Lisboa. Isto é, aquilo que o questionário    perguntava era sobre o remanescente PER. Entendo que fosse uma das preocupações    do IHRU no levantamento porque havia municípios, ou ainda há municípios, que    não têm o PER fechado. Por exemplo, a Amadora, Almada ou Loures precisavam de    um levantamento das carências habitacionais, coisa que já não era feita desde    os anos 1990. Portanto, o preenchimento do inquérito obedecia a regras rígidas.    O que Lisboa fez foi: preencheu a matriz, depois fez um relatório e enviou à    Secretária de Estado dizendo que matérias como a gentrificação ou a falta de    habitação para a classe média tinham de entrar em linha de conta quando se faz    um novo levantamento das necessidades de habitação na cidade de Lisboa. Também    dissemos que fazia sentido que, passados 30 anos do primeiro levantamento, se    fizesse uma análise das carências habitacionais e das condições de habitabilidade,    das questões da acessibilidade, conforto térmico, conforto energético, etc.    Portanto, Lisboa fechou o PER mas houve coisas que, na altura não foram consideradas    PER porque eram situações de habitações tituladas, não eram assentamentos informais    (ditos barracas). Identificámos todos os bairros de autoconstrução que estavam    em processo de regularização ou que, tendo sido já regularizados, tinham deficientes    condições de habitabilidade ao abrigo das necessidades do conforto energético    e da acessibilidade. E se estou a construir habitação municipal no Bairro da    Boavista, no Bairro Padre Cruz e no Bairro da Cruz Vermelha, que obedece a uma    série de diretrizes da União Europeia, tinha também de identificar tudo aquilo    que teria de ter melhoramentos. </p>     <p> Por exemplo, o Bairro São João de Brito é de autoconstrução do período pós-25    de Abril, construído em propriedade pública mas o processo não está regularizado.    Nós entendemos que não são carências habitacionais de situação de pessoas que    não têm casa, mas sim situações que, se queremos fazer um levantamento sério    sobre a situação da habitação no país e em Lisboa, têm de ser consideradas.    Outro exemplo: Lisboa tem cinco bairros do Serviço de Apoio Ambulatório Local    (SAAL) que não estavam finalizados. Num deles, o Bairro Quinta das Fonsecas    e Quinta da Calçada, conseguimos há 2 anos chegar ao momento de entrega das    licenças de utilização. Os outros são a Cooperativa Unidade do Povo e a Cooperativa    25 de Abril em Alvalade, que esteve 40 anos à espera de regularização; o Bairro    Horizonte; a Lisboa Cooperativa Nova, na zona do Beato e Penha de França; e    o Bairro da PRODAC, Norte e Sul. Na candidatura que fizemos ao <i>1º Direito</i>,    identificámos estes bairros como tendo condições de habitabilidade, mas estando    em condições de concorrerem como proprietários residentes a financiamento do    programa para melhorar as condições de habitabilidade. Portanto, identificámos    o remanescente de núcleos com falta de condições de habitabilidade que não tinham    sido integrados no PER, e fizemos esta ressalva de não incluir nesta análise    a situação de gentrificação, seja ela decorrente da especulação imobiliária,    dos vistos <i>gold</i>, do regime do residente não habitual e, naturalmente    da questão do alojamento local. Entendemos que estas questões não estavam no    levantamento do IHRU e deviam estar. O que fizemos foi submeter o formulário    conforme nos solicitaram e depois enviámos o relatório com os dados que entendemos    que deveríamos acrescentar. </p>     <p> <b>Estes 2000 agregados são remanescentes ou é o total?</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> É o total destas situações que identificámos como remanescente PER que não    tinha sido incorporado à data. Tem em consideração os núcleos que identificámos    com necessidade de intervenção. </p>     <p> <b> Guie-nos um bocadinho pelo Programa de Renda Acessível de Lisboa (PRAL).    Qual é o número de candidatos? A lógica do programa passará pela ideia de <i>mix    </i>que tem surgido nas notícias, por exemplo instalando candidatos ao programa    em bairros de habitação pública? Como se gere a tensão decorrente de alguns    destes não verem com agrado mudar-se para locais considerados estigmatizantes    ou <i>poverty traps</i> e de, por outro lado, a população lá residente afirmar    ter outras prioridades, tais como jardins e serviços? </b> </p>     <p> Comecemos pela medida do arrendamento acessível. Em final de 2013, fizemos    um pacote de emergência social com o António Costa e a Helena Roseta. Esse pacote    tinha várias componentes, sendo uma delas o Fundo de Emergência Social, gerido    pelas Juntas de Freguesia e duas outras medidas, o<i>Programa de Renda Convencionada</i>,    que é a &ldquo;mãe&rdquo; do<i>Programa de Renda Acessível</i>, e o <i>Subsídio Municipal    de Arrendamento</i>. Porquê? Começávamos a perceber o efeito conjugado da Lei    do Arrendamento Urbano de 2012 e da liberalização do conceito do alojamento    local no decréscimo de unidades. Começámos a verificar um aumento muito grande    dos valores de renda e a diminuição do rendimento das famílias, por um lado.    Por outro, o número de unidades para arrendamento estava a decrescer. Até 2013,    se perguntassem à classe média se tinha alguma ideia de utilizar um instrumento    público de apoio à habitação, não tinha, até porque historicamente a atuação    do setor público em relação à habitação era para os mais carenciados. O PER    é prova disso, e isto cria um estigma porque, de facto a política pública de    habitação neste país foi sempre direcionada ou para os mais carenciados ou,    em particular antes do 25 de Abril, para os bairros dos setores profissionais.    Portanto, a classe média, até há pouco tempo, não concorria a nenhum instrumento    público de apoio à habitação, até porque nós somos um país ligado à questão    da propriedade, seja por uma razão ancestral, seja por o mercado de arrendamento    ser uma desgraça. </p>     <p> Quando nos apercebemos das subidas do valor de arrendamento, baixas de rendimentos,    poucas unidades a serem disponibilizadas no mercado de arrendamento, decidimos    avançar com um subsídio municipal de arrendamento, que continua em vigor, e    começar a utilizar o património municipal, começando pelos dispersos. Lisboa    tem a organização de gestão dos bairros municipais gerido pela GEBALIS e tem    património disperso. Começámos na reabilitação desse património. Em determinado    momento, já com o Fernando Medina, a crise começou a agudizar-se e começámos    a montar um programa de maior escala para o arrendamento convencionado, que    ainda está em vigor, e o de renda acessível que entretanto começámos a montar.  </p>     <p> O <i>Programa de Renda Acessível</i> vai beber à experiência da renda convencionada    que estava a decorrer e começámos a fazer reabilitação direccionada. Sei que    se convencionou chamar habitação apoiada, habitação social ou, anteriormente,    renda precária, e se convencionou chamar habitação social, bairros sociais,    mas para mim a questão da linguagem é muito importante, a questão do estigma    e do preconceito em relação a determinados territórios. Portanto, chamei-lhe    sempre habitação pública municipal, bairros municipais. Também tivemos essa    preocupação quando criámos o programa Bairros de Intervenção Prioritária/Zonas    de Intervenção Prioritária (BIP/ZIP) e não bairros críticos, apesar da consideração    que tenho pela Iniciativa Bairros Críticos. </p>     <p> <b>Mudar o vocabulário&hellip;</b> </p>     <p> Sim, porque o vocabulário e a linguagem têm conceitos associados. Os conceitos    são influenciadores de políticas e de planeamento. Daí o património público    dever ser usado para responder às solicitações que se apresentam em cada tempo    e que vão evoluindo com rapidez. Nós temos experiências extraordinárias do PER,    20 e tal anos depois, com sucesso absoluto na gestão e no bem-estar da população    e da integração na malha urbana, na criação de comunidade e de identidade territorial.    São 67 bairros municipais, grande parte deles PER. Vocês nas notícias ouvem    falar eventualmente na Ameixoeira, na Alta de Lisboa, na Boavista, mas não se    ouve falar de outros, muitos que são bairros de sucesso, o que tem a ver com    escala, localização e diversidade de população. Os bairros de maior dimensão    foram construídos onde havia terreno para construir. Podemos discutir se deveria    ter sido com esta escala ou se deviam ter sido mais partidos. Na minha opinião    deviam ter sido construídos núcleos de menor escala porque é mais fácil de gerir,    porque não promove tanto a auto-guetização ou a guetização externa. </p>     <p> Vou dar-vos exemplos. Começando pelos bons exemplos que até contrariam aquilo    que acabei de dizer: o Bairro Padre Cruz, até há pouco tempo o maior bairro    de habitação pública da Península Ibérica, é um caso de sucesso. Tem a fase    de alvenaria, já foi substituição da lusalite dos anos 1940, depois habitação    dos anos 1950, 1960 e 1970, depois Programa de Intervenção a Médio Prazo (PIMP)    dos anos 1980 e depois PER até 2000. É enorme, no limite da cidade, com poucos    transportes. É um caso de sucesso porquê? Três razões fundamentais: primeira,    tem muita mistura, não é mono-funcional do ponto de vista de estrutura social.    As pessoas que vivem nas casas de alvenaria eram funcionários do Estado, ou    operários, ou classe média muito baixa, classe trabalhadora. Depois a fase seguinte    do PER, das mais difíceis que tivemos, a comunidade cigana de Vale do Forno    e a comunidade do Bairro da Serafina, da parte das barracas, foram para lá.    Mas a anterior manteve-se e, portanto, o facto de não ser mono-funcional faz    a diferença. A escala é grande mas [a heterogeneidade] faz a diferença. E há    o investimento da Câmara e Junta de Freguesia: o bairro Padre Cruz tem um centro    cultural, um mercado que funciona, o bairro tem espaços verdes, praças, farmácias,    mercearias, pequenos supermercados e isto faz a diferença. </p>     <p> Onde temos um caso de insucesso, na minha opinião? Na Ameixoeira, que não    tem comércio, é isolado, há uma série de zonas em que as ruas não têm saída,    não tem transportes, não tem espaços verdes, não tem equipamentos. São dormitórios    e o comércio não se consegue sediar lá. A escala é grande e tem mono-funcionalidade.    Das coisas mais difíceis de gerir é, do ponto de vista da política pública,    como se faz um processo de organização do território respeitando a auto-identificação    e a relação territorial e, ao mesmo tempo, tendo uma política pública que tenha    como base a Constituição e que seja difusa do ponto de vista da mistura sociocultural    dos territórios. [Pelo contrário,] a Ameixoeira é &ldquo;a zona da comunidade cigana&rdquo;,    &ldquo;a zona da comunidade cabo-verdiana&rdquo;, &ldquo;a zona da comunidade angolana&rdquo;, e não    há mistura. Isto é resultado do processo de realojamento e da auto-organização    das comunidades. Não é fácil. </p>     <p> Outro bairro de sucesso - que tem a ver com a localização e não com a escala    ou o desenho, embora não seja PER - é o Bairro 2 de Maio na Ajuda. Antes do    25 de Abril, metade era bairro municipal e metade estava a ser construída pela    Fundação Salazar para os funcionários da Polícia Internacional e de Defesa do    Estado (PIDE). Foi ocupado no dia 2 de Maio de 1974. As casas foram acabadas    pela população e depois foi integrado compulsivamente no património da Câmara    Municipal de Lisboa (CML) aquando da extinção da Fundação Salazar. É um caso    de sucesso e tem uma enorme concentração de população cigana. Aliás, há um mural    de homenagem ao Maia, grande líder cigano que deu o corpo às balas para permitir    que a comunidade cigana do Rio Seco fosse acabar as casas. Agora, o Bairro 2    de Maio é no Pólo Universitário da Ajuda e tem transportes. A comunidade escolar    ali ao lado conseguiu, num projeto de desenvolvimento local dum processo BIP/ZIP,    começar a fazer os miúdos atravessarem as ruas e irem à Faculdade de Arquitectura    (FA). Temos uma praça que foi construída a partir do projeto BIP/ZIP com os    alunos. Mas ao princípio era: &ldquo;Isto é nosso e para aqui não vem mais ninguém&rdquo;,    &ldquo;Isto é nosso, é para os nossos filhos, os filhos do bairro&rdquo;. Uma vez perguntei    a um líder de uma assembleia de moradores, &ldquo;e se de hoje para amanhã você precisasse    sair do Bairro 2 de Maio e fazer reagrupamento familiar noutro bairro? Ia-me    pedir transferência e eu, seguindo o seu princípio, dir-lhe-ia que não!&rdquo;. Não    posso gerir uma cidade assim. Portanto, um dos maiores desafios é o respeito    pela auto-identificação e territorialização da comunidade, mas não o seu fechamento.    Eu vejo a cidade tendo em consideração as idiossincrasias de cada bairro, mas    não posso dizer &ldquo;não entra aqui mais ninguém&rdquo;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> Nós vemos isso em muitos bairros PER, a tensão entre os desejos da comunidade    e o princípio da dispersão [feita por decisão] política&hellip; </b> </p>     <p> O PER, na minha opinião, foi parco em procurar com a comunidade a melhor forma    de gestão, mas aprendemos com os erros. Agora, os processos de transição são    mais participados do que no PER. São vinte e tal anos de diferença. Tenho o    privilégio de ter a possibilidade de fazer isto. Se calhar os meus colegas de    vereação e os técnicos na altura do PER não tiveram essa possibilidade. Tínhamos    muitos concidadãos a viver em situações indignas. Foi uma epopeia o que foi    feito com o PER. Portanto, prefiro tratar da reabilitação e encontrar a melhor    forma de não repetir os modelos do que não ter tido o processo do PER. </p>     <p> <b> Voltando ao vocabulário, há aqui um pouco do princípio do social <i>mix</i>    entre as classes mais vulneráveis que têm tido acesso à habitação pública e,    agora a classe média? </b> </p>     <p> Sim! Com a renda convencionada, o património municipal público deve ser utilizado    para responder às necessidades ou aos vários desafios que se nos apresentam    e, também, por orientação política minha, do pelouro e muito em particular dos    Cidadãos por Lisboa. Nem vou dizer <i>mix</i> social, vou dizer &ldquo;diferentes    modelos de vida no mesmo território&rdquo;. O vocabulário é importante. Começámos    a introduzir nos concursos de renda convencionada os fogos de bairro municipal.    Há bairros municipais onde não posso fazer isto, nomeadamente em bairros PER,    onde o ónus dos empréstimos ainda não tenha acabado e a lei não permite praticar    outra modalidade que não a renda apoiada, mas a minha vontade era fazer em todos.    Comecei pelos mais antigos onde isto se podia fazer e, à medida que os ónus    foram acabando, fomos começando a introduzir. Um dos primeiros sítios em que    estivemos foi no Bairro 2 de Maio. A primeira reação de dentro do bairro foi    muito negativa. </p>     <p> <b>De candidatos?</b> </p>     <p> De candidatos não. Havia uma razão para ser o 2 de Maio. Estamos a falar de    uma localização central. Na renda convencionada a pessoa candidata-se à casa    e sabe onde é, vai ver a casa. A reação do Bairro 2 de Maio foi a tal: &ldquo;Isto    é para os nossos filhos, quero desdobramento para o meu filho e vem para cá    um estranho&hellip;&rdquo;. Nós insistimos. O que é que a população começou a perceber? Que    os seus filhos também se podiam candidatar. E isto começou a mudar. Por outro    lado, e eu envolvo sempre as associações de moradores nestas decisões, tivemos    algum receito de como isto ia correr quando os primeiros moradores fossem para    lá. Fui duas ou três vezes ao bairro, (vou lá daqui a bocadinho porque faz 45    anos)&hellip; para as primeiras famílias foi difícil, mas passados estes anos está    estabilizado. Tivemos uma experiência extraordinária. Portanto, comecei a fazer    isto em vários bairros. Comecei também a desafiar as pessoas na renda convencionada:    &ldquo;vocês vão passar a fazer parte de uma comunidade e, portanto, há associações    de moradores, há associações cívicas, peço que vocês também se envolvam nestas    organizações&rdquo;. Não tenho nenhuma reação negativa até agora, nem nenhuma entrega    de casa em processos destes. </p>     <p> Mais: na Quinta do Lavrado [antiga Curraleira] houve um exemplo de cidadania    absolutamente extraordinário. Naquela comunidade há situações de sobreocupação,    filhos que vivem com os pais e se querem autonomizar. Durante muitos anos a    CML fazia os desdobramentos. Eu acho que seria injusto continuar mas isso ainda    está no espírito das pessoas. Foi a prática durante muitos anos. Falei então    com a associação de moradores da Quinta do Lavrado e disse-lhes: &ldquo;Vou abrir    aqui renda convencionada&rdquo;. Pensei que ia ter uma reacção negativa porque as    pessoas querem o desdobramento para os filhos. Fizeram uma coisa extraordinária:    montaram um gabinete de acolhimento aos visitantes das casas. Portanto, as pessoas    que estão naquela associação sabiam que poderiam concorrer e que poderiam não    ser sorteadas. Tinham consciência que as pessoas que iam visitar aquelas casas    podiam ser as que ficavam com as casas no sorteio. Mas quiseram mostrar e combater    o estigma. Montaram uma equipa de suporte e acompanhamento às pessoas que iam    visitar as casas. Eu acho que isto é extraordinário. Rematando: o nosso objetivo    político é ter renda acessível, convencionada nos bairros municipais e no centro    histórico, que já teve o primeiro concurso <i>Habitar o Centro Histórico</i>.    É o combate aos despejos por não renovação do contrato devido à situação de    especulação imobiliária. As famílias que ficaram a viver nas casas municipais    pagam renda apoiada. Não é renda acessível. Assim, temos renda acessível em    bairros municipais e temos renda apoiada no centro histórico. Pronto! Isso sim    é consciente e é a orientação. </p>     <p> <b>E os desdobramentos mantêm-se?</b> </p>     <p> Não. Os desdobramentos deixaram de ser feitos em 2009. É das coisas mais difíceis    para a população, foram muitos anos habituados a eles&hellip; </p>     <p> <b> Alguns desses desdobramentos que não foi possível realizar a partir de    2009 resultaram em ocupação de casas públicas que estavam vagas. </b> <b>Como    têm resolvido esse problema?</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O nosso objetivo é que as pessoas concorram à habitação. Naturalmente, há    situações em que as pessoas concorrem e há situações de ocupação em que as pessoas    nunca tinham concorrido à habitação. A nossa perspetiva é que as pessoas não    fiquem numa situação de fragilidade e, por isso, a abordagem é com a rede social.    A resposta em situações de emergência na cidade de Lisboa, normalmente, é a    Santa Casa que tem a competência delegada da Segurança Social para a dar. E    procuramos encontrar alternativas para que a pessoa não fique numa situação    de ilegalidade/fragilidade. Percebo as situações normais que decorrem de uma    situação de fragilidade de uma família, mas há aqui uma situação de equidade    para quem tem uma situação de fragilidade e que não ocupa uma casa. Das coisas    que mais me preocupa é quando uma casa é ocupada e essa casa já está afeta a    outra família. </p>     <p> <b>É diferente quando não está afeta?</b> </p>     <p> No decorrer do processo de atribuição de habitação, elas às vezes já estão    em obra, outras vezes não. O que procuramos é que a família não chegue ao processo    de desocupação e que saia para não ficar numa situação de ilegalidade porque    a ocupação, seja ela privada ou pública, ainda é crime público em Portugal.    O nosso esforço é não ter casas devolutas. Durante 2019 fizemos o anúncio da    afetação de 800 habitações que estamos a construir no Bairro Padre Cruz, no    Bairro da Boavista e no da Cruz Vermelha, que são substituição das antigas.    São habitações atribuídas através de concurso de acesso à habitação de renda    apoiada para a classe mais vulnerável. Temos o programa específico do centro    histórico que é arrendamento apoiado e continuamos com a renda convencionada    dispersa na cidade, aberta a qualquer cidadão ou cidadã. Quanto às respostas    das casas de transição para as pessoas vítimas de violência doméstica, das casas    de acolhimento das pessoas refugiadas, dos processos de realojamento quando    fazemos a demolição, essas respostas vamos fazê-las em casas públicas. Portanto,    há 800 famílias que vão passar a ter habitação condigna durante o ano de 2019.    Isto é, tenho de concentrar esforços nisto, que é não ter as casas vazias. No    dia em que precisar de fazer um processo de realojamento e não tiver casas,    o que faço? Tenho de construir ou reabilitar mais. Quero chegar ao final deste    ano com o passivo de casas devolutas ultrapassado e dizer: &ldquo;Agora temos de perceber    como é que produzimos mais unidades&rdquo;. Esse é o objetivo do vereador, ter as    suas casas ocupadas. </p>     <p> Em Arroios, a este concurso do centro histórico que abrirá agora, afetei todas    as casas de património disperso que estavam passíveis de ser reabilitadas no    período de um ano, porque o concurso é dirigido a pessoas que estão em situação    de perda de habitação no ano transato ou no ano subsequente. A única área não    afeta foi a zona da Rua das Barracas e do Cabeço da Bola, que está afeta ao    <i>Programa de Renda Acessível</i>. O meu objetivo é utilizar todo o património,    mas é óbvio que tenho de ter sempre alguns vagos. Porque, vou dar um exemplo    recente: a escarpa da Quinta da Noiva e da Quinta da Montanha, por baixo do    Rock in Rio, tem ali uma encosta que estava em situação de ruir. Fizemos a contenção    e tivemos de tirar as pessoas, portanto, de repente tinha 10 ou 12 famílias    para realojar no momento. </p>     <p> <b>E foram para onde?</b> </p>     <p> Foram para os bairros em volta. E isso é outra questão. Sempre que faço processos    de realojamento e de transferências procuro que as pessoas fiquem o mais próximo    possível. Este é o princípio. </p>     <p> <b> Quantas pessoas estão na lista de pedido para o Programa de Renda Acessível?    Qual o objectivo em termos numéricos, e a cinco anos, do programa? E por outro    lado, se pudesse fazer uma lista de pedidos ao presidente da CML e vê-la totalmente    satisfeita (de recursos financeiros, políticos e de pessoal), o que pediria?    </b> </p>     <p> Não posso responder à primeira pergunta porque o programa que está a decorrer    é o da <i>Renda Convencionada</i>. Abre, as pessoas concorrem àquelas casas    e podem não concorrer no próximo. </p>     <p> O que estamos a fazer com o <i>Programa de Renda Acessível</i> (PRA) é: começamos    com o PRA de concepção de obra pública ou de convocação do investimento privado    para a construção ou reabilitação de habitação; depois a promoção para a renda    acessível a 100%, sempre pública – a execução em si é que pode ser pública ou    com entidades privadas. O PRA de promoção e conceção pública - a grande intervenção    - é em Entrecampos e são 700 fogos. Estamos também a estudar outras localizações    na cidade, de média e grande dimensão. Quando falamos de grande dimensão falamos    de 500 a 600 fogos, quando falamos de média dimensão falamos de 100, 200 ou    às vezes em colmatação de vazios urbanos, que nos permite fazer 20/30 fogos    e que tem uma possibilidade de dispersão territorial, coisa que na grande dimensão    não tenho porque a malha urbana está consolidada. E lancei agora o desafio ao    Presidente da Câmara, uma coisa pela qual luto há muitos anos, que é trabalhar    com o terceiro setor, o setor privado não especulativo. Para mim, o setor privado    não especulativo são, por excelência, as cooperativas de habitação ou de inquilinos.    Adiei a proposta até final de Maio, tenho pressa mas quero que a coisa corra    bem&hellip; O movimento cooperativo foi um braço armado fundamental na promoção e no    direito à habitação em Portugal, desde antes do 25 de Abril e depois consolidado    no SAAL. Mas depois, nos anos 1990 transformou-se num instrumento financeiro.    É isso que não quero que aconteça outra vez. </p>     <p> O nosso objetivo para o PRA é disponibilizar 6 mil fogos de habitação acessível    num período de 5 anos. Como vos digo, 700 fogos em Entrecampos e não estão apurados    ainda quantos serão os conjuntos de pequena dimensão. Estamos a ver se em Marvila    conseguimos outro tanto, cerca de 1000 fogos, entre as zonas mais periféricas    que permitem investimento direto e recursos humanos para conseguir executar    este pilar que não está quantificado, mas que terá a ideia das três escalas.    Pequena escala: uma cooperativa de moradores, uma cooperativa quase familiar    e será sempre habitação própria, permanente, com vários modelos - direito de    uso, de superfície. O objetivo é ter preponderância de propriedade coletiva    e não propriedade individual, para acautelar coisas que aconteceram no passado.    E depois as escalas média e grande. São os três &ldquo;braços armados&rdquo; que tenho para    produção de habitação. Demora tempo. Dentro da promoção pública o que queremos    é a convergência com a administração central: estamos em processo de aquisição    de 11 edifícios da Segurança Social para o <i>Programa de Reconversão dos Edifícios    da Segurança Social</i> (PRESS), que são: Campo Grande, Avenida da República,    Estados Unidos da América, Visconde Valmor. Eram prédios da Segurança Social    que já foram habitação, que depois foram convertidos em serviços e estamos agora    a reconverter em habitação. Há duas obras já adjudicadas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Algumas são residências universitárias?</b> </p>     <p> Sim, uma na Alameda. A par de Entrecampos e das operações de reabilitação    de propriedade já existente, alguns PRESS estão mais adiantados e prevemos ter    tudo em obra até final deste ano. Aquele que está mais atrasado porque é de    maior complexidade é o da residência de estudantes. No PRESS estão previstas    254 habitações e 206 quartos no total. Alguns destes quartos são duplos, portanto    há aqui mais 50% de camas. Estamos a falar de localizações como Visconde Valmor,    República, Campo Grande, Estados Unidos da América e Alameda. Temos duas que    já foram adjudicadas. Prevemos até ao Verão ter os concursos todos arrumados    e, até ao final do ano tê-los em obra. </p>     <p> <b> Como é que a CML vê as associações de defesa dos direitos à habitação    e dos direitos à cidade? É útil ao trabalho da Câmara ou a pressão daí advinda    põe em cheque o trabalho do município? </b> </p>     <p> Só se sente ameaçado quem não está seguro. Obviamente que é positivo. Seja    qual for a organização, podemos ter mais confronto, menos confronto, mas o processo    democrático é isso mesmo. São processos de confronto e de tensão (não conheço    nenhum que não seja) e são salutares. A única coisa que não é interessante é    quando as organizações são instrumento de manipulação partidária (não é política,    porque a ação política está em todas, felizmente) e isso acho negativo, seja    de que força política for. Haverá forças políticas que utilizam mais essa metodologia    e, no decorrer da ação, parecendo que a maior preocupação são as pessoas e as    famílias, utiliza-se como <i>agitprop</i>, e isso preocupa-me. Agora, e isto    digo-o em nome próprio – se fizer esta pergunta a outros colegas de vereação    poderão ter outra opinião – acho que são importantes em relação a qualquer questão    da cidade. Ainda que seja um processo muitas vezes duro, é sempre positivo.    Porque o meu <i>background</i> também é de associativismo e ativismo&hellip; </p>     <p> <b>Os Cidadãos por Lisboa vêm daí&hellip;</b> </p>     <p> Há 12 anos nós estávamos na Plataforma Artigo 65 – Direito à Habitação. Portanto,    temos um <i>background</i> de associativismo e ativismo. Se me perguntasse:    &ldquo;Há conflito interior permanente?&rdquo; Há. Permanente! Sei que as atitudes como    cidadã não podem ser divorciadas da minha função pública. Mas a minha função    pública não pode tolher a minha capacidade de cidadã. É difícil? É! Mas para    mim é positivo isto acontecer. Salvaguardo isto: quando as intervenções ou os    movimentos são utilizados como instrumento partidário, acho condenável. </p>     <p> <b> Tem algum exemplo em que [as reivindicações] tenham facilitado o pedido    de recursos? </b> </p>     <p> Acho que todas foram importantes. A mobilização das pessoas, das organizações,    também a presença das pessoas nas reuniões públicas&hellip; Um exemplo: em relação    aos despejos no centro histórico, eu andava a alertar: &ldquo;Atenção, estamos a fazer    reabilitação do património municipal no centro histórico&rdquo; mas direccionado [apenas]    à renda convencionada, sabendo nós que a classe média está aflita! Há um ano    atrás ninguém entendia [esta minha preocupação]. E haver numa situação de reunião    pública pessoas a dizerem: &ldquo;Vivo no centro histórico há 50 anos, estou a sair    porque não me renovaram o contrato&rdquo;, que isto era decorrente da lei do arrendamento,    da especulação imobiliária, ajudou. Ninguém entendia que se estivesse a reabilitar    património e que não se tomasse a atitude de afetar aquele património àquelas    situações concretas. A vinda do senhor António Caldeirão às reuniões de câmara,    o estudo que as três Juntas de Freguesia do centro histórico fizeram na divulgação    e denúncia da situação, a acção do Morar em Lisboa e de outras organizações    de cidadãos claro que fez pressão. Para mim, esse apoio foi muito bem-vindo    porque me deu corpo para dizer: &ldquo;É isto que vou fazer&rdquo;. </p>     <p> Há dois anos, era exposta a situação do prédio da Rua dos Lagares nº 25 em    reunião de câmara e havia a posição de &ldquo;Isto é uma questão de urbanismo, de    propriedade, é um litígio entre privados&rdquo;. Mas pensei: &ldquo;Sou vereadora da habitação,    não posso não me pronunciar!&rdquo;. Do ponto de vista racional sei que é uma relação    entre privados. Aquele senhorio não estava a atuar à margem da lei mas o resultado    era desastroso. Era a primeira vez que tínhamos no centro histórico, famílias    a serem despejadas por um processo de especulação com esta dimensão. Houve mobilização    dos moradores e a determinada altura, na noite de Santo António, a Lusa ligou-me,    havia uma Sardinhada Solidária, e fiz uma declaração: &ldquo;Não posso virar as costas    a estas pessoas. Sou vereadora da habitação&rdquo;. Sei que não estava só nas minhas    mãos resolver esta situação e que a pretensão das pessoas era serem realojadas    pela câmara. Mas o que acontece a todas as pessoas que tenham oposição à renovação    de contrato? Portanto, fiz uma declaração à Lusa e a seguir fui reunir com elas.    Nós vivemos num Estado de direito e se acharmos que as regras que temos não    estão corretas, devemos lutar para que mudem. </p>     <p> <b> Qual é a cidade europeia ou outra com cujas políticas de habitação se    identifica mais? </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A situação de Lisboa é parecida com a de Barcelona. No estado espanhol há    vários exemplos de boas práticas na questão da política pública e do investimento    público. Tem política pública, investimento público, formas diversas de construção    de cidade. Barcelona inspira-me e tenho trabalhado com a cidade, em particular    com David Bravo, que era assessor da Ada Colau para as questões do urbanismo.    É um investigador, urbanista e arquiteto que se pergunta: &ldquo;Como construímos    a cidade?&rdquo;. Com investimento público, com atores diversos, com a convocação    do setor privado (e aqui tenho uma divergência política com alguns dos meus    parceiros de vereação) que é necessária. Barcelona também achou e fê-lo. Aliás,    fez um programa de arrendamento acessível com uma parceria público-privada com    medidas de proteção do interesse público. Adotou a estratégia de Viena, que    é ter 1/3 privado (mercado livre), 1/3 promoção pública a 100% e 1/3 <i>mix</i>    - uma coisa que a Ada Colau defendia e que acho necessária. E Viena não é a    cidade de maior orientação de esquerda do mundo! Mas como se constrói cidade?    Constrói-se com os vários parceiros, em cada momento percebendo os que são úteis,    tendo em consideração a defesa do interesse público. Daí também a minha relação    com as cooperativas de Barcelona. Uma das cooperativas que fui visitar é o LaBorda,    uma cooperativa projeto-piloto com a Câmara de Barcelona, demorou 7 anos a montar    e 7 anos a construir. É na reconversão de uma zona industrial, é propriedade    coletiva e foi uma das inspirações. Em Nápoles há um núcleo de cooperativismo    muito interessante com quem eu também tenho tido alguma proximidade. Em Paris,    nos últimos anos, o aumento de investimento público da câmara de Paris, quer    na promoção direta quer no controlo, faz com que seja outra cidade com que me    identifico. </p>     <p> Barcelona promoveu, aqui há uns anos, uma iniciativa chamada Fearless Cities    e lançou uma rede de municipalismo. As redes de municipalismo são um processo    interessante porque se fala muito dos estados e dos países mas, quando se fala    numa relação mais próxima, fala-se em municípios, em cidades, em áreas metropolitanas.    No Fearless Cities Barcelona fez uma carta pelo direito à cidade (não era só    a questão da habitação, era o direito à cidade mais lato), que começou por ser    um grupo de trabalho que tinha no início Barcelona, Lisboa, Vancouver, Amesterdão    e Nova Iorque. Esta primeira carta sobre o direito à cidade foi subscrita por    mim [vereadora], Barcelona e Nova Iorque. Depois juntaram-se outras cidades,    o que deu origem à carta que foi levada pela Ada Colau às Nações Unidas, assinada    pelos presidentes de câmara. Portanto, cidades com orientações políticas diferentes    - mas com as mesmas questões - terem este processo de partilha de boas práticas    é positivo. Por exemplo, cheguei a mandar para Barcelona o PRA, quando eles    estavam a montar o deles. Isto não é uma coisa muito formal, é mais fluida,    mas estas redes em que vamos participando permitem-nos testar hipóteses de atuação    e ter posicionamentos comuns. </p>     <p> <b> Mencionou Vancouver, que tem uma experiência em que retirou os <i>vistos    gold </i>que tinham e o investimento mudou-se para Toronto. Já pensaram nesse    tipo de intervenção? </b> </p>     <p> Aqui volto a dizer que estou a falar em nome próprio. Tenho reservas sobre    o mecanismo vistos <i>gold</i> em si. Isto é, a utilização de um produto financeiro    diretamente relacionado com a cidadania. Tenho reservas. Acho que a aplicação    dos vistos <i>gold</i> nos centros urbanos, em particular Lisboa e Porto, neste    momento é pernicioso. E o resultado é o que estamos a ver. Contribui para a    especulação dos valores de transacção. Contribui para as casas vazias. Acho    que se deveria rever a utilização do mecanismo. Ultrapassada a reserva, acho    que pode ser utilizado na promoção do desenvolvimento noutras zonas, onde a    sua ação não seja perversa como está a ser nos centros urbanos, e se tiver associado    regras de controlo e fiscalização, mecanismos de empregabilidade estável e não    precária. Pode ser um mecanismo interessante – e também não tenho dúvidas da    importância que teve para pessoas de baixa escolaridade que habitavam no centro    histórico, que estavam no desemprego e passaram a ter melhores condições de    vida porque o aumento do turismo, das plataformas de alojamento local e do setor    da restauração permitiu que elas tivessem trabalho&hellip; Nunca me esquecerei de um    debate que tive há uns anos em que um indivíduo da Guarda que lá estava disse:    &ldquo;Olhe, o que a si lhe sobra [turismo, alojamento local] faz-me muita falta na    Guarda&rdquo;. Eu fiquei com aquilo: o que sobra a uns falta a outros.</p>     <p>&nbsp;</p> <font size="3"><b>Financiamento</b></font>      <p> Entrevista realizada a 2 de Maio de 2019. Transcrição de Leandro Gabriel (CEG-IGOT,    ULisboa). Este trabalho resulta das atividades do projeto &ldquo;exPERts Making sense    of planning expertise: housing policy and the role of experts in the Programa    Especial de Realojamento (PER)&rdquo; (financiado pela FCT; PTDC/ATP-EUR/4309/2014).</p> </font>       ]]></body>

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