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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[‘A Habitação é para as pessoas!’: Entrevista com Ana Pinho, Secretária de Estado da Habitação]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p> <b><font face="Verdana" size="4">&lsquo;A Habitação é para as pessoas!&rsquo;: Entrevista  com Ana Pinho, Secretária de Estado da Habitação </font></b>      <p></p>     <p> <b><font face="Verdana" size="3"> &lsquo;A Habitação é para as pessoas!&rsquo;: Interview    with Ana Pinho, Secretary of State for Housing </font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Eduardo Ascensão<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1">I</a>;    Rita Cachado<a name="top2" id="top2"></a><a href="#2">II</a>; Ana Estevens <a name="top3" id="top3"></a><a href="#3">III</a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1" id="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território,    Universidade de Lisboa. e-mail: <a href="mailto:eduardoascensao@campus.ul.pt" target="_blank">eduardoascensao@campus.ul.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2" id="2"></a>[<a href="#top2">II</a>]</font><font size="2" face="Verdana">CIES-IUL,    Instituto Universitário de Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:rita.cachado@iscte-iul.pt" target="_blank">rita.cachado@iscte-iul.pt</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="3" id="3"></a>[<a href="#top3">III</a>]</font><font size="2" face="Verdana">Centro    de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território,    Universidade de Lisboa. e-mail: <a href="mailto:anaestevens@campus.ul.pt" target="_blank">anaestevens@campus.ul.pt</a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade="noshade" />     <p>&nbsp;</p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <p> <b>Ana Pinho </b> é Secretária de Estado da Habitação e foi responsável pelo    lançamento da Nova Geração de Políticas de Habitação (NGPH), entre as quais    se incluem programas como o <i>1º Direito – Programa de Apoio ao Acesso à Habitação</i>,    para famílias em situação habitacional grave, ou o <i>Programa de Arrendamento    Acessível</i>. Arquitecta, doutorada em Planeamento Urbano (FA-UTL, 2009), trabalhou    como investigadora na área da reabilitação urbana entre 2001 e 2012 no LNEC,    tendo mais tarde uma passagem pela FundiEstamo, empresa de gestão de activos    imobiliários públicos. </p>     <p> Nesta entrevista aborda questões sobre a capacidade de implementação do <i>1º    Direito</i>, os princípios subjacentes aos programas de realojamento e de rendas    acessíveis, o acesso à habitação face à atractividade imobiliária de Lisboa    e Porto para investidores internacionais bem como os seus modelos de habitação    internacionais de referência.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b> Começávamos pelas populações mais vulneráveis, pelo <i>1º Direito</i>.    Será um investimento direto do Estado, pelo menos numa parte muito substancial,    para dar resposta aos 25 ou 26 mil agregados recenseados no Levantamento Nacional    das Necessidades de Realojamento Habitacional finalizado em Fevereiro de 2018.    A nossa pergunta relaciona-se com os 40 milhões de euros orçamentados para 2019    para o programa, fazendo um exercício relativo à ordem de grandeza desse orçamento.    Se pensarmos em três núcleos, como por exemplo Vale de Chícharos (vulgo Jamaika    no Seixal), Santa Marta de Corroios (Seixal) e o Segundo Torrão (Almada), resolver    apenas esses três, que são mil agregados dos 26 mil, custaria logo os 40 milhões.    Como é que se vai chegar aos restantes? </b> </p>     <p> Em primeiro lugar, será apenas um detalhe mas o <i>1º Direito</i> não nasce    para dar resposta a estes 26 mil agregados. Foi feito um levantamento, identificou-se    esta ordem de grandeza, mas este levantamento não é estático. Ou seja, o <i>1º    Direito</i> nasce da necessidade sentida de haver um novo programa de resposta    às carências habitacionais mais graves no país, atualizado e aperfeiçoado face    aos anteriores. As que forem. Termos esta ordem de grandeza é muito importante    para se ter uma ideia dos meios a mobilizar, mas o recenseamento não fechou,    como no caso do Programa Especial de Realojamento (PER). Ou seja, as Estratégias    Locais de Habitação que os municípios apresentam, com a identificação das famílias,    podem vir a ser atualizadas ao longo do tempo, ao contrário do que sucedia no    PER. Esta pequena rectificação é muito importante, para ficar explícito que    o programa serve para dar resposta a pessoas nestas situações, não às pessoas    que foram identificadas num determinado momento estacionário no tempo. </p>     <p> Em segundo lugar, o <i>1º Direito</i> implica um passo inicial que é o desenvolvimento    de Estratégias Locais de Habitação (ELH), que achamos que serão fundamentais    para calcular algumas coisas que até já tinham sido diagnosticadas no PER. É    pelas estratégias que os municípios demonstram as suas prioridades, mas também    que ninguém fica para trás. Ou seja, as estratégias têm de dar resposta a todos    os níveis identificados, com as soluções apontadas no <i>1º Direito</i> e de    acordo com os princípios que o programa enuncia, nomeadamente a integração social    e territorial, o acompanhamento, a participação, todas essas questões que nós    sentimos que no PER ficaram menos bem resolvidas. Ou seja, a ELH também demonstra    de que forma é que a política de habitação – aqui em particular para os mais    carenciados, mas elas podem ser mais amplas – está integrada na estratégia de    desenvolvimento territorial e social do município. A seguir às estratégias,    temos a assinatura dos contratos de financiamento. O município apresenta a sua    estratégia, que é faseada, e depois vão sendo assinados os vários contratos    de financiamento previstos na mesma. Assinado o contrato de financiamento, é    preciso, em muitos casos, lançar a obra ou para a aquisição de fogos, aprovação    das assembleias municipais, do Tribunal de Contas... Como o dinheiro é disponibilizado    mais à frente, não faria sentido no primeiro ano estarmos com verbas irrealistas.    Aliás, parte significativa do dinheiro que existe este ano só poderá ser executada    nas soluções mais expeditas. Por isso, os 40 milhões de euros, do nosso ponto    de vista, são um valor até dificilmente executável no primeiro ano. No relatório    do Orçamento do Estado (OE) é feita uma previsão da verba para os vários anos,    até 2024. Depois esta verba sobe consideravelmente, considerando nós que os    terceiro e quarto anos serão provavelmente aqueles que terão maior execução.  </p>     <p> <b> Perguntando de outra maneira, talvez mais provocatória, a Secretaria de    Estado tem o compromisso de que ao longo dos anos os 700 milhões vão ser executados?    </b> </p>     <p> Está no relatório do OE. Vão ao relatório, está lá um quadro que distribui    os 700 milhões pelos vários anos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Portanto há esse compromisso político?</b> </p>     <p> Há esse compromisso, que o Governo deixou bem explícito e claro naquele quadro    que acompanha o OE. Sem prejuízo de, imaginem, num ano haver menos execução,    no ano seguinte se prever mais, porque os contratos de financiamento são plurianuais.    Ou seja, se tivermos contratos de financiamento que nos apontem que no ano seguinte    será preciso mais verba, é estimado que isso possa vir a acontecer. O compromisso    está claramente assumido pelo Governo. </p>     <p> <b> Que tipos de feedback têm tido das Câmaras? Elas também necessitam de    financiamento para a sua parte da estratégia local? </b> </p>     <p> E têm-no. O <i>1º Direito</i> dá financiamento para a realização das próprias    estratégias. Dá apoio financeiro e técnico. Neste momento estão a entrar três    pedidos de financiamento por dia, de tal maneira que vamos reforçar a verba    que teríamos pensado para o apoio técnico, em particular neste primeiro ano    em que será mais necessário para dar resposta à grande adesão e solicitação    que estamos a ter por parte dos municípios. </p>     <p> <b>Foram poucos os que já apresentaram a estratégia...</b> </p>     <p> Entregaram os que tinham o trabalho mais avançado, o que também é natural.    A estratégia para ser bem feita tem de estar num patamar de qualificação superior,    por exemplo, ao do PER. Aí, se forem precisos mais dois, três ou quatro meses    para termos uma boa estratégia que nos garanta uma boa resposta, eu acho que    devemos pagar o preço desse tempo extra. Acho que é preferível termos respostas    mais qualificadas, mais integradas no tecido social, mais bem pensadas face    à realidade das famílias, com levantamentos mais apurados, do que avançar-se    para soluções que depois de estarem no terreno são muito complicadas de resolver,    como vimos no caso do PER. </p>     <p> <b>Portanto este ano está a ser sobretudo para esse apoio técnico&hellip;</b> </p>     <p> Os municípios estão a desenvolver as estratégias. Temos municípios que já    as entregaram e acreditamos, pela dinâmica que está a existir, que isto irá    avançar como uma bola de neve. Tal como sucedeu com os pedidos de apoio, que    começaram de forma algo lenta: muitos municípios nem tinham reparado que esse    apoio existia, apesar das sessões de esclarecimento, e depois começaram a surgir    em grande força. Soube esta semana que estão a chegar, em média, três pedidos    por dia ao IHRU. </p>     <p> <b> Excelente. Mudando um pouco de assunto&hellip; A percepção geral que se tem,    quer pela imprensa quer por alguns levantamentos empíricos, é que os fundos    de investimento imobiliário têm mostrado dificuldade em disponibilizar habitação    para rendimentos médios, apostando sobretudo nos sectores alto ou de luxo. Até    tendo em vista o seu passado profissional, na reabilitação e na FundiEstamo,    e algum <i>feedback</i> que possa ter desses atores, o que é que falta para,    de facto, apostarem mais em habitação para rendimentos médios? </b> </p>     <p> Há fundos de investimento muito diversificados. O fundo de investimento é    um veículo. Como qualquer instrumento, podemos usá-lo para múltiplos fins. Eu    posso dar um copo para beber água ou para beber vinho. Há fundos de investimento    imobiliário que tradicionalmente apostam em investimentos de rendimento médio    a médio-longo prazo. E há fundos de investimento imobiliário que apostam na    máxima rentabilização a curto prazo. Isto tem muito a ver com o perfil do investidor.    Por exemplo, no primeiro caso temos os fundos de pensões, seguradoras e outros,    que na Europa têm sido tradicionalmente muito importantes em assegurar habitação    para arrendamento às classes médias. Depois temos fundos cujo objetivo é ter    maior rentabilidade a curto prazo, mesmo com maior risco. São estes últimos    que não se orientam para uma oferta habitacional para arrendamento para a classe    média, mas para produtos que lhe dêem o tipo de rendimento que pretendem. Mas    eu não posso concordar quando se diz que os fundos têm de dar resposta. Alguns    tipos de fundo, isso sim, historicamente na Europa têm sido uma fonte de resposta    muito interessante. Em relação aos outros, eu não penso que a questão aqui seja    em atraí-los. Onde eu acho que podemos atuar é em melhorar a atratividade, a    segurança e a rentabilidade, até para permitir o aumento da oferta dos promotores    que querem investimentos de médio prazo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>O que é que esses pedem?</b> </p>     <p> O que qualquer investidor normalmente pede: mais rentabilidade, menor risco.    Daí, por exemplo, um instrumento como o <i>Programa de Arrendamento Acessível</i>    isentar a tributação de rendimentos e ter acoplado os seguros de arrendamento,    para redução do risco. Daí, também, a revisão da Portaria de 1997 sobre habitação    de custos controlados, já publicada como Portaria 65/2019, que vem não só atualizar    o que eram os requisitos para uma habitação ser considerada de custos controlados,    dando acesso a uma taxa de IVA a 6%, como fazer outras duas coisas. Por um lado,    a antiga Portaria definia limites de construção e limites na primeira transação    por venda, mas deixava de fora a reabilitação, deixava de fora o limite ao arrendamento    e deixava de fora a manutenção dos custos controlados da habitação ao longo    do tempo. Esta nova Portaria não só atualiza os parâmetros, como elimina o preço    de construção, ou seja, o custo da construção não é um limite porque, se se    puder gastar mais na construção, desde que a oferta seja a custos acessíveis,    isso é para o bem das famílias. Não é promover uma construção mais barata o    que interessa mais. O que interessa, do ponto de vista da política de habitação,    é promover que a disponibilização da habitação dê resposta às necessidades das    famílias. De qualquer modo, a promoção passa a ter um IVA de 6% quando seja    para estes fins, implicando uma redução muito significativa dos custos de construção.    E os preços de arrendamento mantêm-se, apenas com coeficientes de actualização,    durante pelo menos 25 anos. </p>     <p> <b> Se por exemplo o promotor, a meio dos 25 anos, quiser alterar o valor    da renda, tem que pagar o imposto atrasado de que na altura foi desonerado?    </b> </p>     <p> Exatamente. Adicionalmente, nós temos um outro problema que é o financiamento    para promoção de mais habitação para arrendamento a custos acessíveis. Por uma    razão: os financiadores tendem a querer maturidades até 20 anos, mas o retorno    do investimento em arrendamento, normalmente tende a ser possível apenas num    período superior. Então temos uma dificuldade que é sentida por quem quer promover    este tipo de habitação. A esse nível nós atuamos em duas frentes. Por um lado,    estamos a renegociar o [programa] <i>Reabilitar para Arrendar</i>, tendo em    vista poder financiar investimento para arrendamento a custos acessíveis, o    que até aqui não se podia. E por outro, dar uma resposta alternativa à compra    de casa porque neste momento a oferta de arrendamento é tão escassa que leva    grande parte das famílias a procurar a opção de compra de casa, o que nos preocupa    muito, tanto pelos preços estarem muito altos como pela questão do endividamento.    O impacto que a subida da taxa de juro poderá ter [pode ser grande], e mesmo    famílias letradas muitas vezes não prevêem o impacto que um aumento da taxa    de juro de 3% ou 4% pode ter no seu orçamento familiar. Além de acharmos que    a rigidez do ocupante-proprietário joga de forma difícil com a nova realidade    social das famílias que têm mobilidade... </p>     <p> <b> Aqui entraria a ocupação permanente vitalícia [Direito Real de Habitação    Duradoura], é isso? </b> </p>     <p> Sim, a proposta que temos do <i>Direito Real de Habitação Duradoura</i> procura    dar resposta a duas situações. Por um lado, as famílias mais jovens que tendem    a ter uma mobilidade e um percurso profissional muito mais dinâmico, tendem    também a ter um percurso pessoal e familiar que não é linear. Reparem que uma    das principais razões para o incumprimento é o divórcio, não é a quebra de rendimentos.    E reparem como é que isto impacta na habitação: com um divórcio, em particular    quando há custódia partilhada, não se reduz a necessidade da tipologia, [pelo    contrário] pode quase duplicar as necessidades de tipologias, e o regime de    casa própria tem dificuldade em dar resposta a estas situações. Na outra ponta    etária, a aquisição de casa por pessoas em idade mais avançada ou pessoas com    algum tipo de doença é extremamente dificultada. Como a maioria dos portugueses    comprou casa, chega a uma idade mais avançada e tudo o que poupou está materializado    na casa. Não pode capitalizar a poupança que fez na casa porque depois não tem    estabilidade. Ora esta nossa proposta permitiria, por exemplo, a estas famílias    ou a alguém que quer voltar à sua terra natal, poder vender a sua própria casa,    capitalizar a sua poupança, investir uma parte dela na aquisição do direito,    mas uma parte pequena, e disponibilizar todo o resto do dinheiro para o seu    projeto de vida nesta nova fase, para ajudar os filhos... mas sabendo que pode    residir ali até ao fim da sua vida. Dá segurança. Mas imaginemos alguém com    um problema de saúde grande e que deixa de ser autónomo: nos 10 primeiros anos    tudo o que entregou de caução é devolvido ou herdado [no caso de óbito]. A partir    daí, 5% por ano é do proprietário, sendo que [o detentor do direito] precisará    de estar a usufruir da casa há 30 anos para não ver nenhuma parte da caução    devolvida. No caso das famílias mais novas isto dá-lhes toda a estabilidade    da compra de casa, sendo que se precisarem de sair nos primeiros 10 anos, voltam    com a caução, podendo reinvestir a caução numa nova habitação ou noutra opção    qualquer. </p>     <p> <b> O Ministro do Ambiente disse no dia em que o <i>Direito Real de Habitação    Duradoura</i> foi apresentado algo que nos suscitou curiosidade: que sendo um    direito real é, naturalmente, transaccionável. Que tipo de transações é que    têm em mente? Ou seja, se um direito que está ligado a uma pessoa é transaccionável,    ele pode ser posto num pacote e depois ser financeirizado? </b> </p>     <p> Não! </p>     <p> <b>Em que medida é que ele seria então transaccionável?</b> </p>     <p> Não, há aqui uma confusão. O que é possível fazer com este direito real é    um morador ou agregado familiar hipotecar o próprio direito para se financiar    para a caução. Ou seja, o direito pode ser dado como garantia para o financiamento    da própria caução. Mas o direito é pessoal. Não pode ser de nenhuma empresa,    é pessoal e vitalício. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Era aí que queríamos chegar&hellip;</b> </p>     <p> O direito é pessoal. É para habitação permanente. Por isso, uma pessoa não    pode vender o seu direito a outra. Pode é dá-lo como garantia para uma hipoteca.    Adicionalmente, o próprio proprietário pode readquirir esse direito, mas estamos    a falar da possibilidade de hipotecar e de dar o direito como garantia. Não    se pode constituir um <i>Direito Real de Habitação Duradoura</i> para uma pessoa    coletiva. Ele é um direito real de habitação. </p>     <p> <b> Mas imagine que dando o direito como garantia a um banco, se depois se    falha algum pagamento e o banco aciona a garantia, com que direito é que o banco    fica? </b> </p>     <p> O que está proposto em consulta pública é o seguinte: o proprietário tem na    sua mão a caução, que é o valor máximo financiável. Este valor é integralmente    do morador até ao final dos [primeiros] 10 anos e pode ser mobilizado para cobrir    dívidas de hipoteca, caso elas existam. Se por alguma razão, com probabilidade    baixa, faltar alguma coisa, o proprietário pode adquirir o remanescente, liquidar    a hipoteca, ficando ele credor desse remanescente face ao inquilino. Mas isto    é uma possibilidade remota. Reparem: este dinheiro está na íntegra no proprietário    e vão-se pagando as prestações. O que o banco transacciona é o próprio direito    real, mas o direito real é feito pela vida do primeiro. Ou seja, é a ocupação    daquela casa nas condições inicialmente contratadas. Mas como digo, sendo a    caução mobilizável explicitamente para o pagamento da dívida, estas serão situações    extremamente excecionais. </p>     <p> <b>Ok.</b> </p>     <p> A caução serve também de garantia porque também é do interesse do proprietário,    numa situação destas, poder disponibilizar o direito real a outro morador. </p>     <p> <b>A previsão é que estes proprietários sejam indivíduos, bancos&hellip;</b> </p>     <p> Está aberto a quem quiser aderir. Não tem qualquer restrição. Não obstante,    alguém que tenha mais do que um alojamento vai poder capitalizar, provavelmente,    mais com a própria caução. O proprietário ganha uma redução de risco enorme    porque, como pode usar a caução para pagar dívidas, mesmo que haja incumprimento,    ele tem a segurança de ter o dinheiro. Em segundo lugar, ele pode mobilizar    a caução para a rentabilizar. Ora, tendo só uma, e como tem de a devolver, vai    ter mais dificuldade&hellip; As opções de rentabilização terão sempre de ser opções    que ele possa resgatar nos períodos estipulados no diploma, e poderão dar mais    rentabilidade se tiver mais do que uma habitação, pode fazer um aprovisionamento    porque não é provável que todos os seus moradores saiam no mesmo ano, e sempre    que um sai ele pode constituir um novo direito. Por isso, poderá usar parte    das cauções em seu poder para se financiar e investir em obras, por exemplo.    Nós acreditamos que o <i>Direito Real de Habitação Duradoura</i> não está a    competir com o arrendamento, o seu grande objetivo é ser uma alternativa à compra    de casa. Mas talvez não seja para aquele proprietário que tem uma ou duas habitações    que quer arrendar por algum tempo, mas que poderá querer mobilizar para os seus    filhos ou para ele próprio mais à frente&hellip; não! Isto é para uma habitação vitalícia.    Ou seja, isto é para proprietários&hellip; </p>     <p> <b>Que têm um portfólio de&hellip;</b> </p>     <p> Não! Podem só ter uma propriedade, mas que essa seja mesmo um investimento    predial, porque se for para arrendar durante algum tempo mas não se querer comprometer    muito, não é esta a solução. Não é, de todo! É para poder até permitir que haja    mais financiamento, pois esta capitalização da caução pode permitir ser mais    fácil aos bancos financiar investimento em habitação porque, pelo menos parte    do investimento pode ser recuperado com mais rapidez e haver maior disponibilidade    de financiamento para promoção de oferta habitacional alternativa à compra e    venda. Mas mais do que com o número [de imóveis do proprietário], tem muito    a ver com o perfil do proprietário, ou seja, tem que ser alguém que veja aquele    imóvel ou aquela fração como uma fonte de rendimento a longo prazo. É para isso    que ela está orientada. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> O diagnóstico de que importa aumentar o <i>stock</i> habitacional público    foi desde o início aceite e partilhado pelo Governo&hellip; </b> </p>     <p> Fomos nós os primeiros a lançar a meta de aumentar para 5% o parque com apoio    público&hellip; </p>     <p> <b> Nesse sentido, como vê as críticas que referem que os programas de subsídio    a rendas acessíveis apenas alimentam uma valorização imobiliária, em parte desconectada    dos rendimentos médios dos portugueses e, que a longo prazo são um investimento    sem retorno, no sentido em que, passados x anos e y milhões de subsídios à renda    acessível, o <i>stock</i> habitacional de propriedade pública continuará a ter    os mesmos 112 mil fogos? </b> </p>     <p> Primeiro, a meta do Governo é aumentar para 5% a habitação com apoio público.    Segundo, temos dois programas muito fortes para aumento da oferta pública. O    que achamos é que a dimensão e a urgência do problema é tao grande que nós devíamos    complementar isto com mais coisas. Não é substituir, é adicionar. Ponto três:    não há subsídio. O subsídio é o <i>Porta 65</i>. E esses sim, os subsídios diretos    ao arrendamento, fazem subir os preços. Ou seja, quando é dado um subsídio ao    arrendamento no mercado livre, isso vai aumentar a disponibilidade das famílias    para pagar. No imobiliário, o preço está muito mais ligado à disponibilidade    para pagar do que ao preço de produção. Logo, subsídios diretos ao arrendamento    ou à compra, como foi o crédito bonificado, é que fazem disparar os preços.    O que nós propomos é a efectiva garantia de que há redução do preço da renda    e que o benefício é apropriado pelo morador. </p>     <p> <b>Mas quem tem isenção fiscal é o proprietário.</b> </p>     <p> Mas é obrigado, à cabeça, a descer 20% do preço das rendas. Logo à cabeça.    Ou seja, parte significativa da tributação não cobrada está logo refletida na    baixa do preço de rendas, o que não acontece de modo algum quando se dá subsídio    direto à família. Ou seja, esta é a forma pela qual é possível garantir, à cabeça,    de quem de facto se apropria da receita que não vai ser auferida pelo Estado    são as famílias, invertendo a lógica que existia no crédito à habitação e invertendo    a lógica dos subsídios diretos em arrendamento no mercado livre. Por isso é    que a via é esta. E de novo volto a dizer: o que nós estamos aqui a fazer é    complementar a nova oferta pública porque a urgência é enorme e não temos casas    prontas: toda a nova oferta pública tem de ser promovida, enquanto nós formos    conseguindo ir buscar ao mercado o que está disponível, isso pode-nos ajudar    a ter pelo menos alguma parte do necessário disponível mais cedo. A terceira    via [para aumentar a oferta] é o agravamento de Imposto Municipal sobre Imóveis    (IMI) que foi agora aprovado e que torna de facto incomportável ter um devoluto    nas áreas de pressão urbanística. </p>     <p> <b> Em termos de desejo, porque as coisas nem sempre são fáceis de garantir,    daqui a 10 anos em quanto é que quantificaria que seria desejável ter de parque    de propriedade pública? Dos actuais 112 mil fogos para&hellip;? </b> </p>     <p> Exatamente o que está na Nova Geração de Políticas de Habitação, as metas    que estão definidas nesse horizonte significa passar de 2% para 5%. </p>     <p> <b>Mas 5% é com o apoio público e não de propriedade pública.</b> </p>     <p> A nós interessa-nos o global. A meta que temos definida soma tudo. São 170    mil casas acima das actuais 120 mil&hellip; Além disso, gostaríamos de convergir para    a média europeia na sobrecarga [taxa de esforço dos agregados] do setor do arrendamento,    em que estamos a 35% e a média está a 27%. Não é o mundo ideal, mas achamos    que um primeiro passo muito significativo seria conseguirmos chegar à média    europeia, a nível de sobrecarga com os custos habitacionais. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> A propósito de Europa, qual é o sistema de habitação internacional, na    verdade europeu ou outro, no qual mais se revê? E porquê? </b> </p>     <p> Não há um. Há vários que nos interessam muito, que nós andamos a estudar,    desde a Holanda, Alemanha, Áustria, Dinamarca&hellip; Achamos que todos estes têm propostas    interessantes e tentamos ir buscar alguma inspiração, sempre com as dificuldades    muito grandes de as transpor para a realidade nacional, pois temos um ponto    de partida muito diverso, porque não temos <i>stock</i> . E há aqui uma coisa    que temos de perceber: há um conjunto de medidas que, se forem implementadas    antes de ter <i>stock,</i> o que se vai é criar uma crise habitacional, agravando    a que já existe. Ou seja, há um conjunto de medidas que até poderiam fazer sentido,    mas para as quais era necessário ter um <i>stock</i> que Portugal não tem. </p>     <p> <b>Mas consegue dar exemplos do que gosta de cada um desses sistemas?</b>  </p>     <p> Acho muito interessante a forma de indicar preços de referência de arrendamento    na Alemanha, as &ldquo;Mietspiegel&rdquo; que fazem para cada cidade, e nós começamos a    dar passos para nos irmos aproximando. Quando nós tomámos posse, nem sequer    existia um valor público de qual era o preço que estava a ser praticado. Havia    valores veiculados pelo mercado mas não tínhamos a aferição real, concreta,    oficial e pública dos valores da venda e de arrendamento. Aliás, a discussão    que se está a assistir hoje, até nas bancas dos jornais com os valores que saíram    ontem do Instituto Nacional de Estatística (INE), só é possível ter com esta    credibilidade e rigor porque agora temos estes dados. Este sistema de informação    é muito interessante&hellip; </p>     <p> <b> Que na Alemanha está ligado à ideia de que tudo o que passa para lá disso    até pode ser criminalizado como renda de usura. </b> </p>     <p> A Alemanha já teve as rendas completamente liberalizadas e o que as regulava    era a informação. Ou seja, só o facto de qualquer um de nós saber, em concreto,    qual é o preço que está a ser praticado para casas com determinadas características    tem um enorme elemento regulador do mercado. Só tendo essa base é que uma família    consegue avaliar se o que lhe estão a pedir é ou não é razoável face ao mercado.    Depois temos uma outra questão: não foi só o preço das rendas que aumentou,    nos últimos anos está-se a reduzir o número de contratos. Temos, em paralelo,    menos contratos e preços mais altos. Isto prova que temos, de facto, uma falta    de atratividade no setor do arrendamento porque as coisas estão a ser mobilizadas    para outros fins. No panorama nacional que temos, com quebras significativas    nos números de casas disponíveis e já com os preços tão altos porque não temos    oferta, criarmos coisas que não sejam atrativas de mais oferta seria introduzir    uma quebra muito grande, quando nós não temos tempo para ter uma resposta pública.    (&hellip;) Se neste momento a nossa opção for tornar menos atrativo o arrendamento    no país, o que nós vamos ter como resposta é um agravamento ainda maior da crise    habitacional. Por isso, as medidas têm de colar sempre com a realidade no terreno.    E nós não temos tempo útil para dar resposta do outro lado a algo deste tipo.    E temos de ter muita cautela para não chegarmos a uma situação, da qual não    estamos tão longe como isso, das pessoas não conseguirem nem comprar nem arrendar.    E é aí que temos de analisar tudo com muito cuidado, porque é a realidade que    temos. </p>     <p> <b> E quanto aos modelos dos outros países que mencionou, Áustria, Dinamarca,    Holanda? </b> </p>     <p> Acho muito interessante a forma como na Holanda se chega ao que deve ser o    valor de referência no arrendamento. Nós inspirámo-nos nessa forma também para    o <i>Programa de Arrendamento Acessível</i>, embora simplificando muito o modelo.    O nosso é bastante mais simplificado porque se arrancássemos com um sistema    tão detalhado e complexo como o holandês, que do ponto de vista qualitativo    é bastante interessante, na prática iríamos afastar, devido à complexidade e    burocracia, os interessados. No caso da Áustria vejo como muito interessantes    as formas como a política de habitação consegue promover a coesão social e territorial,    até pela própria descentralização dessas mesmas políticas. Em todo o lado a    realidade é muito assimétrica e coisas que fazem todo o sentido em Lisboa não    fazem, provavelmente, noutros sítios. Por isso, eu acho que esta questão de    termos políticas que possam adequar-se e dar resposta às dinâmicas locais também    é muito importante. Na Dinamarca acho muito interessante as formas alternativas    de propriedade, até para resolver problemas que nós temos, mas que temo que    possam agravar-se: de dificuldades nas obras de conservação e logo de segurança,    salubridade e condições de habitabilidade da larga maioria dos portugueses que    moram em propriedade horizontal. E também os sistemas de financiamento no âmbito    do seu setor de arrendamento com apoio público. </p>     <p> <b> Será de seguir um caminho do tipo holandês, com as <i>housing associations</i>    como actores importantes? </b> </p>     <p> Se estamos a falar de associações, de cooperativas, de economia social ou    solidária, eu penso: &ldquo;Venham!&rdquo; Nós não temos nada. Estamos a criar as condições    para esse caminho poder surgir de facto, sem grandes reservas, no sentido em    que o que nos interessa, mais que o meio, é o próprio fim. Como sabem, o setor    cooperativo sempre teve uma majoração de 20% nos limites para habitação de custos    controlados, ou seja, tem mais facilidade em poder promovê-la do que outros    promotores. Mas hoje em dia também vemos novas coisas a surgir, novas formas    de associativismo, a economia social e solidária. Não vejo que tenhamos de escolher    um só caminho. Estamos numa situação próxima do zero. Temos a promoção pública    e pouco mais, por isso o que vier será bem-vindo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b> O movimento de ativismo a favor de melhorias nas condições habitacionais    ou contra a gentrificação nos centros históricos de Lisboa e Porto são, para    o poder executivo, uma ajuda ou o contrário? Isto é, ter uma presença que, às    vezes, pode ser antagónica do ministério, das câmaras municipais, mas que chama    a atenção para as dificuldades do sector, ajuda? Ou, pelo contrário, preferia    que ele não fosse tão vocal? </b> </p>     <p> Do ponto de vista global, todos os movimentos da sociedade civil não só são    legítimos como enriquecedores. O que falta é mais envolvimento da sociedade    civil nas políticas públicas, começando pelas eleições, mas indo até à discussão    das próprias políticas públicas. Os governos devem representar a sociedade civil,    mas tudo o que seja fazer ouvir a vontade, as necessidades e as aspirações da    sociedade civil só pode ser enriquecedor para a democracia. Repare, eu venho    da área da reabilitação e habitação, e a reabilitação foi lançada com o famoso    <i>slogan</i> italiano &ldquo;Reabilitar é revolução&rdquo; ou &ldquo;Habitar é revolução&rdquo;. Em    Portugal, com o 25 de Abril, o peso que também houve na reabilitação e na habitação    também veio muito da base. Nas áreas que eu tutelo neste momento, o histórico    é de um fortíssimo poder que é dado aos poderes públicos, por parte da sociedade    civil, para dar respostas nestas áreas. E a habitação é para as pessoas. Se    não está com as pessoas, está&hellip; É um direito das pessoas, tem de estar com as    pessoas. O nosso objetivo é garantir a todos o acesso à habitação. </p>     <p> <b> Em termos concretos, alguma vez determinado tipo de contestação ou algum    tipo de vocalização forte conseguiu a si, como Secretária de Estado, garantir    recursos por parte do seu Ministro ou até do Primeiro-ministro? </b> </p>     <p> Toda a Nova Geração de Políticas de Habitação (NGPH) foi feita com base na    consulta pública. O documento final teve 600 contributos, e a versão final bebe    imenso desses 600 contributos. Por isso, logo à partida a NGPH tem na base a    consulta e a participação pública, não só de movimento, como dos próprios moradores&hellip;    E eu também não estabeleço hierarquias entre o que é ativista, o que é associação    de moradores ou o que são as pessoas. Todos têm de ter o seu lugar. </p>     <p> Outro instrumento que teve um peso muito grande para nós conseguirmos alavancar    o investimento foi o próprio Levantamento das Necessidades de Realojamento Habitacional.    Porque podendo não ser o levantamento perfeito, dá uma ordem de grandeza. É    com base nestes instrumentos que atuamos, não é uma questão de mais se dar a    quem mais faz barulho! Tanto os dados do INE como os dados do levantamento servem    para fazer uma demonstração rigorosa e quantitativa da situação e confrontá-la    com as perceções, as reivindicações e as aspirações. Por exemplo, existe uma    perceção muito grande de um risco elevado no arrendamento em Portugal. Nós pedimos    os dados ao Ministério da Justiça, ao Balcão Nacional do Arrendamento (BNA)    e dos Tribunais sobre os tempos. Os dados que recebemos são muito divergentes    da perceção, mas para o efeito final da disponibilização de casas para arrendar    [pelos proprietários] o que conta é a perceção. </p>     <p> <b>De que percentagens de incumprimento estamos a falar?</b> </p>     <p> Não são percentagens, é o tempo! Ou seja, a média de tempos que nós apurámos    nos anos 2015-2016 dava tanto que, no BNA como nos tribunais, o tempo entre    a entrada do processo [por incumprimento] e a saída da decisão [de despejo]    era inferior a 6 meses. Não eram iguais, mas em ambos era inferior a 6 meses.    Isto não tem nada a ver com a perceção comum, mas não me elimina o problema.    A perceção de risco é o que me dá menos casas, tempos de contrato mais curtos,    preços de renda mais elevados. Tudo coisas que eu não quero. Eu quero mais casas,    contratos mais longos e preços mais baixos, logo eu tenho de combater isto.    De que me serve eu ter as duas coisas, a perceção e os dados? Serve-me para    saber que instrumento é que eu devo utilizar para esta situação. A nossa opção    foi os seguros de arrendamento, porque se eu não tenho um instrumento que permita    aos proprietários sentirem-se seguros, não se elimina o problema. Ou seja, nós    jogamos sempre nesta confrontação entre o que é sentido pelas pessoas e por    quem disponibiliza a casa (os municípios, as próprias IPSSs, os gestores de    parque habitacional, os promotores, etc.) e é no cruzamento destas duas fontes,    digamos, que nós tentamos na medida do nosso melhor, ver qual será o instrumento    mais adequado para dar resposta aos objetivos. </p>     <p> <b> Para acabar gostaríamos de pegar numa das palavras do título desta revista,    &ldquo;Comunidades&rdquo;, para lhe perguntar como vê, no <i>1º Direito</i>, a continuação    de uma lógica de realojamento que, de alguma forma, continua a dispersar as    pessoas pelo espaço metropolitano e de modo tão individualizado, agregado a    agregado que, às vezes, pode estar a incorrer no mesmo erro do PER de dispersar    comunidades para fora do seu espaço comunitário, quer as pessoas queiram ou    não. E a pergunta é: não nos falta ter mais atenção com o território, que não    é abstracto mas sim vivido por comunidades&hellip; </b> </p>     <p> Não posso concordar com essa afirmação, de todo! Ponto um, porque não só estão    os núcleos comunitários previstos, como quando é para apoio a núcleos comunitários,    os financiamentos são majorados. Há a hipótese de financiamento direto para    a autopromoção das comissões de moradores, se assim o entenderem. Por isso eu    não vejo de todo a coisa assim. É minha convicção que os instrumentos de apoio    à habitação têm de ser virados para as famílias e não para as características    dos alojamentos. São programas de acesso à habitação. Acho que isso é um princípio    básico de justiça social. O objetivo nunca é fazer mais casas, o objetivo é    que as pessoas tenham acesso a uma habitação adequada. Por isso, eu tenho de    olhar para as pessoas e para o que é adequado para elas. Assim, temos um conjunto    de princípios, no qual se inclui a questão da participação e da inclusão social    e territorial, que depois as estratégias locais devem justificar de que modos    lhes dão cumprimento. Ao nível dos núcleos, sejam eles de que natureza for,    quando estamos em presença de coletividades é tudo majorado, tem um regime próprio.    Por isso eu não me revejo nessa avaliação. </p>     <p> <b> Mas, por exemplo, em casos que já estão em andamento, como Vale de Chícharos    (Seixal) ou alguns agregados dispersos em sítios que ainda eram do PER, continua    a haver essa dispersão individualizada e não a tentativa de recolocar uma comunidade    noutro sítio. Porquê? </b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Ponto um, Vale de Chícharos não é <i>1º Direito</i>, é Prohabita. Ponto dois,    eu subscrevo completamente a opção da Câmara Municipal do Seixal. Primeiro,    porque não há nenhuma indicação de que o objetivo das famílias fosse ficar naqueles    edifícios. Segundo, porque aqueles edifícios, ainda por cima, estão em terreno    privado e nem sequer têm condições de habitabilidade. Terceiro, porque o que    nos tem chegado aqui de muitos lados, não de todos mas de muitos&hellip; Eu recebi    aqui conjuntos alargados de famílias que diziam: &ldquo;nós queremos é ser como os    outros e estar integrados na cidade&rdquo;. Foi essa a opção do Seixal: não construir    mais um bairro social segregado, integrar as pessoas na própria cidade. Eu estive    no dia em que começaram a demolir o primeiro edifício e as pessoas, pelo menos    todas com quem eu contactei, estavam felizes. E há muitos casos, muitos mesmo,    que nos têm chegado aqui que o que dizem é &ldquo;por favor, tratem-me como qualquer    outra pessoa. Eu quero estar no território, na cidade como qualquer outra pessoa,    como qualquer outra família&rdquo;. Acho que isso é uma das vias nas quais podemos    avançar em relação ao PER. Dizer-se que as pessoas estão ali todas a morar em    más condições, mas que gostam muito uns dos outros e que querem estar é ali    todos juntos, e generalizar isso para toda a gente, acho que não é correto.    Sem prejuízo de também termos recebido comunidades que o que dizem é que gostariam    [de permanecer juntas] e ficar ali. E aí tem que se ouvir. No caso das Ilhas    no Porto, por exemplo, ou de pátios e vilas em Lisboa, que são dos sítios onde    sentimos que as pessoas querem permanecer no local. É por isso que o próprio    <i>1º Direito</i> viabiliza o apoio ao investimento em propriedade privada.    São casos excecionais, mas isso é feito exatamente para permitir que a solução    habitacional daquelas pessoas possa ser a permanência. Ela não é impedida em    caso nenhum. </p>     <p> <b>Era um bocadinho aí que a pergunta queria chegar&hellip;</b> </p>     <p> O que é pedido é: olhe-se para as famílias em concreto e proponha-se a solução    mais adequada para aquelas famílias em concreto. É isso que é dito. Qualquer    solução, em teoria, é viável. O que se pede é que depois se demonstre porque    é que ela, aquela solução, é mais adequada tendo em conta os princípios do programa.    No caso do Seixal, eu não poderia ser mais entusiasta da solução que estão a    adotar, cuja reação negativa muitas vezes não tem surgido das próprias pessoas,    mas sim de outras fontes. </p>     <p> <b> Sim, não estamos a pôr em questão que, quando perguntados diretamente    se preferiam ficar lá em edifícios novos ou ir para outro lado, a maior parte    dos moradores escolheram ir para outro lado e fazê-lo individualmente. Fomos    lá a uma reunião, antes de se reiniciar o realojamento e, de facto foi isso    que a maioria das pessoas nos disse também&hellip; </b> </p>     <p> Eu percebo que do ponto de vista académico, até devido aos estudos dos anos    1960 e 1970, se visse que, muitas vezes, as comunidades foram &ldquo;desmembradas&rdquo;.    O PER muitas vezes nem sequer fez isso. O que o PER fez foi metê-los todos juntos    noutros sítios, às vezes juntando coisas que até nem funcionavam. </p>     <p> <b> Sim, a escolha pela dispersão individualizada é clara, mas ao mesmo tempo,    as pessoas têm estruturas informais de ajuda que vão deixar de ter&hellip; </b> </p>     <p> Vão ter de as reconstruir. Qualquer pessoa desta sociedade, e estas pessoas    são pessoas como as outras, de pleno direito, qualquer um de nós, quando muda    de habitação tem de reconstruir as suas redes. Quando nós mudamos de casa ou    mudamos de cidade, temos de reconstruir as redes. A senhora que nos traz o pão    deixa de trazer, a senhora que ficava a olhar um bocadinho pelo meu filho deixa    de ficar e temos de reconstruir isso. É uma realidade natural para qualquer    cidadão do país. Uma coisa é situações forçadas, outra coisa é eu encontrar    as soluções mais adequadas e, eu não posso, de todo, dizer que a solução A é    mais adequada para toda a gente. Não posso! Aliás, numa mesma comunidade, para    parte dela a solução pode ser A e para outra parte dessa mesma comunidade pode    ser B. E é isso que tentámos com o programa. Permitir uma enorme flexibilidade    para nunca ser impossível ou inviável que fosse concedida a qualquer família    a solução que se entendesse mais adequada para ela, para o seu caso em concreto.</p>     <p>&nbsp;</p> <font size="3"><b>Financiamento</b></font>      <p>Entrevista realizada a 28 de Março de 2019. Transcrição de Leandro Gabriel    (CEG-IGOT, ULisboa). Este trabalho resulta das atividades do projeto &ldquo;exPERts    Making sense of planning expertise: housing policy and the role of experts in    the Programa Especial de Realojamento (PER)&rdquo; (financiado pela FCT; PTDC/ATP-EUR/4309/2014).  </p> </font>       ]]></body>

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