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<journal-title><![CDATA[CIDADES, Comunidades e Territórios]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[DINÂMIA'CET-IUL, Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território]]></publisher-name>
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<article-id pub-id-type="doi">10.7749/citiescommunitiesterritories.jun2013.026.art05</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Berlim: espaço e etnicidade: reconstrução simbólica do muro]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Berlin: space and ethnicity: the symbolic reconstruction of the wall]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Alagoas ICS ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The article analyzes the discourses of inclusion and exclusion related to social and political contents, experiences and dynamics that marked the process of identity construction of young West Germans and migrants born in Berlin after the fall of the wall, in a context of open borders and refunctionalisation of the urban space as well as their struggles for social integration. For the specific objectives of this article we analyze exemplarily a series of interviews with a young West German and a young man of Turkish origin born in Berlin. The flexible construction of enemies demonstrated the centrality of ethnic logic in cognitive appropriation of their conditions of existence and in forming their structures of subjective elaboration of social relations.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Unificação alemã]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Construção de inimigos]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Mudança histórica e cidade]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Muro de Berlim]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Espaço urbano e integração social]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Berlin Wall]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Urban space and social integration]]></kwd>
</kwd-group>
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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGO 
  ORIGINAL</b></font></p>
    <p align="right"></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font face="Verdana" size="4"><b>Berlim: espa&ccedil;o e etnicidade - reconstru&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do muro</b></font></b></p>
    <p><b><font face="Verdana" size="3"><b>Berlin: space and ethnicity - the symbolic reconstruction of the wall</b></font></b></p>
    <p><br/>
  <b><font face="Verdana" size="2">Arim Soares do Bem<a name="top1"></a><a href="#1">I</a></font></b></p>
    <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1"></a>[<a href="#top1">I</a>]</font></font><font size="2" face="Verdana">ICS - Universidade Federal de Alagoas, Brasil. e-mail: <a href="mailto:arimdobem@yahoo.com.br">arimdobem@yahoo.com.br</a></font><br/>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
<HR size="1" noshade>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O artigo se ocupa da an&aacute;lise de discursos de inclus&atilde;o e exclus&atilde;o relacionados a conte&uacute;dos sociais e pol&iacute;ticos, experi&ecirc;ncias e din&acirc;micas que marcaram o processo de constru&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria de jovens alem&atilde;es ocidentais emigrantes nascidos em Berlim ap&oacute;s a queda do muro, num contexto de abertura f&iacute;sica de fronteiras e refuncionaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano, bem como de sua luta por integra&ccedil;&atilde;o social. Para os objetivos espec&iacute;ficos deste artigo analisamos exemplarmente uma s&eacute;rie de entrevistas realizadas com um jovem alem&atilde;o ocidental e um jovem de origem turca nascido em Berlim. A constru&ccedil;&atilde;o flex&iacute;vel de inimigos entre os jovens demonstrou a centralidade da l&oacute;gica &eacute;tnica para a apropria&ccedil;&atilde;o cognitiva de suas condi&ccedil;&otilde;es de exist&ecirc;ncia e para a constitui&ccedil;&atilde;o de sua estrutura subjetiva de elabora&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais.<br/>
</font>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b
>Palavras-chave</b>:
  Unifica&ccedil;&atilde;o alem&atilde;; Constru&ccedil;&atilde;o de inimigos; Mudan&ccedil;a hist&oacute;rica e cidade; Muro de Berlim; Espa&ccedil;o urbano e integra&ccedil;&atilde;o social
  
  German unification; Construction of enemies; Historical change and city; Berlin
Wall; Urban space and social integration.
</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <p>&nbsp;</p>
<HR size="1" noshade></font>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font><br/>
</p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">The article analyzes the discourses of inclusion and exclusion related to social and political contents, experiences and dynamics that marked the process of identity construction of young West Germans and migrants born in Berlin after the fall of the wall, in a context of open borders and refunctionalisation of the urban space as well as their struggles for social integration.  For the specific objectives of this article we analyze exemplarily a series of interviews with a young West German and a young man of Turkish origin born in Berlin. The flexible construction of enemies demonstrated the centrality of ethnic logic in cognitive appropriation of their conditions of existence and in forming their structures of subjective elaboration of social relations.
</font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><strong>Keywords</strong>: German unification; Construction of enemies; Historical change and city; Berlin Wall; Urban space and social integration.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
<HR size="1" noshade>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b >Os muros na
  hist&oacute;ria de Berlim</b></font>
  <br/> 
  <br/>
<font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O muro era uma
  presen&ccedil;a bem mais antiga em Berlim do que aquele constru&iacute;do no cen&aacute;rio esquizofr&ecirc;nico
  da guerra fria, em 1961. A funda&ccedil;&atilde;o de Berlim decorreu da fus&atilde;o, em 1307, com
  C&ouml;lln, situada numa pequena ilha do rio Spree, esta por sua vez fundada em 1237
  e considerada marco identificat&oacute;rio de funda&ccedil;&atilde;o da cidade. A dupla cidade
  Berlin-C&ouml;lln, passou, a partir desta data, a ter uma administra&ccedil;&atilde;o comum at&eacute; o
  ano de 1442, quando a administra&ccedil;&atilde;o conjunta foi suspensa por Friedrich II.
  Entre 1658 e 1683 Berlin e C&ouml;lln, unidas at&eacute; ent&atilde;o por uma ponte, foram
  separadas, sob a administra&ccedil;&atilde;o de Friedrich Wilhelm von Brandenburg, por uma
  muralha que somente em alguns pontos permitia a abertura para o exterior,
  atrav&eacute;s dos port&otilde;es da cidade (Stadttore). 
  <br/>
  Em 1710, em virtude
  da expans&atilde;o urbana, as cidades Berlin, C&ouml;lln, Friedrichswerder, Dorotheenstadt
  e Fridrichsstadt foram unificadas, transformando-se em bairros da desde ent&atilde;o
  denominada Berlim, que passou a ser, tamb&eacute;m, resid&ecirc;ncia oficial da realeza,
  tendo sido a muralha demolida em 1734 para permitir o crescimento conjunto da
  cidade[<a name="top2"></a><a href="#2">2</a>].
  No lugar da velha muralha, a cidade expandida recebeu um novo muro, o
  Akzisemauer, constru&iacute;do entre os anos de 1734 e 1737, sob o dom&iacute;nio de
  Friedrich Wilhelm I, Rei da Pr&uacute;ssia. Diferentemente da muralha anterior, o
  Akzisemauer n&atilde;o tinha grande significa&ccedil;&atilde;o militar, mas servia fundamentalmente
  ao controle do com&eacute;rcio, embora tamb&eacute;m fosse utilizado para evitar deser&ccedil;&otilde;es
  dos soldados berlinenses. Mumford (1982: 340) salienta que a muralha n&atilde;o
  constitu&iacute;a um obst&aacute;culo intranspon&iacute;vel ao processo de expans&atilde;o das cidades
  medievais e que a simples demoli&ccedil;&atilde;o e reconstru&ccedil;&atilde;o permitia estender seus
  limites, garantindo espa&ccedil;o interior: "as ruas circulares de muitas cidades
  medievais testemunham, como os an&eacute;is das &aacute;rvores, os per&iacute;odos sucessivos de
  crescimento, assinalados por amplia&ccedil;&otilde;es da muralha".
<br/>
  O Akzise era um
  imposto cobrado para a introdu&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s dos 18 port&otilde;es alfandeg&aacute;rios
  (Zolltoren) de Berlim, de mercadorias. Atrav&eacute;s dos port&otilde;es, todo o tr&acirc;nsito
  para dentro e fora da cidade era controlado. Judeus somente podiam entrar ou sair
  da cidade pelos port&otilde;es Rosenthaler (Rosenthaler Tor), ao norte, e pelo
  Hallesche Tor, ao sul, tendo que se identificar com documentos. Diferentemente
  do muro constru&iacute;do em 1961, no entanto, as antigas muralhas de Berlim
  inscreviam-se na paisagem urbana como um s&iacute;mbolo t&atilde;o "natural" como as torres
  das igrejas e n&atilde;o cumpriam apenas fun&ccedil;&otilde;es militares, mercantis ou mesmo de
  integra&ccedil;&atilde;o interna de seus habitantes. Mumford (1982: 331) salienta que "o
  esp&iacute;rito medieval confortava-se num universo de n&iacute;tidas defini&ccedil;&otilde;es, s&oacute;lidas
  paredes e vistas limitadas: o pr&oacute;prio c&eacute;u e o inferno tinham os seus contornos
  circulares. Muralhas dos costumes delimitavam as classes econ&ocirc;micas e as
  conservavam em seus lugares". Mumford coloca tamb&eacute;m em relevo o significado
  psicol&oacute;gico da muralha, no sentido de esta criar um sentimento de unidade e
  seguran&ccedil;a (Idem, Ibidem). Indissoci&aacute;veis da mesma, os port&otilde;es, mais do que
  meras aberturas, eram um "ponto de encontro de dois mundos", o rural e o
  urbano, o interior e o exterior: eram, al&eacute;m de um arco triunfal,
  simultaneamente "uma ag&ecirc;ncia aduaneira, um departamento de passaportes e um
  ponto de controle de imigra&ccedil;&atilde;o" (Idem, Ibidem). 
  <br/>
  O crescimento
  urbano na primeira metade do s&eacute;culo XIX levou &agrave; expans&atilde;o do Akzisemauer, que
  foi fortalecido e aumentado em 4 metros na altura. O port&atilde;o de Brandenburgo
  (Brandenburger Tor), s&iacute;mbolo da divis&atilde;o alem&atilde; em 1961 e da unifica&ccedil;&atilde;o em 1989,
  foi representativamente reconstru&iacute;do na ocasi&atilde;o e monumentalizado. A partir de
  meados do s&eacute;culo XIX surgiram, do lado de fora do Akzisemauer, sub&uacute;rbios
  (Vorst&auml;dte) que ocupavam mais da metade da &aacute;rea interna murada, fato que levou
  &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de casas ao longo das estradas, nas imedia&ccedil;&otilde;es da cidade, para a
  cobran&ccedil;a do imposto Akzise (Steuerh&auml;user). Em 1860 o Akzisemauer foi abolido
  por decreto e entre os anos 1867 e 1870, demolido (Zschocke, 2007)[<a name="top3"></a><a href="#3">3</a>].   
  <br/>
  Ap&oacute;s a capitula&ccedil;&atilde;o,
  no dia 8 de maio de 1945, a Alemanha foi dividida pelos quatro poderes
  vitoriosos - Estados Unidos da Am&eacute;rica, Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, Inglaterra e Fran&ccedil;a -
  em quatro zonas de ocupa&ccedil;&atilde;o, de acordo com o Protocolo de Londres, assinado em
  setembro de 1944 (R&ouml;mer, Dreikandt, Wullenkord, 1987: 64). A divis&atilde;o da
  Alemanha reproduziu-se em miniatura com a divis&atilde;o da cidade de Berlim. Tomada
  pelas tropas sovi&eacute;ticas nos &uacute;ltimos dias antes do final da II Guerra, Berlim
  foi tamb&eacute;m submetida &agrave; administra&ccedil;&atilde;o comum dos quatro poderes, que ocuparam,
  cada um, um setor espec&iacute;fico da cidade, incrustada no cora&ccedil;&atilde;o da zona de
  ocupa&ccedil;&atilde;o sovi&eacute;tica. As singularidades espaciais, pol&iacute;ticas e jur&iacute;dicas, bem
  como aspectos relacionados &agrave; soberania, deram origem, j&aacute; em 1948, a in&uacute;meros
  problemas, que culminaram com a press&atilde;o exercida pela Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica para
  expulsar os demais poderes da administra&ccedil;&atilde;o da cidade, de modo a banir
  "enclaves ocidentais" de seu raio de influ&ecirc;ncias. Para tanto bloqueou, a partir
  de junho de 1948, a circula&ccedil;&atilde;o de pessoas e mercadorias entre Berlim e a
  Alemanha Ocidental, levando os demais poderes &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma ponte a&eacute;rea
  (Luftbr&uuml;cke) para prover os dois milh&otilde;es de berlinenses ocidentais, durante dez
  meses, de g&ecirc;neros vitais &agrave; sua reprodu&ccedil;&atilde;o. Diante disso, o bloqueio foi
  suspenso em maio de 1949. 
<br/>
  Neste mesmo ano, o
  setor oriental da cidade foi declarado, em contradi&ccedil;&atilde;o &agrave;s cl&aacute;usulas d    ]]></body>
<body><![CDATA[o
  Protocolo de Londres, como a capital da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica Alem&atilde; (DDR).
  Novas press&otilde;es se seguiram em 1958, objetivando transformar Berlim Ocidental em
  uma &aacute;rea livre do ponto de vista militar, encontrando forte resist&ecirc;ncia entre
  os poderes ocidentais. J&aacute; ainda antes da constru&ccedil;&atilde;o do muro, no final dos anos
  1950, a nova condi&ccedil;&atilde;o bic&eacute;fala da cidade come&ccedil;ara a se materializar, atrav&eacute;s da
  ruptura f&iacute;sica de servi&ccedil;os de &aacute;gua, luz, esgotos, liga&ccedil;&otilde;es telef&ocirc;nicas e
  transportes, num avan&ccedil;o progressivo de medidas que se iniciaram em 1945 com as
  linhas de demarca&ccedil;&atilde;o dos setores, sinalizadas com a fixa&ccedil;&atilde;o de estacas brancas
  e amarelas e com a inscri&ccedil;&atilde;o de marcas crom&aacute;ticas nas &aacute;rvores. Finamente, em 13
  de agosto de 1961, cem anos ap&oacute;s a queda do Akzisemauer, o muro, com uma
  extens&atilde;o de 162 quil&ocirc;metros e 296 torres de observa&ccedil;&atilde;o, seccionou a cidade em
  duas, separando a zona sovi&eacute;tica das demais zonas sob influ&ecirc;ncia dos aliados
  (Idem: 77-78; Menna Barreto, 1988: 25).
  <br/>
  Se &eacute; um fato
  consensual que a metr&oacute;pole produz condi&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas que levam &agrave; intensifica&ccedil;&atilde;o
  dos est&iacute;mulos nervosos e "resulta da altera&ccedil;&atilde;o brusca e ininterrupta entre
  est&iacute;mulos exteriores e interiores" (Simmel, 1976: 12), potencializando
  simultaneamente a vida mental dos indiv&iacute;duos que a habitam e, por decorr&ecirc;ncia, com
  uma enorme carga de dramaticidade (Mumford, 1982: 133)[<a name="top4"></a><a href="#4">4</a>],
  ent&atilde;o Berlim, ap&oacute;s a constru&ccedil;&atilde;o do muro em 1961 e tamb&eacute;m durante e ap&oacute;s a sua
  demoli&ccedil;&atilde;o em 1989, sintetiza de modo radical essas dram&aacute;ticas condi&ccedil;&otilde;es, j&aacute; que
  nela se deu um "conv&iacute;vio dilacerante entre entidades opostas" (Menna Barreto,
  1988: 70), como se estas entidades reciprocamente excludentes constitu&iacute;ssem
  dois "Yin e Yang desgovernados" (Idem: 69). 
  <br/>
  A quest&atilde;o espacial
  adquire em Berlim, material e simbolicamente, um significado &iacute;mpar na hist&oacute;ria
  das cidades, mesmo ap&oacute;s a queda do muro, ocorrida no final de 1989, e converge
  com a relev&acirc;ncia adquirida pela imagina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica no estudo das cidades, no
  campo das ci&ecirc;ncias sociais, nos &uacute;ltimos anos (Perulli, 2012: 13). &eacute; em Berlim,
  mais do que em qualquer outra cidade, que singularidades f&iacute;sicas espaciais
  adquirem tamanho relevo que se tornam instrumentos privilegiados para a
  dinamiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais e dimensionamento de comportamentos pr&aacute;ticos e
  pol&iacute;ticos de seus habitantes (Albernaz, 2007: 53), como se depreende das
  entrevistas por n&oacute;s realizadas com jovens alem&atilde;es e filhos de migrantes
  nascidos em Berlim, antes e ap&oacute;s a queda do muro em 1989, no lado ocidental da
  cidade[<a name="top5"></a><a href="#5">5</a>].
  Se &eacute; fato que os Estados Nacionais se constru&iacute;ram atrav&eacute;s da interven&ccedil;&atilde;o direta
  na organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano (Perulli, 2012: 62), as entrevistas que
  realizamos demonstram como as singularidades espaciais de Berlim tamb&eacute;m
  concorrem, sob condi&ccedil;&otilde;es determinadas por conflitos &eacute;tnicos que se refratam
  espacialmente, para estabilizar e legitimar o Estado Nacional em seu papel de
  administrador e regulador das diferen&ccedil;as. 
  <br/>
  O material que aqui
  se apresenta e se discute originou-se de pesquisa de doutorado por n&oacute;s
  realizada na Universidade Livre de Berlim antes, durante e ap&oacute;s o processo da
  unifica&ccedil;&atilde;o alem&atilde;. O trabalho
  final, intitulado "<i >Das Spiel der
    Identit&auml;ten in der Konstitution von 'Wir'-Gruppen. Ost-
      und westdeutsche Jugendliche und in Berlin geborene Jugendliche ausl&auml;ndischer
      Herkunft im gesellschaftlichen Umbruch</i>" (Soares do Bem, 1998)[<a name="top6"></a><a href="#6">6</a>], investigou o processo de constru&ccedil;&atilde;o da identidade de
  tr&ecirc;s grupos de jovens de ambos os sexos (alem&atilde;es ocidentais, orientais e de
  origem estrangeira nascidos em Berlim) antes, durante e ap&oacute;s a unifica&ccedil;&atilde;o
  alem&atilde;. Executada atrav&eacute;s de entrevistas de natureza qualitativa entre os anos
  1988 e 1994, a pesquisa analisou discursos de inclus&atilde;o e exclus&atilde;o relacionados
  a conte&uacute;dos sociais e pol&iacute;ticos, experi&ecirc;ncias e din&acirc;micas que marcaram o
  interdiscurso social da Rep&uacute;blica Federal Alem&atilde; no contexto do chamado "<i
>Asyl-Debatte</i>"[<a name="top7"></a><a href="#7">7</a>]. A
  constru&ccedil;&atilde;o flex&iacute;vel de inimigos entre os tr&ecirc;s grupos de jovens, num momento
  marcado pela reestrutura&ccedil;&atilde;o social e espacial de fronteiras na Rep&uacute;blica
  Federal Alem&atilde; e em Berlim, constituiu-se como mecanismo central de seu processo
  de constru&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria. Por uma quest&atilde;o de recorte, iremos tratar aqui
  somente das din&acirc;micas relacionadas &agrave;s s&eacute;ries de entrevistas realizadas com Alex
  e Erhan no lado ocidental da cidade (West-Berlin).
      <p>&nbsp;</p>
  <b ><font size="3">Revolta e
  autoritarismo entre jovens no bairro de Kreuzberg</font></b>
  <br/> 
  <br/>
  A pesquisa emp&iacute;rica
  foi iniciada em 1988 em uma Escola Modelo no bairro de Kreuzberg (West-Berlin).
  Kreuzberg foi, at&eacute; a reforma administrativa urbana de 2001, um bairro
  independente e, ap&oacute;s a reforma, foi fundido com o antigo bairro Friedrichshain,
  formando atualmente o bairro Friedrichshain-Kreuzberg. O bairro situa-se
  geograficamente no centro da cidade. Ap&oacute;s a constru&ccedil;&atilde;o do muro, em 1961,
  tornou-se um bairro "perif&eacute;rico", conforme se pode verificar na <a href="/img/revistas/cct/n26/n26a05f1.jpg">figura 1</a>), e
  atraiu, por decorr&ecirc;ncia, um grande contingente de migrantes, principalmente de
  origem turca. Sintomaticamente uma das linhas de metr&ocirc; que terminava na
  Schlesisches Tor era ironicamente chamada de "The Orient Express" (Menna
  Barreto, 1988: 48). Por ocasi&atilde;o da pesquisa, o bairro era composto por um ter&ccedil;o
  de migrantes. A queda do muro, em 1989, provocou a revaloriza&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria do
  bairro e desencadeou processos de gentrifica&ccedil;&atilde;o (Zukin, 1993), que produziram
  efeitos desestruturantes na vida de sua popula&ccedil;&atilde;o, preponderantemente de baixa
  renda. 
    
<p>&nbsp;</p>
<a name="f1"></a><a href="/img/revistas/cct/n26/n26a05f1.jpg">Figura 1</a> 
     
<p>&nbsp;</p>

  Revoltas podem &agrave;s vezes adquirir formas perigosas, mas n&atilde;o no sentido de que os revoltosos devam
  temer as classes dominantes, sen&atilde;o por que eles podem se enredar exatamente em
  estruturas de pensamento e a&ccedil;&atilde;o contr&aacute;rias ao que de fato desejam negar. Paul Willis
  (1982) demonstrou, em pesquisa realizada com jovens oriundos da classe
  trabalhadora numa cidade industrial inglesa, que estes, atrav&eacute;s de sua
  resist&ecirc;ncia contra aquilo que identificavam como exig&ecirc;ncias alienadas e
  promessas de realiza&ccedil;&atilde;o que julgavam bastante improv&aacute;veis (como, por exemplo, a
  ascens&atilde;o social), impostas pela escola atrav&eacute;s do discurso da mobilidade
  social, acabavam por se condenarem a permanecer imobilizados em suas posi&ccedil;&otilde;es
  de classe. A auto-identifica&ccedil;&atilde;o desses jovens com o processo de trabalho
  n&atilde;o-qualificado decorria, entre outros fatores, de um projeto de identidade
  ancorado na cultura da classe trabalhadora a que pertenciam e que mensurava
  como superior a corporalidade masculina inscrita no processo de trabalho
  fabril, contra as profiss&otilde;es t&iacute;picas da classe m&eacute;dia, por eles consideradas
  "efeminadas". Evidenciou-se que o modelo interpretativo desses jovens fora
  extra&iacute;do da cultura dos trabalhadores daquela localidade, que forneceu os
  crit&eacute;rios subjetivos para as transposi&ccedil;&otilde;es culturais, atrav&eacute;s das quais as suas
  prec&aacute;rias chances em um mercado de trabalho bastante saturado parecia-lhes n&atilde;o
  apenas suport&aacute;veis, como tamb&eacute;m resultado de sua pr&oacute;pria escolha e
  determina&ccedil;&atilde;o. 
  <br/>
  Este tamb&eacute;m &eacute; um
  aspecto central da entrevista realizada com Alex, um jovem alem&atilde;o "ocidental" e
  Erhan (um jovem de origem turca nascido em Berlim)[<a name="top8"></a><a href="#8">8</a>] em
  junho de 1991, ambos na ocasi&atilde;o com 16 anos de idade e igualmente oriundos de
  fam&iacute;lias de baixa renda, numa Escola Modelo no bairro de Kreuzberg. Nessa
  escola podia-se verificar uma interessante invers&atilde;o: 70% dos jovens alunos eram
  oriundos de fam&iacute;lias migrantes e a minoria era composta por alunos alem&atilde;es
  ocidentais, de ambos os sexos. A id&eacute;ia de realizar a pesquisa nesta escola
  fascinou-nos, a princ&iacute;pio, de um lado, por permitir investigar as formas de
  representa&ccedil;&atilde;o da sociedade, cultura e pol&iacute;tica alem&atilde;s por um grupo bastante
  discriminado, como os jovens descendentes de fam&iacute;lias migrantes, num contexto
  em que deixavam a condi&ccedil;&atilde;o de minoria para constitu&iacute;rem a maioria. De outro
  lado, consideramos tamb&eacute;m significativa a oportunidade de poder avaliar o
  alcance e os limites do projeto pedag&oacute;gico desenvolvido por esta escola, que
  colocava naquele momento em execu&ccedil;&atilde;o um modelo de "educa&ccedil;&atilde;o intercultural"[<a name="top9"></a><a href="#9">9</a>]. 
  <br/>
  A an&aacute;lise do
  projeto pedag&oacute;gico <i >Konzeption einer
    stadtteilorientierten Modellschule f&uuml;r den Standort Block 129 in Kreuzberg</i>[<a name="top10"></a><a href="#10">10</a>],
  produzido pela Escola Modelo, evidenciou em v&aacute;rios aspectos o fracasso da
  escola no sentido de desenvolver concep&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas adequadas para a efetiva&ccedil;&atilde;o
  de uma pr&aacute;tica educativa intercultural. Deparamo-nos, de imediato, com uma
  concep&ccedil;&atilde;o bastante estreita da cultura no projeto pedag&oacute;gico da Escola Modelo,
  que em v&aacute;rios pontos se assemelhava &agrave; concep&ccedil;&atilde;o inscrita na restritiva Pol&iacute;tica
  de Estrangeiros (<i >Ausl&auml;nderpolitik</i>)
  adotada pela Alemanha &agrave; &eacute;poca da pesquisa. Como na ent&atilde;o Pol&iacute;tica de
  Estrangeiros[<a name="top11"></a><a href="#11">11</a>],
  a concep&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica da Escola Modelo tratava os jovens nascidos em Berlim
  como "estrangeiros" e os focalizava preponderantemente sob a perspectiva do <i
>deficit</i>. Verificamos que ap&oacute;s a
  constata&ccedil;&atilde;o de que os "estrangeiros" constitu&iacute;am o "real problema", restava &agrave;
  Escola Modelo apenas a execu&ccedil;&atilde;o de "medidas pedag&oacute;gicas". Essas medidas, implementadas
  com base no modelo do <i >deficit</i>, tinham
  um condicionante fortemente euroc&ecirc;ntrico.
  <br/>
  As entrevistas
  demonstraram que os jovens alem&atilde;es ocidentais (de ambos os sexos) n&atilde;o
  conseguiram, no n&iacute;vel do discurso, livrarem-se dos clich&ecirc;s nacionalistas que
  dominavam o espa&ccedil;o sociocultural da sociedade mais ampla, embora estivessem
  recebendo influ&ecirc;ncias positivas do modelo de educa&ccedil;&atilde;o intercultural colocado em
  execu&ccedil;&atilde;o pela Escola Modelo. Estas influ&ecirc;ncias positivas foram detalhadamente
  avaliadas a partir dos mais elementares ind&iacute;cios. Observamos que mesmo no modo
  de ocuparem os espa&ccedil;os em sala de aula n&atilde;o havia a usual separa&ccedil;&atilde;o entre os
  dois grupos e que eles mantinham rela&ccedil;&otilde;es cordiais de amizade na vida privada.
  Apesar disso, pudemos verificar, como salientamos acima, que o projeto
  pedag&oacute;gico da referida escola acentuava demasiadamente a situa&ccedil;&atilde;o deficit&aacute;ria
  de muitos alunos "estrangeiros" e tratava diversas inst&acirc;ncias fundamentais para
  a concretiza&ccedil;&atilde;o de seu trabalho, como a fam&iacute;lia, o bairro e os grupos
  informais, como inst&acirc;ncias a-hist&oacute;ricas, silenciando-se tamb&eacute;m diante de
  quest&otilde;es econ&ocirc;micas, pol&iacute;ticas e ideol&oacute;gicas. 
  <br/>
  Al&eacute;m dos aspectos
  apontados, um outro problema identificado foi a fixa&ccedil;&atilde;o da concep&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica
  da Escola Modelo na diferen&ccedil;a, fazendo-a cristalizar-se como um eixo central a
  partir do qual se davam as orienta&ccedil;&otilde;es para a a&ccedil;&atilde;o entre os jovens. N&atilde;o &eacute; por outra
  raz&atilde;o que as mesmas formas de argumenta&ccedil;&otilde;es etnicistas fizerem-se tamb&eacute;m
  presentes nos discursos dos jovens oriundos de fam&iacute;lias migrantes. Estes n&atilde;o
  encontravam um clima favor&aacute;vel &agrave; discuss&atilde;o de sua real situa&ccedil;&atilde;o, o que os
  levava a uma permanente idealiza&ccedil;&atilde;o da p&aacute;tria de origem (dos pais). Apesar do
  esfor&ccedil;o dos jovens alem&atilde;es e "estrangeiros" em "penetrarem" criticamente as
  rela&ccedil;&otilde;es sociais, eles acabavam por argumentar de modo reducionista sempre que
  esbarravam nas codifica&ccedil;&otilde;es culturais institucionalizadas sobre a complexa
  rela&ccedil;&atilde;o inter-&eacute;tnica, de modo que n&a    tilde;o conseguiam compreender as semelhan&ccedil;as
  estruturais de fato existentes entre eles, ou seja, o fato de se situarem,
  ambos, nos estratos mais baixos da sociedade. Apesar da cria&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia
  positiva para as diferen&ccedil;as culturais na pr&aacute;tica pedag&oacute;gica da Escola Modelo,
  os jovens alem&atilde;es e "estrangeiros" n&atilde;o tiveram a oportunidade de desenvolver
  uma consci&ecirc;ncia ativa para as semelhan&ccedil;as estruturais (id&ecirc;ntica posi&ccedil;&atilde;o na
  hierarquia social), refinando seus sentidos para a percep&ccedil;&atilde;o das desigualdades
  institucionalizadas e para a rejei&ccedil;&atilde;o das injusti&ccedil;as sociais.
  <br/>
  Em di&aacute;logos
  registrados antes da queda muro com Alex e Erhan, "falsos turcos" ocupavam o
  centro do discurso de Alex e suas cr&iacute;ticas dirigiam-se tanto contra o
  hipot&eacute;tico direito de voto para estrangeiros como contra os nazis. Ele temia
  que atrav&eacute;s do direito ao voto para estrangeiros, "falsos" estrangeiros
  pudessem tomar o poder e fazer leis "imposs&iacute;veis". Erhan, por sua vez, teve uma
  performance bastante limitada durante a entrevista, at&eacute; porque Alex o
  interrompia frequentemente, impedindo-o de manifestar integralmente suas
  posi&ccedil;&otilde;es e por esta raz&atilde;o ele acabou adotando um comportamento confirmador da
  fala de Alex. Ap&oacute;s a queda do muro, Erhan afirmou que vivia em paz antes da
  chegada dos "Ossis" (como s&atilde;o chamados pejorativamente os alem&atilde;es "orientais").
  Esta posi&ccedil;&atilde;o diferia de suas queixas sobre a vida dif&iacute;cil como "estrangeiro",
  em di&aacute;logos registrados antes da queda do muro. Antes da queda do muro, tanto
  Alex como Erhan n&atilde;o diferenciavam entre alem&atilde;es ocidentais e orientais.
  <br/>
  As entrevistas
  foram registradas em s&eacute;ries temporalmente diferenciadas. Na &uacute;ltima s&eacute;rie de
  entrevistas realizadas com os dois jovens, deslocam-se os medos manifestos por
  eles. O problema para Alex n&atilde;o era mais constitu&iacute;do pela presen&ccedil;a de
  "estrangeiros" e nazis, mas de nazis e "Ossis" e estava relacionado &agrave; abertura
  do muro e &agrave; circula&ccedil;&atilde;o de alem&atilde;es orientais pelas ruas, bem como  &agrave; crescente concorr&ecirc;ncia nos mercados de
  trabalho e imobili&aacute;rio. Neste contexto, ele afirmou que "pode parecer burrice,
  mas Kreuzberg nos pertence! A n&oacute;s, jovens, que aqui vivem, mas n&atilde;o aos nazis,
  eles n&atilde;o tem nada que procurar aqui". 
    <p>&nbsp;</p>
</font>
    <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b >A constru&ccedil;&atilde;o flex&iacute;vel de inimigos</b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s a queda do muro,
  Alex demonstra sua solidariedade para com os "estrangeiros" na forma de amea&ccedil;as
  contra os nazis. Ao mesmo tempo ele explicita seu &oacute;dio contra os "Ossis", que
  s&atilde;o por ele identificados em v&aacute;rias passagens da entrevista como sendo os
  pr&oacute;prios nazis. Seu discurso foi constru&iacute;do a partir dessa polaridade. Atr&aacute;s de
  sua fala ocultava-se o medo diante da crescente concorr&ecirc;ncia no mercado de
  trabalho. A equipara&ccedil;&atilde;o dos "Ossis" aos nazis servia para conferir uma forma
  negativa aos novos concorrentes do leste e, com isso, justificar a sua
  exclus&atilde;o. O concorrente era transformado num inimigo, cuja presen&ccedil;a significava
  uma amea&ccedil;a para todos os membros da sociedade. Organizava-se, assim, uma
  transposi&ccedil;&atilde;o de sentido: uma vez que a concorr&ecirc;ncia em toda sociedade capitalista
  expressa um "momento leg&iacute;timo" da luta pela sobreviv&ecirc;ncia, precisam os novos
  concorrentes serem transformados em "ileg&iacute;timos feridores de regras" (Hoffmann;
  Even, 1984: 172), ou seja, em inimigos, para que se possa fugir do "beco sem
  sa&iacute;da" da inseguran&ccedil;a por eles provocada.
    <br/>
  Na medida em que
  Alex transformava os "Ossis" em instrumentos para a harmoniza&ccedil;&atilde;o das
  contradi&ccedil;&otilde;es sociais, confundia-se sua percep&ccedil;&atilde;o da realidade. Em uma passagem
  da entrevista ele afirmou que os "Ossis" roubavam os espa&ccedil;os de trabalho em
  Berlim ocidental - fato que expressava uma experi&ecirc;ncia real por ele vivida -,
  em outras passagens argumentou que eles utilizavam falsos atestados m&eacute;dicos
  para se furtarem ao trabalho, enquanto os alem&atilde;es ocidentais precisavam
  trabalhar para pagar impostos e beneficiar, com o seu suor, os "que est&atilde;o l&aacute; do
  outro lado". A tentativa de Alex de definir a si pr&oacute;prio e aos seus inimigos no
  novo contexto ilustra como a crise desencadeada a partir de uma nova
  configura&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o historicamente tensa entre o leste e o oeste &eacute;
  percebida, e demonstra como as ideologias reagem de modo sens&iacute;vel &agrave;s din&acirc;micas
  pol&iacute;ticas.
    <p>&nbsp;</p>
  </font>
    <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b >Masculinidade e viol&ecirc;ncia</b></font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Eu sou da opini&atilde;o,
  e isso eu digo abertamente, se eu encontrar um nazi que me provoca, na rua, dou
  nele umas boas porradas": Em v&aacute;rias passagens da entrevista Alex demonstrava
  sua prontid&atilde;o para a confronta&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica. A viol&ecirc;ncia parecia ser uma forma de
  a&ccedil;&atilde;o que provocava a sua masculinidade. Parecia que ele, ao descrever o
  confronto (real ou imagin&aacute;rio) com um nazi, concentrava-se mais no ato da
  viol&ecirc;ncia do que no sentido de sua a&ccedil;&atilde;o e o &oacute;dio aparentava ser produzido pela
  pr&oacute;pria viol&ecirc;ncia, sem uma rela&ccedil;&atilde;o mais profunda com o objeto emp&iacute;rico: "se os
  nazis querem porrada, ent&atilde;o eles a t&ecirc;m... e assim surge sempre mais &oacute;dio". Ele
  n&atilde;o se colocava como sujeito de seu &oacute;dio, o &oacute;dio era o pr&oacute;prio sujeito, "o &oacute;dio
  se constr&oacute;i nele" (Leiprecht, 1990: 315).
    <br/>
  A for&ccedil;a masculina
  de Alex adquiria mesmo fei&ccedil;&otilde;es de superioridade &eacute;tnica, quando afirmava que os
  "estrangeiros" projetavam sua frustra&ccedil;&atilde;o contra pessoas mais jovens ou fracas e
  temiam os nazis, diferentemente dele que, ao v&ecirc;-los desacompanhados, os atacava
  sem cerim&ocirc;nia. A corporeidade transformava-se numa forma de apropria&ccedil;&atilde;o de
  realidade, numa forma de resistir &agrave; subalternidade (Becker, May, 1985:170).
  Essas formas de intera&ccedil;&atilde;o fortemente ancoradas no corpo funcionam tamb&eacute;m como
  instrumento para a incorpora&ccedil;&atilde;o (ou fixa&ccedil;&atilde;o) dos jovens no mundo do trabalho
  manual. Demonstra-se assim a exist&ecirc;ncia de uma ressignifica&ccedil;&atilde;o de coa&ccedil;&otilde;es
  t&iacute;picas da cultura do mundo fabril, que s&atilde;o transformadas em confronta&ccedil;&otilde;es
  heroicas com todos os tipos de opositores e inimigos constru&iacute;dos (idem: 169).
</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <p>&nbsp;</p>
  </font>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b ><font size="3">For&ccedil;a e fragilidade da imediaticidade</font></b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As rela&ccedil;&otilde;es
  objetivas no espa&ccedil;o vital dos jovens passaram a ser determinadas por novas e
  amea&ccedil;adoras dimens&otilde;es e isso exigia a reestrutura&ccedil;&atilde;o do sentido que atribu&iacute;am
  aos diferentes grupos sociais: "os nazis que t&iacute;nhamos antes da queda do muro em
  Berlim, n&oacute;s os t&iacute;nhamos sob controle". "Ossis", por sua vez, eram aqueles que
  "roubavam" espa&ccedil;os de trabalho e moradias. Eles eram equiparados aos nazis, que
  invadem e ocupam o territ&oacute;rio. A insist&ecirc;ncia de Alex em afirmar que "Kreuzberg
  nos pertence" &eacute; uma forma de se defender contra a amea&ccedil;a do desemprego e da desclassifica&ccedil;&atilde;o
  social na forma da apropria&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio. Mas o territ&oacute;rio, conquistado
  dessa maneira, transformava-se numa perigosa armadilha: as contradi&ccedil;&otilde;es que se
  apresentavam a Alex eram cognitivamente elaboradas "como se tivessem origem na
  praxis imediata e somente neste n&iacute;vel pudessem ser superadas" (Holzkamp, 1985:
  38, tradu&ccedil;&atilde;o livre). Como afirma Leiprecht (1990: 48, tradu&ccedil;&atilde;o livre),
  "problemas objetivos s&atilde;o transformados em ind&iacute;cios personificados e, como
  propriedades coisificadas, atribu&iacute;dos a grupos e pessoas. As causas dos
  conflitos sociais s&atilde;o localizadas em individualidades concretas".
</font></p>
<font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">
    <p>&nbsp;</p>
</font>
    <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b >A transforma&ccedil;&atilde;o no pr&oacute;prio inimigo</b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alex afirmou que os
  pr&oacute;prios nazis s&atilde;o culpados por s&ecirc;-lo e que estes n&atilde;o se integravam &agrave;
  "comunidade razo&aacute;vel" (<i >vern&uuml;nftige
    Gemeinschaft</i>) de Berlim ocidental. Podemos sintetizar essa representa&ccedil;&atilde;o
  com o conceito de pr&aacute;tica de normaliza&ccedil;&atilde;o (<i >Normalisierungspraxis</i>)
  (Haug, 1984: 250). Alex constr&oacute;i, atrav&eacute;s da figura depreciada do nazi, um
  quadro negativo a partir do qual, pelo avesso, o seu modo de vida apresenta-se
  como sendo o correto: "eles n&atilde;o aprendem a se adequar a n&oacute;s... eles s&atilde;o
  estranhos entre n&oacute;s". A exclus&atilde;o inclui o pr&oacute;prio Alex num sistema de regras
  que torna positiva a sua conformidade com o <i >status
    quo</i>, bloqueando a amplia&ccedil;&atilde;o de sua capacidade de a&ccedil;&atilde;o (<i >Handlungsf&auml;higkeit</i>). A exclus&atilde;o do "estranho", do qual Alex se
  distanciava para afirmar sua normalidade, transformava-se em autocondena&ccedil;&atilde;o.
    <br/>
  Os nazis s&atilde;o
  declarados, ap&oacute;s a queda do muro, como a causa dos problemas, assim como
  anteriormente eram os "falsos" turcos que, na vis&atilde;o de Alex, n&atilde;o se adaptavam &agrave;
  ordem social. Ambos os grupos devem ser deportados e os nazis levados &agrave; c&acirc;mara
  de g&aacute;s. Seja lembrado que na linguagem do Nacional-Socialismo o assassinato de
  milh&otilde;es de judeus e demais grupos era chamado de imigra&ccedil;&atilde;o, evacua&ccedil;&atilde;o,
  deporta&ccedil;&atilde;o (Craig, 1982: 361). Deporta&ccedil;&atilde;o, neste caso, significa "eutan&aacute;sia
  social", "cirurgia social", cuja finalidade &eacute; eliminar o tumor cancer&iacute;geno do
  seio social. A solu&ccedil;&atilde;o proposta por Alex n&atilde;o se diferenciava em nada daquela
  adotada pelos nazis que ele afirmava rejeitar. O que se articulava como
  oposi&ccedil;&atilde;o aos nazis tornava-se exatamente o contr&aacute;rio, atrav&eacute;s dos meios
  totalit&aacute;rios pensados e em parte praticados (viol&ecirc;ncia f&iacute;sica) por Alex para
  combat&ecirc;-los - Alex transformava-se, assim, em seu pr&oacute;prio inimigo. Se o inimigo
  &eacute; constitu&iacute;do por elementos repugnantes que espelham, pelo negativo, a
  positividade normalizada de Alex, vemos que aqui as caracter&iacute;sticas que o
  definem (levar os exclu&iacute;dos da "razo&aacute;vel comunidade" &agrave; c&acirc;mara de g&aacute;s) s&atilde;o introjetadas por Alex e vividas como parte de sua pr&oacute;pria identidade.
</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <p>&nbsp;</p>
  </font>
    <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b >A
reconstru&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do muro e a constru&ccedil;&atilde;o da subalternidade</b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"De algum modo a
  gente deveria encontrar uma solu&ccedil;&atilde;o... Por mim, construir um novo muro, onde os
  nazis vivessem dentro". Alex parecia acreditar que o retrocesso hist&oacute;rico era a
  &uacute;nica forma de solucionar os conflitos. Tornou-se evidente, ao longo de v&aacute;rias entrevistas
  realizadas, que para ele o processo de transforma&ccedil;&atilde;o manifestava-se, de modo
  privilegiado, em formas regressivas: em uma passagem, ele invocava a pol&iacute;cia
  para acabar com a criminalidade em seu bairro; em outra, pleiteava a puni&ccedil;&atilde;o
  dos nazis com surras e c&acirc;maras de g&aacute;s; em outra entrevista, ele afirmava que o
  racismo n&atilde;o deveria existir e que as pessoas deveriam aprender a reprimir tais
  sentimentos. Agora ele quer negar a hist&oacute;ria pleiteando a constru&ccedil;&atilde;o de um novo
  muro. Os elementos da realidade de Alex pareciam perder suas caracter&iacute;sticas
  amea&ccedil;adoras somente quando eram objetos de algum poder ordenador. Mas este
  poder ordenador apresentava-se a ele tamb&eacute;m em uma forma pouco confi&aacute;vel: "os
  pol&iacute;ticos deveriam ter feito algo, reconstru&iacute;do a economia para eles ("Ossis")
  e ent&atilde;o aberto o muro. Isso se deu de um modo incontrol&aacute;vel, o muro foi aberto
  de um dia para o outro (...). Os pol&iacute;ticos foram muito burros". 
    <br/>
  Parece que o pre&ccedil;o
  da unifica&ccedil;&atilde;o somente agora se tornara vis&iacute;vel, por&eacute;m como efeito de uma
  misteriosa incompet&ecirc;ncia. N&atilde;o parecia existir para Alex uma vontade pol&iacute;tica e
  muito menos interesses econ&ocirc;micos entre a elite dominante. Os pol&iacute;ticos foram
  por ele vistos como sendo muito burros para perceberem que ele poderia correr o
  risco da pauperiza&ccedil;&atilde;o. A pol&iacute;tica transformava-se, assim, em uma esfera
  completamente aut&ocirc;noma, contra a qual Alex desenvolvia um comportamento
  resignado: "n&atilde;o podemos nada, diante do que os pol&iacute;ticos, l&aacute; em cima, fazem".
  Mesmo assim, sua posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era unilateral. Contra as pessoas "do outro lado"
  ele afirmava, em outra passagem, n&atilde;o ter nada, mas sim contra a pol&iacute;tica
  praticada: "de algum jeito a gente tem que se compor com eles (com os "Ossis"),
  eu n&atilde;o os culpo, eu culpo o governo, a gente tem que tentar ir em frente da
  melhor maneira, eles s&atilde;o afinal alem&atilde;es, e estavam emparedados". 
  <br/>
  Esse "n&oacute;s" que &eacute;
  discursivamente produzido por Alex n&atilde;o parecia, no entanto, conter elementos de
  oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; funcionaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Ele n&atilde;o o via como for&ccedil;a pol&iacute;tica e como
  forma ativa de oposi&ccedil;&atilde;o, mas como uma unidade meramente residual, situada num
  plano inferior, sem conex&atilde;o com o todo, afinal esse momento de solidariedade
  construiu-se somente com a constata&ccedil;&atilde;o de que "eles", os "Ossis", eram tamb&eacute;m
  alem&atilde;es. Por esta raz&atilde;o, em outros fragmentos discursivos, esse "n&oacute;s" perde
  seus elementos coesivos e s&oacute; adquire materialidade como objeto da
  instrumentaliza&ccedil;&atilde;o "de cima": "eu acho que, com os impostos, eles (os
  pol&iacute;ticos) querem de n&oacute;s, berlinenses ocidentais, apenas dinheiro para ajudar a
  eles (os "Ossis"), l&aacute; do outro lado (...). Qu&atilde;o frequentemente n&oacute;s, berlinenses
  ocidentais, precisamos enfiar a m&atilde;o no bolso para ajudar esse ou aquele
  grupo!". 
  <br/>
  V&ecirc;-se que, quando o
  pertencimento foi percebido a partir da unidade biol&oacute;gica ("eles s&atilde;o tamb&eacute;m
  alem&atilde;es"), foi poss&iacute;vel a Alex construir um "n&oacute;s" que inclu&iacute;a os alem&atilde;es
  orientais e assim colocar-se em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica, constitu&iacute;da por "burros"
  pol&iacute;ticos. Em outra passagem, constr&oacute;i-se, no entanto, em sua fala, uma outra
  l&oacute;gica: "Os do leste, eles realmente pensaram que o governo de Berlim &eacute; de fato
  o melhor, por que n&oacute;s temos mais, n&oacute;s somos mais ricos do que eles". Aqui Alex
  se identificava com um "n&oacute;s" ideal, no qual o governo de Berlim tamb&eacute;m era
  inclu&iacute;do. Esse "n&oacute;s", que eliminava a fronteira vertical e inclu&iacute;a os "de cima"
  (o governo de Berlim) e os "de baixo", somente se construiu com a reiterada
  exclus&atilde;o dos "de fora", os "Ossis". Num momento Alex pensava o "n&oacute;s" como
  oposi&ccedil;&atilde;o formal ao poder "de cima", em outro como elemento de suspens&atilde;o das
  fronteiras sociais, ou seja, do antagonismo entre os "de cima" e os "de baixo".
  <br/>
  Em outra passagem
  da entrevista, Alex reclamou que os pol&iacute;ticos n&atilde;o davam a ele condi&ccedil;&otilde;es
  favor&aacute;veis para tomar decis&otilde;es acertadas na hora de votar: "Se eles dissessem a
  verdade, ent&atilde;o ter&iacute;amos maiores possibilidades para tomar decis&otilde;es". Na
  exig&ecirc;ncia de "verdade" aparece de modo impl&iacute;cito o conhecimento da fun&ccedil;&atilde;o da
  pol&iacute;tica: ela constr&oacute;i uma realidade que torna dif&iacute;cil reconhecer as reais
  rela&ccedil;&otilde;es de poder e as pr&oacute;prias possibilidades de a&ccedil;&atilde;o. Mas esse conhecimento
  permanece obliterado pela manuten&ccedil;&atilde;o de uma polariza&ccedil;&atilde;o naturalizada entre os
  "de cima" e os "de baixo", fazendo com que a pol&iacute;tica se transforme, assim, em
  mera t&eacute;cnica de esclarecimento: ou ela diz a "verdade", ou Alex se condena &agrave;
  imobilidade: "A n&oacute;s n&atilde;o &eacute; dada a chance de refletir direito sobre o que
  queremos", diz ele nos momentos finais da entrevista. A exist&ecirc;ncia individual e
  social de Alex, ou seja, a sua condi&ccedil;&atilde;o de sujeito, parecia assim se confirmar
  apenas na medida em que ele se colocava como predicado de um outro sujeito.
</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
  </font>
    <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b >Considera&ccedil;&otilde;es
finais</b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Crit&eacute;rios
  utilitaristas evidenciaram-se em quase todos os processos de constru&ccedil;&atilde;o de
  fronteiras (<i >Grenzziehungsprozesse</i>)
  entre os jovens, inclusive entre aqueles provenientes  da antiga Alemanha Oriental, cujas
  entrevistas n&atilde;o est&atilde;o sendo aqui focalizadas. A monetariza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es
  interpessoais fez com que os jovens percebessem seus interesses
  preponderantemente no plano econ&ocirc;mico. Isso coloca em evid&ecirc;ncia processos
  relacionados &agrave;s mudan&ccedil;as provocadas pela queda do muro e &agrave; refuncionaliza&ccedil;&atilde;o do
  espa&ccedil;o urbano, que aprofundaram din&acirc;micas atreladas &agrave; (re)privatiza&ccedil;&atilde;o de
  riscos sociais decorrentes da crise do Estado do Bem-Estar Social, &agrave;
  desregula&ccedil;&atilde;o e &agrave; racionaliza&ccedil;&atilde;o da economia. A esses aspectos soma-se a
  influ&ecirc;ncia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, que tratavam cotidianamente quest&otilde;es
  sociais embasados em cifras e impregnavam o interdiscurso social com argumentos
  fundados em esquemas do tipo custo-utilidade (Soares do Bem, 1998: 290). Tais
  aspectos descreviam n&atilde;o apenas press&otilde;es reais vivenciadas pelos jovens, mas
  condensavam-se, na forma do <i >habitus</i>,
  em suas pr&aacute;ticas culturais, cristalizando-se em suas consci&ecirc;ncias enquanto
  constructos ideol&oacute;gicos.
  <br/>
  A separa&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica,
  fortemente ancorada na cultura pol&iacute;tica e nas pr&aacute;ticas cotidianas da Alemanha,
  fez com que, em muitos aspectos, a inten&ccedil;&atilde;o dos jovens de resistir contra
  v&aacute;rias formas de instrumentaliza&ccedil;&atilde;o e dessolidariza&ccedil;&atilde;o, como se evidenciou
  atrav&eacute;s das perspectivas diferenciais e flex&iacute;veis de constru&ccedil;&atilde;o de fronteiras,
  bem como na luta pela apropria&ccedil;&atilde;o de territ&oacute;rio, fosse cooptada na base, antes
  que pudesse se desdobrar em for&ccedil;a social aut&ocirc;noma capaz de contribuir para
  ampliar a sua capacidade de a&ccedil;&atilde;o. O impulso para a apropria&ccedil;&atilde;o cognitiva das
  condi&ccedil;&otilde;es de exist&ecirc;ncia, vis&iacute;vel em v&aacute;rias passagens das entrevistas, foi
  deslocado pelos efeitos latentes do quadro social (<i >Gesellschaftsbild</i>) (Hoffmann, Even, 1984), da Alemanha, cuja
  caracter&iacute;stica central &eacute; fornecer modelos institucionalizados de solu&ccedil;&otilde;es de
  conflitos, que s&atilde;o apropriados pelos jovens e ocupados a partir da "l&oacute;gica
  &eacute;tnica" (etnicidade). Os elementos ideol&oacute;gicos inscritos nesta l&oacute;gica
  produziram efeitos "limitadores" mesmo nas tentativas de "penetra&ccedil;&atilde;o" cr&iacute;tica das
  rela&ccedil;&otilde;es sociais entre os jovens, deslocando-as e cooptando-as. Isso ficou
  vis&iacute;vel entre os jovens alem&atilde;es ocidentais, os quais, ap&oacute;s a unifica&ccedil;&atilde;o,
  fizeram alian&ccedil;as com os "estrangeiros", rompendo a l&oacute;gica de uma barreira
  central para o processo de integra&ccedil;&atilde;o social de migrantes, mas somente ao pre&ccedil;o
  da reiterada exclus&atilde;o dos alem&atilde;es orientais. 
  <br/>
  Demonstrou-se que,
  diante das mudan&ccedil;as hist&oacute;ricas desencadeadas pela queda do muro, a orienta&ccedil;&atilde;o
  dos jovens foi pontualmente alterada, sem que a estrutura de elabora&ccedil;&atilde;o
  subjetiva das rela&ccedil;&otilde;es sociais (Bents, Juelich, Oechsle, 1984) fosse
  substancialmente modificada. A exclus&atilde;o discursiva de um ou outro grupo social
  ficava sempre condicionada pela constela&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica concreta. Assim, a
  "estranheza" cultural das minorias &eacute;tnicas, t&atilde;o usual em tentativas de an&aacute;lises
  (que s&atilde;o de fato simplificadoras, quando n&atilde;o legitimadoras) do comportamento
  racista, perde completamente a sua for&ccedil;a explicativa: alem&atilde;es orientais ("eles
  tamb&eacute;m s&atilde;o alem&atilde;es"), podem, em constela&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas espec&iacute;ficas, ser
  transformados - como os "estrangeiros" - em objetos para a proje&ccedil;&atilde;o do medo e
  para a constru&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica e defensiva de fronteiras excludentes.
</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <p>&nbsp;</p>
</font>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&ecirc;NCIAS 
  </b></font>
    <br/> 
    <br/>
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  Maleque, <i >Espa&ccedil;o e cidade</i>. <i
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Letras, pp.42-56.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674690&pid=S2182-3030201300010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Becker, H., May, M.
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  D., Oechsle, M. (1984), â€žThematisierung und Reduktion als Grundstrukturen
subjektiver Verarbeitung", in R. Zoll (Hrsg.), <i >Hauptsache, ich habe meine Arbeit</i>. Frankfurt/M: Suhrkamp, pp.100-117.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674693&pid=S2182-3030201300010000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Bildungsmarkt e V.
  (s/d.), <i >Ansatz f&uuml;r die sozialp&auml;dagogische
Arbeit mit Jugendlichen im F&ouml;rderkurs. Manuskript</i>. Berlin: Bildungsmarkt e.V.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674695&pid=S2182-3030201300010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Craig, G. (1982), <i
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    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Haug, W.F. (1984), â€žAntisemitismus
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    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Holzkamp, K.
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    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Autor n&atilde;o
  identificado (1982), Konzeption einer Stadtteilorientierten Modellschule f&uuml;r
den Standort Block 129 in Kreuzberg, Manuskript, Berlin: Kreuzberg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674704&pid=S2182-3030201300010000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Leiprecht, R.
  (1990). "â€¦da baut sich ja in uns ein Hass aufâ€¦". Zur subjetiven Funktionalit&auml;t
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    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Menna Barreto, R.
  (1988), <i >Berlim. Um muro na cara.
Surrealismo e contra-senso na capital do desencontro</i>, S&atilde;o Paulo: Summus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674708&pid=S2182-3030201300010000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mumford, L. (1982), <i >A cidade na hist&oacute;ria: suas origens,
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    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Perulli, P. (2012), <i >Vis&otilde;es da cidade. As formas do mundo
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    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">R&ouml;mer, K., Dreikandt,
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Soares do Bem, A.
  (2013), <i >Paradoxos da Diferen&ccedil;a. Etnicidade,
inimifica&ccedil;&atilde;o e reconhecimento (Alemanha-Brasil)</i>, Curitiba: Appris.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674716&pid=S2182-3030201300010000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Soares do Bem, A.
  (2005), <i >A dial&eacute;tica do turismo sexual</i>,
Campinas: Papirus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674718&pid=S2182-3030201300010000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Soares do Bem, A.
  (1997), Das Spiel der Identit&auml;ten in der Konstitution Von "Wir"-Gruppen:
  Ost-und westdeutsche Jugendliche und in Berlin geborene Jugendliche
  ausl&auml;ndischer Herkunft im gesellschaftlichen Umbruch, Tese de Doutorado, Vol.
2. Berlin: Freie Universit&auml;t Berlin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674720&pid=S2182-3030201300010000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Soares do Bem, A.
  (1998), Das Spiel der Identit&auml;ten in der Konstitution Von "Wir"-Gruppen:
  Ost-und westdeutsche Jugendliche und in Berlin geborene Jugendliche
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Bern, New York, Paris, Wien: Peter Lang.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674722&pid=S2182-3030201300010000500018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Soares do Bem, A.
  (1993), "Educa&ccedil;&atilde;o e Reprodu&ccedil;&atilde;o do Racismo: As armadilhas dos modelos
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Soares do Bem, A.
  (1993a), "Para uma cr&iacute;tica da Pol&iacute;tica de Integra&ccedil;&atilde;o da segunda gera&ccedil;&atilde;o de
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Brasileiro de Estudos Latino Americano, pp.91-108.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674726&pid=S2182-3030201300010000500020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Simmel, G. (1976), "A
metr&oacute;pole e a vida mental", in G. Velho (Org.), <i >O fen&ocirc;meno urbano</i>, Rio de Janeiro: Zahar Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674728&pid=S2182-3030201300010000500021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Willis, P. (1982), <i
>SpaÃŸ am Widerstand</i>, Frankfurt: Syndikat.</font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Zschoke, H. (2007), <i >Die Berliner Akzisemauer. Die vorletzte
Mauer der Stadt</i>, Berlin: Story Verlag.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674731&pid=S2182-3030201300010000500023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Zukin, S. (1993), <i >Landscapes of Power</i>, Berkeley: University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1674733&pid=S2182-3030201300010000500024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->
  </div>
  </font></p>
  <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas 
</b></font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">The work
  presented here is the result of a long process of qualitative empirical
  research conducted between 1988 and 1994 in Berlin, as part of the requirements
  for a doctorate, conducted at the Institute of Social Sciences, Free University
  of Berlin, and completed in 1997. The original research was conducted between
  1988 and the fall of the wall in 1989, through series of interviews with young
  people of both sexes, among whom were young West Germans and migrants born in
  Berlin and also young people from East Germany between years 1989 and 1994.</font></p>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2"></a>[<a href="#top2">2</a>] Cf. <a href="http://de.wikipedia.org/wiki/C%C3%B6lln" target="_blank">http://de.wikipedia.org/wiki/C%C3%B6lln</a>, acesso em 06.03.2013.</font></p>
      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="3"></a>[<a href="#top3">3</a>] Cf. <a href="http://de.wikipedia.org/wiki/Berliner_Zollmauer" target="_blank">http://de.wikipedia.org/wiki/Berliner_Zollmauer</a>, acesso em 06.03.2013.</font></p>
      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="4"></a>[<a href="#top4">4</a>] "Tirem-se as ocasi&otilde;es dram&aacute;ticas da vida urbana, aquelas que
    se d&atilde;o na arena, no tribunal, no julgamento, no parlamento, no campo de
    esportes, na reuni&atilde;o do conselho, no debate, e metade das atividades essenciais
    da cidade desapareceriam e mais que metade de seus significados e valores
seriam postos de lado, sen&atilde;o anulados" (Mumford, 1982: 133).</font></p>
      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="5"></a>[<a href="#top5">5</a>] Entre 1991 e 1994 foram realizadas tamb&eacute;m 11 entrevistas
    no lado oriental da cidade, no bairro Lichtenberg. Assim como a pesquisa
    realizada em Berlim Ocidental, tamb&eacute;m a pesquisa em Berlim Oriental foi
    desenvolvida numa escola - a Bildungsmarkt e.V. A Bildungsmarkt &eacute; uma
    associa&ccedil;&atilde;o de interesse coletivo fundada por um grupo de pedagogos e
    capacitadores com a finalidade de profissionalizar os jovens -  nos setores administrativo-burocr&aacute;ticos e de
    eletrot&eacute;cnica - e fomentar a integra&ccedil;&atilde;o dos mesmos no mercado de trabalho.
    Assim como na Escola Modelo de Kreuzberg, os jovens s&atilde;o aqui tamb&eacute;m oriundos
    dos baixos estratos da popula&ccedil;&atilde;o. A an&aacute;lise do projeto pedag&oacute;gico da Escola
    Bildungsmarkt "<i >Ansatz f&uuml;r die
      Sozialp&auml;dagogische Arbeit mit Jugendlichen im F&ouml;rderkurs</i>" (s/d) ,
    evidenciou a mesma aus&ecirc;ncia de concep&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas aprofundadas identificada na
    Escola Modelo e um direcionamento bastante pragm&aacute;tico para quest&otilde;es
    relacionadas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria no contexto da Alemanha unificada, ao
    treinamento dos jovens para o tr&acirc;nsito nos diferentes &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, aos
    problemas dos jovens com o consumo de drogas e ao manuseio de dinheiro e riscos
    de endividamento, bem como aos problemas relativos &agrave; xenofobia, entre outros
(Op. Cit.: 2).</font></p>
      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="6"></a>[<a href="#top6">6</a>] Em tradu&ccedil;&atilde;o livre
    para Portugu&ecirc;s, "O jogo das identidades na constitui&ccedil;&atilde;o de processos grupais.
    Jovens alem&atilde;es ocidentais, orientais e de origem estrangeira nascidos em Berlim
no contexto de transforma&ccedil;&otilde;es sociais".</font></p>
      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="7"></a>[<a href="#top7">7</a>] O debate sobre o
    asilo pol&iacute;tico dominou o interdiscurso social da Alemanha nos anos
    imediatamente posteriores &agrave; unifica&ccedil;&atilde;o, principalmente entre 1991 e 1994 e foi
    marcado pela aten&ccedil;&atilde;o hist&eacute;rica dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o (incluindo inclusive
    &oacute;rg&atilde;os liberais de esquerda) &agrave; crescente imigra&ccedil;&atilde;o de exilados em busca de
    asilo. Permaneceu em pauta nesse per&iacute;odo a acusa&ccedil;&atilde;o de abuso do direito ao
    asilo (Asyl-Missbrauch), provocando, entre tantos fatores relacionados &agrave;s
    grandes transforma&ccedil;&otilde;es sociais ap&oacute;s a queda do muro de Berlim, a emerg&ecirc;ncia de
    uma onda de viol&ecirc;ncia de extrema direita contra exilados. As primeiras
    manifesta&ccedil;&otilde;es ocorreram em 1991 em Hoyerswerda e H&uuml;nxe; no ano de 1992, em
    Rostock e M&ouml;lln; em 1993, em Solingen e em v&aacute;rias outras cidades da Alemanha.
    Diante desse clima, a esfera pol&iacute;tico-institucional reagiu incluindo cl&aacute;usulas
    restritivas na legisla&ccedil;&atilde;o e levando, com isso, a uma guinada do espectro
pol&iacute;tico para a direita.</font>
      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="8"></a>[<a href="#top8">8</a>] Todos os trechos das entrevistas aqui citadas constam do
    volume da tese de doutorado citada. Cf. Soares do Bem (1998). Saliente-se que
    foram realizadas 14 entrevistas em Berlim Ocidental e que em todas elas
    din&acirc;micas bastante semelhantes &agrave;s apresentadas na s&eacute;rie de entrevistas
    realizadas com o alem&atilde;o (ocidental) Alex e o jovem de origem turca, Erhan,
    fizeram-se presentes. O material evidencia elementos promissores para a
    discuss&atilde;o das in&uacute;meras formas de transposi&ccedil;&otilde;es e deslocamentos constitutivos da
complexa articula&ccedil;&atilde;o entre a pol&iacute;tica, a cultura e a ideologia.  
  </font>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="9"></a>[<a href="#top9">9</a>] Cr&iacute;ticas detalhadas
    ao conte&uacute;do do projeto pedag&oacute;gico dessa Escola Modelo foram colocados &agrave;
    disposi&ccedil;&atilde;o dos leitores brasileiros atrav&eacute;s de uma publica&ccedil;&atilde;o na revista <i
>Educa&ccedil;&atilde;o e Sociedade</i>, em 1993 (Soares do
    Bem, 1993). No mesmo ano, publicamos, tamb&eacute;m em l&iacute;ngua portuguesa, uma cr&iacute;tica
    &agrave; pol&iacute;tica de integra&ccedil;&atilde;o da segunda gera&ccedil;&atilde;o de "estrangeiros" na Alemanha
    (Soares do Bem, 1993a). Material desenvolvido a partir desses trabalhos comp&ocirc;s,
    ainda, um dos cap&iacute;tulos do livro que publicamos em 2005, pela Editora Papirus,
    sob o t&iacute;tulo "A Dial&eacute;tica do Turismo Sexual", no qual analisamos aspectos
    hist&oacute;ricos da Alemanha no per&iacute;odo em que este pa&iacute;s teve col&ocirc;nias na &aacute;frica (Soares
    do Bem, 2005). An&aacute;lise detalhada dos paradoxos e contradi&ccedil;&otilde;es desse modelo de
  educa&ccedil;&atilde;o intercultural encontra-se em Soares do Bem (2013).
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<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="10"></a>[<a href="#top10">10</a>] Em tradu&ccedil;&atilde;o livre
  para Portugu&ecirc;s, "Concep&ccedil;&atilde;o da Escola Modelo orientada para o bairro de
Kreuzberg".</font>
    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="11"></a>[<a href="#top11">11</a>] A partir de 2005
    entrou em vigor a nova lei de migra&ccedil;&atilde;o (<i >Zuwanderungsgesetz</i>),
    que significou a aceita&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica da situa&ccedil;&atilde;o de migra&ccedil;&atilde;o no Alemanha,
    veementemente refutada nas d&eacute;cadas posteriores ao in&iacute;cio da migra&ccedil;&atilde;o no
    P&oacute;s-Guerra. O debate p&uacute;blico que levou a essas inova&ccedil;&otilde;es legais foi marcado por
    enorme polariza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica e &eacute; um processo ainda em curso. Os
    bloqueios para a participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos migrantes precisam ainda ser
    desconstru&iacute;dos e um novo habitus coletivo precisa ser consolidado (Soares do
    Bem, 2013: 223).</font>
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