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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira: um manifesto queer?]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade da Beira Interior Faculdade de Artes e Letras ]]></institution>
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<self-uri xlink:href="http://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582015000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582015000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582015000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O projecto artístico de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira inicia-se no final da década de 1990, a partir de um firme compromisso social: tem tanto de paródia como tem de imitação burlesca do sério. Interpreta os dados exteriores sociais e políticos, na sua investigação formal e conceptual, tentando afastar-se das recusas, por antecipação a eventuais processos de rejeição e censura, particularmente na questão homofóbica, recorrente na sua produção.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The artistic project of João Pedro Vale and Nuno Alexandre Ferreira starts at late 1990's, upon a firm social commitment: shows both a parody and a burlesque imitation of the serious. Reads the external social and political data in the formal and conceptual research, trying to steer clear of refusals, in anticipation of possible cases of rejection and censorship, particularly in the homophobic question, continuous in their production.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>      <p><b>Jo&atilde;o Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira: um manifesto queer? </b></p>     <p><b>Jo&atilde;o Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira: a queer manifesto? </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;s Herberto&#42; </b></p>     <p>&#42;Portugal, artista pl&aacute;stico. Licenciatura em Artes Pl&aacute;sticas/ Pintura, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL). Doutoramento em Belas-Artes/ Pintura, FBAUL.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade da Beira Interior (UBI), Faculdade de Artes e Letras, LabCom.IFP. Rua Marqu&ecirc;s D&#39;&Aacute;vila e Bolama. 6201-001 Covilh&atilde;, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O projecto art&iacute;stico de Jo&atilde;o Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira inicia-se no final da d&eacute;cada de 1990, a partir de um firme compromisso social: tem tanto de par&oacute;dia como tem de imita&ccedil;&atilde;o burlesca do s&eacute;rio. Interpreta os dados exteriores sociais e pol&iacute;ticos, na sua investiga&ccedil;&atilde;o formal e conceptual, tentando afastar-se das recusas, por antecipa&ccedil;&atilde;o a eventuais processos de rejei&ccedil;&atilde;o e censura, particularmente na quest&atilde;o homof&oacute;bica, recorrente na sua produ&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b></b> queer, hardcore, provoca&ccedil;&atilde;o, identidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>The artistic project of Jo&atilde;o Pedro Vale and Nuno Alexandre Ferreira starts at late 1990&#39;s, upon a firm social commitment: shows both a parody and a burlesque imitation of the serious. Reads the external social and political data in the formal and conceptual research, trying to steer clear of refusals, in anticipation of possible cases of rejection and censorship, particularly in the homophobic question, continuous in their production.</p>     <p><b>Keywords:</b> queer, hardcore, provocation, identity.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Contexto</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A d&eacute;cada de 1990 reflecte socialmente uma &eacute;poca emergente para o espa&ccedil;o <i>queer</i>. Entendido como uma categoria de identidade que recusava uma carga negativa, o voc&aacute;bulo foi eficaz no modo como era utilizado numa onda de produ&ccedil;&atilde;o cultural, particularmente nas artes visuais e no cinema. Um dos grandes compromissos da agenda social e pol&iacute;tica <i>queer</i> neste per&iacute;odo foi precisamente o reinventar de conceitos de representa&ccedil;&atilde;o subversivos, contaminando toda uma cultura dominante, que precisamente inventou o termo como cal&atilde;o homof&oacute;bico (Cunningham, 2009).</p>     <p>Os anos 90 s&atilde;o particularmente fecundos na separa&ccedil;&atilde;o dos g&eacute;neros, sem perderem de vista os objectivos particulares, refor&ccedil;ando identidades individuais e colectivas. Na an&aacute;lise das conquistas sociais que as comunidades LGBT t&ecirc;m alcan&ccedil;ado, desde <i>Stonewall</i>, em 1969, na sua luta por uma igualdade de direitos civis, podemos afirmar que a quest&atilde;o da homossexualidade ainda n&atilde;o &eacute; uma coisa pac&iacute;fica (Davis & Heilbroner, 2011). Em consequ&ecirc;ncia, a exist&ecirc;ncia da homossexualidade tamb&eacute;m prop&otilde;e a homofobia, nas op&ccedil;&otilde;es, na liberdade de express&atilde;o e nas censuras (Bran, 2005).</p>     <p>Nas artes pl&aacute;sticas, s&atilde;o muitas as refer&ecirc;ncias culturais que a partir dos finais da d&eacute;cada de 1960 tomam forma no mundo anglo-sax&oacute;nico e se estendem al&eacute;m Atl&acirc;ntico at&eacute; aos EUA, e que da&iacute; se espalham e retornam para o actual espa&ccedil;o cultural (Quinlan & Arenas, 2002), apesar do actual contexto de globalidade ser insuficiente para romper com as barreiras morais enraizadas nos contextos hist&oacute;ricos, pol&iacute;ticos e religiosos das sociedades democr&aacute;ticas ocidentais.</p>     <p>Por sua vez, o espa&ccedil;o ib&eacute;rico, com forte tradi&ccedil;&atilde;o religiosa, permite poucas manifesta&ccedil;&otilde;es do g&eacute;nero, destacando-se apenas em 2005, a exposi&ccedil;&atilde;o <i>Radicais Libres, Experi&ecirc;ncias Gays e L&eacute;sbicas na Arte Peninsular</i>, apresentada em Santiago de Compostela (Bran, 2005), configurando-se como a primeira grande exposi&ccedil;&atilde;o realizada na Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica, &agrave; volta do universo LGBT dos dois pa&iacute;ses, destacando-se do conjunto significativo de artistas portugueses presentes, a obra de Jo&atilde;o Pedro Vale, com abordagens pl&aacute;sticas cujas interroga&ccedil;&otilde;es se desenvolvem fortemente apoiadas numa ideia de identidade, nas possibilidades que os diversos contextos sociais permitem neste sentido. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Identidade / Hardcore</b></p>     <p>O seu trabalho apresenta imagens ou objectos que, mesmo desprovidos na sua apar&ecirc;ncia de caracter&iacute;sticas formais sexualmente expl&iacute;citas, incorpora elementos conceptuais sugestivos de uma identidade <i>queer</i>. O expl&iacute;cito nem sempre &eacute; o que aparenta, servindo-se mais da ironia e da provoca&ccedil;&atilde;o. As quest&otilde;es relativas &agrave; identidade de g&eacute;nero estendem-se irremediavelmente aos paradigmas da identidade nacional, pela evidente exist&ecirc;ncia dos recursos culturais que produzem determinados dados formais e que se rev&ecirc;em nos mecanismos que os proporcionam (Lapa, 2008). A pesquisa e recolha para a concep&ccedil;&atilde;o de determinada obra, assume uma metodologia semelhante &agrave; dos trabalhos de pesquisa etnogr&aacute;ficos, com toda a ac&ccedil;&atilde;o de contacto do trabalho de campo e consequente teoriza&ccedil;&atilde;o, como podemos observar em <i>Can I Wash You? </i> (<a href="#f1">Figura 1</a>), de 1999, escultura produzida com o tradicional sab&atilde;o azul e branco, bastante reconhec&iacute;vel no territ&oacute;rio portugu&ecirc;s, ou <i>Caravela #1, </i> de 2006, que recorre aos elementos gr&aacute;ficos constitutivos dos cigarros &#39;Portugu&ecirc;s Suave&#39;, que no passado foi uma popular marca portuguesa e assumiu um protagonismo repetido, ao ser frequentemente utilizada em conota&ccedil;&otilde;es variadas e relativas tanto a um estilo arquitect&oacute;nico lusitano de qualidade duvidosa, como ao eventual estado de esp&iacute;rito morno dos cidad&atilde;os nacionais. Na leitura de como os dados locais e produtos populares e comuns contribuem para a forma&ccedil;&atilde;o da sua obra art&iacute;stica, encontramos tamb&eacute;m caracter&iacute;sticas cuja rela&ccedil;&atilde;o depende do conhecimento dos contextos e n&atilde;o pode ser vista de um modo isolado. Neste sentido, <i>Can I Wash You? </i> &eacute; uma obra que absorve caracter&iacute;sticas <i>queer</i>, apenas pela associa&ccedil;&atilde;o que fazemos dela ao seu autor. Para este, &eacute; primeiramente sab&atilde;o, acrescentando-lhe outros significados ao seu prop&oacute;sito da lavagem. Para Vale, interessam mais os aspectos identit&aacute;rios da cultura nacional e no modo como podem ser disseminados internacionalmente, sem propriamente os limitar e explicar detalhadamente aos seus espectadores, nacionais ou n&atilde;o, permitindo uma leitura generalizada e mediante as pr&oacute;prias coordenadas de cada um (Lapa, 2008): </p>     <blockquote><i>Este contacto pode ser estabelecido pela proximidade cultural ou pelo facto de eu utilizar elementos que fazem parte de uma simbologia internacional. Acima de tudo, interessa-me pensar por que raz&atilde;o determinado elemento &eacute; entendido de uma forma em Portugal e entendido de outra forma noutro pa&iacute;s e &eacute; pela diferen&ccedil;a de interpreta&ccedil;&otilde;es que o s&iacute;mbolo, no seu contexto inicial, acaba por ser reformulado. O meu trabalho centra-se nessa reformula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; importante que a leitura seja poss&iacute;vel em diferentes registros culturais, geogr&aacute;ficos e pol&iacute;ticos&#39;</i>.</blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a07f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A entrevista de Pedro Lapa a Vale (Lapa & Sharp, 2008) permite estabelecer uma charneira no percurso do artista, ao se situar como imediatamente anterior &agrave; ruptura tempor&aacute;ria de Vale com o circuito galer&iacute;stico, situa&ccedil;&atilde;o provocada com a apresenta&ccedil;&atilde;o do filme <i>Hero, Captain and Stranger</i> no Cinema Para&iacute;so, em 2009, um conhecido local em Lisboa pela apresenta&ccedil;&atilde;o de filmes pornogr&aacute;ficos. Apesar de Vale recusar uma classifica&ccedil;&atilde;o do seu filme na delimita&ccedil;&atilde;o comercial associada &agrave; pornografia, assume tamb&eacute;m que recorre a "dispositivos que partem do sexo para accionar um conjunto de leituras", tornando o seu filme uma obra efectivamente pornogr&aacute;fica, de acordo com as cenas expl&iacute;citas de penetra&ccedil;&atilde;o, sendo este o seu &uacute;nico trabalho nesta categoria (Vale, 2013). H&aacute; um claro aspecto provocativo aliado &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o de imagens sexualmente expl&iacute;citas e declaradamente reconhecidas como pornogr&aacute;ficas, o que no panorama art&iacute;stico nacional, se configura como um acontecimento quase isolado no territ&oacute;rio nacional, apenas com outro caso nesta linha, resultado da programa&ccedil;&atilde;o subversiva e pol&eacute;mica que Ant&oacute;nio Cerveira Pinto imprime na Galeria Quadrum, em Lisboa com a exposi&ccedil;&atilde;o "Ver&atilde;o, A Galeria como Atelier e Semin&aacute;rio", em 2001 (Pinto, 2013).</p>     <p>Vale reitera a import&acirc;ncia de produzir apenas em contextos que lhe s&atilde;o pr&oacute;ximos, apenas com obra relativa &agrave; sua pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia e &agrave; intensidade f&eacute;rtil dessa rela&ccedil;&atilde;o, decorrendo na tradu&ccedil;&atilde;o do seu cerne criativo para a apreens&atilde;o exterior e noutros contextos. Isto n&atilde;o significa propriamente um limite geogr&aacute;fico nacional, mas todos os limites aplicados &agrave; circula&ccedil;&atilde;o transfronteiri&ccedil;a do seu autor, o que certamente se traduz numa obra de leitura global, n&atilde;o apenas destinada a espectadores com orienta&ccedil;&otilde;es sexuais espec&iacute;ficas, de modo a eliminar filtros redutores neste sentido.</p>     <p>O projecto <i>Moby Dick</i>, com o filme <i>Hero, Captain and Stranger, </i> surge precisamente no contexto de uma resid&ecirc;ncia art&iacute;stica em Nova Iorque, em 2008 e 2009. Det&eacute;m no seu espa&ccedil;o cultural e geogr&aacute;fico, toda uma carga simb&oacute;lica em variadas rupturas sociais e pol&iacute;ticas, nomeadamente como s&iacute;mbolo de liberta&ccedil;&atilde;o <i>gay</i>, atrav&eacute;s das manifesta&ccedil;&otilde;es que transformaram a sociedade norte-americana a partir de 1969 e por cont&aacute;gio, todo o mundo ocidental, conhecidas como <i>Stonewall Riots</i>, por si, uma linha de charneira na luta dos direitos dos homossexuais. Esta refer&ecirc;ncia n&atilde;o passa ao lado dos artistas, que a partir desta resid&ecirc;ncia se tornam oficialmente parceiros, passando a assinar em conjunto as suas realiza&ccedil;&otilde;es, apesar da longa parceria anterior.</p>     <p>Encontramos por toda a sua obra, refer&ecirc;ncias ao universo <i>queer</i>, como em <i>Dorothy</i>, de 2001 (<a href="#f2">Figura 2</a>), com a sua mensagem escrita "there&#39;s no place like home", em que a associa&ccedil;&atilde;o a Judy Garland e &agrave; comunidade <i>gay</i>, na coincid&ecirc;ncia da data da sua morte com os incidentes de Stonewall ou o arco-&iacute;ris na m&uacute;sica mais popular do filme e que deu origem &agrave; bandeira gay. &Eacute; um discurso a prop&oacute;sito de met&aacute;foras copulativas, como em <i>Don&#39;t Ask, Don&#39;t Tell, Don&#39;t Pursue, </i> de 2000, onde os objectos fazem refer&ecirc;ncia a aparelhos de gin&aacute;sio e toda a sua implica&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica de prepara&ccedil;&atilde;o do corpo. <i>Body Sculpture</i>, tamb&eacute;m de 2000, tem uma dimens&atilde;o sexual e expl&iacute;cita, mas n&atilde;o exp&otilde;e o corpo. Comunica metaforicamente uma no&ccedil;&atilde;o de desejo, que segundo Vale, &eacute; j&aacute; pr&eacute;-existente num determinado p&uacute;blico. A obra consiste num aparelho de muscula&ccedil;&atilde;o revestido a pastilha el&aacute;stica mastigada. A quest&atilde;o do desejo individual implica tamb&eacute;m o contexto em que &eacute; desenhado em torno das conven&ccedil;&otilde;es. Estas pe&ccedil;as n&atilde;o t&ecirc;m em comum a representa&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita do desejo ou do prazer carnal. S&atilde;o sat&eacute;lites de uma atitude que procura uma narrativa discursiva na argumenta&ccedil;&atilde;o de identidade sexual do seu autor. <i>Beefcake</i>, de 2000 (<a href="#f3">Figura 3</a>), tem refer&ecirc;ncias n&atilde;o apenas <i>Pop</i>, mas a publica&ccedil;&otilde;es como <i>Athletic Guild Physique Pictorial</i>, que nos anos 50 era consumida como uma revista er&oacute;tica pela comunidade homossexual. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a07f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>  <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a07f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p>A <i>performance Festa Brava (Monsanto) </i>, de 2005, registada em v&iacute;deo e fotografia, apresenta um grupo de oito homens, envergando o que s&atilde;o aparentemente trajes t&iacute;picos de forcado, mas com saltos-altos femininos e collants a substituir as cal&ccedil;as t&iacute;picas (<a href="#f4">Figura 4</a>). Esta substitui&ccedil;&atilde;o da masculinidade que estes forcados habitualmente denotam socialmente, &eacute; aqui associada ao papel do travesti e da prostitui&ccedil;&atilde;o, ironia constru&iacute;da com a palavra &#39;pega&#39;, simultaneamente definida como o acto que o grupo de forcados realiza na tourada &agrave; portuguesa ou na g&iacute;ria popular, que significa prostituta. Esta obra tem afinidade com <i>Toro</i>, de 2004, uma cortina feita em veludo f&uacute;csia, recortado com a palavra &#39;toro/ roto&#39; sobre tecido amarelo, N&atilde;o apenas a alus&atilde;o ao universo das touradas, seja em Portugal ou em Espanha, com todo o seu <i>glamour</i> e que &eacute; tamb&eacute;m um s&iacute;mbolo de virilidade, mas &eacute; sobretudo o &#39;roto&#39;, que no cal&atilde;o popular significa &#39;paneleiro&#39; (homossexual).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a07f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O final do s&eacute;culo XX, com todas as renova&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas tamb&eacute;m assegura um papel social do artista em que este tem de conquistar o seu lugar, consolid&aacute;-lo e globaliz&aacute;-lo, antes de se &#39;atirar&#39; ao p&uacute;blico em quest&otilde;es controversas como as relativas ao sexo, habitualmente circunscrito numa esfera &iacute;ntima e pessoal. Neste contexto, a fronteira entre a pornografia e arte n&atilde;o est&aacute; bem delimitada e &eacute; aqui que podemos enquadrar <i>Moby Dick</i>, cujo t&iacute;tulo &eacute; tamb&eacute;m duplamente construtor do sentido na apresenta&ccedil;&atilde;o da obra. Formalmente, apresenta v&aacute;rias solu&ccedil;&otilde;es, entre filme e instala&ccedil;&atilde;o, com a apresenta&ccedil;&atilde;o dos seus adere&ccedil;os cenogr&aacute;ficos. No filme, Vale e Ferreira imprimem parcialmente um modelo j&aacute; testado em Warhol (<i>Blow Job</i>, 1964), suprimindo o som nas cenas sexualmente expl&iacute;citas (em Warhol, contudo, n&atilde;o h&aacute; cenas expl&iacute;citas, apenas a sugest&atilde;o) deslocando o contexto sexual para uma leitura est&eacute;tica, j&aacute; que o som &eacute; um factor primordial na constru&ccedil;&atilde;o do desejo e da excita&ccedil;&atilde;o que a pornografia cinematogr&aacute;fica possibilita. Apresenta um jogo entre a presen&ccedil;a da met&aacute;fora, no discurso em voz-<i>off, </i> ou a sua aus&ecirc;ncia, nas cenas sexualmente expl&iacute;citas, recorrendo contudo &agrave; constru&ccedil;&atilde;o perceptiva por parte do espectador, devidamente carregado dos filtros necess&aacute;rios para a sua leitura: pornografia e associa&ccedil;&atilde;o gay. Re&uacute;ne, sexo, g&eacute;nero e identidade como factores de g&eacute;nese nos seus processos criativos, sem contudo se deixar absorver demasiado nessa apologia, abrindo o seu discurso a leituras globais.</p>     <p>Vale e Ferreira encontram ocasionalmente alguns obst&aacute;culos, como o cancelamento da exposi&ccedil;&atilde;o <i>P-Town</i>, (<a href="#f5">Figura 5</a>), em 2011, no Espa&ccedil;o Arte Tranquilidade, (de capitais privados), no que os autores afirmaram tratar-se de uma quest&atilde;o homof&oacute;bica. Contudo, a empresa (Companhia de Seguros Tranquilidade) reage com base no distanciamento dos seus valores, pela possibilidade de pol&eacute;mica que os conte&uacute;dos propostos poderiam suscitar, afastando-se da controv&eacute;rsia atrav&eacute;s da rela&ccedil;&atilde;o que estabelece com as galerias respons&aacute;veis pela programa&ccedil;&atilde;o. <i>P-Town</i> foi apresentada publicamente ainda em 2011, com o apoio da C&acirc;mara Municipal de Lisboa, na Galeria Boavista. As obras apresentadas possuem caracter&iacute;sticas mais humoristas do que <i>hardcore</i>, como um <i>fanzine</i> com uma capa que apresenta uma par&oacute;dia f&aacute;lica, ou um conjunto de toalhas de praia com inscri&ccedil;&otilde;es/ <i>slogan</i> em stencil, com frases como &#39;legalize butt sex&#39; ou &#39;AIDS is killing artists, now homofobia is killing art&#39;, ou um colorido conjunto de objectos com caracter&iacute;sticas f&aacute;licas, atados com uma corda e pendurados no tecto, com o sugestivo t&iacute;tulo de <i>P-Town &#8211; Butt Plugs</i> (<a href="#f6">Figura 6</a>). <i>P-Town</i> (2011) &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o contra a homofobia, apresentado como uma cita&ccedil;&atilde;o a um conjunto de factos hist&oacute;ricos e mem&oacute;rias da cidade norte-americana Provincetown, onde Vale e Ferreira realizaram uma resid&ecirc;ncia art&iacute;stica. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a07f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>  <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a07f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>A obra de Jo&atilde;o Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira tem tanto de par&oacute;dia como tem de imita&ccedil;&atilde;o burlesca do s&eacute;rio e partir de um firme compromisso social com as minorias sociais (diga-se, sexuais), que se apresentam como preocupa&ccedil;&otilde;es vitais no seu trabalho, oportunamente de uma forma mais ou menos expl&iacute;cita e combinando a inoc&ecirc;ncia do ser com a viol&ecirc;ncia sobre o ser. Interpreta os dados exteriores sociais e pol&iacute;ticos, na sua investiga&ccedil;&atilde;o formal e conceptual, tentando afastar-se das recusas por antecipa&ccedil;&atilde;o a eventuais processos de rejei&ccedil;&atilde;o e censura, particularmente na quest&atilde;o homof&oacute;bica, recorrente na sua produ&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bran, X. M. (2005). <i>Radicais Libres, Experi&ecirc;ncias Gays e L&eacute;sbicas na Arte Peninsular</i>. Santiago de Compostela: Concellaria de Cultura do Concello de Santiago de Compostela.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438077&pid=S1647-6158201500020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cunningham, D. M. (2009). Queer today, gone tomorrow. <i>Art & Australia, </i> Vol. 46, No. 4, pp. 642-651.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438079&pid=S1647-6158201500020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Davis, K., & Heilbroner, D. (Realizadores). (2011). <i>Stonewall Uprising </i> &#91;Filme&#93;. USA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438081&pid=S1647-6158201500020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Lapa, : 2008. "O V&iacute;cio da Hist&oacute;ria. Pedro Lapa em conversa com Jo&atilde;o Pedro Vale". Pp. 10-99 in <i>Nascido a 5 de Outubro, </i> Lisboa: ADIAC Portugal, Tugalandia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438083&pid=S1647-6158201500020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Lapa, :, & Sharp, C. (2008). <i>Nascido a 5 de Outubro</i>. (R. Rosengarten, Trad.) Lisboa: Associa&ccedil;&atilde;o para a Difus&atilde;o Internacional da Arte Contempor&acirc;nea.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438085&pid=S1647-6158201500020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pinto, A. C. (2013). Entrevista a A.C.P. (L. Herberto, Entrevistador)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438087&pid=S1647-6158201500020000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Pollack, B. (2002). Between Challenge, Risk and Provocation. <i>Exit</i>, 8, pp. 24-53.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438088&pid=S1647-6158201500020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Quinlan, S. C., & Arenas, F. (2002). <i>Lusosex: Gender and Sexuality in the Portuguese speaking World</i>. Minneapolis: London.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438090&pid=S1647-6158201500020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vale, J. : (2013). Identidade e <i>queer</i>: provoca&ccedil;&atilde;o ou afirma&ccedil;&atilde;o? Entrevista a J.P.V. (L. Herberto, Entrevistador)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438092&pid=S1647-6158201500020000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 6 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:luisherberto@gmail.com">luisherberto@gmail.com</a> (Lu&iacute;s Herberto)</p>      ]]></body>
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