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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os Estados Unidos e a Primavera Árabe]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article analyses the evolution of the American foreign policy priorities to the Middle East and Maghreb, the US role towards the uprisings in North Africa in order to democratization, as well as, the strategy presented by President Obama to support the reformist trends in that region. For that purpose we debate three hypotheses, the existence of a cognitive deficit in the US, of an analytical prejudice as a consequence of a reductive vision of the region and, finally, a global political retraction.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Os Estados Unidos e a Primavera Árabe</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Teresa Botelho</b></p>     <p>Professora auxiliar da FCSH – UNL, onde lecciona Estudos Americanos. Doutorou-se    na Universidade de Cambridge, Grã-Bretanha, e fez cursos de especialização sobre    política externa americana na Universidade de Harvard.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>RESUMO</p>     <p>O artigo analisa, no quadro da evolução das prioridades da política externa    norte-americana para o Médio Oriente e o Magrebe, a posição dos Estados Unidos    face às revoltas que se desenvolveram em alguns países do Norte de África com    vista à sua democratização, bem como a estratégia apresentada pelo Presidente    Obama para apoiar as tendências reformadoras da região. Para tal são debatidas    três hipóteses: a existência de um défice cognitivo por parte dos Estados Unidos,    de um preconceito analítico resultante de uma visão redutiva da região, ou de    um retraimento político global.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Estados Unidos, política externa, Norte de África, Médio    Oriente</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>The United States and the Arab Spring</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>     <p>This article analyses the evolution of the American foreign policy priorities    to the Middle East and Maghreb, the US role towards the uprisings in North Africa    in order to democratization, as well as, the strategy presented by President    Obama to support the reformist trends in that region. For that purpose we debate    three hypotheses, the existence of a cognitive deficit in the US, of an analytical    prejudice as a consequence of a reductive vision of the region and, finally,    a global political retraction.</p>     <p><b>Keywords:</b> United States, foreign policy, North Africa, Middle East</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>     <blockquote><i>O Departamento de Estado é o local adequado para assinalar um novo    capítulo na diplomacia americana… Hoje gostaria de falar desta mudança e… de    como podemos responder de forma a que desenvolva os nossos valores e fortaleça    a nossa segurança.</i><a name="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a></blockquote>     <p></p>     <p>O discurso de 19 de Maio de Barack Obama sobre as prioridades da política externa    no Médio Oriente e no Magrebe, descrito pelo Presidente como assinalando um    novo capítulo na diplomacia americana, pode ser visto como o epílogo de um acidentado    processo de reavaliação das prioridades da agenda americana para o mundo árabe,    imposto pela necessidade de resposta adequada à explosão antiautoritária que    abalou as ilusões de estabilidade de muitos regimes árabes.</p>     <p>A nova agenda da Casa Branca parte da admissão de que uma estratégia baseada    unicamente na persecução de interesses nacionais estreitos – o combate ao terrorismo    e à proliferação nuclear, a manutenção da liberdade comercial e da segurança    regional, a procura da paz entre Israel e o mundo árabe – se tem vindo a revelar    insuficiente face aos desafios do presente. Reconhecendo que «a negligência    em considerar as mais amplas aspirações das pessoas comuns só faz aumentar a    suspeita, alimentada durante anos, de que os Estados Unidos prosseguem os seus    interesses à custa dos delas», o Presidente enunciou uma estratégia de apoio    às tendências reformadoras da região implementada em dois eixos, um político    e outro económico. Prometendo apoio prático aos processos de transição para    a democracia, na Tunísia e no Egipto, Obama anunciou programas de modernização    e investimento, ajuda à integração de mercados e à estabilidade financeira,    bem como, no caso do Egipto, o perdão da parcela americana da substancial dívida    externa contraída pelo regime deposto.</p>     <p>Apresentando o apoio aos esforços de democratização como sendo no interesse    nacional dos Estados Unidos, o Presidente afirmou-se «do lado dos que estão    a lutar pelos seus direitos, sabendo que o seu sucesso tornará o mundo mais    pacífico, mais estável e mais justo»<a name="top2"></a><a href="#2"><sup>2</sup></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Até este discurso, a narrativa das hesitações americanas parece estruturada    por avanços e recuos, afirmações contraditórias em que membros da Administração    eram corrigidos por declarações de porta-vozes presidenciais<a name="top3"></a><a href="#3"><sup>3</sup></a>    e em que a diplomacia americana parecia incapaz de prever o desafio seguinte    a que teria de responder, privada de um mapa estratégico e de um script consensual,    avançando por saltos qualitativos inesperados, como o surpreendente inflectir    de posições face à Zona de Exclusão Aérea sobre a Líbia.</p>     <p>Revisitar as críticas à política de Obama face à Primavera Árabe permite identificar    um conjunto de possíveis explicações para a aparente incapacidade de resposta    coerente por parte da sua Administração, que se podem resumir a três hipóteses.</p>     <p>Os Estados Unidos teriam sido apanhados de surpresa por movimentações populares    dentro de regimes autoritários em que algumas das suas mais importantes alianças    regionais assentavam, um erro de omissão que sugeriria ou uma insensibilidade    particularmente aguda por parte do aparelho diplomático e de outros serviços    cuja função primordial é a de ler as dinâmicas das sociedades observadas, ou,    ainda mais grave, um grau de autismo analítico por parte dos processadores dessas    informações e dos decisores políticos que nelas se baseiam.</p>     <p>A este défice cognitivo, alguns analistas acrescentam um preconceito analítico    que resulta de uma aderência a uma visão redutiva da região, mediada unicamente    pelas dinâmicas do conflito israelo-árabe e do combate ao islamismo extremista,    que necessariamente hipervalorizaria a estabilidade dos regimes aliados (Egipto,    Barém, Iémen) independentemente do preço pago internamente pelas populações    respectivas. O imperativo de sustentar essas alianças parecia traduzir-se na    contradição entre o apelo geral à iniciativa civil e ao respeito pelos direitos    humanos constante na Declaração do Cairo de 2009 e o pragmático <i>modus vivendi</i>    com regimes autoritários, que responderiam a cada tímida crítica americana com    o espectro da ameaça jihadista.</p>     <p>Uma terceira hipótese aponta para um retraimento político global; os Estados    Unidos de Obama teriam deixado de aspirar a um tipo de liderança internacional    mais característico de um sistema unipolar do que do sistema misto pré-multipolar    que se desenha, preferindo não tomar a iniciativa a menos que os seus interesses    nacionais estivessem em causa, substituindo o modelo intervencionista da «nação    indispensável» enunciado nos anos 1980 por Madeleine Albright, por paradigmas    multilaterais e alianças formais e informais que reduzissem os riscos inerentes    a uma liderança solitária. </p>     <p>Há inegavelmente um razoável valor explicativo nestas hipóteses, mas elas são    manifestamente inadequadas para explicar o percurso que conduziu ao discurso    de 19 de Maio. Sem o enquadramento do debate interno no seio do Partido Democrata    e da Administração Obama, não parece possível compreender o significado das    palavras de Obama, nem prever as respostas americanas aos cenários que o futuro    próximo certamente gerará.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>EMPENHO CONSTRUTIVO: RECUO DO IDEALISMO NA ADMINISTRAÇÃO OBAMA</b></p>     <p>Quando, em 2008, Madeleine Albright lamentava, no seu memorando ao Presidente    eleito, o facto de uma das vítimas da política da Administração Bush ser a agenda    da promoção da democracia, já que «quando falamos de democracia muitos pensam    no Iraque, que não é o modelo desejado por ninguém»<a name="top4"></a><a href="#4"><sup>4</sup></a>,    os seus comentários reflectiam uma preocupação comum tanto a intervencionistas    liberais como neoconservadores, de que uma nova administração se afastasse dos    parâmetros idealistas que, embora de formas diferentes, tinham pautado as administrações    Clinton e Bush. Outros liberais como Anne Marie Slaughter já se tinham feito    eco das mesmas preocupações. Slaughter alertara para a necessidade de desmontar    a aparente associação entre intervencionistas liberais e neoconservadores através    de uma clarificação meteorológica entre «democratização ou mesmo promoção da    democracia», que define como um processo imposto ou impulsionado por forças    externas a uma sociedade, e «apoio aos democratas» dessa mesma sociedade, sem    necessariamente «apelar a mudanças de regime»<a name="top5"></a><a href="#5"><sup>5</sup></a>.    A incapacidade de reabilitar o intervencionismo liberal do estigma associado    à agenda da promoção da democracia poderia conduzir, avisa Slaughter, a uma    conjuntura em que «os realistas poderão dominar de novo a agenda, valorizando    a ordem e a estabilidade acima das ideologias e dos valores»<a name="top6"></a><a href="#6"><sup>6</sup></a>.</p>     <p>É significativo que Barack Obama, geralmente associado pela opinião pública    internacional a uma retórica idealista, tenha utilizado, tanto nos seus ataques    à intervenção no Iraque antes da sua candidatura como durante as primárias,    nos debates com Hillary Clinton, uma retórica primordialmente realista, defendendo    a necessidade de «uma estratégia não definida pela ideologia e pela política    mas pela leitura realista dos factos no terreno e dos nossos interesses», explicando    a sua oposição à Guerra do Iraque em termos «desse tipo de realismo»<a name="top7"></a><a href="#7"><sup>7</sup></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A distribuição de cargos na Administração Obama parecia indiciar a anunciada    retracção da agenda idealista. Enquanto algumas figuras de proa do intervencionismo    liberal (nomeadamente Samantha Power) foram nomeados para cargos secundários,    para os cargos dirigentes do Conselho Nacional de Segurança (CNS) foram indigitados    realistas tradicionais como Thomas Donilon. As prioridades da política externa    definidas pela Administração reflectiam o sóbrio realismo do Conselho Nacional    de Segurança – restabelecer a reputação dos Estados Unidos, sair o melhor possível    do Médio Oriente e do Afeganistão e virar a sua atenção para o que era verdadeiramente    importante do ponto de vista do interesse nacional – a Ásia e a crescente influência    internacional da China.</p>     <p>Por seu lado, no Departamento de Estado, Clinton combinava iniciativas de <i>soft    power</i>, nomeadamente nas áreas do apoio ao desenvolvimento, com um alinhamento    com a doutrina realista do CNS e sobretudo de Robert Gates<a name="top8"></a><a href="#8"><sup>8</sup></a>,    o último secretário da Defesa da Administração Bush que transitara para o Governo    Obama, promovendo uma doutrina de empenho construtivo em relação tanto a poderes    tradicionalmente hostis aos Estados Unidos como a países aliados não democráticos.</p>     <p>O caso do Egipto é paradigmático das dificuldades tanto da admoestação e pressão    públicas como do empenho construtivo. Em 2005, quer George W. Bush quer Condoleezza    Rice tinham criticado abertamente o regime de Mubarak, pressionando o Cairo    no sentido da reforma política. Depois do referendo que mudava o processo de    eleição presidencial (da ratificação do candidato único nomeado pelo Parlamento    para uma eleição a que se podiam apresentar vários candidatos), os Estados Unidos    instaram publicamente o regime, nas palavras de Rice, a «liderar e definir o    futuro democrático do Médio Oriente» garantindo que o processo fosse livre e    justo, que a oposição tivesse «acesso aos media e que houvesse um verdadeiro    sentido de competitividade» durante a campanha<a name="top9"></a><a href="#9"><sup>9</sup></a>.</p>     <p>A corrupção desse processo eleitoral, com a exclusão à partida de alguns candidatos,    a não participação de algumas forças políticas que não confiavam na sua integridade,    a alegada manipulação dos resultados e a repressão que se seguiu contra opositores,    nomeadamente do candidato Ayman Nour, preso depois das eleições apesar do desagrado    manifesto dos Estados Unidos<a name="top10"></a><a href="#10"><sup>10</sup></a>,    parecer ter evidenciado os limites da influência da agenda da promoção da democracia    da Administração Bush quando aplicada a um regime aliado.</p>     <p>Mas o empenho construtivo, com a sua lógica de não ingerência nos problemas    internos dos estados, e inevitável silenciamento de críticas, que tanto sucesso    teve na melhoria das relações dos Estados Unidos com a Rússia e a China, esbarrou    no Egipto com as realidades de um tipo de poder que não pode tolerar qualquer    significativa mudança democrática, porque fazê-lo implicaria o seu fim inevitável.    Assim, os apelos de Obama em 2008 para o levantamento do Estado de sítio em    vigor desde 1967 foram ignorados, como o tinham sido os mais robustos protestos    de 2005. No discurso proferido no Cairo em 2009, a retórica da aproximação com    o mundo islâmico aborda a questão da democracia com a máxima das prudências.    Dizer aos dirigentes da região que se está consciente de «existir uma controvérsia    sobre a promoção da democracia... e que muita dessa controvérsia está relacionada    com a guerra no Iraque» para rematar com a promessa de que «nenhum sistema de    governo pode ou deve ser imposto a uma nação por outra», sendo verdade por si    mesmo, não deixa de acarretar uma mensagem implícita de não ingerência, que    só podia tranquilizar os regimes autoritários da região. A paciência estratégica,    resultado de um desejo de recomeçar as relações com países hostis e aliados    não democráticos, estendendo a mão aos primeiros e estimulando os segundos à    auto-reforma, delineada como uma nova postura, sóbria, construtiva e «não moralista»,    viria no entanto a encontrar o seu primeiro desafio significativo pouco tempo    depois, na sequência das fraudulentas eleições iranianas e da explosão antiautoritária    da Revolução Verde. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>LIMITES DO EMPENHO CONSTRUTIVO E DA NÃO INGERÊNCIA</b></p>     <p>A história da resposta americana aos protestos no Irão parece cristalizada    numa imagem convincente – a de um governo que mantém uma sóbria distância pública    dos acontecimentos, consciente de que um apoio declarado aos jovens opositores    de Ahmadinejad poderia destruir o apoio popular ao seu movimento, tirando-lhe    legitimidade, enquanto não publicamente tudo faz para facilitar a sua campanha    de desobediência. A narrativa é ilustrada pelo famoso exemplo da intervenção    junto da Twitter, pedindo que a companhia suspendesse a planeada operação de    <i>upgrade</i> que fecharia temporariamente o serviço que tão indispensável    estava a ser aos jovens iranianos. O único problema com esta narrativa é que    ela não conta toda a verdade. De facto, o jovem funcionário do Departamento    de Estado que tomou a iniciativa de contactar a Twitter violou, com esta diligência,    o que era ainda então a política oficial do Governo de «não interferência» na    política iraniana. Uma fonte da Casa Branca confidenciou recentemente à revista    <i>New Yorker</i><a name="top11"></a><a href="#11"><sup>11</sup></a> que o funcionário    em causa quase perdeu o seu posto devido a essa actuação, que contrariava o    distanciamento que a Administração desejava manter, quer para proteger o movimento    da acusação de influência estrangeira, quer para manter operativa a hipótese    de um diálogo com o Irão.</p>     <p>No entanto, o debate interno que dividiu a Administração Obama durante a crise    iraniana deixou marcas profundas não só na burocracia governamental como no    próprio Presidente, em quem a prudência realista centrada na importância das    relações entre estados parece coexistir com alguma sensibilidade à realidade    das sociedades e dos povos. A insuficiência dos resultados da doutrina do empenhamento    construtivo e a aparente passividade perante a repressão da revolta dos opositores    iranianos forçou Obama a despoletar o processo de revisão dos parâmetros da    estratégia americana para o Médio Oriente que culminou no discurso de 19 de    Maio passado.</p>     <p>Num memorando interno de Agosto de 2010 intitulado «Reforma Política no Médio    Oriente e Norte de África», enviado a um conjunto de membros da sua burocracia    de política externa, o Presidente diagnostica a insatisfação que prevê vir a    traduzir-se em actos de revolta popular no Médio Oriente: «Há evidência», diz    o memorando, «de um crescente descontentamento dos cidadãos contra os regimes    da região» e é provável «que se as presentes tendências continuarem» os regimes    aliados «recorram à repressão em vez de à reforma para gerirem a sua dissidência    doméstica». O texto acrescenta que existe um perigo real para a credibilidade    regional e internacional dos Estados Unidos se «formos vistos ou interpretados    como apoiando regimes repressivos e ignorando os direitos e aspirações dos cidadãos»<a name="top12"></a><a href="#12"><sup>12</sup></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No mesmo memorando, Obama dá instruções ao CNS para iniciar um processo de    reavaliação da leitura americana da região, traçando uma estratégia sobre reforma    política detalhada, país a país, recalibrando a sustentabilidade do tradicional    apoio a regimes aliados na região com um impulso no sentido da reforma dos mesmos.</p>     <p>Na sequência deste memorando, um grupo de estudo de que faziam parte tanto    defensores da agenda intervencionista, como Samantha Power, como peritos experimentados    no Médio Oriente com uma distinta folha de serviço a várias administrações,    como Dennis Ross, prepara um relatório detalhado que é concluído em Dezembro    de 2010, pouco tempo antes do início das manifestações na Tunísia.</p>     <p>Não é portanto possível sustentar a teoria da surpresa. Os Estados Unidos não    só previram o que poderia vir a acontecer no Médio Oriente e no Magrebe, como    se procuraram preparar politicamente para uma resposta mais calibrada, que partisse    de uma visão mais alargada do interesse nacional, que incluísse intangíveis    como o prestígio e os valores. Mas entre as leituras detalhadas de cada situação    nacional e o traçar de uma política prática consensual dentro de um governo    e aparelho decisório dividido por tendências, filosofias e grupos de interesse    diferentes, há um vasto espaço em que hesitações, recuos e avanços e equívocos    parecem quase inevitáveis.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>UM NOVO OLHAR SOBRE AS SOCIEDADES ÁRABES</b></p>     <p>Sinais da mudança em preparação cedo emergiram. Tendo passado quase despercebido    então, o discurso que Hillary Clinton profere em Doha a 13 de Janeiro de 2011    ganha retrospectivamente um enorme significado.</p>     <p>Depois de um périplo pelo Iémen, Emirados Árabes e Omã, Clinton dirige-se ao    Fórum para o Futuro (um espaço de diálogo anual entre os Estados Unidos e o    mundo árabe estabelecido pela anterior administração), reunido em Doha, em linguagem    muito mais reminiscente da retórica da promoção da democracia do que do realismo    do empenho construtivo.</p>     <p>Depois de se ter encontrado com activistas regionais de organizações que lutam    pelos direitos humanos, Clinton critica a relutância de muitos regimes árabes    em proceder a reformas significativas, avisa-os de que «enquanto alguns países    deram grandes passos no sentido do bom governo, em muitos outros as pessoas    estão cansadas de instituições corruptas e de uma ordem política estagnada»,    exigindo «reformas que tornem os seus governos mais efectivos, mais atentos    e mais abertos». Num apelo directo à reforma, Clinton desafia os dirigentes    presentes a «ajudar a construir um futuro em que os vossos jovens acreditem,    que os faça ficar e que queiram defender», e insta-os a «verem a sociedade civil    não como uma ameaça mas como um parceiro»<a name="top13"></a><a href="#13"><sup>13</sup></a>.</p>     <p>As promessas de uma estratégia Obama para a promoção da democracia vão ser    testadas semanas mais tarde na Tunísia mas sobretudo no Egipto, onde as incertezas    da possível consequência de uma mudança temperaram a reacção americana. No discurso    do Estado da União, depois do afastamento de Ben Ali, e no início dos protestos    no Cairo, o Presidente americano parece distinguir entre os manifestantes da    Tunísia, que elogia como exemplo do poder das aspirações democráticas de todos    os povos, e os da Praça Tahrir, a quem não faz ainda qualquer referência, sugerindo    que o debate interno estava longe de ter chegado a conclusões definitivas. Se    o processo de decisão de qualquer presidente é inevitavelmente marcado pelo    espectro da analogia histórica, esta administração parecia, durante a crise    egípcia, sentir o peso de dois desaires históricos que tinham manchado a presidência    Carter – a retirada tardia e atabalhoada de apoio a autocratas no Irão e na    Nicarágua, em que as hesitações americanas tinham gerado o pior de dois mundos    – o derrube de ditadores pró-americanos e a sua substituição, não por democratas    pró-ocidentais, mas por governos igualmente autoritários, desta vez hostis aos    Estados Unidos. Por outro lado, neste como noutros processos de tomada de decisão    semelhantes, os Estados Unidos tinham de ter em conta não só a imagem que projectavam    do valor que atribuíam aos seus aliados, como o desfecho provável da insurreição,    já que movimentações populares são altamente imprevisíveis podendo perdurar    ou deflacionar depois de um aparente crescendo.</p>     <p>Nestas condições e tendo em conta o padrão de decisões anteriores, a Administração    Obama (contra influentes sectores da opinião política doméstica<a name="top14"></a><a href="#14"><sup>14</sup></a>)    acabaria por abandonar Mubarak suficientemente cedo para parecer ter sido instrumental    na sua queda, preservando assim um razoável capital de boas vontades que lhe    poderão dar uma capacidade de influência nos futuros desenvolvimentos no Egipto.    Mas não deixa de ser significativo que, numa reunião recente que Clinton teve    com movimentos que organizaram a revolta da Praça Tahrir, alguns grupos manifestamente    pouco fluentes das complexidades do Governo americano se tenham recusado encontrar-se    com a secretária de Estado, acusando-a pessoalmente de ter apoiado Mubarak,    ao mesmo tempo que afirmavam que Obama sempre os tinha apoiado, e que não teriam    qualquer reserva em conversar com o Presidente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Parece assim evidente que as hipóteses do défice cognitivo e do preconceito    analítico não parecem ter o mesmo poder explicativo que uma leitura superficial    ou parcial do processo de decisão presidencial sugere. No entanto, a terceira    hipótese, a da retracção de um estilo de liderança global que caracterizou a    relação dos Estados Unidos com o resto do mundo desde o fim da II Guerra Mundial,    merece ser considerada com atenção.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ENCRUZILHADAS DE UMA LIDERANÇA AMBÍGUA</b></p>     <p>Se é errado olhar para as revoltas árabes triunfantes como uma só onda de insatisfação,    ignorando as dinâmicas das tensões sociais étnicas e tribais, a distribuição    de poder, o papel das forças armadas, a demografia dos opositores em cada uma    das sociedades, também não é possível, como a história recente está a provar,    traçar uma narrativa optimista em que a vitória antiautoritária é inevitável    e o progresso segue em linha recta. Vistas a meses de distância, as insurreições    da Tunísia e do Egipto assumem uma aura de romantismo revolucionário se comparadas    com a violência da Líbia, da Síria, para já não falar do Barém e do Iémen, onde    interesses americanos estão directamente em jogo e a ambiguidade é mais evidente<a name="top15"></a><a href="#15"><sup>15</sup></a>.</p>     <p>O caso da Líbia ilustra claramente as tensões entre as alas realista e idealista    no seio da burocracia governamental americana, bem como uma acentuada relutância    em assumir uma postura tradicional de liderança.</p>     <p>É evidente que os interesses dos Estados Unidos na Líbia eram quase insignificantes,    aquando do início da campanha de contestação a Khadafi. A Líbia apresentava    também um cenário interno muito mais complexo do que a Tunísia ou o Egipto,    com um enfraquecimento efectivo de instituições do Estado, substituídas por    redes baseadas nas estruturas tribais e uma liderança rebelde incoerente e difusa.    Em comparação com o Egipto, onde o sucesso ou fracasso do impulso democrático    árabe se joga, a Líbia só podia ser lida inicialmente como um cenário secundário.    Como comentaria um diplomata do Médio Oriente, «O que acontece na Líbia fica    na Líbia, o que acontece no Egipto afecta toda a região»<a name="top16"></a><a href="#16"><sup>16</sup></a>.</p>     <p>A brutalidade de Khadafi asseguraria que o que acontece na Líbia viria a ter    impacto global quando o «imperativo de proteger» populações civis empurra os    Estados Unidos para uma decisão que pareciam não querer ter de tomar – a de    intervir de facto numa guerra civil, favorecendo um dos lados sobre o qual pouco    sabiam, numa intervenção militar de desfecho incerto. As pressões sobre a Administração    para que actuasse, apoiando a criação de uma zona de exclusão aérea que implicava    um acto de agressão militar, vinham não só dos intervencionistas liberais como    também dos sectores neoconservadores, que descreviam como humilhante o embaraço    de uma Administração incapaz de tomar uma decisão a menos que, como apontaria    Bill Kristol na Fox News, «um bando de ditadores árabes nos peça que intervenhamos    contra um ditador terrível».</p>     <p>Contra a intervenção alinhavam-se o aparelho militar, em especial o secretário    da Defesa Robert Gates, e quase todo o <i>establishment</i> crítico associado    ao estudo da política externa, nomeadamente o prestigiado Council on Foreign    Relations que chamava a atenção para os riscos do empenhamento americano na    zona de exclusão aérea, e para a indefinição da missão, em que o objectivo de    proteger a população de Benghazi de um massacre anunciado se confundia com o    desígnio não expresso de mudança de regime.</p>     <p>Quando a decisão de apoiar a zona de exclusão aérea foi finalmente tomada,    a capacidade negocial do Departamento de Estado, em particular da embaixadora    Susan Rice, garantiu os «dentes» que o enunciado inicial não tinha, transformando    uma resolução tímida numa autorização de uso musculado de força militar no que,    num sentido lato do termo, podia ser entendido como uma acção preemptiva. Enquanto    isso, Clinton persuadia a Rússia, que tinha avisado que nunca apoiaria uma zona    de exclusão aérea, a optar pela abstenção, calculando que, sem o apoio russo,    a China optasse por não exercer o direito de veto.</p>     <p>Mas se os episódios no Conselho de Segurança só foram possíveis pela qualidade    da diplomacia americana e pelo acumular de boas vontades que o engajamento construtivo    com a Rússia e a China gerara, os Estados Unidos pareciam de novo empurrados    para a liderança de uma intervenção militar em que tinham tentado não se envolver.    O espectro da analogia histórica com os massacres do Ruanda e de Srebrenica    ditou a urgência da acção (Obama quereria certamente evitar que o seu mandato    fosse manchado, como o de Bill Clinton foi, pela acusação de negligência perante    dois desastres humanitários) e só os Estados Unidos estavam em condições de    exercer poder militar de imediato.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O facto de terem passado o comando militar à NATO o mais depressa que foi política    e militarmente possível, não diminui o dilema que os Estados Unidos parecem    não poder evitar – o de serem a «nação indispensável» sem a qual a comunidade    internacional não parece ser capaz de enfrentar crises de grande dimensão.</p>     <p>Dizer que no caso da Líbia os Estados Unidos lideraram «indirectamente», levando    o resto da comunidade internacional a prosseguir os seus objectivos sem os terem    de anunciar como seus é manifestamente insuficiente. Essa é certamente a mais    hábil de todas as lideranças, desde que se tenha um modelo claro do que se quer    que aconteça e um plano que outros possam adoptar. No caso da Líbia, as circunstâncias    não parecem favorecer a existência de um plano coerente, e as duas alternativas    que se parecem alinhar no horizonte – uma participação mais directa na guerra    civil com o armamento dos rebeldes e envio de conselheiros militares (o que    obrigaria a uma interpretação do mandato do Conselho de Segurança para além    do que parece possível), ou a aceitação de uma divisão efectiva do país, usando    o modelo do Curdistão iraquiano – são igualmente intragáveis para os Estados    Unidos e para a comunidade internacional.</p>     <p>Até que ponto um insucesso na Líbia dará um novo impulso às correntes realistas    na Administração Obama, contrariando os propósitos enunciados no discurso de    19 de Maio, é ainda uma incógnita. Nesse discurso, o Presidente pareceu distanciar-se    do objectivo de depor Khadafi, preferindo referir o facto de este ter perdido    o controlo do país e de a oposição ter organizado uma estrutura legítima e credível.    Ao contrário de vários países europeus, o Presidente não declarou o Conselho    Interino como o único representante do povo líbio, nem ofereceu um cenário de    <i>endgame</i>, protegendo-se claramente da perspectiva de um fracasso ou do    prolongamento do <i>status quo</i>.</p>     <p>Será pois no Egipto que o destino da doutrina Obama para promoção da democracia    no mundo árabe será posta à prova. Os obstáculos são muitos – o <i>timing</i>    do processo eleitoral para o novo Parlamento planeado para Setembro é considerado    precipitado pelas forças políticas seculares e modernizantes que, ao contrário    da Irmandade Muçulmana e do Partido Democrático Nacional de Mubarak, têm de    adquirir aceleradamente a capacidade organizativa necessária a uma boa prestação    eleitoral. As reformas económicas sugeridas por Obama irão chocar com os interesses    das Forças Armadas que construíram ao longo de décadas um império de influência,    baseado no Ministério para a Produção Militar, que só encontrava rival no império    paralelo de Gamal Mubarak, agora dissolvido pelo Conselho Supremo das Forças    Armadas, e por si absorvido.</p>     <p>Mais importante do que o sucesso da incipiente doutrina Obama será certamente    o sucesso dos democratas no Egipto, na Tunísia, na Líbia, na Síria e em todos    os outros cenários onde velhos e novos ditadores se viram obrigados a lutar    pela sobrevivência contra os seus próprios povos. Mas ao aceitar o desafio de    ajudar a democratizar o Médio Oriente, Obama tem agora a oportunidade de provar    que pode ter sucesso onde George W. Bush falhou, prosseguindo os mesmos fins    por outros meios. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><a name="1"></a><a href="#top1"><sup>1</sup></a> OBAMA, Barack – «Speech at    the State Department». [Consultado em: 19 de Maio de 2011]. Disponível em: <a href="http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/05/19/remarks-president-middle-east-and-north-africa" target="_blank">http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/05/19/remarks-president-middle-east-and-north-africa</a></p>     <p><a name="2"></a><a href="#top2"><sup>2</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>     <p><a name="3"></a><a href="#top3"><sup>3</sup></a> O mais evidente destes equívocos    envolveu o enviado especial ao Egipto Frank G. Wisner, que, fazendo-se eco da    política oficial da Administração no início de Fevereiro, enunciou os argumentos    para a necessidade constitucional de uma transição liderada por Mubarak, viria    a ser desautorizado pelo porta-voz da Casa Branca então acompanhando a secretária    Clinton numa conferência em Munique, que afirmaria que as declarações do enviado    presidencial eram as de um cidadão privado. Clinton tinha dito precisamente    o mesmo 10 dias antes, acrescentada ser convicção dos Estados Unidos que o governo    do Cairo era estável e se esforçava por corresponder às necessidades e interesses    legítimos do povo egípcio.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> ALBRIGHT, Madeleine – <i>Memo    to the President Elect: How We Can Restore America’s Reputation and Leadership</i>.    Nova York: HarperCollins, 2088, p. 9.</p>     <!-- ref --><p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> SLAUGHTER, Anne Marie – «Podhoretz’s    compliant». In <i>Democracy Journal</i>, Inverno de 2008, p. 78.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S1645-9199201100020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 74.</p>     <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> Comunicação do senador Barack    Obama – «A Way Forward in Iraq», Chicago Council on Global Affairs. [Consultado    em: 20 de Novembro de 2006]. Disponível em: <a href="http://www.swamppolitics.com/news/politics/blog/2006/11/obamas_iraq_exit_strategy.html" target="_blank">http://www.swamppolitics.com/news/politics/blog/2006/11/obamas_iraq_exit_strategy.html</a></p>     <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> Este entendimento entre Clinton    e Robert Gates seria confirmado durante o processo de revisão da política em    relação ao Afeganistão, em que apoiou o pedido de reforço significativo da capacidade    militar no terreno defendido por Gates e as Forças Armadas, em oposição às reservas    publicamente expressas por Richard Holbrooke, o enviado especial para o Afeganistão,    e pelo embaixador americano em Cabul.</p>     <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> RICE, Condoleeza – <i>American    University of Cairo Speech</i>. [Consultado em: 21 de Junho de 2005]. Disponível    em: <a href="http://articles.cnn.com/2005-06-20/world/mideast.rice_1_sharm-presidential-election-rice-speech?_s=PM:WORLD" target="_blank">http://articles.cnn.com/2005-06-20/world/mideast.rice_1_sharm-presidential-election-rice-speech?_s=PM:WORLD</a></p>     <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> Rice suspenderia uma visita    ao Cairo em protesto, e a Casa Branca viria a emitir um protesto oficial após    a sua condenação.</p>     <!-- ref --><p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> LIZZA, Ryan – «The consequentialist:    how the Arab Spring remade Obama’s foreign policy». In <i>The New Yorker</i>,    2 de Maio de 2011, p. 50.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S1645-9199201100020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 51.</p>     <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Discurso de Hillary Clinton    no Forum for the Future in Doha. [Consultado em: 13 de Janeiro de 2011. Disponível    em: <a href="http://still4hill.wordpress.com/ 2011/01/28/worth-a-second-look-secretary-clintons-speech-of-jan-13-at-forum-for-the-future-in-doha/" target="_blank">http://still4hill.wordpress.com/    2011/01/28/worth-a-second-look-secretary-clintons-speech-of-jan-13-at-forum-for-the-future-in-doha/</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> Um número significativo    de ex-diplomatas e especialistas de várias áreas políticas, entre eles Henry    Kissinger e Zbigniew Brzezinski, instaram o Presidente a não retirar o apoio    a Mubarak, e importantes aliados como Israel e a Arábia Saudita mostraram grande    desconforto, embora por razões muito diferentes, com a forma como a Administração    abandonou o seu antigo aliado.</p>     <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> No Barém, os Estados Unidos    têm de ter em consideração que o território serve de base à sua 6.ª Frota do    Mediterrâneo. No Iémen, o Presidente Saleh tem sido, nos últimos anos, um precioso    aliado americano na luta contra a Al-Qaida.</p>     <!-- ref --><p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> Cit. KLEIN, Joe – «Washington’s    policy sandstorm». In <i>Time</i>. Vol. 177, N.º 12, 28 de Março de 2011, p.    14.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S1645-9199201100020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
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