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</front><body><![CDATA[ <p><b>Breve ensaio sobre a política externa portuguesa </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nuno Severiano Teixeira</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>RESUMO</p>     <p>Portugal viveu, sempre, um equilíbrio instável, entre a pressão continental    e a procura de uma alternativa marítima. Dessas condicionantes geopolíticas    e desta contínua tentativa de equilíbrio decorrem movimentos de longa duração    que foram definindo permanências nas opções estratégicas e nas características    históricas da política externa portuguesa, que podemos definir como estruturas    ou modelos de inserção internacional. E, historicamente, Portugal conheceu três    modelos de inserção internacional, a que correspondem, também, três momentos    históricos diferentes.</p>     <p>Palavras-chave: Portugal, política externa portuguesa, Estado Novo, União Europeia</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Brief essay about the Portuguese foreign policy</b></p>     <p>ABSTRACT</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Portugal has always lived an unstable balance between the continental pressure    and the search for a maritime option. In this way some movements had defined    the continuities in the strategic options and in the historical features of    the Portuguese foreign policy, which we may define as structures or international    insertion models. Historically, Portugal has known three models of international    insertion also connected with three different historical periods.</p>     <p>Keywords: Portugal, Portuguese foreign policy, Estado Novo, European Union</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>País europeu, Portugal é também um país atlântico. Pequena potência, semiperiférica    e com uma só fronteira terrestre, Portugal viveu, sempre, um equilíbrio instável,    entre a pressão continental e a procura de uma alternativa marítima. Dessas    condicionantes geopolíticas e desta contínua tentativa de equilíbrio, decorrem    movimentos de longa duração que foram definindo permanências nas opções estratégicas    e nas características históricas da política externa portuguesa, que podemos    definir como estruturas ou modelos de inserção internacional.</p>     <p>E, historicamente, Portugal conheceu três modelos de inserção internacional,    a que correspondem, também, três momentos históricos diferentes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Heranças do passado </b></p>     <p>O primeiro modelo é o do Portugal medieval. Até ao século XV, as relações externas    de Portugal desenvolvem-se no quadro da Península Ibérica, entre cinco unidades    políticas, todas elas mais ou menos da mesma dimensão e potencial: os reinos    peninsulares – Castela, Leão, Navarra, Aragão e Portugal.</p>     <p>A luta contra o islão no interior da Península e as limitações científico-tecnológicas    inviabilizavam, de resto, quaisquer relações sustentadas extrapeninsulares.    Durante a Idade Média, as relações externas de Portugal desenvolvem-se, pois,    no quadro intrapeninsular e num ambiente internacional de equilíbrio quase natural.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O segundo modelo começa a desenhar-se a partir do século XV, estende-se ao    longo de cinco longos séculos e só termina entre 1974 e 1986, com o processo    de democratização e a integração europeia. é o modelo histórico, ou o modelo    clássico de inserção internacional do País. </p>     <p>O que muda, então, relativamente ao modelo medieval? Praticamente, tudo, a    começar pela condicionante geopolítica. Primeiro, a vitória sobre o islão e    a unificação da Espanha, pelos reis católicos, convertem a Península Ibérica    em duas unidades de desigual dimensão e potencial – Portugal e Espanha. Segundo,    a evolução científica e tecnológica vem possibilitar o desenvolvimento sustentado    de relações internacionais extrapeninsulares. </p>     <p>O equilíbrio medieval converte-se num desequilíbrio geopolítico, o que obriga    Portugal a procurar uma compensação para esse desequilíbrio. A costa atlântica    e a capacidade de sustentação de relações extrapeninsulares vão possibilitar    a construção de um vector de compensação: o vector marítimo. A partir de então,    Portugal passa a viver sob a tentativa constante de equilíbrio, entre a pressão    continental da Espanha e a procura de uma compensação marítima do Atlântico.</p>     <p>Daqui decorrem os invariantes históricos que caracterizam o segundo modelo    de inserção internacional, o modelo clássico. Primeiro, uma percepção contraditória    entre o continente e o mar, entre a Europa e o Atlântico. Segundo, o afastamento    estratégico em relação à Europa (percepcionada como ameaça espanhola) e a afirmação    do vector marítimo e da opção atlântica de Portugal. Terceiro, no quadro da    opção atlântica, dois movimentos de longa duração histórica na orientação externa    do estado: em primeiro lugar, a aliança privilegiada com a potência marítima    (a aliança inglesa, os Estados Unidos da América, a NATO); em segundo lugar,    o projecto imperial (nos seus vários ciclos: a Índia, o Brasil, a África). Quarto,    a diversificação das alianças extrapeninsulares relativamente à Espanha e uma    diplomacia, fundamentalmente bilateral, assente no triângulo Lisboa-Madrid-Londres    e, depois de 1945, Lisboa-Madrid-Washington. É este modelo que preside às relações    internacionais de Portugal durante cinco séculos e são, ainda, estas linhas    de orientação estratégica que dão forma à política externa portuguesa até ao    fim do estado novo.</p>     <p>São essas opções de afastamento das questões europeias, de afirmação de um    Portugal atlântico e colonial e do equilíbrio triangular entre Lisboa, Londres    e Madrid que estão presentes na posição portuguesa perante a Guerra Civil de    Espanha e na neutralidade durante a II Guerra Mundial. E são essas mesmas opções    que continuam a presidir à posição portuguesa na ordem internacional da Guerra    Fria: a integração no sistema de segurança Atlântico e a entrada de Portugal    na NATO; a reticência e o pragmatismo face ao processo de construção europeia,    com a participação nos projectos de cooperação económica e a recusa de qualquer    forma de integração política; e, finalmente, a recusa da descolonização e a    defesa intransigente do Império.</p>     <p>Opções estas que correspondem, com uma clareza meridiana, ao segundo modelo    histórico, o modelo clássico de inserção internacional de Portugal.</p>     <p>Em primeiro lugar, a percepção contraditória, entre a Europa e o Atlântico,    que atinge o «paroxismo» no final do Estado Novo, precisamente, no debate político    entre as duas opções estratégicas para o País: a africanista e a europeísta.</p>     <p>Em segundo lugar, o afastamento da Europa e o predomínio da opção atlântica    e colonial. Predomínio no plano político e na esfera económica. No plano político,    com um dispositivo diplomático e estratégico totalmente assente no vector atlântico:    integração na NATO e alianças privilegiadas com Washington e Londres. Na esfera    económica, com um dispositivo geoeconómico, basicamente, ultramarino e colonial.    E que, mesmo quando o pragmatismo obrigava o País a uma aproximação às instituições    económicas europeias, essa aproximação continuava a fazer-se num quadro estratégico    atlântico e nunca continental. A entrada de Portugal na EFTA é disso o exemplo    mais acabado. Em terceiro lugar, a diversificação constante das alianças extrapeninsulares.    No quadro atlântico, Portugal entra na NATO, a Espanha não. No quadro europeu,    Portugal entra na EFTA, a Espanha não. Dito de outro modo, Portugal estará sempre    onde a Espanha não está.</p>     <p>Finalmente, a persistência da diplomacia bilateral, assente no triângulo Lisboa,    Madrid e potência marítima.</p>     <p>A democratização em Portugal trouxe consigo a alteração de todo este quadro    da política externa. Mas trouxe mais do que isso. A transição para a democracia    e a consolidação democrática em Portugal e na Espanha e a própria evolução internacional    conduziram, em apenas doze anos (1974-1986), ao desaparecimento deste modelo    histórico de inserção internacional de Portugal, velho de cinco séculos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Mudanças do presente </b></p>     <p>O fim do regime autoritário e o processo de transição à democracia que se inicia    em 25 de Abril de 1974 vêm determinar uma redefinição da política externa portuguesa    de acordo com o espírito do programa do Movimento das Forças Armadas (MFA),    que se traduzia, sinteticamente, pela fórmula «democratização; descolonização;    desenvolvimento». Apesar de o programa do MFA assegurar o cumprimento de todos    os compromissos internacionais de Portugal, tornava-se claro que esses dois    simples princípios – democratizar e descolonizar – implicariam uma reinterpretação    política desses mesmos compromissos e uma alteração de fundo na orientação externa    do Estado português.</p>     <p>A descolonização constitui o primeiro grande desafio da política externa do    regime democrático. Mas, ao mesmo tempo que decorre o processo de descolonização,    Portugal ultrapassa o isolamento internacional do fim do estado novo e estabelece    relações diplomáticas com os países do bloco soviético e do Terceiro Mundo.</p>     <p>Todavia, a descolonização e a abertura ao mundo não bastavam, por si só, para    a definir as novas orientações externas da democracia portuguesa. Muito pelo    contrário. Sob as lutas ruidosas do processo de democratização interna, trava-se    uma outra luta, esta silenciosa, sobre os objectivos e as opções estratégicas    da política externa portuguesa. Entre Abril de 1974 e Janeiro de 1986, a política    externa portuguesa oscilou entre duas orientações de fundo, que marcaram, igualmente,    duas fases distintas: a da transição para a democracia, correspondente ao período    pré-constitucional, dominado pelo processo revolucionário; e a da consolidação    democrática, correspondente ao período constitucional, marcado pela institucionalização    e pela estabilização do regime democrático. </p>     <p>O período pré-constitucional (1974-1976) caracterizou-se pela luta em torno    das opções externas do País, pelo exercício de diplomacias paralelas e, consequentemente,    pela indefinição da política externa. Apesar das lutas, das hesitações e da    indefinição, durante os governos provisórios e em particular aqueles de maior    preponderância militar, a orientação global da política externa portuguesa tende    para uma opção terceiro-mundista e para o desenvolvimento de relações privilegiadas    com os novos países saídos da descolonização portuguesa. Era o último avatar,    agora socializante, da tese da «vocação africana» de Portugal. </p>     <p>O período constitucional (a partir de 1976), que se inicia, precisamente, com    o I Governo constitucional, caracterizou-se pela clarificação da política externa    portuguesa e pela definição unívoca e rigorosa do posicionamento externo do    Estado. Portugal assume, então, inteiramente, a sua condição de país ocidental,    simultaneamente, europeu e atlântico. Serão estes, pois, os dois vectores fundamentais    e as verdadeiras opções estratégicas do Portugal democrático. </p>     <p>O vector atlântico significou para Portugal a permanência das características    históricas da sua política externa e jogou um papel importante não só ao nível    da orientação externa como também da estabilização interna do País. O reforço    das relações bilaterais com os Estados Unidos e o reempenhamento nos compromissos    militares com a NATO constituíram a sua tradução mais visível.</p>     <p>A «opção europeia» será, porém, a grande novidade da política externa do regime    democrático. Ultrapassadas as resistências antieuropeias, primeiro, da opção    africana do regime autoritário, depois, da tentação terceiro-mundista do período    revolucionário, Portugal assume, claramente, a partir de 1976, a «opção europeia».    Agora, não mais com uma perspectiva estritamente económica e pragmática, como    no Estado Novo, mas enquanto opção estratégica e projecto político. É o tempo    da «Europa Connosco». Em 1976, Portugal entra no Conselho da Europa. Em 1977    pede, formalmente, a adesão à Comunidade Europeia. E em 1985 assina o Tratado    de Adesão. E a partir de 1 de Janeiro de 1986, Portugal torna-se membro de pleno    direito da, então, Comunidade Europeia. Se à opção europeia e ao vector atlântico    acrescentarmos o estabelecimento de relações de amizade e cooperação com os    novos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e o renovar das    relações com o Brasil, encontraremos aquelas que são as linhas, fundamentais,    de orientação estratégica da política externa da democracia.</p>     <p>A partir da década de 1990, a estes três eixos vem juntar-se um quarto: a participação    portuguesa na produção de segurança internacional, com a presença dos militares    portugueses nas operações de paz da NATO, da União Europeia (UE) e das Nações    Unidas. As forças armadas tornam-se instrumento da política externa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Desafios do futuro </b></p>     <p>As mudanças introduzidas pelo regime democrático não são, porém, de curto prazo,    nem se limitam às prioridades da política externa. Parecem de longa duração    e tudo indica que estão a conduzir Portugal a um novo modelo de inserção internacional    – o modelo democrático de inserção internacional.</p>     <p>Mas o que caracteriza, então, o modelo democrático? Quais as permanências e    quais as mudanças?</p>     <p>Primeiro, as permanências. Decorrem dos factores estruturais e geopolíticos    que não se alteram e respeitam, fundamentalmente, às áreas de interesse estratégico    de Portugal que se mantêm: a Europa, o Atlântico e as relações pós-coloniais.</p>     <p>Segundo, as mudanças. Decorrem dos factores históricos e alteram as quatro    características do modelo anterior, a que deve juntar-se uma quinta, inteiramente    nova.</p>     <p>Em primeiro lugar, muda a percepção e a lógica contraditória entre o continente    e o mar. Hoje, a Europa e o Atlântico não só não são termos contraditórios como    são complementares. Para a política externa portuguesa, ser atlântico pode significar    valor acrescentado na Europa, tal como ser europeu pode ter valor acrescentado    no atlântico e, em particular, o Atlântico Sul, onde se desenvolvem as relações    pós-coloniais.</p>     <p>Em segundo lugar, no binómio Europa-Atlântico mantém-se a equação geopolítica    mas invertem-se as prioridades estratégicas: tradicionalmente, Portugal pensava-se    como um país atlântico e colonial e, quando o peso do vector marítimo era excessivo,    procurava compensações continentais. Hoje, pelo contrário, pensa-se como país    europeu e é como membro da UE que procura valorizar e potenciar a posição atlântica    e as relações pós-coloniais.</p>     <p>Em terceiro lugar, e como resultado da democratização em Portugal e na Espanha,    os dois estados peninsulares aproximaram as suas posições internacionais. Significa    isto, pelo menos, duas coisas: em primeiro lugar, que o dispositivo geoeconómico    português se continentalizou com a entrada na comunidade europeia e, para Portugal,    o mercado único começa no mercado ibérico; em segundo lugar, que os dispositivos    diplomáticos e estratégicos de Portugal e Espanha se aproximaram, progressivamente    e, pela primeira vez na sua história, Portugal e Espanha partilham, hoje, as    mesmas alianças extrapeninsulares: a UE e a NATO.</p>     <p>Em quarto lugar, como resultado da globalização, da interdependência das relações    internacionais e da valorização dos quadros diplomáticos multilaterais, ao velho    triângulo bilateral Lisboa, Madrid e potência marítima junta-se, hoje, um novo    triângulo multilateral, correspondente à presença de Portugal nas organizações    internacionais das suas áreas de interesse estratégico: a UE na Europa, a NATO    no Atlântico e a CPLP para as relações pós-coloniais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Finalmente, um elemento novo, quinta característica do modelo democrático de    inserção internacional: uma política externa de valores. Teve a sua origem,    ainda no Estado Novo, no debate entre africanistas e europeístas. Para os africanistas,    a manutenção do império implicava a continuação da guerra e a guerra implicava    a continuação do regime autoritário. Para os europeístas, a integração europeia    implicava a descolonização e a descolonização implicava a democratização. Significa    isto que os valores da democracia e do Estado de direito estão na própria matriz    genética da política externa do regime democrático. E nas suas opções estratégicas    essenciais, a democracia acabará por concretizá-los. Na UE como na Aliança Atlântica,    todos os parceiros e aliados de Portugal são democracias. E a presença das forças    armadas Portuguesas nas missões de paz, sob a égide das nações unidas, confirma    essa diplomacia de valores que teve na independência de Timor um dos seus maiores    sucessos. A política externa parte, sempre, da formulação dos interesses. Mas    no modelo democrático, não só não ignora como assume o seu quadro de valores.    Valores que para Portugal são os da democracia, do estado de direito e da segurança    humana.</p>     <p>Ora, é no quadro do modelo democrático de inserção internacional que Portugal    terá de pensar os seus desafios futuros.</p>     <p>Em primeiro lugar, os desafios no plano global do sistema internacional. </p>     <p>O primeiro desafio global e a prioridade das prioridades é, hoje, a superação    da crise económica e financeira internacional. Não é, bem entendido, uma questão    de política externa. Ou melhor, é muito mais que uma questão de política externa,    mas não deixa de ter, para Portugal, uma fortíssima componente internacional.    Primeiro, porque sendo a economia portuguesa uma economia pequena e aberta,    Portugal depende da evolução económica e dos mercados internacionais. Segundo,    porque sendo membro do euro, é objecto dos ataques dos mercados financeiros    internacionais ao euro e é no quadro do euro que terá de procurar a solução    para os seus problemas nos campos económico e financeiro. O que significa, desde    logo, reafirmar o empenhamento europeu de Portugal.</p>     <p>Um segundo desafio, no plano global, é o da segurança internacional e da prioridade    que deve merecer a contribuição de Portugal para a segurança e a paz no mundo.    Num ambiente estratégico internacional marcado pela proliferação do terrorismo    e das armas de destruição maciça, dos conflitos étnicos e religiosos, dos estados    falhados, da criminalidade organizada e da pirataria internacional, o quadro    de segurança não pode ser outro que o da segurança cooperativa.</p>     <p>E, nesse quadro, Portugal tem desempenhado e deve continuar a desempenhar um    papel de produtor líquido de segurança internacional. Essa é uma prioridade    para Portugal. E num quadro de segurança global e cooperativo, a prioridade    da presença nacional deve avaliar-se não só a partir do tradicional critério    de ordem histórico ou de proximidade geográfica mas, sobretudo, num critério    de segurança internacional. A presença dos militares portugueses nas missões    internacionais das Nações Unidas, da NATO e da UE é do interesse estratégico    de Portugal e tem constituído não só um factor de modernização das Forças Armadas    mas também um factor de credibilidade externa do Estado. </p>     <p>Finalmente, um terceiro desafio global é o da estabilidade e reforço do vínculo    transatlântico. Abalado pela crise pós-intervenção americana no Iraque e restaurado    pela administração Obama, é, hoje, confirmado pela reentrada da França na estrutura    militar integrada da NATO e pelo novo conceito estratégico da aliança, aprovado    em Lisboa. O vínculo transatlântico é e continua a ser um garante da segurança    internacional. Se outra razão não houvesse, essa seria já razão bastante para    que fosse do interesse estratégico de Portugal. Mas há. País, simultaneamente,    europeu e atlântico, não interessa a Portugal a clivagem entre os dois lados    do Atlântico e muito menos ser obrigado a uma opção entre Europa ou Estados    Unidos. Interessa, pelo contrário, valorizar a dupla pertença: fazer valer a    sua condição de país europeu na relação com os Estados Unidos e rentabilizar    a sua relação transatlântica enquanto membro da UE. E é por isso que no quadro    nacional e no quadro da União deve trabalhar neste sentido.</p>     <p>Em segundo lugar, os desafios no quadro da UE. </p>     <p>O primeiro desafio e a primeira prioridade é, hoje, o da superação da crise    do euro. É, sem dúvida, uma questão económica e financeira. Mas é muito mais    do que isso. É uma questão política da maior importância, porque, em boa medida,    do sucesso ou insucesso do euro depende o sucesso ou insucesso do projecto europeu.    A Europa económica depende, hoje, de mais Europa política. Isto é, do aprofundamento    do projecto europeu. E se a União Europeia quiser continuar a ter uma moeda    única terá de desenvolver uma política económica comum. E isso é do interesse    de Portugal. E é nesse quadro que Portugal terá, em primeiro lugar, de consolidar    as suas finanças públicas. Não só para resolver o seu problema nacional, mas    também para não fragilizar o euro. E em segundo lugar, repensar o seu modelo    de desenvolvimento económico, de modo a relançar o crescimento, o emprego e    as exportações. </p>     <p>O segundo desafio europeu é o das questões institucionais e políticas. Potência    média no quadro europeu mas, geograficamente, periférica, é do interesse de    Portugal estar, sempre, no centro da construção europeia. Esta é uma prioridade    central para a política europeia de Portugal. Enquanto membro, não interessam    a Portugal «directórios» nem uma Europa a diferentes velocidades. Mas se a evolução    do processo de integração europeia a isso conduzir e impuser quaisquer «geometrias    variáveis», o interesse nacional aconselha a presença portuguesa em todos os    «núcleos duros» ou «cooperações reforçadas» que vierem a constituir-se. Com    a entrada em vigor, do Tratado de Lisboa, em Dezembro de 2009, a UE passou a    dispor de um conjunto de instrumentos institucionais para melhor responder aos    desafios que enfrenta, quer no plano interno, com as mudanças institucionais    para garantir maior eficácia numa Europa alargada a 27, quer no plano internacional,    com o reforço dos mecanismos de acção externa que lhe permitem maior consistência    e maior coerência na resposta aos desafios de um mundo globalizado. Em particular,    na Política Comum de Segurança e Defesa com a criação do novo mecanismo da «cooperação    estruturada permanente». Ora, tal como Portugal esteve na linha da frente da    moeda única e fez parte do núcleo duro da integração europeia, também agora    é do interesse nacional estar em qualquer núcleo duro da segurança e defesa    que, eventualmente, venha a formar-se. A razão é simples: é que o caminho mais    curto e a estratégia mais eficaz para superar a periferia geográfica é conquistar    a centralidade política. Antes dizia-se que depois da Europa económica chegaria    o momento da Europa política. Hoje, depois da crise do euro, terá de dizer-se    que sem mais Europa política estará em risco a própria Europa económica. E é    do interesse estratégico de Portugal apoiar esse objectivo e integrar essa estratégia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em terceiro lugar, os desafios no quadro peninsular e das relações com a Espanha.</p>     <p>No modelo tradicional, a Espanha era pensada como ameaça e toda a lógica da    relação com a Espanha era a lógica da fortaleza. Fortaleza no campo económico,    reduzindo ao mínimo as trocas e voltando todo o dispositivo geoeconómico para    o mar. No campo diplomático e militar, construindo fortalezas ao longo da fronteira    e alianças com as potências marítimas. Até na sociedade e nos costumes esse    princípio se traduzia no ditado popular: «De Espanha nem bom vento nem bom casamento.»</p>     <p>Hoje, todo este modelo se desvaneceu. Com a democratização e a integração europeia,  </p>     <p>O dispositivo geoeconómico português continentalizou-se e as alianças externas    dos dois países ibéricos aproximaram-se de tal forma que são, hoje, coincidentes.    Mas significará essa coincidência que se desvaneceu, também, o interesse nacional?    Não. Muito pelo contrário. Significa que o interesse nacional permanece. Mas    que se tornou mais exigente a sua formulação e mais complexa a sua defesa. Porque    a lógica da fortaleza deixou de funcionar. Numa economia aberta e num espaço    sem fronteiras, como é o do mercado único, a estratégia não está na construção    de fortalezas. Está, sim, na competitividade da economia e na clarividência    da política externa. </p>     <p>O primeiro desafio é, pois, de natureza essencialmente económica: a capacidade    para manter em Portugal centros de decisão económica nos sectores estratégicos    para o País; e a competitividade da economia portuguesa, a capacidade de concorrência    e penetração das empresas portuguesas no mercado espanhol. </p>     <p>O segundo é de natureza, essencialmente, política: num quadro de integração    económica e de excelente relação política, as relações luso-espanholas exigem    da política externa grande clareza na formulação dos objectivos e grande flexibilidade    na execução da estratégia. Porque se a integração das economias e a excelente    relação política dos estados comporta para Portugal um conjunto de potencialidades    comporta, na mesma medida, outras tantas vulnerabilidades. Como, de resto, se    tem visto na recente crise. E é por isso que o interesse nacional exige, e,    por vezes, em simultâneo, um reforço da cooperação, onde os interesses sejam    comuns, e uma clara e firme diversificação, onde os interesses sejam diferentes.  </p>     <p>Em quarto lugar, os desafios no plano das relações pós-coloniais. No actual    modelo de inserção internacional, as relações pós-coloniais têm funcionado como    um importante mecanismo de compensação às prioridades europeia e atlântica.    Compensação que ganha maior peso e mais defensores sempre que se agudizam as    crises no quadro transatlântico ou no quadro europeu. E num contexto como o    da crise actual, em que regressam as vozes em defesa da prioridade pós-colonial,    importa sublinhar que neste modelo, as relações pós-coloniais devem desenvolver-se,    precisamente, como um mecanismo de compensação e num quadro de complementaridade    com as prioridades europeia e atlântica.</p>     <p>Ora, nas relações pós-coloniais, o desafio coloca-se tanto no plano bilateral    como no plano multilateral.</p>     <p>No plano bilateral, é óbvio, mas não poderá deixar de se dizer que é do interesse    estratégico de Portugal o reforço das relações com os países de expressão portuguesa.    E não só no campo político mas também no domínio económico. E no que toca às    relações económicas com os países de expressão portuguesa, a prioridade para    Portugal deve dirigir-se para os sectores de maior inovação e que representem    modernização para a economia portuguesa. Consequentemente, a prioridade deve    dirigir-se para os países cujas economias constituam um factor de modernização    para a economia portuguesa. Nesse sentido, na hierarquia das prioridades, por    exemplo, o Brasil tenderá a ser mais importante que Angola.</p>     <p>No plano multilateral, é do interesse português que a CPLP possa constituir    um instrumento diplomático credível e operacional para os países de língua portuguesa.    Mais, pode e deve alargar as suas áreas de intervenção, para além da língua    e da cultura, às esferas económica e da segurança. Mas não pode nem deve tomar-se    a CPLP por aquilo que ela não é. Sem contiguidade geográfica e com os membros    dispersos por vários continentes e integrados em diferentes organizações regionais,    a CPLP não pode substituir-se a essas organizações nem desempenhar as suas funções    internacionais. Mas pode e deve constituir um instrumento diplomático e um mecanismo    de compensação para que os países de língua portuguesa possam ganhar margem    de manobra e poder acrescido nas áreas regionais em que se integram. Num mundo    em globalização e em que se multiplicam as redes de pertença, faz todo o sentido    uma rede de língua portuguesa e Portugal deve potenciá-la.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Finalmente, um último desafio: o dos valores. A política externa parte da formulação    dos interesses. Mas, no modelo democrático, a política externa não ignora e    não pode ignorar o seu quadro de valores: a Democracia, o Estado de direito    e a segurança humana. E a democracia portuguesa que teve uma das maiores vitórias    da sua política externa na questão de Timor Leste que assentou, por inteiro,    numa diplomacia de valores, deve assumir esse princípio como uma das prioridades    da sua política externa. E na escolha dos seus parceiros privilegiados, sobretudo    na diplomacia económica, onde mais pesam os interesses, não pode nem deve ignorar    os valores. Os resultados económicos, que são importantes, não justificam por    si só relações privilegiadas com regimes que não partilham os valores da democracia    mas não justificam, sobretudo, o silêncio sobre questões de direitos humanos    que esses regimes, eventualmente, não respeitem. Sobretudo, quando nesses regimes    os resultados económicos são uma dúvida e o desrespeito pelo Estado de direito    é uma certeza. </p>     <p>O equilíbrio entre os interesses e os valores constitui, pois, um último desafio    para a política externa portuguesa.</p>      ]]></body>

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