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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Crônicas da morte revivida na luta: uma etnografia da Romaria dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira (MT), Brasil]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Chronicles of death revived in the struggle: an ethnography of the Martyrs of the Walk Pilgrimage in Ribeirão Cascalheira (Mato Grosso, Brazil)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The purpose of this article is to discuss some aspects that compose a ritual sacralization of popular leaders, killed in areas of intense land conflicts in Brazil, and their transformation into martyrs of the land. The Martyrs of the Walk Pilgrimage which provides the basis for this analytical incursion took place between 16 and 17 July 2011, in Ribeirão Cascalheira (Mato Grosso). The agency of these martyrs seems to be based on individual skills, recognized and legitimized within the group itself, both because of their trajectories of struggle and resistance and their training by religious and Catholic missionaries linked to the Liberation Theology. In this direction, if while living their work with peasants and indigenous groups was intense, when they are dead their presence is often triggered and ritualized. This enterprise suggests that the dead man’s active memory, linked to the active memory of the struggle, enables the active presence of the dead in the struggle.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana">         <b>ARTIGOS</b> </font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Crônicas da morte revivida na luta: uma etnografia   da Romaria dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira (MT), Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Chronicles of death revived in the struggle: an   ethnography of the Martyrs of the Walk Pilgrimage in Ribeir&atilde;o Cascalheira (Mato   Grosso, Brazil)</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Edimilson Rodrigues de Souza<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><sup>I</sup>PPGAS-Unicamp, Universidade Estadual de Campinas, Brasil. <em>E-mail:</em> <a href="mailto:edimilsonrondon@gmail.com">edimilsonrondon@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A proposta deste artigo é problematizar alguns   aspectos que compõem rituais de sacralização de lideranças populares,   assassinadas em áreas de intenso conflito fundiário no Brasil, e sua   transformação em mártires da terra. A Romaria dos Mártires da Caminhada, que   fundamentará esta incursão analítica, aconteceu entre os dias 16 e 17 de julho   de 2011, em Ribeirão Cascalheira (Mato Grosso, Brasil). A agência desses   mártires parece estar fundamentada em habilidades individuais, reconhecidas e   legitimadas no interior do próprio grupo, tanto pelas trajetórias de luta e   resistência quanto pelo seu percurso de formação por religiosos e missionários   católicos ligados à Teologia da Libertação. Nessa direção, se enquanto vivos   sua atuação junto a grupos camponeses e indígenas era intensa, depois de mortos   sua presença é frequentemente acionada e ritualizada. Esse empreendimento   sugere que a lembrança ativa do morto, atrelada à lembrança ativa da luta,   possibilita a presença ativa do morto na luta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Palavras-chave: </b>mártir da terra, romaria, narrativas, sacralização</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font size="2" face="Verdana"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">The purpose of this article is to discuss some   aspects that compose a ritual sacralization of popular leaders, killed in areas   of intense land conflicts in Brazil, and their transformation into martyrs of   the land. The Martyrs of the Walk Pilgrimage which provides the basis for this   analytical incursion took place between 16 and 17 July 2011, in Ribeirão   Cascalheira (Mato Grosso). The agency of these martyrs seems to be based on   individual skills, recognized and legitimized within the group itself, both   because of their trajectories of struggle and resistance and their training by   religious and Catholic missionaries linked to the Liberation Theology. In this   direction, if while living their work with peasants and indigenous groups was   intense, when they are dead their presence is often triggered and ritualized.   This enterprise suggests that the dead man’s active memory, linked to the   active memory of the struggle, enables the active presence of the dead in the struggle.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Keywords:</b> martyrs of the land, pilgrimage, narratives, sacralization</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste texto, tentarei recuperar questões   pertinentes ao debate que relaciona assassinatos violentos de lideranças   populares e sua processual transformação em “mártires da terra”, partindo da   etnografia realizada na cidade de Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso, Brasil, em julho de 2011, onde está localizada a Galeria dos Mártires da América Latina.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Durante os trabalhos de campo realizados entre   2010 e 2013 (Souza 2013) emergiram questões ligadas à violência fundiária nas   regiões Amazônica e do Nordeste brasileiro, que sugeriram uma ideia de vida e   morte contrária à descontinuidade entre “nós”, os vivos, e “eles”, os mortos,   relacionando lideranças camponesas, indígenas, sindicais e religiosas   assassinadas nessas localidades aos movimentos de luta pela terra (Comerford 1999,   2003; Loera 2006; ­Borges 2011; Rosa 2012), transformando estes mortos em “mártires”, i.e., em modelos de ação.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A análise aqui proposta evidenciará outros pontos   de vista (ou possibilidades de mundo) para pensar vida e morte, pois esta   fronteira, aparentemente intransponível, uma vez atravessada (e marcada) pela   violência física e simbólica que inscreve o sacrifício, revela um possível   trânsito entre líder e grupo, corpo e alma, numa relação de domínio que   transcende o indivíduo, notadamente a partir do seu assassinato (Mauss 2005; Mauss e Hubert 2003; ­Losonczy 1998, 2003; Borges 2011; Pérez 2012; Rosa 2012).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este tema será devidamente explorado nas seções   seguintes, mas já posso antecipar que o tema da morte revela-se em níveis de   domínio distintos, o que sugere que os mortos martirizados transformam-se num   dispositivo de força na luta pela terra e apresentam uma forma mítica, quase divina, mas ainda humana, uma vez que são incorporados às lutas cotidianas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Romarias e luta pela terra</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A partir das narrativas dos interlocutores desta   pesquisa e das análises produzidas em outros contextos etnográficos (Losonczy   1998, 2003; Aubin-Boltanski 2007; Borges 2011; Pérez 2012; Rosa 2012), é   possível sugerir que não há em algumas cosmologias uma distinção rígida entre   vida e morte; em vez disto, evidencia-se permeabilidade e conectividade mútuas   entre estes dois mundos, sobretudo em contextos sociais marcados por fluxos de relações contínuas e atualizados pelas condições de vida de muitos povos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Estes elementos revelam uma teoria do morto,   expressa nos rituais e peregrinações, e ativada pela morte na luta. Com este   foco, poderei explorar outros pontos de vista sobre a morte, traduzida em   violência (Losonczy 1998, 2003; Pérez 2012). Esta análise tencionará, assim,   compor uma topologia da escatologia que fabrica, na medida em que transforma o líder morto em mártir da terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desse modo, tentarei relacionar três questões que   serão evidenciadas na etnografia: a lembrança ativa do morto, atrelada à lembrança ativa da luta, parece provocar a presença ativa do morto na luta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para entender sumariamente o contexto histórico do   qual emergem estas questões, vale explicar que a Amazônia brasileira tem   vivenciado processos de colonização potencializados na segunda metade do século   XX com a abertura das rodovias Belém-Brasília, Cuiabá-Santarém, Perimetral   Norte e Transamazônica, o que provocou intensos fluxos migratórios para a   região. Estas rodovias compunham o Plano de Integração Nacional (PIN) e   mobilizaram grupos de camponeses, especialmente entre as décadas de 1960 e   1970. Contudo, ao estruturar essa política de “integração”, os órgãos   governamentais desconsideraram a ocorrência de diversos fluxos migratórios   anteriores, de populações camponesas, assim como a existência de povos   indígenas de variadas etnias (Velho 1976, 1982; DaMatta e Laraia 1978; Ianni   1978; Martins 1980, 1984, 2009; Guerra 2001; Hébette 2004; Pereira 2004, 2013; Lombardi 2013).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Esses acontecimentos produziram inúmeras formas de   violência, invasões, e também negociações e barganhas entre índios e não índios   ou mesmo entre diferentes povos indígenas (DaMatta e Laraia 1978; Ianni 1978;   Martins 2009). A eclosão desses conflitos evidencia-se especialmente a partir   da ocupação de terras devolutas, ou seja, propriedades públicas sem   titularidade e por isso legalmente pertencentes ao Estado, e da concessão dessas   terras a grandes empresas agropecuárias pelos órgãos estatais (Hébette 2004; Pereira 2013).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O estímulo à migração que justificava a resolução   de conflitos fundiários, especialmente no Nordeste e Sudeste do Brasil,   resultou na geração de novos conflitos em torno dos mesmos dilemas e da posse   da terra. Descentralizando o problema, não se imaginou que pudessem ser   organizadas novas formas de ocupação e resistência, em outros espaços de   disputa. A confluência desses atores e a diversidade dos seus interesses   tensionou a eminência de confrontos carregados de violência física e simbólica, seguida por desapropriações e mortes (Hébette 2004; Pereira 2013).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O protagonismo destas lutas por terra passa a ser   delineado pela atuação de lideranças populares camponesas, indígenas, sindicais   e agentes religiosos, frequentemente assassinadas e qualificadas posteriormente   como mártires da terra por setores progressistas da Igreja Católica: Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Conselho Indigenista Missionário (CIMI).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se enquanto vivos sua atuação junto a grupos   camponeses e indígenas era intensa, depois de mortos sua presença é   frequentemente acionada em reuniões políticas e religiosas, seja em eventos   ordinários como encontros nos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STR), nas   explicações das leituras bíblicas durante missas ou reuniões religiosas e   conversas informais entre amigos, seja em eventos extraordinários como romarias   anuais ou manifestações públicas. Em todos esses casos pude perceber que a   agência desses mártires parece estar fundamentada em habilidades individuais,   reconhecidas e legitimadas no interior do próprio grupo, tanto pelas   trajetórias de luta e resistência quanto pelo seu percurso de formação por religiosos e missionários católicos ligados à Teologia da Libertação.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A realização de romarias e peregrinações com o   objetivo de homenagear, rememorar e ritualizar estes líderes mortos e   martirizados parece funcionar como um operador da luta pela terra e pela vida   nestas regiões do ­Brasil (Comerford 1999, 2003; Loera 2006). Estudos   anteriores sobre romarias e peregrinações já demonstraram o caráter polissêmico   deste tipo de ritual. Os trabalhos organizados por Simon Coleman e John Eade   (2004), por exemplo, atentam para a ideia de movimento nestes rituais, ainda que   não haja deslocamento espacial, e reforçam o caráter afetivo e simbólico das   peregrinações, como ato vivido pelo peregrino. Para estes autores a   peregrinação não pode ser explicada apenas pelo seu caráter de liminaridade ou <em>communitas</em>&nbsp;<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> como sugeriu Turner (2008; Turner e Turner 2011),   pois nela estão presentes diversos atores que transitam do universo sagrado ao profano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, os símbolos rituais deixam de ser vistos   como forma transitória entre uma estrutura e outra e passam a ser analisados   como contínuos e multissituados. As romarias, nestes termos, podem ser tomadas   como atos tanto religiosos quanto políticos ou como culturas em movimento (Eade   e Sallnow 1991; Steil 1996; Hervieu-Léger 1999; Coleman e Eade 2004; Menezes 2004; Aubin-Boltanski 2007; Braga 2008; Carminati 2014).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sobre a articulação entre romarias e luta pela   terra no Brasil destaca-se o trabalho de Osnera Pinto da Silva, que   problematiza a relação entre mortes violentas, romarias e conflitos pela posse   da terra no estado do Pará. No texto intitulado <em>Caminhando pelos Mortos,     Caminhando pela Vida: Conflitos, Romarias e Santidade no Sudeste Paraense (c.&nbsp;1980   – c.&nbsp;2010)</em>, a autora analisa duas peregrinações: a Romaria da Libertação –   motivada pela morte de duas crianças, Elizabete e Elineuza, em 17 de setembro   de 1980 –, e a Caminhada Irmã ­Adelaide – que rememora a trajetória da   religiosa Adelaide Molinari, assassinada em 14 de abril de 1985 (Silva 2012:&nbsp;17-18).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quanto à Romaria da Libertação, Silva (2012:   42-44) argumenta que esta peregrinação relaciona-se ao crime que ficou   conhecido como “a chacina de Tucuruí” ou “o caso Aragão”, no então povoado de   Goianésia do Pará (PA), no qual foram assassinados Vicente de Pádua Justo e   suas duas filhas: Elizabete (quatro anos) e Elineuza (um ano e quatro meses).   As duas crianças foram mortas e queimadas diante da mãe. As razões do crime não   foram explicadas, nem foi possível conectá-lo aos conflitos agrários da época.   No entanto, ele foi o ponto de partida para a romaria que é organizada há mais   de 30 anos no local. Silva explica que, se por um lado a chacina não pode ser   relacionada aos conflitos fundiários latentes no sudeste do Pará, por outro “a   romaria foi uma das formas encontradas pelo povo de combater a violação dos seus direitos e a matança dos posseiros” (2012:&nbsp;45-47).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quanto à Caminhada Irmã Adelaide, sua origem está   explicitamente relacionada aos conflitos fundiários e disputas entre   fazendeiros e posseiros na mesorregião sudeste paraense, especificamente nos   municípios de ­Curionópolis e Eldorado dos Carajás, onde a religiosa residia e   exercia seu trabalho missionário. A religiosa sofreu um atentado na década de   1980, enquanto conversava com o delegado sindical Arnaldo Delcídio Ferreira, do   Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Eldorado dos Carajás (Silva 2012:&nbsp;49-50).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De acordo com a análise de Silva (2012: 47-49,   55-56), os assassinatos, tanto das duas crianças quanto da religiosa, aqui   descritos sinteticamente, resultaram em romarias que intencionam rememorar os   acontecimentos violentos e retomam, nos seus repertórios, os conflitos em torno   da terra, assim como a atenção aos direitos humanos, que têm sofrido severas violações nessas áreas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Distinções importantes podem ser apontadas entre   essas duas romarias e a peregrinação por mim acompanhada em Ribeirão   Cascalheira. Para a autora, as caminhadas empreendidas nos dois rituais estão   centradas na devoção aos santos populares, não reconhecidos oficialmente pela   Igreja Católica, e os devotos podem ser classificados em dois grandes grupos:   os que buscam milagres e os que cumprem promessas. Nos dois casos, os   peregrinos percorrem dezenas de quilômetros até os locais nos quais foram   assassinadas a Irmã Adelaide e as crianças Elizabete e Elineuza, com chegada   programada para o dia e mês dos acontecimentos que elegeram-nas à condição de mártires (Silva 2012:&nbsp;58-61).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Nessas duas romarias, o tônus dos rituais está   mais próximo da busca por milagres ou devoção a santos populares, uma vez que é   dada atenção especial às promessas com várias finalidades: recuperação da   saúde, resolução de problemas financeiros, aquisição da casa própria (2012:   106-107). Já no caso dos romeiros de Ribeirão Cascalheira o tônus é mais   reativo, no sentido de que os mártires estão diretamente relacionados com a   luta pela terra e pela vida (Comerford 1999, 2003; Loera 2006). Portanto,   enquanto nos dois primeiros casos há uma relação entre o martírio, milagres e   luta pela terra, no terceiro caso há uma relação específica apenas entre   martírio e luta, uma vez que a força do mártir, nos termos dos peregrinos de   Ribeirão Cascalheira, é rememorada e retomada no interior dos enfrentamentos   pela posse da terra e pelo direito à vida. Na etnografia realizada no Estado do   Mato Grosso os mártires são evidenciados como modelos de ação, não lhes são atribuídos milagres, nem tampouco são alvos de promessas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os elementos descritos por Christine de Alencar   Chaves, em seu livro <em>A Marcha Nacional dos Sem-Terra: Um Estudo sobre a     Fabricação do Social</em> (2000), por sua vez, podem elucidar melhor essa conexão entre   procissões e ação política, sem apelar para uma conotação relacionada a   milagres alcançados individualmente. Neste sentido tentarei mostrar   aproximações entre esta marcha e a romaria organizada em Ribeirão Cascalheira em 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A Marcha Nacional dos Sem-Terra aconteceu entre os dias 17 de fevereiro e 17 de abril de 1997, e foi assim descrita:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“[…] a caminhada dos sem-terra foi constituída por     três ‘colunas’, que buscaram atravessar pontos diversos do território     brasileiro, seguindo itinerários diferentes rumo a Brasília. São Paulo,     Governador Valadares e Cuiabá [Brasil] foram as cidades escolhidas como ponto     de partida das três Colunas, compostas por integrantes do MST [Movimento dos     Trabalhadores Rurais Sem Terra] – “acampados” e “assentados” – de diferentes     estados da federação, no empenho em dar à marcha uma representação nacional.     Com atos públicos nas cidades de origem, ela teve início em 17 de fevereiro.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">[…] O 17 de abril foi escolhido para término do     percurso com a chegada a seu destino, a capital do país [Brasília], por ser a     data do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, ocorrido um ano antes –     convertida em dia internacional de luta pela reforma agrária” (Chaves     2000:&nbsp;13-14).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Algumas questões que já aparecem nesta primeira   descrição da marcha nacional podem ser conectadas à Romaria dos Mártires da   Caminhada. A primeira delas é a representação nacional, estimulando a   participação de diversos estados do Brasil. A segunda é a relação entre a   peregrinação e um acontecimento violento envolvendo membros dos grupos de   caminhantes: o massacre de Eldorado de Carajás torna-se o epicentro da Marcha   do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nestes termos, a romaria e a Marcha Nacional dos   Sem-Terra analisada por Christine de Alencar Chaves assemelham-se em eficácia,   na medida em que podem ser consideradas “em termos de ação coletiva expressiva,   cuja importância teve por suposto a capacidade de comunicar os fundamentos   ideológicos e o propósito político” desses movimentos. E, nesta circulação, evocam “referências simbólicas consagradas” (Chaves 2000:&nbsp;15).</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Feita de palavras de ordem bradadas em uníssono,     gestos sincronizados por um mesmo ritmo, movimentos cadenciados em uma só     direção, a mística é palavra e ato, pensamento e emoção. A mística constitui,     portanto, uma unidade construída por regras que criam uma uniformidade, através     da cadência sincronizada de palavras e atos que, produzidos conjuntamente,     modulam um só sentido. [Seus símbolos, atos e palavras] conformam-lhe sentido,     são como setas que endereçam a potência coletiva a um alvo definido pela ‘luta’&nbsp;”     (Chaves 2000:&nbsp;85).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A mística da marcha do MST, análoga à dos romeiros   dos mártires da caminhada, constrói unidade na diversidade e aproxima dilemas e   demandas aparentemente dispersas e distantes geograficamente. O ato (a romaria   e a marcha) e a narrativa inscrita na peregrinação rememoram enfrentamentos,   dificuldades, violência e mortes. Tanto na minha experiência etnográfica quanto   no caso analisado por Christine Chaves (2000), estes elementos parecem   funcionar como agenciadores de um modelo de luta que constrói um projeto   coletivo de vida. Nele aparecem demandas por direitos coletivos: terra, saúde,   educação, condições dignas de sobrevivência, entre outros.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A romaria dos mártires da caminhada</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A 5.ª Romaria dos Mártires da Caminhada aconteceu   entre os dias 16 e 17 de julho de 2011, em Ribeirão Cascalheira (MT). Esta   romaria constitui um marco histórico importante na trajetória da luta pela   terra de camponeses e indígenas da região. A primeira romaria foi realizada em   1986, dez anos após o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, a segunda   em 1996, e a partir de então começou a ser organizada a cada cinco anos, em   2001, 2006 e 2011, estando a próxima prevista para 2016. Ela reúne povos indígenas,   camponeses, organizações não governamentais (ONG), Sindicatos de Trabalhadores   Rurais (STR) e setores progressistas da Igreja Católica, particularmente a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesta localidade foi assassinado, em 11 de outubro   de 1976, o padre João Bosco Penido Burnier. Sua morte revela-se como um marco   na fabricação da ideia de martírio pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e   pela Teologia da Libertação. Em decorrência deste assassinato, Ribeirão   Cascalheira tornou-se referência na celebração dos mártires da terra e sede da   Galeria dos Mártires da América Latina (<a href="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a06f1.jpg">figura&nbsp;1</a>). Nesta galeria são   abrigadas imagens de lideranças assassinadas em decorrência de conflitos fundiários.</font></p>     
<p><font size="2" face="Verdana">Nesta imagem, a Galeria aparece à direita.   Atualmente, a celebração ­martirial do Padre João Bosco é realizada na parte   externa do Santuário, pois o número de peregrinos cresceu nos últimos anos.   Ganha destaque na cena uma das bandeiras com imagens dos mártires,   confeccionada artesanalmente e carregada pelos romeiros pelos mais de cinco quilômetros percorridos na noite do dia 16 de julho de 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A peregrinação, que comemorou em 2011 vinte e   cinco anos de história, reuniu aproximadamente 1600 romeiros,<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a> vindos de todas as regiões do ­Brasil, e de   outros países, como Alemanha, Espanha e Itália. Entre eles, estavam presentes   alguns representantes dos povos indígenas Guarani Kaiowa, Xukuru do Ororubá e Xavante.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Cada romaria é preparada ao longo de cinco anos,   logo que se encerra a anterior, sendo de responsabilidade das comunidades da   Prelazia de São Félix do Araguaia&nbsp;<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> a preparação e confecção de painéis, provisão de alimentos, organização da hospedagem dos romeiros, sempre de forma conjunta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A principal intenção desses romeiros ao se   encontrar em Ribeirão ­Cascalheira a cada cinco anos é rememorar lideranças   assassinadas violentamente em zonas de intenso conflito fundiário. Nesta ação,   esses grupos e movimentos fabricam o sacrifício (Mauss e Hubert 2003) desses   líderes através dos atos de ritualização e sacralização, que os elegem a mártires da terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste ritual o termo mártir assume também configuração   política, sobretudo a partir do agravamento de situações de conflito no campo,   que culminou com a criação, em 1975, da Comissão Pastoral da Terra (CPT),   ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Os agentes da CPT   procuram articular e organizar politicamente os trabalhadores rurais e fazer   intermediação na resolução de conflitos de terra. Ao reivindicar as   desapropriações de terras com base no Estatuto da Terra (Lei n.º&nbsp;4.504, de   30/11/1964) essa instituição defende uma concepção   sobre a relação entre fé e vida, atribuindo aos líderes dos movimentos sociais   mortos nesses conflitos uma caracterização sagrada de doação da vida pelas causas sociais da humanidade (Pereira 2004; Murphy 2008).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">É importante frisar que os enfrentamentos relacionados   aos conflitos fundiários nessas áreas ganharam força e visibilidade política   com a emergência de ideais progressistas no interior da Igreja Católica, a Teologia da Libertação.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Matias Martinho Lens, ao analisar a Teologia da   Libertação, explica que este movimento se caracteriza por uma prática cristã   libertadora, “não só escatológica, mas buscada na história; […] uma libertação   simultaneamente na instância econômica, política e religiosa, entendidas como   totalidade” (1992: 125). Para o autor, esta concepção teológica formulada após   o Concílio Vaticano&nbsp;II (na primeira metade da década de 1960) “tenta   traduzir para o campo religioso as críticas aos sistemas levantadas pela   análise social” (1992: 125). Dela emergem organizações pastorais militantes que   trabalham junto a grupos marginalizados socialmente, das quais Lens cita:   Comunidades Eclesiais de Base (CEB), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pastoral   Operária (PO) e Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Todos eles caracterizam-se pela conotação social e política das práticas religiosas (Lens 1992:&nbsp;125).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Entre suas principais ações destaca-se: “uma   importante releitura de conceitos, concepções teológicas e textos religiosos,   inclusive a Bíblia, lida agora por Comunidades Eclesiais de Base à luz de sua   prática libertadora e como inspiradora da opção preferencial e ‘evangélica’ pelos pobres” (Lens 1992:&nbsp;125).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na Prelazia de São Félix do Araguaia essas   organizações pastorais articuladas aos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais   promovem uma série de movimentos populares, atos de resistência camponesa e   indígena, e elaboram estratégias de ação com base na figura de seus líderes mortos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesses atos de resistência, a evocação da figura   do líder martirizado permite construir um lugar privilegiado de elaboração   social de um personagem. Os líderes mortos e processualmente martirizados   ganham visibilidade social e política através de narrativas que relacionam   modelos de ação à eficácia simbólica das práticas ritualísticas (Peirano 2002,   2003), nas quais analogias e aproximações, traduções e transposições propiciam   a produção da crença na presença desses <em>mártires</em>. Este tema será explorado no tópico seguinte.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Atores, cenários e símbolos da romaria</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">João Bosco Penido Burnier (<a href="#f2">figura 2</a>) era padre,   missionário jesuíta e coordenador da Regional do CIMI no nordeste do Mato   Grosso, Brasil, e sua trajetória biográfica, narrada por Pedro Casaldáliga,<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title="">[5]</a> inicia-se no encontro entre ele e os diversos grupos indígenas que viviam nas áreas da foz do rio Araguaia:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Era tarde do dia 11 de outubro de 1976. Duas     mulheres sertanejas, ­Margarida e Santana, estavam sendo torturadas na     cadeia-delegacia de Ribeirão Bonito, lugar e hora de latifúndio prepotente, de     peonagem semiescrava e de brutalidade policial. A comunidade celebrava a novena     da padroeira, Nossa Senhora Aparecida. E nesse dia eu havia chegado ao povoado     com o padre João Bosco. Nós dois fomos interceder pelas mulheres torturadas. Os     policiais nos esperavam no terreiro da delegacia e apenas foi possível um     diálogo de minutos. Um soldado desfechou no rosto do padre João Bosco um soco,     uma coronhada e o tiro fatal. Em sua agonia, padre João Bosco ofereceu a vida     pela CIMI e pelo Brasil, invocou ardentemente o nome de Jesus e recebeu a     unção. Foi morrer, gloriosamente mártir, no dia seguinte, festa da Mãe     Aparecida, em Goiânia, coroando assim uma vida santa” [Entrevista concedida em     15 de julho de 2011].</font></p>    </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="left"><a name="f2" id="f2"></a></p>     <p align="left">&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana"><img src="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a06f2.jpg" width="334" height="498"></font></p>     
<p align="center">&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">João Bosco, que participava do Encontro   Indigenista anual da Prelazia de São Félix do Araguaia, em outubro de 1976,   esteve, nos dias que antecederam seu assassinato, junto a Pedro Casaldáliga. Ao   final deste encontro, ele seguiu com o bispo para Ribeirão Bonito,<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> onde aconteciam os festejos da padroeira do local, Nossa Senhora Aparecida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ali, o padre pernoitaria e depois seguiria para a   aldeia dos bakairi, onde desenvolvia seus trabalhos missionários. O vilarejo,   no entanto, estava tomado por um clima de tensão, decorrente da morte de um   cabo da polícia, em 1971, que trouxe ao lugar um destacamento de policiais que, nas palavras de ­Casaldáliga, reprimiam e torturavam posseiros da área.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Chegando ao povoado, os dois religiosos tomaram   conhecimento de que duas mulheres, Margarida e Santana, estavam sofrendo   torturas na delegacia. Casaldáliga resolve ir ao local interceder por elas, e João Bosco decide acompanhá-lo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao chegar à delegacia eles encontram alguns   policiais e num breve diálogo João Bosco sofre um atentado, por parte de um dos   cabos, que deflagra sobre o padre uma bofetada e na sequência uma coronhada de revólver e um tiro no crânio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sobre este encontro entre João Bosco e os polícias   ouvi várias versões. Numa delas os policiais haviam confundido o missionário   com o bispo Casaldáliga, pois o bispo vestia-se com muita simplicidade,   enquanto o padre usava roupas de religioso e portava <em>clergyman</em>.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> Outros peregrinos contaram-me que, quando os policiais perguntaram quem dos   dois era o bispo, João Bosco se apresentou como tal, pois suspeitou que eles   fossem atirar em Casaldáliga. Numa terceira versão do assassinato, os   peregrinos explicaram que ao averiguar a condição de tortura das duas mulheres, o padre ameaçou denunciar os policiais aos seus superiores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em todos os relatos, o padre “ofereceu sua vida   pelas vidas”: do bispo, das mulheres presas e torturadas e dos índios e camponeses da área. Esta oferta voluntária o transformou em mártir.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">A Galeria dos Mártires, conhecida também como   Santuário dos Mártires da Caminhada, foi construída no mesmo local onde o padre   João Bosco foi baleado pelo policial. Em entrevista, Casaldáliga atribuiu a   construção da Galeria a um protesto dos moradores de Ribeirão Cascalheira, que,   no 7.º&nbsp;dia da morte do referido padre, destruíram a delegacia e posteriormente construíram o santuário.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A <a href="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a06f3.jpg">figura 3</a> é da delegacia destruída pelos   moradores de Ribeirão Bonito. Note-se à esquerda da imagem a Cruz da   Libertação, fincada no dia da derrubada, na qual se lê a inscrição: “aqui no   dia 11/10/76 foi assassinado por soldado PM [Polícia Militar] o Pe.&nbsp;João defendendo a liberdade”.</font></p>     
<p><font size="2" face="Verdana">A Romaria dos Mártires da Caminhada atualiza o   percurso feito por João Bosco e Casaldáliga, bem como o caminho dos posseiros   que retornaram à delegacia para destruí-la e construir posteriormente, no local, a Galeria dos Mártires.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nos três dias que antecedem o ritual principal são   realizadas celebrações que desencadeiam o processo de elaboração da   sacralização dos mártires através da partilha de suas histórias. Numa dessas   noites, registrei a acolhida dos romeiros na capela que teria sido o lugar onde   o padre João Bosco recebeu os primeiros socorros, antes de ser levado para a   cidade de Goiânia, estado de Goiás, Brasil, local do seu falecimento. Os   momentos que precedem este rito são marcados por cantos, danças e imagens que contribuem na montagem expressiva das narrativas sobre o martírio.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Neste lugar, terra sagrada, aconteceu a agonia do     padre João Bosco […]. Foi uma morte muito simbólica. Eu vou recordar que o     padre João Bosco era um jesuíta, de uma família distinta e teve cargos na     companhia de Jesus de prestígio, e que<em> ele havia feito a opção pelos pobres,     pelas margens</em>. Ele havia na verdade deixado os colégios de luxo, deixado as     comunidades do Rio, de São Paulo, e vindo para o interior. <em>Símbolo dos santos     dos pobres</em>, ele foi trabalhar, viver e trabalhar no meio dos povos indígenas,     concretamente os <em>Pacaembu, </em>o<em> santo da causa indígena</em>; e no meio dos sertanejos,     posseiros dessa região do norte do Mato Grosso, o <em>santo da reforma agrária</em>,     pelo povo sem terra. E é reconhecido também como o <em>padroeiro das lutas contra a     tortura</em>, porque ele morreu, em última instância, porque nós dois fomos tentar     libertar duas mulheres que estavam sendo torturadas. Ele morreu por defender da     tortura essa duas mulheres, <em>martírio simbólico de muitos outros mártires</em>. […] O     padre João Bosco, neste sentido também, foi militante: lutou pela causa     indígena, pela defesa dos pobres e foi místico. <em>Juntou o que na maioria das     vezes fica separado das nossas vidas: a militância e a contemplação</em>” [Pedro     Casaldáliga, 15 de julho de 2011 – grifos meus].</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Além da delegacia que deu lugar à Galeria dos   Mártires, a casa paroquial, na qual João Bosco havia recebido os primeiros   cuidados após o atentado, também foi transformada em espaço sagrado. É evidente   que a produção da estética do martírio predomina sobre a ocorrência da morte de   João Bosco, pois mesmo tendo falecido a caminho de Goiânia (GO), onde receberia   cuidados médicos, a delegacia e a casa paroquial são rememoradas como espaços   da morte e sacrifício, cenários onde pode ser enfatizada a violência do   assassinato.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na casa paroquial transformada em capela, os   grupos de romeiros começam a vivenciar os fatos que motivaram a realização da   romaria: a morte do referido padre e o reconhecimento de outros mártires, espalhados pela América Latina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O atentado que ocasionou a morte do padre João   Bosco foi o eixo propulsor da Romaria dos Mártires da Caminhada; nele é   evidenciada a mobilização coletiva e pública, materializada na destruição da   cadeia e posterior construção da galeria que abriga e sacraliza as imagens-memória dos mártires (Nora 1984, 1993; Godoi 1999).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para dar início à peregrinação uma fogueira é   acesa por lideranças indígenas, enquanto Zenilda Maria de Araújo, liderança do   povo Xukuru do Ororubá, ora, cantando: “Meus irmão de luz vem nos socorrer, é a   sua força que vai nos valer. Força, força, meus irmão de luz. Força, força, com   as ordens de Jesus”, num apelo comum para receber do mártir a força para continuar lutando.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Do centro de Ribeirão Cascalheira, os caminhantes   seguem rumo à galeria, ao longo de cerca de cinco quilômetros a pé. Durante o   percurso, as falas, acompanhadas por música e imagens dos líderes assassinados   reforçam a postura política, religiosa e ideológica desses atores, questionando   a marginalização, desigualdade e má distribuição de recursos econômicos, sociais e naturais. As músicas soam como hinos populares:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Quem disse que não somos nada    <br>   e que não temos nada para oferecer.    <br>   Repare as nossas mãos abertas    <br>     trazendo as ofertas do nosso viver.    <br>     A fé do homem nordestino    <br>     que busca um destino e um pedaço de chão.    <br>     A luta do povo oprimido que abre caminho e     transforma a nação.    <br>     Retalhos de nossa história bonitas vitórias que    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     meu povo tem.    <br>     Palmares, Canudos, Cabanas    <br>     são lutas de hoje e de ontem também.    <br>     <em>Aqui trazemos a semente    <br>     sangue desta gente que fecunda o chão.</em>    <br>     Do gringo e tantos lavradores    <br>     Santos e operários em libertação.    <br>     Coragem de quem dá a vida    <br>     Seja oferecida com este vinho e pão.    <br>     <em>É força que destrói a morte    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     E muda nossa sorte é ressurreição.</em>    <br> Ô, ô, ô, ô recebe Senhor”    <br> (“Quem disse que não somos nada”, letra de Zé     Vicente – grifo meu).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste ponto, a análise proposta por Anne-Marie   Losonczy (1998, 2003) e Andrea Lissett Pérez (2012) me parece incontornável   para problematizar a relação entre culto aos mortos, luta pela terra e   violência.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A primeira autora percebe que há uma tênue relação   entre mortes violentas e sacralização na Colômbia, ao observar as frequentes   homenagens realizadas nos túmulos dos cemitérios das cidades de Bogotá e   Medellín, por indivíduos ou grupos, às vítimas assassinadas (mortos recentes,   anônimos ou célebres) por organizações paramilitares ou narcotraficantes, e   sugere que essas ações rituais mortuárias ecoam nas dinâmicas coletivas de ritualização da violência, terror e luto (Losonczy 1998, 2003).</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“[…]     La présence périodique de fleurs [em túmulos anônimos no cemitério central de     Bogotá], de cierges, et de remerciements écrits autour d’une tombe anonyme     particulière, ainsi que le témoignage d’un homme sur les miracles d’une âme de     mort y attirent des solliciteurs de plus en plus nombreux. Après quelques     années, apparaît une femme affirmant être la fille de cette morte connue comme   ‘la Milagrosa’, à laquelle elle attribue le nom de Salomé. Elle commence à     vendre la photo de la défunte, puis le texte de ‘as’ prière. Désormais nommée,     possédant une iconographie, des paroles rituelles particulières à son adresse,     quelques éléments biographiques et des miracles post mortem les esquisses d’une     hagiographie: d’âme anonyme de mort la voici transformée en sainte” (Losonczy     2003: 188-189).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Losonczy (2003) estes rituais públicos nos   túmulos ultrapassam o limite entre vida e morte e produzem uma dupla eficácia:   denunciam a violência sofrida e santificam os mortos, transformando-os em   figuras de proteção.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este movimento é bem semelhante ao encontrado em   Ribeirão Cascalheira, Brasil. No caminho até à delegacia transformada em   santuário-galeria dos mártires (<a href="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a06f4.jpg">figuras 4 e 5</a>), os peregrinos rememoram os locais de conflito e as pessoas envolvidas.</font></p>     
<p><font size="2" face="Verdana">Similar ao culto aos mortos nos cemitérios da   Colômbia, a Romaria dos Mártires da Caminhada também formula denúncias à   violência em áreas de conflito eminente e atualiza os sentidos da luta pela   terra e pelo direito à vida ao rememorar as experiências violentas que originam   a condição de martírio de lideranças camponesas e indígenas. Este aspecto fica   evidente nos objetivos anunciados pelos animadores, romeiros e organizadores em suas falas:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">–&nbsp;reunir pessoas que acreditam na opção da Igreja pelos pobres e marginalizados;</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">–&nbsp;reavivar (revigorar) as forças na luta;</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">–&nbsp;rememorar os irmãos que morreram na   caminhada e anunciar sua presença na luta, através das histórias de sua vida, seu engajamento político e sua morte;</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">–&nbsp;constituir e atualizar a comunidade a   partir da memória do mártir [nos termos de Pedro Casaldáliga, “uma igreja que não se lembra de seus mártires não deve continuar”].</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O rito possibilita, a meu ver, a produção de   sentimentos que unem as pessoas em torno de um elemento comum: suas lideranças   violentamente assassinadas. Os relatos sobre a morte e vida dos líderes são transformados em narrativas do martírio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Este argumento evoca o trabalho de Andrea Lissett   Pérez (2012) sobre a presença de elementos religiosos no interior de um grupo   revolucionário na Colômbia, o Exército de Libertação Nacional (ELN). De acordo com   a autora, este movimento é criado em 1965 por sete estudantes, ancorados na   emergência de novas propostas revolucionárias, questionadoras das posturas de   antigos partidos de esquerda colombianos, notadamente quanto às suas   estratégias e táticas de luta política. Estas novas propostas “de luta e   utopias libertárias” defendiam a luta armada como alternativa para alcançar as   mudanças sociais e políticas almejadas. E para atingir este objetivo   vincularam-se a diversos setores da sociedade: camponeses, intelectuais,   operários, estudantes e cristãos ligados à Teologia da Libertação (Pérez 2012:&nbsp;350).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Um dado importante na atuação desse movimento, que   dialoga com a etnografia sobre os mártires da terra no Brasil, é a presença do   sacerdote católico Camilo Torres, que na ocasião da criação do ELN havia sido   afastado dos seus trabalhos pastorais por setores conservadores da Igreja   Católica, mas ainda exercia forte liderança popular. A atuação de Camilo junto   ao movimento, no entanto, foi abreviada pelo seu assassinato em fevereiro de   1966 por um soldado inimigo, no primeiro combate do qual participou. Este fato   provocou a abertura de um espaço de participação política em diversos âmbitos cristãos, que se identificaram com o pensamento e com a vida de Camilo (Pérez 2012:&nbsp;351).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De acordo com Pérez, a morte do padre Camilo marca   profundamente o ELN, que o transformou em mártir da revolução colombiana e em   mito reverencial dos militantes deste movimento: “Camilo interpretou e   atualizou um dos mais caros preceitos do cristianismo: o sentido do sacrifício   e da entrega total pelos outros. Ele encarna […] o sacrifício de Jesus pela humanidade” (2012:&nbsp;353).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A martirização do padre Camilo atualiza o sentido   da morte para os guerrilheiros do ELN, que a transformam em algo desejado, ao   atribuir aspectos de sacralidade e recriar simbolicamente o mito de salvação do   cristianismo. Para a autora, três valores se articulam neste processo: “o   sujeito que se sacrifica, a atitude de entrega como um ato de amor e os receptores dessa entrega, o povo” (2012:&nbsp;355).</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">“O problema da salvação não se esgota no plano da     vida, transcende com a morte e adquire um poderoso sentido simbólico: o     martírio, que é a forma ideal de se perpetuar na memória dos homens. Este foi o     sentido ativado com a morte do sacerdote Camilo Torres, que forneceu a metáfora     perfeita para dar vida à figura do martírio dentro da organização”     (2012:&nbsp;359).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">As <a href="/img/revistas/etn/v20n2/20n2a06f5.jpg">figuras 6, 7 e 8</a> dialogam com o argumento de   Pérez (2012). No conjunto iconográfico é possível reconhecer a concepção de morte   difundida pelos militantes do ELN colombiano: “[…] quem morre lutando em nome   da ‘causa’ realmente não morre, continua vivendo nos demais que permanecem na   luta. Segue presente numa nova dimensão, na de ‘mártir’&nbsp;”   (2012:&nbsp;361).</font></p>     
<p><font size="2" face="Verdana">Por meio dessas narrativas orais e visuais, os <em>mártires</em> são acionados e convidados a caminhar junto aos peregrinos; ganham destaque os   estandartes carregados pelos romeiros com as imagens dos mártires e algumas   camisetas preparadas para o evento onde se lê “Romaria dos Mártires 2011:   Testemunhas do reino”. A vela é descrita pelos romeiros como símbolo da luz que   guia o caminho e representa a continuidade do percurso, iluminado pela lembrança ativa do mártir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As imagens narram o trabalho realizado pelos   mártires em diversas partes do Brasil, momentos de “sua vida doada pelas   vidas”, podendo ser complementadas com textos afixados junto a elas, como o que afirma “o suor e sangue do mártir fecundam o chão”.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Animador: A gente pede ao pessoal que tem os     estandartes [com as imagens dos mártires], com essas presenças vivas de quem     deu a vida pela vida, pelo reino da vida, que possa virar-se, fazer como se     fosse um círculo em volta do próprio corpo, para que todos possam visualizar em     todas as direções quem são essas pessoas. E a gente pode acenar, levantado as     nossas velas para iluminar a presença deles e delas [referindo-se aos     estandartes com a imagem dos mártires]    <br>     Animador: Antônio Conselheiro?    <br>     Coro: Presente na caminhada!    <br>     Animador: Galdino?    <br>     Coro: Presente na caminhada!         ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     Animador: Xicão Xukuru?    <br>     Coro: Presente na caminhada!    <br>     Animador: Miriã Maria?    <br>     Coro: Presente na caminhada!    <br>     Animador: Arturo Bernal?    <br>     Coro: Presente na caminhada!    <br>     Animador: Carlos Paz?    <br>     Coro: Presente na caminhada!    <br>     Animador: Oscar Santana?    <br>     Coro: Presente na caminhada!    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     Animador: Juventude?    <br>     Coro: Presente nesta caminhada!    <br>     Animador: Estudantes?    <br>     Coro: Presente nesta caminhada!    <br>     Animador: Mulheres?    <br>     Coro: Presente nesta caminhada!    <br>     Animador: [referindo-se aos mártires] Continua     vivo, continua presente na caminhada. São esses mártires que nos dão força e     que nos ajudam a continuar na defesa da justiça. Sobre a terra o povo avança;     quem espera nunca alcança!    <br>     Coro: Sobre a terra o povo avança; quem espera     nunca alcança!”    <br>     [Falas registradas na Romaria dos Mártires da     Caminhada, 16 de julho de 2011]</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Nestes trechos da narrativa oral, as pessoas são   convidadas pelo animador a chamar o mártir para caminhar junto a elas e a   experimentar a força do líder morto na luta em defesa da justiça,   especialmente. Assim, rememorar o mártir o elege a precursor da luta que avança   (Losonczy 1998, 2003; Pérez 2012). Ele “continua vivo”, repete insistentemente   o animador, “presente na caminhada”.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Nos relatos e nos cantos os mártires são   processualmente sacralizados na medida em que são lembrados e comemorados nas   falas das lideranças. A cada nome, os romeiros respondem: “presente na   caminhada”. O caminhar também fabrica os romeiros e os significa (Eade e Sallnow   1991; Steil 1996; Hervieu-Léger 1999; Coleman e Eade 2004; Menezes 2004;   Aubin-Boltanski 2007; Braga 2008; Carminati 2014); a peregrinação, ao mesmo   tempo obrigação e ato voluntário, envolve um compromisso coletivo e individual: continuar a luta iniciada pelo líder sacralizado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os atos que conformam a Romaria dos Mártires da   Caminhada reforçam a luta dos presentes, unidos ao mártir antes e depois da   morte, cujo sentido se inscreve e se fixa como resistência e continuidade. A   celebração do martírio é um motivo para se encontrar, partilhar o sofrimento e reunir forças para continuar resistindo (Losonczy 1998, 2003; Pérez 2012).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>A presença ativa do morto na luta</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No âmbito das questões ligadas à violência   fundiária nas áreas descritas ao longo deste artigo é sugestiva uma ideia de   morte incomum<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><sup>[9]</sup></a> que emerge nas narrativas orais e visuais sobre   lideranças camponesas, indígenas, sindicais e religiosas violentamente   assassinadas e processualmente martirizadas, num plano de equivalências e   analogias, produzidas com a presentificação do mártir, como herói mítico   (Sahlins 2008, 2011), num trabalho onde símbolos e metáforas operam a articulação entre sacralização e ritualização.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os relatos sobre a trajetória de luta dos mártires   parecem orientar um modelo exemplar de ação. Neste modelo, a figura do mártir é   construída numa relação intersubjetiva de comoção, no envolvimento numa luta   por um objetivo comum e num movimento dialógico e convergente de pertencimento,   alimentando vínculos religiosos, políticos e sociais, que conjugam um sentido de sofrer com, e não sofrer só.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As experiências pessoais tornam-se, como modelo   exemplar, atos coletivos e possibilitam a produção do grupo a partir dos   episódios vivenciados pelos mártires, ao atualizar práticas de resistência através dessas experiências privilegiadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desse modo, três questões me parecem apropriadas   para pensar essas mortes violentas e a sacralização desses líderes: a lembrança   ativa do morto, atrelada à lembrança ativa da luta, possibilita a presença ativa do morto na luta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sylvia Caiuby Novaes, num artigo intitulado   “Funerais entre os bororo: imagens da refiguração do mundo” (2006), auxiliará   na defesa deste argumento. Ao analisar os ritos funerários deste povo, a autora   afirma que ocorre uma série de transformações no corpo e na alma do morto e nas relações sociais com os vivos.</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">“[…] seus cabelos [do morto] são cortados do modo     tradicional, seu corpo é todo untado de urucum, seu rosto ornamentado com     pinturas, e em sua cabeça são colocados adornos plumários de acordo com os     padrões do clã a que ele pertence. É preciso identificar claramente esse corpo     e essa pessoa que serão desfigurados após a morte.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana">A perda do sopro vital é o sinal da morte. A     partir do momento em que se constata a perda do sopro vital, o rosto do morto é     coberto por uma bandeja de palha para que, transformado em <em>aroe</em> (alma), não     seja visto por mulheres e crianças. Essa é a primeira da longa série de     transformações desencadeadas pela morte e que, como tal, deve ser mantida fora     dos olhares de mulheres e crianças” (Novaes 2006: 290-291).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Neste caso, o morto é ritualmente preparado para   ser processualmente esquecido e sua alma deve seguir para a aldeia dos mortos.   Seus pertences são queimados e sua presença é substituída por um representante,   uma alma nova. Todos os esforços são concentrados no esquecimento ativo do   morto.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">“Não se pronuncia o nome do morto após sua morte –     este é mais um dos inúmeros traços de sua vida que deve desaparecer. As     mulheres não devem saber quem é o representante do finado. […] A desfiguração     que ocorre nos funerais revela o mistério por trás da vida e da morte nessa     sociedade. A morte desequilibra o cosmos, e é preciso um enorme esforço     coletivo para que a vida retome seu rumo. A desfiguração é total – o corpo do     morto, seu nome, seus pertences” (Novaes 2006:&nbsp;302).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Se entre os bororo a morte significa a perda do   sopro vital e a consequente substituição do morto pelo seu representante, <em>aroe     maiwu</em> (alma nova), no caso dos mártires da terra ocorre o extremo oposto: a   lembrança ativa do morto na luta é ritualmente elaborada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">E para mantê-los “presentes na caminhada”, suas   trajetórias são constantemente acessadas e por vezes magnificadas, como foi demonstrado através das narrativas dos seus grupos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se tomarmos os mártires da terra como expressão   das lutas sociais empreendidas por camponeses e indígenas no Brasil, poderemos   articulá-los num campo perceptivo imbricado de conflitos, enfrentamentos e   instabilidades. Envoltos nesses dilemas e nos respectivos desdobramentos da   vivência cotidiana do grupo, eles atuam na mediação, tradução e movimentação,   expressos e presentificados pela potência/força evocativa das   imagens dos painéis e fotografias, transitando entre “a figura e o fundo, as   margens e o centro, o móvel e o ponto de referência, o transitivo e o substancial, o comprimento e a profundidade” (Deleuze e Guattari 1992:&nbsp;30).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Finalmente, é possível indicar que é atribuída aos   mártires da terra, nos contextos etnográficos aqui descritos, uma   invencibilidade, o que significa dizer que o morto não morre, ao contrário, retroalimenta a luta pela terra e continua “presente na caminhada”.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O principal critério desta transformação, “dar a   vida pelas vidas”, significa também doar sua força, sua capacidade de   articulação religiosa, política e social. Este exercício poderia ser traduzido   numa ação que transcende tempo e espaço, substituindo os limites físicos do   corpo pelas potencialidades ilimitadas da alma. Esta, por sua vez, transita,   através dos painéis, canções e narrativas visuais e orais, pelos variados   espaços de enfrentamentos, fabricando formas de resistência imprevistas pelos   opositores e mediando a relação entre movimentos sociais e luta pela terra.   Intenciona-se, nessa investida, uma mudança no mundo social, justificando as posições tomadas frente às disparidades identificadas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Bibliografia</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">AUBIN-BOLTANSKI,   Emma, 2007, <em>Pèlerinages et nationalisme en Palestine: Prophètes, héros et     ancêtres</em>. Paris, Editions de l’EHESS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193461&pid=S0873-6561201600020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BORGES, Antonádia, 2011, “Sem sombra para   descansar: etnografia de funerais na África do Sul contemporânea”, <em>Anuário Antropológico</em>, 2010: 215-252.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193463&pid=S0873-6561201600020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">BRAGA, Antônio Mendes da Costa, 2008, <em>Padre Cícero: Sociologia de Um Padre, Antropologia de Um Santo</em>. Bauru, SP, Edusc.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193465&pid=S0873-6561201600020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CARMINATI, Thiago Zanotti, 2014, <em>A Dádiva da   Imagem: As Promessas como Produção de Pessoas e Objetos (Etnografia em Juazeiro   do Norte)</em>. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, tese de doutorado em Sociologia e Antropologia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193467&pid=S0873-6561201600020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CHAVES, Christine de Alencar, 2000, <em>A Marcha   Nacional dos Sem-Terra: Um Estudo sobre a Fabricação do Social</em>. Rio de Janeiro, Relume Dumará.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193469&pid=S0873-6561201600020000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COLEMAN, Simon, e John EADE (orgs.), 2004, <em>Reframing Pilgrimage: Cultures in Motion</em>. Londres e Nova Iorque, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193471&pid=S0873-6561201600020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COMERFORD, John Cunha, 1999, <em>Fazendo a Luta:   Sociabilidade, Falas e Rituais na Construção de Organizações Camponesas</em>. Rio de Janeiro, Relume Dumará.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193473&pid=S0873-6561201600020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">COMERFORD, John Cunha, 2003, <em>Como Uma Família:   Sociabilidade, Territórios de Parentesco e Sindicalismo Rural</em>. Rio de Janeiro, Relume Dumará.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193475&pid=S0873-6561201600020000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">CUNHA, Manuela Carneiro da, 1978, <em>Os Mortos e os   Outros: Uma Análise do Sistema Funerário e da Noção de Pessoa entre os Índios Krahó</em>. São Paulo, Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193477&pid=S0873-6561201600020000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DAMATTA, Roberto, e Roque de Barros LARAIA, 1978, <em>Índios   e Castanheiros: A Empresa Extrativa e os Índios no Médio Tocantins</em>. Rio de Janeiro, Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193479&pid=S0873-6561201600020000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">DELEUZE, Gilles, e Félix GUATTARI, 1992, <em>O que É   Filosofia?</em>. Rio de Janeiro, 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193481&pid=S0873-6561201600020000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">EADE, John, e Michael J. SALLNOW (orgs.), 1991, <em>Contesting the Sacred: The Anthropology of Christian Pilgrimage</em>. Londres e Nova Iorque, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193483&pid=S0873-6561201600020000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GODOI, Emília Pietrafesa de, 1999, <em>O Trabalho da Memória: Cotidiano e História no Sertão do Piauí</em>. Campinas, SP, Unicamp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193485&pid=S0873-6561201600020000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">GUERRA, Gutemberg Armando Diniz, 2001, <em>O Posseiro da Fronteira: Campesinato e Sindicalismo no Sudeste Paraense</em>. Belém, Edufpa/NAEA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193487&pid=S0873-6561201600020000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">HÉBETTE, Jean, 2004, <em>Cruzando a Fronteira: 30 Anos de Estudo do Campesinato na Amazônia</em>, vols.&nbsp;I-IV. Belém, Edufpa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193489&pid=S0873-6561201600020000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">HERTZ, Robert, 1960, “A contribution to the   study of the collective representation of death”, em Robert Hertz, <em>Death and the Right Hand</em>. Londres, Cohen and West, 27-86.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193491&pid=S0873-6561201600020000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">HERVIEU-LÉGER, Danièle, 1999, <em>Le pèlerin et le converti: La religion en mouvement</em>. Paris, Flammarion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193493&pid=S0873-6561201600020000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">IANNI, Otávio, 1978, <em>A Luta pela Terra: História   Social da Terra e da Luta pela Terra Numa Área da Amazônia</em>. Rio de Janeiro, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193495&pid=S0873-6561201600020000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LENS, Matias Martinho, 1992, “Festas religiosas,   CEBs e mudanças”, em Pierre Sanchis (org.), <em>Catolicismo: Unidade Religiosa e Pluralismo Cultural</em>. São Paulo, Loyola, 121-165.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193497&pid=S0873-6561201600020000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LOERA, Nashieli Rangel, 2006, <em>A Espiral das Ocupações de Terra</em>. São Paulo, Polis.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193499&pid=S0873-6561201600020000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LOMBARDI, Thais Tartalha do Nascimento, 2013, “Os   colonos e os daqui: trajetórias e paisagens ao longo da rodovia   Transamazônica”, em Emília Pietrafesa de Godoi e Marilda Menezes (orgs.), <em>Uma     Terra para Se Viver: Assentados, Colonos e Quilombolas</em>. São Paulo, Annablume, 53-80.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193501&pid=S0873-6561201600020000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LOSONCZY,   Anne-Marie, 1998, “Le saint et le citoyen au bord des tombes: sanctification   populaire de morts dans les cimetières urbains colombiens”, Religiologiques, 18: 149-175.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193503&pid=S0873-6561201600020000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LOSONCZY,   Anne-Marie, 2003, “Violence sociale et ritualisation de la mort et du deuil en Colombie”, <em>Autrepart</em>, 26: 187-199.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193505&pid=S0873-6561201600020000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARTINS, José de Souza, 1980, <em>Expropriação e Violência: A Questão Política no Campo</em>. São Paulo, Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193507&pid=S0873-6561201600020000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARTINS, José de Souza (org.), 1983, <em>A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira</em>. São Paulo, Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193509&pid=S0873-6561201600020000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARTINS, José de Souza, 1984, <em>A Militarização da   Questão Agrária no Brasil. Terra e Poder: O Problema da Terra na Crise Política</em>. Petrópolis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193511&pid=S0873-6561201600020000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MARTINS, José de Souza, 2009, <em>Fronteira: A Degradação do Outro nos Confins do Humano</em>. São Paulo, Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193513&pid=S0873-6561201600020000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MAUSS, Marcel, 2005, <em>Sobre o Sacrifício</em>. São Paulo, Cosac Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193515&pid=S0873-6561201600020000600028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MAUSS, Marcel, e Henri HUBERT, 2003, “Esboço de   uma teoria geral da magia”, em Marcel Mauss, <em>Sociologia e Antropologia</em>. São Paulo, Cosac Naify, 47-181.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193517&pid=S0873-6561201600020000600029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MENEZES, Renata de Castro, 2004, <em>A Dinâmica do   Sagrado: Rituais, Sociabilidade e Santidade Num Convento do Rio de Janeiro</em>. Rio de Janeiro, Relume Dumará.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193519&pid=S0873-6561201600020000600030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">MURPHY, Roseanne, 2008, <em>Mártir da Amazônia: Vida da Ir. Dorothy Stang</em>. São Paulo, Paulus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193521&pid=S0873-6561201600020000600031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">NORA, Pierre (org.), 1984, <em>Les lieux de mémoire – I: La République</em>. Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193523&pid=S0873-6561201600020000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">NORA, Pierre, 1993, “Entre memória e história: a problemática dos lugares”, <em>Projeto História</em>, 10: 7-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193525&pid=S0873-6561201600020000600033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">NOVAES, Sylvia Caiuby, 2006, “Funerais entre os   bororo: imagens da refiguração do mundo”, <em>Revista de Antropologia</em>, 49&nbsp;(1): 283-315.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193527&pid=S0873-6561201600020000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PEIRANO, Mariza (org.), 2002, <em>O Dito e o Feito: Ensaios de Antropologia dos Rituais</em>. Rio de Janeiro, Relume Dumará.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193529&pid=S0873-6561201600020000600035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PEIRANO, Mariza, 2003, <em>Rituais de Ontem e Hoje</em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193531&pid=S0873-6561201600020000600036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PEREIRA, Airton dos Reis, 2004, <em>O Papel dos   Mediadores nos Conflitos pela Posse da Terra na Região Araguaia Paraense: O   Caso da Fazenda Bela Vista, Viçosa, MG</em>, Universidade Federal de Viçosa, dissertação de mestrado em Extensão Rural.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193533&pid=S0873-6561201600020000600037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PEREIRA, Airton dos Reis, 2013, <em>A Luta pela Terra   no Sul e Sudeste do Pará: Migrações, Conflitos e Violência no Campo, Recife</em>, Universidade Federal de Pernambuco, tese de doutorado em História.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193535&pid=S0873-6561201600020000600038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">PÉREZ, Andrea Lissett, 2012, “&nbsp;‘O exército   dos mortos’: sentido do sacrifício e da transcendentalidade na militância   revolucionária, caso do Exército de Libertação Nacional (ELN) da Colômbia”, <em>Mana</em>, 18&nbsp;(2): 349-377.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193537&pid=S0873-6561201600020000600039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">ROSA, Marcelo, 2012, “A terra e seus vários   sentidos: por uma sociologia e etnologia dos moradores de fazenda na África do Sul contemporânea”, <em>Sociedade e Estado</em>, 27&nbsp;(2): 361-385.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193539&pid=S0873-6561201600020000600040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SAHLINS, Marshall, 2008, <em>Metáforas Históricas e Realidades Míticas</em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193541&pid=S0873-6561201600020000600041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SAHLINS, Marshall, 2011, <em>Ilhas de História</em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193543&pid=S0873-6561201600020000600042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SILVA, Osnera Pinto da, 2012, <em>Caminhando pelos   Mortos, Caminhando pela Vida: Conflitos, Romarias e Santidade no Sudeste   Paraense (c.&nbsp;1980 – c.&nbsp;2010), Vassouras, RJ</em>, Universidade Severino Sombra, dissertação de mestrado em História.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193545&pid=S0873-6561201600020000600043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">SOUZA, Edimilson Rodrigues de, 2013, <em>A Morte sob   Outro Ponto de Vista: Transformação do Líder Morto em Mártir-Encantado,   Vitória, ES</em>, Universidade Federal do Espírito Santo, dissertação de mestrado em Ciências Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193547&pid=S0873-6561201600020000600044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">STEIL, Carlos Alberto, 1996, <em>O Sertão das   Romarias: Um Estudo Antropológico sobre o Santuário de Bom Jesus da Lapa – Bahia</em>. Petrópolis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193549&pid=S0873-6561201600020000600045&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TURNER, Victor, 2008, <em>Dramas, Campos e Metáforas: Ação Simbólica na Sociedade Humana</em>. Niterói, EdUFF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193551&pid=S0873-6561201600020000600046&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TURNER, Victor, 2013, <em>O Processo Ritual: Estrutura   e Antiestrutura</em>. Petrópolis, Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193553&pid=S0873-6561201600020000600047&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">TURNER, Victor, e Edith TURNER, 2011, <em>Image and   Pilgrimage in Christian Culture</em>. Nova Iorque, Columbia University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193555&pid=S0873-6561201600020000600048&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">VELHO, Otávio Guilherme, 1976, <em>Capitalismo Autoritário e Campesinato</em>. São Paulo, Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193557&pid=S0873-6561201600020000600049&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">VELHO, Otávio Guilherme, 1982, <em>Sociedade e Agricultura</em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=193559&pid=S0873-6561201600020000600050&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a>       Este   artigo é uma versão atualizada do segundo capítulo da dissertação de mestrado <i>A Morte sob Outro Ponto de Vista:     Transformação do Líder Morto em Mártir-Encantado</i> (Souza 2013). Quero   registrar aqui os meus agradecimentos pelos comentários e contribuições da   orientadora, Celeste Ciccarone, e dos membros da banca examinadora: Emília   Pietrafesa de Godoi, Paulo César Scarim, Sandro José da Silva e Sônia Missagia   de Mattos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a>       As   antiestruturas ou <i>communitas</i> são   definidas como lugar liminar onde se estabelecem relações entre indivíduos   concretos, de forma direta e imediata, enquanto a estrutura organiza-se no   plano da obrigação institucionalizada (Turner 2008, 2013; Turner e Turner 2011).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a>       Fonte: organizadores da Romaria dos Mártires da Caminhada, 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a>       A   Prelazia de São Félix do Araguaia é composta pelos municípios Alto Boa Vista,   Serra Nova Dourada, Canabrava do Norte, Porto Alegre do Norte, Confresa, São   José do Xingu, Vila Rica, Santa Terezinha, Ribeirão Cascalheira e Querência, todos no estado do Mato Grosso, Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a>       Bispo   emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), Pedro Casaldáliga, inspirado   pela ­Teologia da Libertação, exerce desde a década de 1970 um importante papel   como mediador dos conflitos decorrentes da implementação de grandes projetos latifundiários na região norte do Mato Grosso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a>       O   município de Ribeirão Cascalheira resulta da junção de dois povoados, Ribeirão   Bonito e Alta Cascalheira; o nome Ribeirão foi atribuído pelos primeiros   colonos que se fixaram à beira do córrego (pequeno riacho) Suiazinho,   quilômetros adiante, e o outro povoado foi denominado Cascalheira devido à presença de cascalho (pedra britada ou lascas de pedra).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a>       Entre   1964 e 1985 o Brasil foi tomado por forças repressivas do regime civil-militar,   que atingiram inclusive populações camponesas, vítimas de prisões e tortura, entre outras formas de violência (Pereira 2013).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a>       Filete branco utilizado por alguns padres, que se encaixa sob o colarinho da camisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a>       Ainda   sobre morte e ritos funerários é sugestiva a leitura de “A contribution to the   study of the collective representation of death” (Hertz 1960); <i>A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira</i>   (Martins 1983); e <i>Os Mortos e os Outros:     Uma Análise do Sistema Funerário e da Noção de Pessoa entre os Índios Krahó</i> (Cunha 1978).</font></p>      ]]></body>
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