<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0873-6561</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Etnográfica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0873-6561</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro em Rede de Investigação em Antropologia - CRIA]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0873-65612006000100014</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sonoridades luso-afro-brasileiras]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Reis]]></surname>
<given-names><![CDATA[Filipe]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Centro de Estudos de Antropologia Social ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>05</month>
<year>2006</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>05</month>
<year>2006</year>
</pub-date>
<volume>10</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>206</fpage>
<lpage>209</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0873-65612006000100014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0873-65612006000100014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0873-65612006000100014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>JOSÉ MACHADO PAIS, JOAQUIM PAIS DE BRITO E MÁRIO VIEIRA DE CARVALHO  (COORDS.) </b></p>      <p><b>SONORIDADES LUSO-AFRO-BRASILEIRAS</b></p>      <p><b>Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2005</b></p>     <p>&nbsp;</p>      <p align="justify">Resultado de um esforço de escuta transdisciplinar que passou    pela cooperação entre diferentes e diversas instituições, o volume <i>Sonoridades    Luso-Afro-Brasileiras</i> é uma obra polifónica interpretada por vinte executantes    convidados a participar no colóquio internacional com o título homónimo organizado    pelo ICS em 2003. Na Introdução ao livro, José Machado Pais desvela ao leitor    alguns dos episódios que estiveram na origem desta iniciativa, que contou com    a colaboração de instituições como o Chapitô, o Centro de Estudos de Sociologia    e Estética Musical da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade    Nova de Lisboa (CESEM) e o Museu de Etnologia. O referido colóquio “teve um    principal objectivo: o de promover a produção de novos conhecimentos sobre os    entrecruzamentos e redes de influências musicais no espaço luso-afro-brasileiro”    (p. 17).</p>     <p align="justify">Machado Pais introduz as várias contribuições de uma forma    que muito ajuda o leitor a situar e a seleccionar leituras em função dos seus    interesses e curiosidade. O leitor é convidado a empreender uma viagem no tempo    e no espaço que o próprio alinhamento dos artigos procura, embora só até certo    ponto, respeitar. Temporalmente esta viagem começa em Abril de 1500, data a    que somos conduzidos por Régis Duprat, que faz uma análise das representações    e descrições das sonoridades na Carta de Pêro Vaz de Caminha e reflecte sobre    o papel dos Jesuítas na efectivação do “sincretismo etno-musical ” que a “condição    colonizadora exigirá” (p. 34). No final do volume, a viagem termina com a apresentação    de uma ferramenta informática desenvolvida no CESEM, que permite a investigação    em rede por parte de cientistas e especialistas interessados nos estudos musicais    situados dentro do “espaço lusófono” (p. 337). Esta derradeira contribuição    de Mário Vieira de Carvalho revela-se afinal um falso cais de chegada, já que,    como é sublinhado na introdução, “abre um enorme portão à investigação das auto-estradas    da informação que se encontram disponíveis na Internet” (p. 26). </p>     <p align="justify">Há poucas marcas editoriais na organização dos capítulos. A    organização sequencial das contribuições tende ora a agrupar estudos sobre um    mesmo contexto — como no conjunto inicial de textos sobre o Brasil ou na série    de três contribuições sobre a cultura e as práticas musicais caipiras — ora    a reunir investigações pela filiação disciplinar dos seus autores — como no    caso das quatro contribuições da área da antropologia apresentadas sequencialmente    na parte final do volume. A pluralidade disciplinar, de pontos de vista, de    escalas de análise e de metodologias torna bastante complexa a tarefa de situar    com a devida amplitude todos os contributos que a obra inclui. Aqui ficam algumas    notas de leitura que, por razões de espaço, não abrangem todos os artigos.</p>     <p align="justify">O Brasil é o território mais ouvido, percorrido e analisado    ao longo do livro: dez das dezanove contribuições dizem respeito ao país das    danças da umbigada e do samba; a “cultura caipira”, em particular, com a sua    linguagem, práticas musicais e instrumentos (a viola caipira) constitui um núcleo    importante, com três artigos. Os primeiros capítulos do livro transportam o    leitor para o período colonial e pré-colonial brasileiro: à já referida contribuição    de Régis Duprat (“Sonoridades Luso-Brasileiras na Carta de Caminha: A Visão    do Paraíso e o Triunfo do Inferno”) segue-se uma série de três estudos sobre    a vida e a obra de três compositores. Rubens Ricciardi traça uma biografia do    compositor de Minas Gerais Florêncio José Ferreira Coutinho (ca. 1749-1819)    e faz uma análise da sua composição <i >Sexta-Feira Maior</i>. Diósnio Machado    Neto faz uma análise do esquema harmónico da <i >Ladainha de Nossa Senhora</i>    do compositor Faustino Xavier do Prado (1708-1800), cuja biografia é também    exposta. António Jorge Marques analisa o esquecimento e perda a que parece ter    sido votada a obra do importante compositor português Marcos Portugal (1762-1830),    que viajou para o Brasil em 1811 para se juntar à corte por exigência de D.    João e acabou por aí permanecer até à sua morte, não acompanhando o regresso    da corte a Portugal. O autor interroga as razões que terão levado o rei no exílio    a chamar o seu compositor favorito, bem como as que terão levado Marcos a permanecer    em terras do Brasil após 1822. Estes contributos de musicologia histórica ajudam    a perceber as influências e os “tráficos culturais” estabelecidos entre os dois    lados do atlântico no domínio da música erudita, e de modo especial da música    sacra, ao longo deste período (há um volume inteiramente dedicado a este assunto    — <i>A Música no Brasil Colonial</i>, coordenado por Rui Vieira Nery, publicado    pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2001).</p>     <p align="justify">Saindo do domínio mais especializado do estudo biográfico,    mas mantendo-se no mesmo registo da investigação histórica no domínio musicológico,    as contribuições de Maria Alice Volpe (“Representações Musicais do IV Centenário    do Descobrimento do Brasil”) e Salloma Salomão Jovino da Silva (“Marimbas de    Debret: Presença Musical Africana na Iconografia Musical Oitocentista”) interrogam,    a partir de diferentes perspectivas, o estatuto da música e das sonoridades    enquanto formas de representação cultural. Os dilemas sobre as escolhas das    obras e dos géneros musicais que deveriam integrar as comemorações do IV Centenário    do Descobrimento do Brasil são o tema do texto de Maria Alice Volpe. A análise    das obras encomendadas e programadas no âmbito das comemorações dão a perceber    como a música e os géneros musicais veiculam narrativas e representações (divergentes)    da identidade nacional brasileira “que se articulam no bojo de uma nova era    política brasileira instalada pelo regime republicano” (p. 98). Salloma Salomão    parte de um <i>corpus</i> de iconografia brasileira oitocentista e interroga    essas imagens, destacando nelas as representações das manifestações musicais    africanas. Fazendo uma análise reflexiva e crítica sobre o material iconográfico    em que se apoia, o autor chama a atenção para as relações étnicas no Brasil    colonial, que se escondem por detrás das imagens (e dos discursos) sobre o negro    no Brasil esclavagista, frequentemente representado a tocar ou a transportar    uma marimba. Esta estratégia de desocultação, como se depreende no final no    texto, articula-se com a intenção política de repensar as representações culturais    da cultura africana no Brasil (pós-colonial) contemporâneo (cf. p. 132).</p>     <p align="justify">Elisabeth Travassos (“Por uma Cartografia Ampliada das Danças    da Umbigada”) faz uma acutilante reflexão em torno desta dança, centrando-se,    de modo particular, na desconstrução do discurso sexualizado e racializado que    domina grande parte das observações e interpretações sobre esta prática. A autora    chama a atenção para as dificuldades e incapacidades que o olhar erotizante    sobre a umbigada tem para dar conta dos seus múltiplos sentidos e apropriações    num arco temporal e geográfico alargado. É um contributo onde se cruzam a investigação    histórica, etnomusicológica e antropológica, num exercício de desocultação e    desessencialização desta dança afro-brasileira (vejam-se particularmente as    pp. 228-229) e onde, de forma quase solitária no conjunto do volume, se levantam    questões teóricas relativas aos pressupostos culturalistas e difusionistas de    muitos estudos etnomusicais: “(...) as idéias de permanência e continuidade    de traços culturais passaram a despertar suspeita entre antropólogos, cuja atenção    se desviou para estruturas, teias de significados, sistemas cognitivos, <i>ethos</i>    e visões do mundo. As vertentes teóricas cristalizadas em torno desses conceitos    desautorizaram a idéia de reconstituir deslocamentos no espaço de determinadas    formas culturais. Efectivamente, não é essa busca que me interessa, e sim o    mapeamento dos contextos em que a umbigada e outras (supostas) pantominas sexuais    foram incorporadas às narrativas científicas e históricas sobre as relações    entre África, Europa e Brasil, sobre os negros no continente americano, sobre    música e dança brasileiras” (p. 234). Estas observações podem ser lidas como    um contraponto a algumas contribuições mais marcadas por aqueles pressupostos    culturalistas e difusionistas, como é o caso (mais evidente) do artigo de António    Germano Lima “O Landu: do Brasil à Ilha da Boavista, ou Símbolo de um Diálogo    de Culturas”. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Emblema sonoro por excelência do Brasil, “o samba (...) surge    sob o signo do dinheiro, da tecnologia e do mercado, no começo da formação de    uma sociedade urbano industrial e de uma incipiente indústria cultural que começa    a se constituir com a gravação de discos e, a partir de 1923, com o desenvolvimento    da rádio” (p. 292). Partindo desta hipótese, Ruben Oliven (“O Imaginário na    Música Popular Brasileira”) desenvolve uma análise de conteúdo de um conjunto    de letras de sambas dos anos 30 e 40, mostrando como os temas do “trabalho,    mulheres e dinheiro” constituem preocupações centrais expressas pelos sambistas    num período que se estende até aos anos 50, época em que “a urbanização aumentou,    a industrialização ganhou ímpeto, começando a se disseminar o trabalho assalariado”    (p. 292). Uma interessante análise que mostra como uma prática musical pode    funcionar como revelador de processos amplos de transformação e mudança social    num contexto onde as indústrias culturais, hoje pilares importantes da economia    brasileira, deram início a um processo acentuado de mercantilização de determinadas    práticas musicais. Como é visível noutras contribuições, os meios de comunicação    de massa (cinema, rádio e televisão), a indústria discográfica e de espectáculos    introduzirão importantes transformações nas formas de produção, distribuição    e consumo de certos géneros musicais. É assim que João Soeiro de Carvalho (“Makwayela:    Um Enunciado Sonoro da Experiência Social no Sul de Moçambique”) traça as influências    que os espectáculos de origem norte-americana conhecidos como <i>minstrels</i>    e as coreografias de Fred Astair e Ginger Rogers tiveram em certos géneros musicais    e coreográficos da África do Sul e do Sul de Moçambique (ver pp. 146-147). Descrevendo    um processo inverso, José Ramos Tinhorão surpreende e documenta a entrada da    “dança do rasga” (baseada num ritmo executado com um instrumento — o canzá —    usado pelos negros em Portugal no século XIX) no “repertório” de cantores-actores    do género cómico do teatro musicado (...) passando a figurar como números de    “apresentação individual” (p. 266) e a ser objecto de edições discográficas    nos inícios do século em Portugal e no Brasil. </p>     <p align="justify">Neste complexo jogo de entrecruzamentos e redes de influências    musicais, é o leitor a ser surpreendido com a contribuição de Ruy Llera Blanes    (“Em Nome da Interdenominacionalidade — Ligações Transnacionais e Novas Práticas    Musicais entre os ciganos evangélicos portugueses”) através do surgimento de    um “mediador inesperado: o cigano” (p.372). Ao estudar o papel da criação e    consumo da música no contexto da prática religiosa evangélica cigana (um movimento    transnacional com implantação em Portugal e ligações ao Brasil e aos EUA), o    autor chama a atenção para a existência de um “tráfego cultural e musical não    hegemónico” especialmente activo dentro do espaço luso-brasileiro, que contraria    os “clichés” acerca da “autenticidade” e “ausências de interferências externas    na música cigana” (p.374).</p>     <p align="justify">Enquanto que as sonoridades escutadas por Blanes nas igrejas    evangélicas da periferia norte de Lisboa permanecem largamente invisíveis e    fora dos circuitos comerciais oficiais, os <i>rappers</i> que Teresa Fradique    acompanhou, embora associados também às margens da cidade, são produtores de    um discurso sonoro que tem visibilidade pública e entrou no <i>main stream </i>    cultural português. Com o título “Escalas de Prática e de Representação: A Música    Rap Enquanto Projecto de Imaginação Espacial” esta contribuição explora os efeitos    de conhecimento (questão do foro epistemológico) que resultam da variação de    escala de análise enquanto estratégia de construção (política) do terreno (questão    do foro metodológico).</p>     <p align="justify">Num registo que privilegia a análise discursiva, mas, simultaneamente,    propõe uma interpretação para o estranhamento que o fado é susceptível de induzir    nos ouvintes, Joaquim Pais de Brito (“A Escuta e as Ressonâncias da Alteridade”)    ausculta as “ressonâncias da alteridade” na história dos discursos sobre a canção    nacional, a começar pelas especulações acerca da sua origem. Uma linha de continuidade    parece ligar as reflexões deste autor a propósito do fado com as de Elisabete    Travassos a propósito da umbigada ou ainda as de Salloma Salomão, a saber, a    preocupação de situar e desocultar o que nestas práticas discursivas é sobretudo    resultado do olhar, da época e das intenções com que são produzidas. No final    do texto surge uma frase/hipótese que em grande medida resume as preocupações    latentes em todo o volume: “a música será uma das matérias que mais subvertem    e redesenham as incertas fronteiras das identidades” (p. 333).</p>     <p align="justify">Algumas considerações finais: enquanto que disciplinas como    a musicologia ou a etnomusicologia, por dever de ofício, mantiveram sempre os    ouvidos bem abertos, a maioria das ciências sociais parece ter optado por mantê-los    fechados, relegando o papel da música e, mais latamente, das sonoridades, para    uma posição marginal, residual, ou pouco importante enquanto variável de análise    (veja-se a este respeito o texto de Carlos Fortuna “Paisagens Sonoras/Sonoridades    e Ambientes Sociais Urbanos” publicado em 1999 na sua obra <i>Identidades, Percursos,    Paisagens Culturais</i>. Oeiras, Celta). Todavia, há sinais de que a surdez    que tradicionalmente afectou as ciências sociais parece estar a melhorar a olhos    vistos. Esta obra é disso testemunho. (Não posso ainda deixar de registar que    um volume como este muito ganharia em ser acompanhado por um registo sonoro    — um CD — que transportasse o leitor ao universo das sonoridades aqui analisadas).</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right">Filipe Reis</p>     <p align="right">ISCTE</p>     <p align="right">CEAS</p>       ]]></body>

</article>
