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<journal-title><![CDATA[Análise Psicológica]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O isolamento existencial e a psicopatologia]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Some of the key themes of phenomenological and existentialist philosophy referred by Irvin D. Yalom as the basics for his interpretation of the characteristics of existence are presented. Focusing on existential isolation, the confrontations with all those characteristics are thereafter described as well as the psychopathology that, in a comprehensive way, results from the obliquity of those confrontations, as well as the central axes of a phenomenological and existentialist psychotherapy.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>O isolamento existencial e a psicopatologia</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Gabriel Henriques (*) </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>(*) Executive Coach, Mestre em Rela&ccedil;&atilde;o de Ajuda (ISPA-IU), Doutorando    em Sociologia (ISCTE-IUL); Email: <a href="mailto:gabrielhenriques2010@gmail.com">gabrielhenriques2010@gmail.com</a>  </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>RESUMO</p>      <p>S&atilde;o apresentados, de forma sucinta, alguns dos temas principais da filosofia fenomenol&oacute;gica e existencialista que Irvin D. Yalom refere como base da sua interpreta&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas da exist&ecirc;ncia. Com foco no isolamento existencial, s&atilde;o depois descritos os confrontos com essas caracter&iacute;sticas e a psicopatologia que de uma forma compreensiva decorre do enviesamento desses confrontos, assim como os principais eixos de uma psicoterapia de base fenomenol&oacute;gica e existencialista. </p>      <p><i>Palavras chave</i><i>: </i>Existencialismo, Fenomenologia, Isolamento, Psicopatologia, Psicoterapia. </p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>      <p>Some of the key themes of phenomenological and existentialist philosophy referred by Irvin D. Yalom as the basics for his interpretation of the characteristics of existence are presented. Focusing on existential isolation, the confrontations with all those characteristics are thereafter described as well as the psychopathology that, in a comprehensive way, results from the obliquity of those confrontations, as well as the central axes of a phenomenological and existentialist psychotherapy. </p>      <p><i>Key words: </i>Existentialism, Isolation, Phenomenology, Psychopathology, Psychotherapy. </p>      <p>&nbsp;</p>      <blockquote>     <p>&#8220;O isolamento existencial &eacute; um vale de solid&atilde;o a que se chega de v&aacute;ria formas. A confronta&ccedil;&atilde;o com a morte e com a liberdade leva inevitavelmente o indiv&iacute;duo para esse vale&#8221; (Yalom, 1980, p. 356). </p> </blockquote>      <p>O isolamento &eacute; referido com frequ&ecirc;ncia na psicoterapia pois os pacientes queixam-se da sua dificuldade de relacionamento com outras pessoas e de isolamento face ao seu meio envolvente. </p>      <p>Neste artigo discute-se a abordagem de Irvim D. Yalom ao isolamento e a sua descri&ccedil;&atilde;o compreensiva das psicopatologias associadas assim como as vantagens terap&ecirc;uticas desta abordagem. Como veremos, a descri&ccedil;&atilde;o compreensiva n&atilde;o &eacute; uma outra forma de classifica&ccedil;&atilde;o psicopatol&oacute;gica nem a tipifica&ccedil;&atilde;o de comportamentos considerados patol&oacute;gicos, mas sim a compreens&atilde;o de modos de estar na vida que se concretizam em cada indiv&iacute;duo de forma espec&iacute;fica e que requerem uma abordagem espec&iacute;fica. Yalom (1980, p. 353) considera tr&ecirc;s tipos de isolamento: </p>      <p>O <i>isolamento interpessoal</i>, ou solid&atilde;o, que resulta da sentida falta de comunica&ccedil;&atilde;o com outros. Pode resultar de causas objectivas, como resid&ecirc;ncia ou perman&ecirc;ncia prolongada em localidades ou locais isolados por raz&otilde;es de interioridade, dificuldade de acessos ou doen&ccedil;a (frequente nas pessoas idosas), ou causas subjectivas, como estilos de personalidade em que se procura o isolamento (esquiz&oacute;ide, narcisista) ou em que se &eacute; afastado pelos outros (personalidades com tend&ecirc;ncias explorativas ou julgadora dos outros). A evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade tem resultado no definhamento de institui&ccedil;&otilde;es promotoras de intimidade, como os bairros residenciais, o trabalho pr&oacute;ximo da resid&ecirc;ncia, as lojas e sociedades de bairro, a igreja e assist&ecirc;ncia de sa&uacute;de locais, etc., em favor do deslocamento para as grandes cidades de massas populacionais e onde se praticam estilos de vida isolacionistas em resultado de habita&ccedil;&atilde;o afastada dos locais de trabalho e longas horas de comuta&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria, definhamento de institui&ccedil;&otilde;es de bairro, grandes superf&iacute;cies comerciais, departamentos oficiais centralizados. De facto, &eacute; nas grandes cidades e seus grandes sub&uacute;rbios onde a concentra&ccedil;&atilde;o de pessoas se eleva a n&iacute;veis nunca antes atingido, que as pessoas praticam estilos de vida mais isolacionistas, com escassos h&aacute;bitos sociais, padr&otilde;es sociais transmitidos pela televis&atilde;o e pela sociedade de consumo. Acresce o n&uacute;mero crescente de lares monoparentais e de pessoas vivendo sozinhas desde uma fase ainda longe da terceira idade. </p>      <p>O <i>isolamento intrapessoal</i>, que resulta de perturba&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo num processo em que evita os seus pr&oacute;prios sentimentos e desejos, aceitando deveres e obriga&ccedil;&otilde;es exteriores como suas, desprezando o seu pr&oacute;prio julgamento e barrando a sua liberdade e potencial. Aqui a perturba&ccedil;&atilde;o resulta de experi&ecirc;ncias vividas como repressoras e condicionadoras, desde o in&iacute;cio da sua vida. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A estes dois tipos de isolamento, reconhecidos por todos os modelos te&oacute;ricos psicoterap&ecirc;uticos, Yalom acrescenta um outro que, embora estreitamente relacionado com os anteriores, tem um car&aacute;cter completamente diferente. O <i>isolamento existencial </i>resulta do facto de estarmos no mundo e dele fazermos parte, numa inter-rela&ccedil;&atilde;o intersubjectiva constante com os outros, mas sendo indiv&iacute;duos completamente separados. Apesar de nos construirmos na rela&ccedil;&atilde;o com os outros e permanecermos indissoci&aacute;veis no mundo que partilhamos, nascemos completamente isolados, vivemos sem nunca conhecer completamente o mundo e os outros e morremos num acto &uacute;nico, individual, solit&aacute;rio. Somos o resultado das nossas escolhas e a partir desta facticidade que nos caracteriza, seremos o que escolhermos, no quadro das possibilidades dispon&iacute;veis. A escolha &eacute;, tamb&eacute;m, um acto pessoal, isolado. </p>      <p>Yalom coloca o isolamento existencial ao n&iacute;vel ontol&oacute;gico, na medida em que &eacute; inerente ao facto de existir e se manifesta de forma espec&iacute;fica (&ocirc;ntica) em cada indiv&iacute;duo. H&aacute; uma estranheza dos indiv&iacute;duos entre si, que nunca se chegam a conhecer completamente, por maior intimidade que se estabele&ccedil;a. </p>      <p>Kierkegaard (1838, p. 200), nas suas reflex&otilde;es sobre o existir, refere o lamento de uma sua personagem: </p>      <blockquote>     <p>&#8220;como cheguei aqui a este mundo? Porque n&atilde;o fui perguntado acerca disso, porque n&atilde;o fui informado das regras e regulamentos, mas apenas atirado como se eu tivesse sido comprado por um mercador de escravos? Como fui envolvido nesta grande miss&atilde;o chamada actualidade? Porque tenho de ser envolvido? N&atilde;o posso escolher? E, se sou obrigado a envolver-me, onde est&aacute; quem manda &#8211; eu tenho algo a dizer sobre isto. N&atilde;o h&aacute; quem mande? A quem me queixo?&#8221; </p> </blockquote>      <p>&nbsp;</p>      <p>O M&Eacute;TODO FENOMENOL&Oacute;GICO E A INTERSUBJECTIVIDADE</p>      <blockquote>     <p>&#8220;o analista deve aproximar-se ao paciente de forma fenomenol&oacute;gica; isto &eacute;, deve entrar no mundo experiencial do cliente e escutar o fen&oacute;meno desse mundo sem pressuposi&ccedil;&otilde;es que distorcem a compreens&atilde;o&#8221; (Yalom, 1980, p. 17). </p> </blockquote>      <p>Husserl (1927) usou a no&ccedil;&atilde;o de intencionalidade da consci&ecirc;ncia para fundar um m&eacute;todo de investiga&ccedil;&atilde;o que se distingue do m&eacute;todo das ci&ecirc;ncias naturais em que predomina o estudo dos efeitos e suas causas. A consci&ecirc;ncia, segundo Husserl, &eacute; <i>intencional</i>, refere-se a algo externo &agrave; consci&ecirc;ncia, acess&iacute;vel ao indiv&iacute;duo atrav&eacute;s de fun&ccedil;&otilde;es mentais como a mem&oacute;ria ou a imagina&ccedil;&atilde;o, ou pelas fun&ccedil;&otilde;es do seu corpo ao mundo externo dos objectos e dos outros indiv&iacute;duos, com os quais comunica e valida as suas experi&ecirc;ncias, atribuindo-lhes significado intersubjectivo. Uma psicologia pura, que n&atilde;o desdenha das conclus&otilde;es das ci&ecirc;ncias naturais, mas que existe como ci&ecirc;ncia independente, seria poss&iacute;vel. Como? Atrav&eacute;s da reflex&atilde;o sobre aquilo a que se referem os fen&oacute;menos da consci&ecirc;ncia, ou seja, a sua <i>inten&ccedil;&atilde;o</i>. Esta reflex&atilde;o n&atilde;o &eacute; autom&aacute;tica porque quando estamos conscientemente envolvidos numa actividade focamos na coisa espec&iacute;fica, em pensamentos, valores, objectivos ou meios envolvidos mas n&atilde;o na experi&ecirc;ncia ps&iacute;quica como tal e a que eles se referem. S&oacute; a reflex&atilde;o os revela. Atrav&eacute;s da reflex&atilde;o, em vez de simplesmente perceber a exist&ecirc;ncia desses pensamentos, valores, objectivos ou meios envolvidos somos capazes de tomar consci&ecirc;ncia deles como aparecem &agrave; consci&ecirc;ncia, como fen&oacute;meno. Al&eacute;m disso, a reflex&atilde;o deve ser feita em atitude de suspens&atilde;o de cren&ccedil;as anteriores, do pr&oacute;prio mundo objectivo, para que apenas a descri&ccedil;&atilde;o dos conte&uacute;dos (o <i>qu&ecirc; </i>na experi&ecirc;ncia) e dos significados (os <i>como </i>se viveu a experi&ecirc;ncia) seja tida em conta e objecto de reflex&atilde;o imaginativa procurando encontrar o que caracteriza (a ess&ecirc;ncia) a experi&ecirc;ncia subjectiva do indiv&iacute;duo espec&iacute;fico que experiencia, a sua vis&atilde;o subjectiva do mundo, n&atilde;o o mundo objectivo. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A vida ps&iacute;quica fica assim acess&iacute;vel atrav&eacute;s da pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia e da experi&ecirc;ncia de outros, estabelecendo a diferen&ccedil;a entre n&oacute;s e os outros e caracterizando a vida na comunidade. </p>      <p>Para Yalom cada indiv&iacute;duo &eacute; o resultado da sua hist&oacute;ria. O seu estudo requer, n&atilde;o instrumentos estandardizados, como se todos os indiv&iacute;duos habitassem o mesmo mundo objectivo, mas sim a considera&ccedil;&atilde;o da sua situa&ccedil;&atilde;o biogr&aacute;fica e das expectativas individuais, nas suas especificidades, no seu mundo pr&oacute;prio e &uacute;nico. E estranha as abordagens que, procurando precisar e classificar os indiv&iacute;duos, em pouco ajudam a sua condi&ccedil;&atilde;o. Prefere, em vez de uma abordagem classificativa, relevar a centralidade da rela&ccedil;&atilde;o entre o terapeuta e o paciente.</p>      <p>Tamb&eacute;m Spinelli (2007, p. 59) afirma que essa &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o em que o cliente se revela e &#8220;traz&#8221; material para an&aacute;lise, sendo o encontro terap&ecirc;utico um &#8220;microcosmo&#8221; em que se expressa em seguran&ccedil;a e confidencialidade a vis&atilde;o do mundo do paciente, as suas possibilidades e limita&ccedil;&otilde;es, permitindo a clarifica&ccedil;&atilde;o dessa vis&atilde;o do mundo que existe tamb&eacute;m no &#8220;macrocosmo&#8221; das rela&ccedil;&otilde;es da sua vida. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O TEMPO E O AQUI-E-AGORA</p>      <p>O modo como nos relacionamos com o tempo revela a nossa vis&atilde;o do mundo numa perspectiva temporal (Spinelli, 2007, p. 41). Apreendemos a nossa exist&ecirc;ncia no tempo e, por isso, o tempo est&aacute; no nosso ser. O tempo &eacute; o processo em curso da experi&ecirc;ncia vivida, pelo que n&atilde;o existe fora da no&ccedil;&atilde;o do ser. Na experi&ecirc;ncia individual, o tempo n&atilde;o pode ser visto como uma linha cont&iacute;nua independente do ser, uma s&eacute;rie de &#8220;agoras&#8221; entre o nascimento e a morte, mas sim um cont&iacute;nuo balan&ccedil;ar entre o passado, presente e futuro. A experi&ecirc;ncia do mundo, das coisas e seres, &eacute; sempre parcelar e mediada pela estrutura interpretativa sedimentada que constitui a vis&atilde;o do mundo individual. Como nos constru&iacute;mos na inter-rela&ccedil;&atilde;o com o mundo, estamos permanentemente em constru&ccedil;&atilde;o e a nossa vis&atilde;o do mundo evolui, por um lado pela sucess&atilde;o de experi&ecirc;ncias, por outro, conforme a estrutura mediadora da nossa vis&atilde;o do mundo que por sua vez tamb&eacute;m evolui. Nesta interpreta&ccedil;&atilde;o constante, criam-se as condi&ccedil;&otilde;es para olharmos para acontecimentos passados com outra abordagem (interpreta&ccedil;&atilde;o) diferente. Quando falamos de passado referimo-nos ao passado tal como lembrado, interpretado e n&atilde;o historicamente fixo. Visto assim, o passado torna-se &#8220;pl&aacute;stico&#8221;, flex&iacute;vel e aberto a reavalia&ccedil;&atilde;o ou recria&ccedil;&atilde;o dependente da actual disposi&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo. </p>      <p>Assim, o passado n&atilde;o s&oacute; nunca &eacute; completamente apreendido, como n&atilde;o &eacute; correctamente interpretado, como n&atilde;o &eacute; fixo. O passado existe no presente, o que se recorda reflecte e valida a actual vis&atilde;o do mundo. Trata-se de um passado tal como actualmente vivido. A vis&atilde;o do mundo actual &eacute; validada pelo passado (tal como actualmente vivido) e valida as perspectivas de futuro. </p>      <p>As implica&ccedil;&otilde;es desta an&aacute;lise s&atilde;o de extrema import&acirc;ncia para a psicopatologia e psicoterapia. A an&aacute;lise fenomenol&oacute;gica procura, por interpreta&ccedil;&otilde;es a n&iacute;veis cada vez mais aprofundados das experi&ecirc;ncias actuais, clarificar a vis&atilde;o do mundo actual do paciente. A escava&ccedil;&atilde;o do passado, a procura do que realmente aconteceu, dos instintos reprimidos ou da socializa&ccedil;&atilde;o e acultura&ccedil;&atilde;o acontecidas, n&atilde;o tem sentido para a fenomenologia. O que tem sentido &eacute; a interpreta&ccedil;&atilde;o que a vis&atilde;o do mundo actual faz sobre o passado. </p>      <blockquote>     <p>&#8220;O aqui e agora s&atilde;o a maior fonte de poder na terapia [...], refere-se aos acontecimentos imediatos na hora terap&ecirc;utica, ao que acontece aqui (neste escrit&oacute;rio, nesta &#8216;rela&ccedil;&atilde;o&#8217;, no entre n&oacute;s). [...] &Eacute; basicamente uma aproxima&ccedil;&atilde;o n&atilde;o hist&oacute;rica de desenfatizar (n&atilde;o nega a import&acirc;ncia) o passado hist&oacute;rico do cliente ou a sua vida exterior. [...] Os problemas interpessoais do paciente ir&atilde;o manifestar-se no aqui-e-agora da rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica&#8221; (Yalom, 2001, pp. 46-48). </p> </blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>O SER E A ANSIEDADE EXISTENCIAL</p>      <p>Yalom refere frequentemente Martin Heidegger e a sua obra <i>Being and Time</i>, em que descreve como o seu <i>Da-sein</i>, o ser representativo e exemplar do ser humano, que lhe &eacute; instrumental na investiga&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica do que &eacute; existir (ou <i>ser</i>), encontra dois modos de exist&ecirc;ncia: o modo do dia-a-dia em que <i>Da-sein</i> vive em fun&ccedil;&atilde;o do mundo  e dos outros, em que se envolve em m&uacute;ltiplas actividades e n&atilde;o reflecte sobre a sua exist&ecirc;ncia e sobre as suas potencialidades (modo de vida inaut&ecirc;ntico) e o modo em que <i>Da-sein</i> reflecte e observa-se a si pr&oacute;prio, percebe que a sua exist&ecirc;ncia &eacute; prec&aacute;ria, que morrer&aacute; um dia e que agora tem op&ccedil;&otilde;es que toma com total liberdade e responsabilidade (no quadro daquilo que &eacute;, da sua facticidade). Neste modo, a ansiedade &eacute; evidente e decorre dessa confronta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; uma ansiedade que decorre do existir e da falta de um sentido oferecido pela mera exist&ecirc;ncia, &eacute; inevit&aacute;vel. Mas pode ser diminu&iacute;da, se compreendidas e aceites as condi&ccedil;&otilde;es existenciais, se a consci&ecirc;ncia da inevitabilidade da morte &eacute; equilibrada com uma vida escolhida dentro do leque das op&ccedil;&otilde;es acess&iacute;veis assumindo a responsabilidade pela sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia e dando-lhe assim sentido, apesar do fim inevit&aacute;vel. Este modo de reflex&atilde;o pode aproximar o indiv&iacute;duo da explora&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima das suas potencialidades, faz&ecirc;-lo mais aut&ecirc;ntico, com um sentido de vida por si produzido. Caindo novamente no seu dia-a-dia, afastando de si a reflex&atilde;o sobre a sua exist&ecirc;ncia e absorvendo-se na viv&ecirc;ncia do dia-a-dia, se houve uma maior aceita&ccedil;&atilde;o da ansiedade existencial, isso permite ao indiv&iacute;duo uma vida mais equilibrada. </p>      <p><i>Da-sein</i> vacila entre a autenticidade e a inautenticidade. Para Heidegger, procurar ser aut&ecirc;ntico assume uma import&acirc;ncia de prioridade, apesar da inevitabilidade de se viver a maior parte do tempo em inautenticidade.  Yalom concorda com esta posi&ccedil;&atilde;o e afirma que &#8220;a ansiedade &eacute; o combust&iacute;vel da psicoterapia&#8221;. &Eacute; ela que leva ao confronto com os dados da exist&ecirc;ncia, que abre caminho &agrave; autenticidade, que possibilita que &#8220;caindo&#8221; no dia-a-dia a adequa&ccedil;&atilde;o prevale&ccedil;a sobre a perturba&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>O paciente pode usar os seus momentos de reflex&atilde;o para ser mais aut&ecirc;ntico. Yalom defende, em absoluto respeito pelo cliente e de uma forma n&atilde;o directiva que o terapeuta deve promover essa evolu&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>OS EXISTENCIAIS, O CONFRONTO E A PSICOPATOLOGIA</p>      <p>Para Yalom, a psicoterapia existencial &eacute; din&acirc;mica no mesmo sentido atribu&iacute;do por Freud, no sentido de &#8220;for&ccedil;a&#8221;. Segundo Yalom, a maior contribui&ccedil;&atilde;o de Freud para a compreens&atilde;o do ser humano &eacute; o seu modelo em que assume haver for&ccedil;as em conflito no indiv&iacute;duo e em que os pensamentos, emo&ccedil;&otilde;es e comportamento, tanto o adaptado como o psicopatol&oacute;gico, s&atilde;o resultado dessas for&ccedil;as em conflito, que existem em v&aacute;rios n&iacute;veis de aten&ccedil;&atilde;o e sendo alguns totalmente inconscientes. </p>      <p>No entanto, a psicoterapia existencial baseia-se numa vis&atilde;o radicalmente diferente das for&ccedil;as espec&iacute;ficas, dos motivos e medos que interagem no indiv&iacute;duo, assim como o inconsciente desempenha um papel completamente diferente. Se, para Freud, os instintos e o ambiente reprimem e enquadram o indiv&iacute;duo, para os neo-freudeanos, os instintos s&atilde;o minimizados a favor da socializa&ccedil;&atilde;o e da acultura&ccedil;&atilde;o das qualidades inatas individuais. Para estes, a necessidade de seguran&ccedil;a, de aceita&ccedil;&atilde;o e aprova&ccedil;&atilde;o, a interac&ccedil;&atilde;o com adultos significantes, determinam o car&aacute;cter e a estrutura da personalidade; a crian&ccedil;a curiosa quer exclusiva posse dos adultos amados e percorre fases de conflito entre crescimento e seguran&ccedil;a. </p>      <p>A posi&ccedil;&atilde;o existencialista revela um tipo de conflito diferente: n&atilde;o um conflito com instintos que s&atilde;o reprimidos, nem um conflito com adultos significantes, mas sim um conflito que decorre da confronta&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo com os dados ou condi&ccedil;&otilde;es da exist&ecirc;ncia. As viv&ecirc;ncias passadas ou presentes valem pela experi&ecirc;ncia no aqui e agora e no quadro do confronto com esses dados ou condi&ccedil;&otilde;es de existir que caracterizam o ser. Yalom descreve na sua obra Existential Psychotherapy (1980) quatro importantes e extremos assuntos: a morte pr&oacute;pria, a liberdade, o isolamento existencial e a falta de sentido. Estes assuntos s&atilde;o, como vimos atr&aacute;s, as condi&ccedil;&otilde;es existenciais ou os existenciais com que <i>Da-sein</i> se confronta no seu modo existencial, quando, por reflectir profundamente, se afasta do seu dia-a-dia de absor&ccedil;&atilde;o em tarefas e com os outros, e se interroga sobre a sua exist&ecirc;ncia. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O confronto com os existenciais &eacute; feito pelo <i>Da-sein</i>, de forma solit&aacute;ria. Por isso, Yalom atribui ao isolamento em que a confronta&ccedil;&atilde;o &eacute; feita, um car&aacute;cter tamb&eacute;m ontol&oacute;gico, de caracter&iacute;stica do ser, n&atilde;o deixando de reconhecer o car&aacute;cter inter-relacional e intersubjectivo da constru&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo. Mas, no momento da confronta&ccedil;&atilde;o ele est&aacute; s&oacute;, os outros s&atilde;o irrelevantes. </p>      <blockquote>     <p>&#8220;Quando o indiv&iacute;duo se afasta da absor&ccedil;&atilde;o no mundo e os objectos se despem de sentido, o indiv&iacute;duo experimenta a ansiedade no confronto com a solid&atilde;o, a falta de miseric&oacute;rdia, o nada&#8221; (Yalom, 1980, p. 360). </p>      <p>&#8220;Os seres do mundo circundante deixam de ser relevantes. O mundo no qual existo esvaziou-se de significado e o mundo assim revelado s&oacute; pode libertar seres sem significado&#8221; (Heidegger, 1926, p. 315). </p> </blockquote>      <p>De facto, para Yalom, &eacute; do resultado do confronto com os existenciais que resulta a qualidade do inter-relacionamento com os outros, a qualidade da constru&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo, quando este est&aacute; envolvido no dia-a-dia. E a tese de Yalom &eacute; que esse resultado &eacute; obtido de uma forma solit&aacute;ria. </p>      <p>&Eacute; nos momentos em que o indiv&iacute;duo se afasta do mundo do dia-a-dia, pela profunda reflex&atilde;o, que essas condi&ccedil;&otilde;es da exist&ecirc;ncia lhe v&ecirc;m &agrave; consci&ecirc;ncia. Em momentos de solid&atilde;o, sil&ecirc;ncio, disponibilidade, em que o indiv&iacute;duo se liberta das tarefas e distrac&ccedil;&otilde;es do dia-a-dia, pode-se confrontar com a precariedade da exist&ecirc;ncia, e essas condi&ccedil;&otilde;es podem tornar-se claras. </p>      <p>As experi&ecirc;ncias de transi&ccedil;&atilde;o no ciclo de vida, principalmente quando se torna evidente a impossibilidade da vida ser uma espiral continuamente crescente, e a exist&ecirc;ncia de fases de decad&ecirc;ncia e morte, propiciam esses momentos. Do resultado desse confronto surge equil&iacute;brio ou perturba&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>Os existenciais raramente v&ecirc;m &agrave; discuss&atilde;o no encontro psicoterap&ecirc;utico. Se bem que um psicoterapeuta bem sintonizado com o paciente possa entender como este se relaciona com aqueles, for&ccedil;ar a sua discuss&atilde;o n&atilde;o contribui para o crescimento do paciente. Ap&oacute;s alguma troca de impress&otilde;es porventura interessante, o paciente encaminhar-se-ia para uma conclus&atilde;o de &#8220;bem... &eacute; assim a vida...&#8221;. De facto, essa discuss&atilde;o n&atilde;o versava sobre a situa&ccedil;&atilde;o concreta do paciente, sobre a sua pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia; n&atilde;o servia para o paciente perceber o modo como interpreta o seu estar no mundo, a sua vis&atilde;o do mundo, e as sedimenta&ccedil;&otilde;es interpretativas que a estruturam e tamb&eacute;m a sua abertura a novas interpreta&ccedil;&otilde;es (Spinelli, 2005, pp. 67-74). </p>      <p>A terapia passa-se ao n&iacute;vel pessoal, &ocirc;ntico, sempre condicionada e, porventura, iluminada pelo n&iacute;vel das caracter&iacute;sticas do ser, o ontol&oacute;gico. &Eacute; a investiga&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gica da experi&ecirc;ncia actual do paciente, do que aparece &agrave; consci&ecirc;ncia, na rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, que esclarece o paciente sobre si, sobre as sedimenta&ccedil;&otilde;es estruturais da sua vis&atilde;o do mundo e lhe proporciona p&ocirc;-las em causa e talvez mud&aacute;-las. O que n&atilde;o significa que o paciente n&atilde;o reflicta, em ocasi&otilde;es especiais, sobre os &#8220;dados&#8221; da sua exist&ecirc;ncia. </p>      <p>Vejamos ent&atilde;o a descri&ccedil;&atilde;o psicopatol&oacute;gica de Yalom &agrave; luz desta an&aacute;lise  dos existenciais, com destaque para o isolamento existencial e o seu relacionamento com os restantes. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>A MORTE PR&Oacute;PRIA</p>      <blockquote>     <p>&#8220;A morte &eacute; um facto da vida&#8221; (Yalom, 1980, p. 38). </p> </blockquote>      <p>A consci&ecirc;ncia do inevit&aacute;vel fim traz ao indiv&iacute;duo ansiedade. &Eacute; a consci&ecirc;ncia de que se tornar&aacute; nada (um nada sobre o qual nada se pode fazer). Citando Kierkegaard, Yalom explica que a ansiedade procura tornar-se medo, trocando o nada por alguma coisa, para que o indiv&iacute;duo possa montar defesas contra essa coisa. E &eacute; na confronta&ccedil;&atilde;o com esse facto da vida, nos momentos de reflex&atilde;o profunda que o indiv&iacute;duo o pode ou n&atilde;o aceitar. Apesar de nunca eliminar a ansiedade, esse confronto pode diminu&iacute;-la, permitindo ao indiv&iacute;duo reorientar a sua vida, dando-lhe sentido. O car&aacute;cter f&iacute;sico da morte destr&oacute;i o indiv&iacute;duo, mas &eacute; a ideia da morte que o salva. &Eacute; ent&atilde;o a focaliza&ccedil;&atilde;o concreta da ansiedade resultante de confronta&ccedil;&atilde;o menos aut&ecirc;ntica do facto da vida que &eacute; a morte, a transforma&ccedil;&atilde;o em medo de algo, que explica as manifesta&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas e a patologia da morte. </p>      <p>A nega&ccedil;&atilde;o do facto futuro da pr&oacute;pria morte (da minha morte) pode aparecer no paciente como cren&ccedil;a na especialidade e inviolabilidade de si pr&oacute;prio. O conhecimento de doen&ccedil;a fatal e sua nega&ccedil;&atilde;o durante um per&iacute;odo. O hero&iacute;smo compulsivo como prova pr&oacute;pria de invencibilidade. O suic&iacute;dio como forma de perdurar na consci&ecirc;ncia dos outros, ap&oacute;s descr&eacute;dito nessa invencibilidade. O narcisismo, como forma de se sentir especial, utilizando os outros como se fossem seus devedores. O v&iacute;cio do trabalho, o consumo de tempo em tarefas para n&atilde;o se confrontar com momentos de reflex&atilde;o, de relacionamentos ou de procura de sentido, o planeamento do futuro, n&atilde;o como desenvolvimento pessoal, mas como sucess&atilde;o de atingimentos para coleccionar no passado. Nas ocorr&ecirc;ncias do ciclo de vida em que o indiv&iacute;duo se apercebe da invers&atilde;o da espiral crescente (meia-idade, perda de emprego, reforma, doen&ccedil;as na fase de amadurecimento, etc.), podem-se iniciar perturba&ccedil;&otilde;es relacionadas com estados depressivos ou hipocondr&iacute;acos. Actividades em que tenta refor&ccedil;ar a sua imagem de poder e ou vitalidade, como a actividade sexual acrescida e predat&oacute;ria, contribuem para o al&iacute;vio da ansiedade ante a perspectiva da morte. </p>      <p>Outra forma de lidar com a ansiedade da morte, ou quando a cren&ccedil;a na especialidade falha, &eacute; o salvador &uacute;ltimo, uma entidade sobrenatural que nos salvar&aacute; ap&oacute;s a morte ou algu&eacute;m com poder para evitar a morte ou um acto ou uma causa que nos manter&aacute; para sempre na consci&ecirc;ncia dos outros. O m&eacute;dico em caso de doen&ccedil;a grave. Um outro indiv&iacute;duo de quem se dependa como fornecedor de sentido de vida, medo de perder o outro amado, passividade, depend&ecirc;ncia, auto-imola&ccedil;&atilde;o (masoquismo), recusa de aceitar a idade adulta, depress&atilde;o e colapso do sistema de valores. </p>      <p>Para Yalom, a ansiedade decorrente do confronto com a inevitabilidade da morte pr&oacute;pria &eacute; a principal origem de perturba&ccedil;&otilde;es. &Eacute; na perspectiva da morte que a liberdade, o isolamento e o sentido (ou a sua falta) se compreendem. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>A LIBERDADE E A RESPONSABILIDADE</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p>&#8220;a liberdade do indiv&iacute;duo para criar a sua pr&oacute;pria vida [...] para desejar, escolher, agir e, mais que tudo importante para a psicoterapia, de mudar&#8221; (Yalom, 1980, p. 216). </p> </blockquote>      <p>Yalom (1980, pp. 216-218) diz que se refere &agrave; &#8220;liberdade do indiv&iacute;duo para criar a sua pr&oacute;pria vida [...] para desejar, escolher, agir&#8221; e &agrave; responsabilidade no sentido de Sartre enquanto autoria: estar consciente da responsabilidade &eacute; estar consciente de criar o seu pr&oacute;prio eu, destino, as dificuldades da vida, sentimentos e, se for esse o caso, o pr&oacute;prio sofrimento. O indiv&iacute;duo responde &agrave; ansiedade decorrente da responsabilidade b&aacute;sica que temos por existir, conforme faz com a da morte: procura al&iacute;vio, evita situa&ccedil;&otilde;es em que seja confrontado com a sua responsabilidade. </p>      <p>A evita&ccedil;&atilde;o da escolha atrav&eacute;s de comportamentos compulsivos e com conhecimento das consequ&ecirc;ncias; a atribui&ccedil;&atilde;o da responsabilidade a outros; a vitimiza&ccedil;&atilde;o; o comportamento descontrolado, em vez de usar a sua liberdade para influenciar o curso dos acontecimentos; a falta de autonomia e a procura de um salvador no sentido atr&aacute;s exposto. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>A FALTA DE SENTIDO</p>      <blockquote>     <p>&#8220;Qual o sentido da vida? Qual o sentido da minha vida? Porque vivemos? Porque estamos neste mundo? Para que vivemos? Porque viveremos? Se vamos morrer, se nada continua, que sentido tem o que quer que seja?&#8221; (Yalom, 1980, p. 419). </p>      <p>&#8220;Procuramos sentido mas o mundo &eacute; contingente. Como pode um ser que precisa de sentido, encontrar sentido num universo que n&atilde;o o tem?&#8221; (Yalom, 1980, p. 423). </p> </blockquote>      <p>H&aacute; um sentido c&oacute;smico em que um des&iacute;gnio exterior e superior ao indiv&iacute;duo d&aacute; uma explica&ccedil;&atilde;o ao sentido terrestre, pessoal. Algo referente a um Deus. Quem o aceita com mais facilidade pode encontrar um sentido terrestre, um caminho a seguir, se bem que n&atilde;o individual. Mas quem n&atilde;o o aceita precisa ent&atilde;o de algo que o substitua. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E todos os sistemas teol&oacute;gicos ou ate&iacute;stas ocidentais concordam em que &eacute; bom estar imerso na corrente da vida. </p>      <p>Assim, a auto-transcend&ecirc;ncia atrav&eacute;s do altru&iacute;smo ou da dedica&ccedil;&atilde;o a uma causa, o hedonismo atrav&eacute;s da criatividade, da aprecia&ccedil;&atilde;o intensa da vida e do seu prazer, da realiza&ccedil;&atilde;o plena do seu potencial, s&atilde;o formas de encontrar sentido. E a aceita&ccedil;&atilde;o do ciclo da vida pode levar &agrave; escolha de um conjunto dessas actividades, de acordo com as caracter&iacute;sticas de cada idade. Caso contr&aacute;rio, perturba&ccedil;&otilde;es como o vazio, o aborrecimento, a apatia, sem causas aparentes, podem resultar em procura de sentido atrav&eacute;s de alcoolismo, droga, depress&atilde;o, obsess&atilde;o, delinqu&ecirc;ncia, crescimento do apetite sexual, aventureirismo (procura de causas dram&aacute;ticas e importantes) ou o niilismo (descr&eacute;dito na procura de sentido por outros). </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O ISOLAMENTO EXISTENCIAL E A SUA PSICOPATOLOGIA</p>      <p>Yalom (1980, p. 373) refere que usamos &#8220;caminhos enviesados&#8221; para lidar no dia-a-dia com a ansiedade e encontrar seguran&ccedil;a; quando falhamos no desenvolvimento de for&ccedil;a interior, no sentido de valia pessoal e firme identidade e n&atilde;o resolvemos com reflex&atilde;o e aceita&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o existencial e dos dados dessa exist&ecirc;ncia. </p>      <p>Tamb&eacute;m Heidegger refere que quando <i>Da-sein</i> regressa ao modo do dia-a-dia e se envolve nas tarefas rotineiras e com os outros, a forma pura de ansiedade existencial &eacute; rara, mas manifesta-se fisiologicamente: </p>      <blockquote>     <p>&#8220;com a domin&acirc;ncia do ter ca&iacute;do [no mundo do dia a dia] e do estar em p&uacute;blico, a &#8216;verdadeira&#8217; ansiedade &eacute; rara. Muitas vezes a ansiedade &eacute; condicionada de forma &#8216;fisiol&oacute;gica&#8217;. Este facto &eacute; um problema ontol&oacute;gico na sua facticidade, n&atilde;o s&oacute; a respeito das suas causas &ocirc;nticas e modo de desenvolvimento. O dano fisiol&oacute;gico da ansiedade &eacute; poss&iacute;vel s&oacute; porque <i>Da-sein</i> est&aacute; ansioso no mais &iacute;ntimo do seu ser&#8221; (Heidegger, 1926, p. 177). </p> </blockquote>      <p>A ansiedade existencial est&aacute; no <i>Da-sein</i>, se bem que escondida pelo modo p&uacute;blico (n&atilde;o privado, n&atilde;o de reflex&atilde;o profunda): </p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8220;A raridade f&aacute;ctica do fen&oacute;meno da ansiedade, contudo, n&atilde;o lhe retira a sua propens&atilde;o para assumir uma fun&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica, em princ&iacute;pio, para a an&aacute;lise existencial. Pelo contr&aacute;rio, a raridade do fen&oacute;meno &eacute; uma indica&ccedil;&atilde;o do facto de que <i>Da-sein</i>, o qual continua escondido de si pr&oacute;prio na sua autenticidade por causa do modo de ser p&uacute;blico interpretado pelos outros, pode ser revelado no seu sentido primordial na sua liga&ccedil;&atilde;o fundamental&#8221; (Heidegger, 1926, p. 178). </p> </blockquote>      <p>Assim, o papel da ansiedade &eacute; individualizar o <i>Da-sein</i>, separ&aacute;-lo dos outros e permitir-lhe a reflex&atilde;o. A ansiedade torna evidente a inautenticidade da vida e cria condi&ccedil;&otilde;es para a reflex&atilde;o sobre a autenticidade. Ambas s&atilde;o possibilidades do indiv&iacute;duo com uma din&acirc;mica resultante da ansiedade. </p>      <p>O caminho de compreens&atilde;o psicopatol&oacute;gica e psicoterap&ecirc;utica do isolamento existencial de Yalom fica assim definido: as viv&ecirc;ncias perturbadas do paciente resultam de um confronto inaut&ecirc;ntico com  os dados da exist&ecirc;ncia. O isolamento existencial, enquanto individualiza&ccedil;&atilde;o solit&aacute;ria intranspon&iacute;vel existe, assim como os restantes dados da exist&ecirc;ncia. O confronto inaut&ecirc;ntico com cada um refor&ccedil;a o isolamento. As possibilidades do indiv&iacute;duo foram limitadas e ele n&atilde;o aceitou suficientemente a sua condi&ccedil;&atilde;o existencial. Ent&atilde;o, no mundo do dia-a-dia, ele ir&aacute; viver de uma forma mais perturbada, mais inaut&ecirc;ntico porque as suas possibilidades foram por ele mesmo limitadas. Ir&aacute; utilizar estrat&eacute;gias para fugir e esconder de si pr&oacute;prio a ansiedade existencial e a qualidade da sua rela&ccedil;&atilde;o com os outros ser&aacute; marcada por esta necessidade. </p>      <p>Pelo contr&aacute;rio, o indiv&iacute;duo que se confrontou com os dados da exist&ecirc;ncia e na medida em que conseguiu aceitar a fragilidade da exist&ecirc;ncia e a sua morte inevit&aacute;vel, que percebeu as suas op&ccedil;&otilde;es (no quadro da sua facticidade, em termos de possibilidades), que encontrou sentido para dar a essa exist&ecirc;ncia, apesar de fr&aacute;gil, &eacute; um indiv&iacute;duo mais adaptado ao mundo em que vive, sendo a sua rela&ccedil;&atilde;o com os outros marcada por ser liberta de necessidade. Ele est&aacute; mais preparado para dar sem esperar receber, porque a sua recompensa &eacute; retirada do enriquecimento pessoal da viv&ecirc;ncia. </p>      <p>No entanto, por mais adapta&ccedil;&atilde;o existencial que o indiv&iacute;duo consiga nunca est&aacute; completamente liberto do isolamento e da ansiedade, que s&atilde;o dados existenciais. Vive com eles porque s&atilde;o caracter&iacute;sticas ontol&oacute;gicas do ser. </p>      <p>A confus&atilde;o entre o isolamento existencial e o intrapessoal leva, por vezes, a que se tente resolver ou curar o primeiro. Tal n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel. O que &eacute; poss&iacute;vel &eacute; reconhecer e aceitar tal circunst&acirc;ncia como parte da exist&ecirc;ncia. </p>      <p><i>Da-sein</i> tem de usar o mundo (e os outros que nele est&atilde;o) para sobreviver como ser humano. Um confronto deficiente potencia patologicamente essa necessidade de uso. </p>      <p>Os &#8220;caminhos enviesados&#8221; s&atilde;o, em primeiro lugar, </p>      <blockquote>     <p>&#8220;na maioria relacionais, onde o indiv&iacute;duo n&atilde;o cuida do outro, antes procura us&aacute;-lo para uma fun&ccedil;&atilde;o. O terror, a consci&ecirc;ncia directa do isolamento existencial e a defesa ps&iacute;quica que se elabora para aliviar a ansiedade s&atilde;o inconscientes. O indiv&iacute;duo s&oacute; sabe que n&atilde;o pode estar s&oacute;, que precisa de algo de outros, que ele pr&oacute;prio n&atilde;o &eacute; capaz de obter, e que, o que quer que se fa&ccedil;a, correm sempre mal os seus relacionamentos&#8221; (Yalom, 1980, p. 374). </p> </blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E em segundo lugar, </p>      <blockquote>     <p>&#8220;Atrav&eacute;s do sacrif&iacute;cio da individualidade, imergindo num outro indiv&iacute;duo, numa causa ou numa persegui&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um duplo desespero porque come&ccedil;ando num desespero existencial, continua noutro desespero de que n&atilde;o se tem consci&ecirc;ncia porque se sacrificou a consci&ecirc;ncia de si pr&oacute;prio&#8221; (Yalom, 1980, p. 374). </p> </blockquote>      <p>&nbsp;</p>      <p>EU-OUTRO E EU-COISA</p>      <p>Para explicar como o isolamento existencial n&atilde;o confrontado se pode manifestar no indiv&iacute;duo e na sua inter-rela&ccedil;&atilde;o com os seus semelhantes, Yalom recorre a Martin Buber (1970, p. 69) e &agrave;s suas no&ccedil;&otilde;es de Eu-Outro (I-Thou), de Eu-Coisa (I-It), e de amor com ou sem necessidade. </p>      <p>Se noutros modelos psicoterap&ecirc;uticos, as no&ccedil;&otilde;es de necessidade de seguran&ccedil;a, liga&ccedil;&atilde;o, valida&ccedil;&atilde;o pessoal, satisfa&ccedil;&atilde;o ou desejo, ou poder s&atilde;o importantes, Yalom prop&otilde;e que  se olhem as rela&ccedil;&otilde;es do ponto de vista de como elas aliviam o isolamento existencial. </p>      <p>Refere-se, assim, a uma psicopatologia das inter-rela&ccedil;&otilde;es humanas, cujo ponto de partida deve ser o que uma rela&ccedil;&atilde;o pode aspirar a ser: uma rela&ccedil;&atilde;o livre de necessidade. </p>      <p>Ser capaz de reconhecer as caracter&iacute;sticas da sua exist&ecirc;ncia e de nos virarmos para o amor aos outros &eacute;, segundo Yalom (1980, p. 363), a forma de evitar ficar submerso pelo medo &#8220;ante o abismo da solid&atilde;o&#8221;, ou seja, de evitar de nos atirarmos aos outros para n&atilde;o nos &#8220;afogarmos no mar da exist&ecirc;ncia&#8221;, mas sim indo ao encontro deles. Nessa &#8220;submers&atilde;o&#8221; usamos os outros como utens&iacute;lios, com instrumentos de fuga &agrave; solid&atilde;o. O outro, usado como coisa, com uma fun&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o como um outro eu. Sob a consci&ecirc;ncia de um secreto terror, negamos o isolamento, constru&iacute;mos rela&ccedil;&otilde;es que nos &#8220;fornecem um produto&#8221; (poder, fus&atilde;o, protec&ccedil;&atilde;o, grandiosidade ou adora&ccedil;&atilde;o). </p>      <p>A rela&ccedil;&atilde;o deve ser rec&iacute;proca. Esta rela&ccedil;&atilde;o (Eu-Outro) envolve  uma completa experi&ecirc;ncia do outro. Difere da empatia porque &eacute; mais que um Eu tentando relacionar-se com Outro. N&atilde;o h&aacute; Eu enquanto tal, mas apenas o Eu-Outro. E este Eu &eacute; diferente do Eu na rela&ccedil;&atilde;o Eu-Coisa. &Eacute; um Eu inter-relacional, um Eu que aparece e &eacute; moldado no contexto da rela&ccedil;&atilde;o, <i>um Eu profundamente influenciado pelo Outro</i>. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p>&#8220;Se algu&eacute;m se relaciona de uma forma verdadeira com outro, deve verdadeiramente ouvir o outro; afastar estere&oacute;tipos e antecipa&ccedil;&otilde;es do outro e deixar-se moldar pela resposta do outro [...] Para relacionar-se com o outro de uma forma livre de necessidade, o indiv&iacute;duo deve transcender-se a si pr&oacute;prio&#8221; (Yalom, 1980, p. 365). </p> </blockquote>      <p>Yalom refere Abraham Maslow (1968, p. 21) e a sua dicotomia dos indiv&iacute;duos orientados para o crescimento ou para o d&eacute;fice. Os orientados para o crescimento s&atilde;o mais auto-suficientes, menos dependentes do meio para refor&ccedil;o ou gratifica&ccedil;&atilde;o, menos ansiosos por honras, prest&iacute;gios e recompensas e podem, por vezes, sentir-se invadidos por outros preferindo per&iacute;odos de privacidade com a qual lidam bem. N&atilde;o se relacionam com outros como fornecedores, mas como seres humanos. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>AMOR LIVRE DE NECESSIDADE</p>      <p>Investigando a natureza do amor livre de necessidade, Yalom (1980, p. 370) afirma que o amor n&atilde;o nos afasta da separa&ccedil;&atilde;o uma vez que esta &eacute; um dado da exist&ecirc;ncia que pode ser confrontado, mas nunca eliminado. Em vez disso, o amor &eacute; a melhor forma de lidar com a dor da separa&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>Existe um amor maduro que &eacute; uma uni&atilde;o na condi&ccedil;&atilde;o de preservar a integridade do outro. Paradoxalmente dois seres tornam-se um e ainda assim continuam dois. O indiv&iacute;duo &eacute; amado porque ama e precisa do outro porque o ama. No amor imaturo o indiv&iacute;duo ama porque &eacute; amado, ama porque precisa do outro. </p>      <p>Yalom aponta assim um conjunto de caracter&iacute;sticas do amor livre de necessidade:</p>      <blockquote>     <p>&#8211;&nbsp;&nbsp; Cuidar do outro de forma consciente sem necessidade de uso ou troca ou avalia&ccedil;&atilde;o externa. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8211;&nbsp;&nbsp; Experimentar o outro de forma completa e n&atilde;o apenas a parte de que retira utilidade. Prolongar-se atrav&eacute;s do outro reconhecendo que ele constitui tamb&eacute;m um mundo. </p>      <p>&#8211;&nbsp;&nbsp; Cuidar activamente do seu crescimento. Amor maduro &eacute; amar, n&atilde;o &eacute; ser amado. </p>      <p>&#8211;&nbsp;&nbsp; Cuidar &eacute; uma forma de estar no mundo; n&atilde;o &eacute; dirigido a uma pessoa em particular. </p>      <p>&#8211;&nbsp;&nbsp; O amor maduro entrega a nossa riqueza, n&atilde;o as nossas necessidades. O amor recebido no passado &eacute; a origem da for&ccedil;a; o amor dado agora &eacute; o resultado da for&ccedil;a. </p>      <p>&#8211;&nbsp;&nbsp; Cuidar &eacute; rec&iacute;proco na medida em que ao cuidar do outro ficamos n&oacute;s pr&oacute;prios mais vivos. </p>      <p>&#8211;&nbsp;&nbsp; O amor maduro tem recompensas. O indiv&iacute;duo altera-se, enriquece-se, enche-se, a solid&atilde;o existencial &eacute; atenuada. As recompensas v&ecirc;m, mas n&atilde;o podem ser pedidas. </p> </blockquote>      <p>Van Deurzen (2002, p. 57) explica de outra forma: </p>      <blockquote>     <p>&#8220;um certo modo de ser e de se relacionar com os outros cria um mundo dentro de si e &agrave; sua volta, que, em retorno, recria mais do mesmo em resposta.  N&atilde;o &eacute; que imaginemos que os outros t&ecirc;m qualidades que n&oacute;s temos. Pela forma de relacionar e de sermos quem somos, levamos essas qualidades para os outros&#8221;. </p> </blockquote>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>EXISTIR AOS OLHOS DOS OUTROS</p>      <p>No indiv&iacute;duo perturbado pelo isolamento, a presen&ccedil;a dos outros &eacute; necess&aacute;ria para tornar a realidade real: &#8220;S&oacute; existo se pensam em mim&#8221;. </p>      <p>O suic&iacute;dio pode ser uma forma de permanecer lembrado por outros, um acto m&aacute;gico, em que n&atilde;o h&aacute; a ideia de morte pois se continua a viver na consci&ecirc;ncia de outros. </p>      <blockquote>     <p>&#8220;Na pesquisa do amor, o indiv&iacute;duo neur&oacute;tico foge do forte e reconhecido sentimento de isolamento, do vazio no centro do seu ser. Ao ser escolhido e valorizado [por outros] o indiv&iacute;duo afirma-se no seu ser. O puro sentimento de ser, de &#8216;Eu sou&#8217;, de ser a origem de coisas, &eacute; demasiado assustador no seu isolamento; por isso, ele nega a individualidade e recusa acreditar que existe na medida em que &eacute; objecto da consci&ecirc;ncia de outro. Esta solu&ccedil;&atilde;o est&aacute; destinada ao fracasso de v&aacute;rias formas. A rela&ccedil;&atilde;o falha geralmente porque o outro se cansa de afirmar a exist&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo. Al&eacute;m disso, o outro nunca se sente completamente reconhecido e envolvido porque o indiv&iacute;duo se relaciona s&oacute; com uma parte &#8211; a parte que lhe serve para afirmar a sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia. A solu&ccedil;&atilde;o falha porque o outro sente que &eacute; apenas provis&oacute;rio at&eacute; o indiv&iacute;duo arranjar melhor: se uma pessoa n&atilde;o se consegue afirmar, ent&atilde;o, continuamente, precisa de afirma&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de outros. O indiv&iacute;duo distrai-se permanentemente de enfrentar o isolamento fundamental [...] O indiv&iacute;duo que precisa da afirma&ccedil;&atilde;o dos outros para viver tem de evitar estar sozinho&#8221; (Yalom, 1980, p. 376). </p> </blockquote>      <p>Ele precisa de &#8220;matar o tempo&#8221; escolhendo actividades que o ocupem, ou escapando do presente para o passado de lembran&ccedil;as, ou fugindo com a imagina&ccedil;&atilde;o para um futuro de projectos maravilhosos. </p>      <p>Frequentemente os indiv&iacute;duos se agregam, procurando usar os outros como &#8220;equipamento&#8221; de forma a fugir ao isolamento. Yalom refere que muitos div&oacute;rcios tiveram essa origem: &#8220;o problema de n&atilde;o ser amado &eacute; na maior parte dos casos um problema de n&atilde;o amar&#8221; (Yalom, 1980, p. 377). </p>      <p>A <i>fus&atilde;o com os outros </i>&eacute; um conceito psicopatol&oacute;gico relacionado com o isolamento existencial. Somos indiv&iacute;duos. Reconhecer isso leva-nos ao isolamento e para lidar com o isolamento procuramos formas de nega&ccedil;&atilde;o. &#8220;N&atilde;o estou sozinho, sou parte de outros&#8221; leva o indiv&iacute;duo &agrave; depend&ecirc;ncia de outros, a abandonar as suas necessidades e procurar o que agrada aos outros para faz&ecirc;-los quer&ecirc;-lo. Acima de tudo evitam conflitos com outros. Preferem a fus&atilde;o e a seguran&ccedil;a &agrave; individualiza&ccedil;&atilde;o. A fus&atilde;o com um poderoso pode ter uma valia acrescentada. </p>      <p>A fus&atilde;o elimina o isolamento eliminando a consci&ecirc;ncia de si pr&oacute;prio. Como Kierkegaard (1849, p. 34) afirmou: &#8220;Cada incremento de consci&ecirc;ncia e na propor&ccedil;&atilde;o desse aumento, a intensidade do desespero aumenta: quanto mais consci&ecirc;ncia, mais intenso o desespero&#8221;. </p>      <p>Existe um paralelo entre a ansiedade pelo isolamento existencial e a morte: no primeiro procura-se uma fus&atilde;o noutro pr&oacute;ximo, no segundo uma fus&atilde;o no &#8220;salvador &uacute;ltimo&#8221;. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Yalom refere o transvestido como sendo uma forma de, na competi&ccedil;&atilde;o por uma mulher com outro homem, o indiv&iacute;duo foge vestindo-se como mulher, at&eacute; ao ponto em que a sua ansiedade castradora, aumentada pela auto-infligida castra&ccedil;&atilde;o, possibilita al&iacute;vio sexual. Ele aproxima-se do sexo feminino, que teme, vestindo as suas roupas e assumindo os seus comportamentos t&iacute;picos. A sua ansiedade aumenta quando se apercebe que &#8220;n&atilde;o est&aacute; l&aacute; nem c&aacute;&#8221;. </p>      <p>E Yalom v&ecirc; o sadismo e o masoquismo como formas de fus&atilde;o, complementares. A diferen&ccedil;a entre um e outro &eacute; entre fundido e fundidor. S&atilde;o diferentes solu&ccedil;&otilde;es para o mesmo problema. </p>      <p>O <i>sexo </i>pode ser uma potente forma de nega&ccedil;&atilde;o de ansiedade relativa tanto &agrave; morte pr&oacute;pria, como &agrave;s possibilidades da vida ou &agrave; falta de sentido. </p>      <p>Igualmente o sexo compulsivo &eacute; uma resposta comum &agrave; consci&ecirc;ncia de isolamento. </p>      <blockquote>     <p>&#8220;&Eacute; uma for&ccedil;a em si pr&oacute;prio que parece maior que a pr&oacute;pria vida. [...] O sexo compulsivo quebra todas as regras de verdadeiro carinho. O indiv&iacute;duo usa o outro como equipamento. Usa, relaciona-se, apenas com uma parte do outro. Relacionar-se desta forma significa que o indiv&iacute;duo forma a rela&ccedil;&atilde;o, e quanto mais depressa melhor, para ter sexo &#8211; em vez da situa&ccedil;&atilde;o oposta em que o sexo &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o e facilita&ccedil;&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o mais profunda&#8221; (Yalom, 1980, p. 383). </p> </blockquote>      <p>Um fetichista (s&oacute; se conhecem casos de homens) relaciona-se n&atilde;o com uma mulher, mas com um objecto que lhe pertence. Mesmo que fa&ccedil;a sexo com uma mulher, n&atilde;o se relacionando com o seu esp&iacute;rito, tamb&eacute;m ser&aacute; fetichista mesmo que usando o seu corpo. N&atilde;o h&aacute; nesse caso, de facto, relacionamento aut&ecirc;ntico consigo e com os outros. </p>      <p>A utiliza&ccedil;&atilde;o do <i>outro como elevador social</i>, como forma de aprender e crescer na vida social, procurando a proximidade que atinge esses fins e evitando uma rela&ccedil;&atilde;o profunda que compromete, &eacute; outra forma de resposta &agrave; ansiedade do isolamento. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>CONCLUS&Atilde;O</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O aprofundamento do isolamento interpessoal e intrapessoal na sociedade moderna, com a diminui&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncias sociais facilitadoras de desenvolvimento pessoal como ser social e como indiv&iacute;duo com projecto pr&oacute;prio, &eacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o frequentemente expressa na obra de Yalom. </p>      <p>A insufici&ecirc;ncia de ambientes est&aacute;veis ao crescimento do indiv&iacute;duo, a padroniza&ccedil;&atilde;o do ser para os outros e o relevar do indiv&iacute;duo individualista e narcisista, tornam especialmente dif&iacute;cil a sociedade moderna, com m&uacute;ltiplos e mais intensos focos de ansiedade na vida do dia-a-dia e menores oportunidades de reflex&atilde;o e saud&aacute;vel confronta&ccedil;&atilde;o com os dados da exist&ecirc;ncia. </p>      <p>Esta abordagem psicoterap&ecirc;utica insere-se bem na sociedade moderna que Heidegger (1959) refere  calcular em vez de pensar, em que o primado da t&eacute;cnica distancia o indiv&iacute;duo da sua necess&aacute;ria reflex&atilde;o. Esta dist&acirc;ncia aumenta sem d&uacute;vida o isolamento individual no dia-a-dia. Neste processo calculista que prescreve ao indiv&iacute;duo a sua realiza&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de uma individualiza&ccedil;&atilde;o pelo consumo e um projecto de adapta&ccedil;&atilde;o dos comportamentos individuais &agrave;s exig&ecirc;ncias de uma sociedade de produ&ccedil;&atilde;o e consumo (Boltanski, 2005), a racionalidade &eacute; imposta em todos os aspectos da vida aumentando a dificuldade em encontrar sentido pessoal e a intimidade promovida &eacute; a de utiliza&ccedil;&atilde;o do outro. Acresce que o &#8220;ponto de coloca&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos na estrutura social n&atilde;o &eacute; indiferente. Nos n&iacute;veis mais baixos, quer culturais, quer econ&oacute;micos, as possibilidades de escolha est&atilde;o forte e objectivamente limitadas&#8221; (Teixeira, 2006). </p>      <p>A interven&ccedil;&atilde;o psicoterap&ecirc;utica existencial procurar&aacute; ajudar o paciente a clarificar, para si pr&oacute;prio, a sua vis&atilde;o do mundo e a forma como confronta, na especificidade da sua individualidade, da sua situa&ccedil;&atilde;o biogr&aacute;fica e das suas perspectivas, as caracter&iacute;sticas da exist&ecirc;ncia. </p>      <p>A explora&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o existencial &eacute; feita atrav&eacute;s da explora&ccedil;&atilde;o concreta da experi&ecirc;ncia consciente do paciente e n&atilde;o da discuss&atilde;o filos&oacute;fica das condi&ccedil;&otilde;es da exist&ecirc;ncia do ser humano. &Eacute; a forma concreta de como a exist&ecirc;ncia nele se manifesta que constitui a clarifica&ccedil;&atilde;o, a compreens&atilde;o fenomenol&oacute;gica de si pr&oacute;prio e do seu mundo inter-relacional. </p>      <p>A vis&atilde;o do mundo do paciente &eacute; v&aacute;lida enquanto sua e o processo psicoterap&ecirc;utico visa clarific&aacute;-la, verificar como o mundo &eacute; para o paciente. Al&eacute;m disso, um paciente que progressivamente aceita que a sua vis&atilde;o do mundo &eacute; apenas <i>a sua</i>, abre-se a aceitar que outros tenham as suas vis&otilde;es do mundo, com m&uacute;ltiplos aspectos diferentes, em resultado de experi&ecirc;ncias biogr&aacute;ficas e projectos de vida diferentes. </p>      <p>A possibilidade de coexistirem v&aacute;rias vis&otilde;es do mesmo mundo pode progredir no sentido de o paciente aceitar outras possibilidades de, ele pr&oacute;prio, ver o mundo, abrindo-se um horizonte de possibilidades e graus de liberdade antes n&atilde;o considerado. Este horizonte cont&eacute;m possibilidades de escolhas, muitas vezes mutuamente exclusivas, cuja escolha na situa&ccedil;&atilde;o existencial presente o paciente far&aacute; com uma responsabilidade correspondente ao grau de clarifica&ccedil;&atilde;o atingido. </p>      <p>A abordagem existencial procura que o indiv&iacute;duo clarifique os seus significados em vez de aceitar os que lhe s&atilde;o oferecidos. Tal n&atilde;o leva necessariamente ao afastamento ou &agrave; desilus&atilde;o com a sociedade, mas a uma participa&ccedil;&atilde;o mais activa na medida em que cada indiv&iacute;duo se enriquece nas inter-rela&ccedil;&otilde;es, em que assume responsabilidades sobre a sua situa&ccedil;&atilde;o existencial (necessidade do trabalho, da fam&iacute;lia, dos inter-relacionamentos) procurando os ajustamentos poss&iacute;veis entre o trabalho e a vida pessoal, ganhando significado de vida e autenticidade e desta forma reduzindo a sua ansiedade e ficando mais dispon&iacute;vel para se dedicar mais ao que mais lhe significa. </p>      <p>Neste processo, o paciente pode aprender a reflectir sobre si e sobre o contexto, procurando melhores adapta&ccedil;&otilde;es, o que &eacute; fonte de mudan&ccedil;a com significado. </p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>REFER&Ecirc;NCIAS</p>      <p>Boltanski, L. (2005). <i>The new spirit of capitalism</i>. London: Verso (2nd ed. 2007). </p>      <p>Buber, M. (1970). <i>I and thou</i>. New York:Charles Scribner. </p>      <p>Heidegger, M. (1926). <i>Being and time</i>. New York: State  University of NY Press (ed. 1996). </p>      <p>Heidegger, M. (1959). <i>Serenidade</i>. Lisboa: Instituto Piaget. </p>      <p>Husserl, E. (1927). <i>Phenomenology, Article for the Encyclopaedia Britannica    </i>(2007/12/02), <a href="www.hfu.edu.tw/%7Ehuangkm/phenom/husserl-britanica.htm" target="_blank">www.hfu.edu.tw/~huangkm/phenom/husserl-britanica.htm</a></a>  </p>      <p>Kierkegaard, S. (1838). Repetition. In <i>Kierkegaard&#8217;s Writings, vol. 6</i>, Princeton University Press (1983). </p>      <p>Kierkegaard, S. (1849). <i>Sickness unto death.</i> Wilder Publications Limited. </p>      <p>Maslow, A. (1968). <i>Towards a psychology of being</i>. New York: D. Van Nostrand. </p>      <p>Spinelli, E. (2005). <i>The interpreted world, An introduction to phenomenological psychology</i>.  London: Sage. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Spinelli, E. (2007). <i>Practising existential psychotherapy</i>. Sage: London. </p>      <!-- ref --><p>Teixeira, J. A. C. (2006). Problemas psicol&oacute;gicos contempor&acirc;neos. Uma perspectiva existencial.  <i>An&aacute;lise Psicol&oacute;gica</i>, <i>24</i>(3), 405-413. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000174&pid=S0870-8231201000040000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Van Deurzen, E. (2002). <i>Existential counselling &amp; psychotherapy in practice</i>. Sage: London (ed. 2007). </p>      <p>Yalom, I. (1980). <i>Existential psychotherapy</i>. New York: Basic Books. </p>      <p>Yalom, I. (2001). <i>The gift of yherapy</i>. New York: Harper Collins (ed. 2006). </p>       ]]></body>
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<surname><![CDATA[Teixeira]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. A. C.]]></given-names>
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<source><![CDATA[Análise Psicológica]]></source>
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<page-range>405-413</page-range></nlm-citation>
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