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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The field of Urban Anthropology in the context of Brazilian Social Sciences benefitted in great measure from the efforts and initiatives of a generation of anthropologists trained at the University of São Paulo, among which was Ruth Cardoso. This article examines the current applicability of her work, along with the genesis and influence of some of her contributions regarding the identification of new areas of study and her introduction of ground-breaking methodologies that always gave proper consideration to the traps that methodologies may bring to research]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[antropologia urbana]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[subjectivities]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>A captação do social e as armadilhas do método: aprendendo com Ruth Cardoso e seu jeito de ser </b>    <p>

    <p><b> Methodological problems in the study of social issues:the special insight of Ruth Cardoso </b>    <p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>José Machado Pais</b>*</p>

    <p> * Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Avenida Prof. Aníbal de Bettencourt, 9, 1600-189, Lisboa, Portugal. E-mail: <a href="mailto:machado.pais@ics.ulisboa.pt">machado.pais@ics.ulisboa.pt </a></p> 

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A captação do social e as armadilhas do método: aprendendo com Ruth Cardoso e seu
jeito de ser.A afirmação da antropologia urbana no
panorama das ciências sociais brasileiras beneficiou, em grande parte, dos
novos horizontes de conhecimento rasgados por uma geração de antropólogos
formados na Universidade de São Paulo, entre os quais Ruth Cardoso. Neste
artigo debate-se a atualidade da sua obra, assim como a génese e a influência
de alguns dos seus contributos quer na captação de novos objetos de estudo,
quer na proposição de metodologias inovadoras, sempre sujeitas a uma vigilância
epistemológica dirigida às suas próprias armadilhas.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>:antropologia urbana; metodologias qualitativas; observação participante; subjetividades.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>The field of Urban Anthropology in the context of Brazilian Social Sciences benefitted in great measure from the efforts and
initiatives of a generation of anthropologists trained at the University of São
Paulo, among which was Ruth Cardoso.
This article examines the current applicability of her work, along with
the genesis and influence of some of her contributions regarding the
identification of new areas of study and her introduction of ground-breaking
methodologies that always gave proper consideration to the traps that
methodologies may bring to research.</p>

    <p><b>Keywords</b>:urban anthropology; qualitative methods; participant observation;
subjectivities.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>INTRODUÇÃO</b><a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup></a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Conheci Ruth Cardoso em agosto de 1992, num almoço realizado no Restaurante do Clube da Universidade de
São Paulo, durante o II Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais.
Quando lhe fui apresentado, fiquei tocado por seu sorriso franco. Sabendo de meus
interesses pela sociologia da juventude, surpreendeu-me com questionamentos
estimulantes sobre o potencial de inovação e criatividade dos jovens e o papel
relevante que deles poderíamos esperar nos novos movimentos sociais.
Despedimo-nos com a promessa de um futuro encontro. Poderia ter ocorrido em
setembro de 1995, quando a Universidade de São Paulo (USP) me acolheu como
professor visitante. No entanto, então já Ruth Cardoso era primeira dama do
Brasil, Fernando Henrique Cardoso havia sido empossado presidente da República.
Com agradável surpresa descobri que, nesse mesmo ano, Ruth Cardoso acabara de
editar, em coautoria com Helena Sampaio, uma <i>Bibliografia sobre a Juventude</i>
(Cardoso e Sampaio, 1995), dando mostras de um profundo conhecimento da condição
juvenil portuguesa.<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup></a></p>

    <p>Passados cerca de vinte e cinco anos sobre a data
desse fugaz encontro, é com muito agrado que agora
faço um breve e parcial sobrevoo à obra de Ruth ­Cardoso, esperando dar conta,
ainda que modestamente, da sua inquestionável relevância. Pode dizer-se que,
como aliás tem sido largamente reconhecido (Velho,
2008; Gordinho, 2009; Brandão, 2010; Caldeira, 2011; Magnani, 2012), a
crescente afirmação da antropologia urbana no panorama das ciências sociais
brasileiras beneficiou, em grande parte, dos novos horizontes de conhecimento
rasgados por uma geração de antropólogos formados na USP (Universidade de São
Paulo), entre os quais Ruth Cardoso. Costumes exóticos de tribos indígenas
continuaram a atrair a atenção de antropólogos e etnólogos. No entanto,
começaram a surgir pesquisas centradas em temas de interesse imediato, temas
comuns do quotidiano das cidades. Outra figura relevante dessa geração de
antropólogos constatava: “Estamos, em suma, produzindo uma nova e intrigante
etnografia de nós mesmos” (Durham, 2004 [1986], p. 17). E desfilava alguns dos
novos temas pesquisados, muitos deles no âmbito de orientações de doutoramento
dirigidas por Ruth Cardoso: modos de vida das periferias urbanas ou de bairros
elitistas (Copacabana); populações caipiras ou imigradas; estudos de
comunidade; culturas populares; lazeres e sociabilidades; religiosidades;
sexualidade e feminismo; novos movimentos sociais…</p>

    <p>Estes últimos, com uma participação crescente de jovens e mulheres, tornaram-se relevantes não
apenas do ponto de vista político, mas também antropológico, pois abriam
espaço, como bem reconheceu Magnani (2012, p. 35), para o desenvolvimento de
uma nova sensibilidade antropológica, capaz de dar conta de novas dinâmicas
sociais que, protagonizadas por novos atores sociais, se processavam
quotidianamente: no movimento negro, no feminismo, no indigenismo, nas
associações reivindicativas, onde quer que fosse. Invadindo um território
dominado pela ciência política, a antropologia abordava estas novas
problemáticas, em rotura epistemológica com as perspetivas globalizadoras
da ciência política e da sociologia de matriz estruturo-funcionalista.
Podendo tomar-se como exemplo desta nova sensibilidade antropológica a tese de
doutoramento de José Guilherme Magnani (1984), <i>Festa no Pedaço. Cultura e
Lazer na Cidade</i>, Eunice Durham sustentava (2004 [1986], p. 21):
“Investigando esses ‘pedaços da sociedade’, as comunidades, como se fossem
aldeias indígenas, era possível utilizar os métodos de observação participante,
documentação censitária, histórias de vida, entrevistas dirigidas, etc.,
formulando um retrato multidimensional da vida social e integrando o estudo das
manifestações culturais à análise do seu substrato social e económico”. De quem
Magnani recebera orientação em sua inovadora tese de doutoramento? De Ruth
Cardoso. O livro de Magnani (2012) sobre as ­trajetórias da
antropologia urbana no Brasil não deixa de lhe fazer uma justa
homenagem. Na obra<a name="top3"></a><sup><a href="#3">3</a></sup></a>de Ruth Cardoso encontramos, com efeito, rasgos de uma nova sensibilidade
antropológica, sempre em busca de brechas interpretativas, numa atitude de
permanente alerta em relação aos impasses e armadilhas do método.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>PARA DEIXAR DE <i>CHOVER NO MOLHADO</i><i> </i>E NÃO DERRAPAR EM CONCEITOS
DESGASTADOS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Ruth Cardoso foi aluna de Egon Schaden (1913-1991)<a name="top4"></a><sup><a href="#4">4</a></sup></a>, ao seu tempo orientador de uma geração de jovens antropólogos, entre
os quais Eunice Durham, inseparável colega de Ruth Cardoso.<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup></a> Ambas acabariam por ser convidadas por Schaden para assistentes da
cadeira de Antropologia, onde já colaborava Gioconda Mussolini, outra notável
antropóloga brasileira da geração de Ruth Cardoso. Apesar da relevância de
Schaden nos primórdios da antropologia brasileira, Ruth Cardoso e Eunice Durham
acabariam por divergir do seu mestre ao assumirem posições críticas em relação
à teoria da aculturação por ele perfilhada: “Naquele tempo, em antropologia, a
grande palavra nova era ‘aculturação’. Sabia-se o que era aculturação e o que
não era. Havia a tabela do Herskovitz para a gente consultar” (entrevista de
António Cândido a Martins P., 2014, p. 25). As teorias da aculturação tinham ganho especial relevância no Brasil devido aos fluxos
de imigração e aos correlativos problemas de aculturação e assimilação. Ruth
Cardoso acabaria por se ver empurrada para esse domínio de pesquisa: “Quando eu
entrei no mestrado, Schaden decretou que deveríamos estudar os imigrantes, pela
ausência de estudos na área, em especial sobre os alemães, com os quais ele
havia trabalhado, e os japoneses” (entrevista a El Far <i>et</i><i>
al</i>., 1998, p. 152). Ruth Cardoso acabaria por aceitar o desafio, optando
por pesquisar os japoneses imigrantes de São Paulo.</p>

    <p>O título da sua tese de mestrado – <i>O papel das Associações Juvenis na Aculturação dos Japoneses</i> – defendida e publicada em
1959, comprova a presença inabalável do conceito de
aculturação, certamente por insistência de Schaden. No entanto, Ruth Cardoso
não se sentia confortável com a possibilidade de a sua tese vir a ser um
simples <i>chover no molhado</i>. Aliás, os
“desentendimentos com o orientador” (Caldeira, 2011, p. 16) levaram-na a
concluir a tese com supervisão de Florestan Fernandes, libertando-se desse modo
das amarras das teorias da aculturação (Peixoto e Simões, 2003, p. 496;
Magnani, 2012, p. 47). Tal como era usado, o conceito de aculturação
mostrava-se inadequado para dar conta da heterogeneidade e do dinamismo das
sociedades contemporâneas, não por acaso então designadas “complexas”. Ruth
Cardoso afastava-se, desse modo, de uma perspetiva culturalista que
identificava cultura com totalidade. Não lhe interessavam apenas as
regularidades sincrónicas mas, sobretudo, as variações
diacrónicas, pois só conjugando umas e outras seria possível dar conta do papel
dos agentes da mudança social a um nível comunitário, familiar e associativo.
Esta foi, certamente, a razão que mobilizou o interesse de Ruth Cardoso para o
estudo do papel das associações juvenis na aculturação dos japoneses. Aliás, em
sua tese de doutoramento<i> </i>– <i>Estrutura Familiar e Mobilidade Social </i>–
continuaria a aprofundar os questionamentos teóricos em torno das persistências
e mudanças sociais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Embora contemplando a mudança social, Schaden (1956) acabava por a associar a situações
disfuncionais de ruptura e desorganização familiar, tomada a comunidade dos
imigrantes japoneses como um todo (Peixoto e Simões, 2003). Em contrapartida,
privilegiando os percursos de mobilidade social entre os imigrantes japoneses,
Ruth Cardoso coloca a descoberto aspetos contraditórios de uma suposta unidade
cultural que, na verdade, encobria um mosaico de “soluções de compromisso”. A
valorização da vida rural por parte dos imigrantes japoneses (os chamados <i>isseis</i>)
não os impedia de se preocuparem com o futuro dos filhos (<i>nisseis</i>),
apostando na valorização das suas trajetórias escolares e profissionais.<a name="top6"></a><sup><a href="#6">6</a></sup></a>
O que Ruth Cardoso descobre é uma socialização de duplo sentido na relação <i>issei-nissei</i><a name="top7"></a><sup><a href="#7">7</a></sup></a> não necessariamente conflituosa: “mesmo dentro de sua família, o <i>nissei</i>
encontra estímulos para um entrosamento no meio brasileiro, que se traduz principalmente
por uma exigência de êxito profissional” (Cardoso, 2011 [1959], p. 57). Na
linha das teses de Eisenstadt (<i>From Generation to Generation</i>) que,
aliás, cita em sua tese de mestrado, Ruth Cardoso descobre que a emergência
entre os imigrantes japoneses dos grupos de idade, entendidos num sentido
social e não meramente biológico, refletem estruturas sociais em que a família
já não aparece como única ou principal instância de socialização dos jovens.</p>

    <p>No entanto, as ameaças de ruptura e desorganização familiar, acenadas por Schaden, acabam por não se verificar. Possíveis
descontinuidades geracionais nem sequer descambaram em manifestos conflitos
familiares. Os <i>isseis</i>, orgulhosos do sucesso dos seus jovens (<i>nisseis</i>),
condescendiam com novos hábitos culturais que estes iam adquirindo (Peixoto e
Simões, 2003, p. 399). De entre eles a possibilidade de os <i>nisseis</i> se
reunirem em associações juvenis independentes (recreativas, desportivas e
culturais), sem a tutela dos <i>isseis</i>, embora com o seu beneplácito tácito.
Daí a relevância destas associações, ao permitirem o envolvimento dos jovens em
festas, sessões de dança, concursos de beleza, etc. (Cardoso, 2011 [1959], p.
66). O abrasileiramento dos <i>nisseis</i> acaba mesmo por desembocar em
casamentos mistos, fora de um rígido controlo parental. Deste modo, os <i>nisseis</i>
evidenciam uma “dupla lealdade”. Enquanto membros da “comunidade” não deixam de
se considerar “japoneses”, o que não os impede de apostarem em estratégias de
mobilidade social, comportando-se como “brasileiros”. Estamos perante
estratégias de socialização por afinidade eletiva, estratagemas de
“socialização por antecipação” (Merton, 1957, pp. 254-290).</p>

    <p>Estas inovadores teses de Ruth Cardoso seriam retomadas em seu artigo “O agricultor e o
profissional liberal entre os japoneses no Brasil” (Cardoso, 2011 [1963]) onde,
mais uma vez, os jovens aparecem como agentes de mudança, mas sem entrarem em
conflito cultural com os pais, convencidos estes do valor simbólico e material
das profissões liberais em meio urbano. Assim se explica que as velhas gerações
tenham tacitamente aderido às mudanças em curso, pois os sonhos de mobilidade
social dos mais jovens correspondiam a projetos de vida simultaneamente
individuais e familiares. Deste modo, Ruth Cardoso afastava-se das teses de
Egon Schaden que nos seus estudos de aculturação dos japoneses no Brasil
insistia nos problemas de “desorganização familiar” e de “conflito
intergeracional” (Sakurai, 2008). O que Ruth Cardoso mostra é que o processo de
aculturação dos japoneses não pode ser analisado à margem do jogo de forças
entre persistências e mudanças culturais que atravessam os processos de
mobilidade social. </p>

    <p> O potencial de mudança associado aos jovens
continuou a merecer o interesse de Ruth Cardoso, tendo em conta os movimentos
protagonizados no final dos anos 60 e inícios da década 70 pelos jovens
universitários de Berkeley e do maio de 68, em Paris<i>.</i> Mas o que mais
interessava a Ruth Cardoso era o sentido antropológico do “pipocar” desses
movimentos, a sua razão de ser, as novas éticas de
vida que esses movimentos poderiam precipitar (Cardoso e Sampaio, 1995, p. 20).
O entendimento das contestações juvenis reclamava, pois, uma problematização
teórica assente em questionamentos sobre o devir social: “questionando desde a
relação entre os sexos, o casamento e a organização familiar até o sentido do
trabalho, da política, e da relação com a natureza, os jovens pareciam formular
uma ética alternativa” (<i>ibidem</i>, p. 21). O posterior amortecimento dos
movimentos juvenis originou a representação mediática de uma juventude apática,
despolitizada. No entanto, Ruth Cardoso questionava se essa suposta apatia
deveria ser considerada segundo os mesmos parâmetros utilizados para avaliar a
efervescência dos movimentos juvenis dos anos 60 e 70.</p>

    <p>Como vemos, para Ruth Cardoso o fazer
antropológico é sempre um saber levantar questionamentos que desvelem
realidades emergentes. Esse é o método que privilegia em suas pesquisas. A
constatação mediada pela interrogação: “se a política não é mais o eixo
articulador da identidade estudantil, quais seriam os novos (ou velhos) eixos
que permitem a construção dessa identidade?” (<i>ibidem</i>, pp. 26-27). O que
Ruth Cardodo descobre é que os novos estilos de vida, no caso dos jovens,
aparecem frequentemente associados a transgressões simbólicas, a recriações
estilísticas. A este propósito, sem deixar de reconhecer que a estilização pode
aparecer como expressão da diversidade étnica, sexual ou territorial, Ruth
Cardoso convida-nos ao cruzamento dos conceitos de <i>estilização</i> e <i>tribalização,</i>
chamando a atenção para duas importantes dimensões do tribalismo na compreensão
dos estilos de vida juvenis em meio urbano: por um lado, a “valorização do
coletivo e seus códigos”; por outro lado a “vinculação entre territorialidade e
plasticidade” (<i>ibidem</i>, p. 32). Na linha das reflexões sobre as tribos
urbanas, posteriormente aprofundadas por Magnani (1992), Ruth ­Cardoso constata
que o território das tribos juvenis contemporâneas é
sobretudo simbólico, fluido e cambiante. As suas referências simbólicas
sobrepõem-se, podendo resultar de pertenças étnicas ou regionais ou decorrer de
preferências culturais cambiantes (gostos musicais, espaços de lazer ou hábitos
alimentares). As tribos circulam <a name="top8"></a><sup><a href="#8">8</a></sup></a>, apropriam-se transitoriamente de uma multiplicidade de territórios,
exibindo identidades múltiplas e diferenciadas. O que Ruth Cardoso (1975) nos
mostra é que os conceitos de cultura ou subcultura apenas se revelam
heurísticos se forem capazes de decifrar a ambiguidade dos grupos que
descrevem. Se os instrumentos conceptuais se aprisionam ao estático perdem a
riqueza da labilidade do social, onde as culturas e subculturas se refazem.
Como é reconhecido por suas discípulas (Debert,
Gregori e Coelho, 2008, p. 8), Ruth Cardoso defendia que “os conceitos não
podem ser amarras”.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>COMO ESCAPAR ÀS ARMADILHAS DO MÉTODO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Centremo-nos agora no livro organizado por Ruth Cardoso, em 1986, <i>A Aventura Antropológica, Teoria
e Pesquisa</i>, obra de referência na produção ­antropológica brasileira dos
anos 80 por apontar importantes impasses metodológicos vividos pelas ciências
sociais na pesquisa de campo. Como admite na introdução da obra, os ensaios
reunidos perseguiam um desafio que conjugava ventura com desventura, risco e
proeza. Um risco seria o de confundir aventura antropológica com aventureirismo
excêntrico ou romantizado (­Corrêa, 1998) que aparecia, e ainda aparece, como
atributo do fazer antropológico. As proezas da aventura antropológica não se
podiam confundir com aventureirismo falho de rigor metodológico.</p>

    <p>A preferência pelo “microestudo de caso” que então mobilizava o entusiasmo das ciências sociais pela pesquisa de campo
intensiva se, por um lado, correspondia a um recuo relativamente às apreensões
holísticas do social e às explicações estruturalistas então dominantes,
levantava vários problemas de natureza conceptual, teórica e metodológica. Ruth
Cardoso (2004 [1986], pp. 95-105) questionava-se: <i>como escapar às armadilhas
do método</i>? E alertava: “Um indisfarçado pragmatismo (muitas vezes
confundido com politização) dominou as ciências sociais contemporâneas e
desqualificou como ocioso o debate sobre os compromissos teóricos que cada
método supõe” (<i>ibidem</i>, p. 95). As suas preocupações não perderam
atualidade. Hoje, esse “indisfarçado pragmatismo” rima cada vez mais com
imediatismo. A pressão que nos meios académicos atualmente existe para a
publicação, e a existências de projetos cujas agências financiadoras exigem
resultados imediatos, fragiliza a necessária vigilância epistemológica sobre o
uso dos métodos. Agora como outrora, “qualquer pergunta sobre as limitações
impostas por este ou aquele método é impertinente” (<i>ibidem</i>). O que conta
é tão somente a ida ao campo, o número de entrevistas realizadas e transcritas,
a célere publicação de resultados alcançados que, em regra, não andam longe dos
resultados esperados.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas suas reflexões sobre as “armadilhas do
método”, Ruth Cardoso coloca sempre em confronto os seus alcances e limitações.
A crítica em relação ao uso de conceitos desgastados pelo tempo (como os de <i>aculturação</i>
ou <i>subcultura</i>), é uma marca da sua trajetória
de pesquisa. Crítica que era também dirigida ao uso de jargões políticos e
pseudocientíficos, geradores de verdadeiros impasses metodológicos. A própria falácia de algumas políticas públicas no combate à marginalidade
social das periferias urbanas, eram decorrentes de um impasse
metodológico: a incapacidade em explicar os “comportamentos concretos” da vida
quotidiana dos subúrbios. Uma viragem metodológica se impunha: “uma lente de
aumento para os comportamentos banais, onde deveriam estar os elos que
interligam os processos estruturais e as práticas sociais” (<i>ibidem</i>, pp.
96-97).</p>

    <p>Foi com essa lente progressiva, de ver ao perto
(práticas sociais) e ao longe (processos estruturais), que Ruth Cardoso
questionou o “enigma” do ­ aparente conformismo político do operariado. A sua
decifração não passava pelo estudo dos sindicatos ou das relações industriais,
deveria antes captar-se na vida quotidiana do mundo operário. Aqui, sim,
poderíamos encontrar formas subtis de resistência ou de oposição à exploração
capitalista, marcas veladas de um inconformismo só desvelado nas teias da
quotidianidade. Uma viragem metodológica desta amplitude exigia importantes
reformulações conceptuais, desde logo em relação às interpretações mecanicistas
de “classe social”, assentes numa definição estática da “situação de classe”,
suposto abrigo de uma refugiada “consciência de classe”, de uma “identidade
oculta” imobilizada nos chavões conceptuais que a definiam. E mesmo quando
qualquer gesto ou traço cultural distintivo passa a ser descrito e interpretado
como sinal de resistência, não estaríamos a ir longe demais naquele
“indisfarçado pragmatismo” confundível com “politização”?</p>

    <p>É certo que foi considerável o salto qualitativo
das teses do conformismo para as teses da resistência, estas
últimas acarinhadas pelos pesquisadores do <i>Center for</i><i>
Contemporary Cultural Studies</i>, da Universidade de Birmingham, cujos <i>working
papers</i> Ruth Cardoso discutia com os seus alunos. Porém, atenta às
armadilhas do método e às derrapagens dos conceitos, sustentava: “muitas vezes,
a coleta de material qualitativo se justificou como forma de detectar esta
identidade oculta dos trabalhadores, mas, operando com uma noção estática e
descritiva da classe, não se consegue ultrapassar as interpretações globais
vigentes. O que era lido como alienação, passividade e conformismo (futebol,
festas, malandragens, submissão) passa a ser lido como
resistência” (<i>ibidem</i>, p. 97). Ou seja, de novo as armadilhas do método
quando cegamente se busca a confirmação de hipóteses teóricas supostamente
irrefutáveis.</p>

    <p>Na fuga às emboscadas que nos aprisionam ao
próprio método, Ruth Cardoso reclama rigor no uso dos métodos qualitativos: “os
cientistas sociais estão envolvidos em projetos que supõem a utilização de
entrevistas longas e ampla convivência com os informantes. É uma espécie de
volta ao significado em seu estado puro, ao discurso ‘real’, que deve permitir
descobrir novos sentidos não previstos pelas análises macroestruturais” (<i>ibidem</i>,
p. 98). Porém, como ela própria reconhece, o interesse
pelos “atores sociais de carne e osso”, na ausência de uma crítica
teórico-metodológica consistente, correspondia, sobretudo, a um desencanto com
generalizações apressadas e esquemas explicativos abstratos. O retorno ao
concreto fazia-se por linhas tortas, “pelos mesmos caminhos já trilhados pela
ciência positivista” (<i>ibidem</i>). E porquê? Por
falta de um questionamento crítico sobre o uso das metodologias qualitativas.
Embora reconhecendo os importantes contributos da linguística às ciências
sociais, Ruth Cardoso assinalava os seus desencaminhamentos positivistas: “[…]
as técnicas mais difundidas de análise da narrativa não puseram em causa os
princípios positivistas. Pelo contrário, a delimitação de um <i>corpus</i>
discursivo como suporte primeiro da análise sociológica reforça a evidência da
externalidade do objeto e dificulta a integração entre o discurso dos atores e
o seu comportamento” (<i>ibidem</i>, p.100).</p>

    <p>Ruth Cardoso identifica importantes
“descompassos”<i> </i>nos modos de fazer pesquisa qualitativa. Um primeiro
descompasso gera-se entre a suposta imersão do pesquisador no trabalho de campo
e a ausência de uma discussão sobre o papel da subjetividade na produção de
conhecimento: “Considero muito saudável a volta ao
trabalho de campo e ao respeito dado ao empírico, mas quero ressaltar o
descompasso entre estas iniciativas e a assimilação da discussão sobre a
natureza do conhecimento científico, o papel da subjetividade como instrumento
de conhecimento” (<i>ibidem</i>, p. 99). Deste descompasso desprende-se um outro, o da idealizada “neutralidade científica”,
desconsideradas as subjetividades que medeiam as interações no trabalho de
campo entre observadores e observados (Stocking, 1983). O papel do observador
começa então a ser questionado: “seria ele um líder, um educador, um dirigente,
ou um mero catalisador? Em qualquer um destes casos, como exerceria as
atividades de pesquisador?” (Zaluar, 2004 [1986], p. 112).</p>

    <p>A nova geração de antropólogos da USP, à cabeça
dos quais Ruth Cardoso e Eunice Durham, questiona a observação participante nos
moldes tradicionais. Tradicionalmente, reconhece Eunice Durham (2004 [1986]: p.
26), a ênfase era colocada na <i>observação</i>, tão objetiva quanto possível,
enquanto a <i>participação</i> era uma mera condição de possibilidade da
observação. A metodologia ganhou contudo outras
ambições, tanto na “conceituação” quanto na “prática”. Por um lado, a
subjetividade do observador começou a ser questionada e valorizada. Por outro
lado, a participação passou a ser considerada uma condição necessária à
observação: “Uma espécie de mergulho no fundo do outro que é condição para o
conhecimento, mas que, entretanto, deve sempre ser completado pela observação
dos comportamentos e de sua recorrência” (Ruth Cardoso, 2004 [1986], p. 100).
Nesta relação entre participação e observação, caberia ao pesquisador
questionar a sua subjetividade com espírito crítico e
intentos metodológicos: “seus valores ou sua visão do mundo deixam de
ser obstáculos e passam a ser condição para compreender as diferenças e superar
o etnocentrismo” (<i>ibidem</i>, p. 102).</p>

    <p>Ou seja, enquanto nas pesquisas em “sociedade
primitivas” a objetividade sobreleva largamente a subjetividade – o pesquisador
era frequentemente um “estrangeiro” que nem a língua nativa dominava – nas
pesquisas urbanas a participação reivindica envolvências de natureza
intersubjetiva. Nestas condições, o pesquisador “busca, na interação simbólica,
a identificação com os valores e aspirações da população que estuda” (Durham,
2004 [1986], p. 26). Ruth Cardoso está em sintonia com esta posição. Passando
de “adjetiva” (observação participante) a “substantiva” (participação
observante), a participação “reinventou a empatia como forma de compreender o
outro” (Cardoso, 2004 [1986], p. 101). É no encontro de pessoas que se
estranham, e que ao mesmo tempo se acercam, que
acabamos por “desvendar sentidos ocultos e explicitar relações desconhecidas” (<i>ibidem</i>).
Sentidos que nos são dados pela observação.</p>

    <p>Em que consiste a observação para Ruth Cardoso?
Ela define-se do seguinte modo: “Observar é contar, descrever e situar os fatos
únicos e os cotidianos, construindo cadeias de significação” (<i>ibidem</i>, p.
103). Esta capacidade de observação deve ser <i>autorreflexiva</i>, isto é, nos
seus registos de observação o pesquisador não pode deixar de analisar o seu
próprio modo de olhar, mas deve também ser <i>intersubjetiva</i>, condição de
possibilidade da alteridade. Ou seja, para Ruth Cardoso o conhecimento passa
pela descoberta de saberes não compartilhados e não
por uma banal noção de empatia (<i>ibidem</i>). Neste sentido, as
identificações subjetivas jogadas no trabalho de campo geram implicações de
natureza metodológica e política. Com efeito, as experiências reflexivas vividas por observadores e observados assumem-se
como uma condição da <i>participação-ação</i>. Tenha-se em conta que, no
contexto de uma interação, a reflexividade não é uma qualidade dependente da
vontade do pesquisador, ela medeia todas as ações sociais que ocorrem no
trabalho de campo (Watson, 1987). Principalmente no caso em que o pesquisador
participa ativamente nos movimentos sociais que estuda, criam-se condições para
que surjam compromissos políticos, quer no figurino da responsabilidade social
quer no da militância. Como é que Ruth Cardoso reage a estes “deslizamentos”,
da observação participante para a participação observante e desta para a
militância política? O problema não é propriamente o do espaço conquistado pela
“pesquisa engajada”; é o da ausência de discussão sobre o fazer metodológico do
trabalho de campo em tais circunstâncias (Cardoso, 2004 [1986], p. 101).
Advertindo: “o resgate da subjetividade como instrumento de trabalho não deve
ser justificativa para a indefinição dos limites entre ciência e ideologia” (<i>ibidem</i>,
p. 103).</p>

    <p>O que Ruth Cardoso sugere é que o trabalho de
campo, particularmente o que envolve observação participante, só oferece
garantias de objetividade quando a subjetividade é questionada, até na
afirmação de um “engajamento político” com alguma “dose de ideologia”, como
acontece quando o pesquisador se identifica com minorias discriminadas. Mas,
neste caso, a pesquisa reduz-se à denúncia, transformando o pesquisador num
porta-voz (<i>ibidem</i>, p. 99). Por outro lado, os compromissos ideológicos
comprometem um dos passos mais importantes da pesquisa participante, “o
estranhamento como forma de compreender o outro” (<i>ibidem</i>, p. 100). Não o
estranhamento gerado por um distanciamento etnocêntrico entre observador e
observados, mas o ­estranhamento que entreabre portas ao questionamento, dando
pistas de interpretação, ancorando as relações pessoais a seus contextos de
existência, permitindo “estudar as condições sociais de produção dos discursos”
(­Cardoso, 1994, p. 84; 2004 [1986], p. 103).</p>

    <p>Um outro descompasso resulta dos determinismos analíticos impostos por
“processos estruturantes” que tendem a transformar os comportamentos
individuais em “ações automatizadas”, ou daqueles outros determinismos que
tendem a enjaular a pesquisa empírica em quadros teóricos cuja rigidez
determina outro descompasso teórico, o que ocorre precisamente quando o “quadro
teórico é muito mais declaração de princípios que uma construção de referências
analíticas” (Cardoso, 2004 [1986], p. 99). Determinismos teóricos ou
ideológicos limitam a capacidade da descoberta. A busca do inesperado só é
possível através de um desejo de conhecimento movido pela curiosidade. Essa
estratégia captativa não se contenta com meras colheitas de dados que tendem
mais a fixar evidências que saltam à vista do que a descobertas só possíveis de
concretizar com observação astuta, sensibilidade teórica e vigilância crítica
em relação às armadilhas do método.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>LIÇÕES DE VIDA QUE SOBREVIVEM</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Na crítica ao livro <i>Ciências Sociais no Brasil</i><i>: Diálogos com Mestres e
Discípulos</i> (Trindade, 2012), onde Ruth Cardoso aparece como um dos
expoentes da antropologia brasileira, José de Souza Martins (2014, p. 196)
interroga: “Quanto o modo de ver de nossos cientistas sociais reflete o modo de
ser de seus grupos de origem em precedência aos estritos e demarcados
princípios da produção do conhecimento científico?” Eis uma boa questão que nos
incita a explorar as origens sociais de Ruth Cardoso e a questionar o modo como
aspetos da sua socialização primária se refletiram na sua trajetória académica.</p>

    <p>Ruth Cardoso viveu a sua infância e adolescência
em Araraquara, onde nasceu (1930). Embora frequentando a escola pública até aos
15 anos, Ruth prosseguiu os estudos num prestigiado colégio de São Paulo (<i>Des
Oiseaux</i>), antes de ingressar na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
da Universidade de São Paulo. Seu pai, José Corrêa Leite, organizava a
contabilidade de várias empresas de Araraquara, dando também apoio aos
vendedores do mercado, onde aliás, tinha uma banca de
atendimento. Por vezes, Ruthinha acompanhava o pai no fechamento das contas
(Brandão, 2010, p. 21). Não granjeava apenas agrados, ganhava também a
oportunidade de aprender o alcance do rigor das anotações e registos
contabilísticos. Sua mãe, dona Mariquita, descendente de uma família portuense,
era farmacêutica e professora. Mulher perseverante – doutorou-se na USP com 60
anos – dona Mariquita deu a Ruth uma educação esmerada, onde as aulas de piano
e declamação se conjugavam com a aprendizagem dos afazeres domésticos, desde
logo os segredos da cozinha.</p>

    <p>Ou seja, desde a
infância Ruthinha aprendeu a olhar à sua volta, a observar e a questionar o que
ia descobrindo.</i>De suas memórias de infância, Ruth relembra <i>Vó
Vizinha,</i> que vivia num barraquinho, uma velha tão querida que só podia mesmo ser tratada como avó: “[…] conversávamos por
horas, eu perguntava muito, eu era muito perguntadeira” [entrevista a Brandão
(2010, p. 19)]. Ruth observava-a atentamente nas lidas caseiras: “o fazer
sempre me interessou muito, podia ficar horas observando a Vó” (<i>ibidem</i>).
Como a Vó fornecia bolos para uma padaria, Ruthinha observava atentamente a sua
confeção artesanal, feita com perícia e delicadeza. Observava e logo apontava
as receitas das mais gostosas doçarias: pés de moleque, baba
de moça, olhos de sogra, beijinhos e cajuzinhos… Esta capacidade, vinda dos
tempos de infância, em observar, questionar e registar, é um dos reconhecidos
atributos de Ruth Cardoso no seu modo de fazer antropologia. Teresa Caldeira,
sua discípula e amiga, confirma como ela era exigente no trabalho de campo,
reclamando sempre transcrições densas e pormenorizadas. A sua <i>metodologia</i>
<i>captativa</i> obrigava a que realidade observada saltasse para os diários de
campo como os movimentos de deve e haver saltavam para os diários
contabilísticos de seu pai:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>[…] a gente tinha de observar tudo quando íamos
para a periferia. Tenho ainda meus cadernos de campo e posso ouvir Ruth
exigindo: <i>‘Quero os diagramas das casas, preciso saber onde tem mesa, tem
cadeira, onde está a televisão, quero saber o que tem
na sala, o fogão, objetos, roupas, o chão, qual é a cultura material, como as
pessoas se inserem nela’</i>. Ensinava a fazer o caderno de anotação de campo.
Era essencial observar os gestos, ver como as pessoas falavam,
prestar atenção às posturas [entrevista a Brandão, 2010, p. 127].</p> </blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O gosto pela culinária, que aprendeu com Dona
Mariquita e <i>Vó Vizinha</i>, acompanhou-a vida fora, especialmente nas
tertúlias que organizava em casa, onde acolhia colegas, amigos e alunos. Os
pitéus que para eles confecionava tinham uma carga simbólica, não apenas pelas
relações de horizontalidade entre os comensais, mas também pela função
rememorativa que para Ruth Cardoso esses encontros tinham, ao avivarem-lhe
lembranças de infância, trazendo ao presente o passado, nas memórias de aprendizagens
que ela persistia em manter vivas, partilhando-as. Com Lévi-Strauss Ruth
Cardoso aprendeu quão importante era para a antropologia o tema da alimentação,
mas para ela a “cozinha dos antropólogos” (Kuper, 1985) passava por meter as
mãos na massa. Uma aluna sua lembra: “sua casa era movimentada, e ela discorria
com naturalidade da antropologia à sociologia, à maneira de fazer cuscuz, ou
onde comprar um bom abacaxi” (entrevista a Brandão, 2010, p. 73). Em casa de
Ruth sobressaía o carisma próprio de um vínculo social, onde prevalecia um
sentido de <i>communitas</i> (Turner, 1997) que a sociabilidade à mesa
favorecia. Danielle Ardaillon, outra sua orientanda, testemunhou: “Ruth me
levou para sua casa em Ibuína para discutirmos o trabalho académico e, no meio
disso, ela parou para me preparar um delicioso caldo verde” (entrevista a
Gordinho, 2009, p. 110). Assim se criava uma disponibilidade para o fluir de ideias, num ambiente descontraído e
sociabilístico. Ruth gostava de partilhar, fossem sabores, ideias ou livros:
“Olha que maravilha, você precisa de ler!” – dizia a
Eunice Durham quando, regressada de Paris, lhe passou o livro “<i>Le Totémisme
aujourd’hui</i>”, de Lévi-Strauss. Também para Eunice, Ruth era uma
“captativa”, uma buscadora de livros, de ideais e de informações que gostava de
partilhar com colegas e alunos (entrevista a Brandão, 2010, p. 72).<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup></a></p>

    <p>Ruth Cardoso era uma pesquisadora que se
destacava “por abrir portas e criar espaços” (Velho, 2008, p. 273). Em seu
percurso académico esbateu fronteiras disciplinares, triangulou perspetivas
metodológicas, entrecruzou saberes de várias áreas. Como recordam outros
orientandos (Debert, Gregori e Coelho, 2008), em seus seminários debatiam-se
teorias de vários quadrantes disciplinares, debates que se ampliavam no Cebrap e na Anpocs em grupos de trabalho que coordenava com
Gilberto Velho, cuja tese de doutoramento foi também supervisionada por Ruth
Cardoso: “sua competência de orientadora se expressou no grande número de teses
e dissertações, bem como na variedade de assuntos de investigação que
supervisionou” (Velho, 2008, p. 272). No rol das teses de doutoramento que
orientou acolhiam-se temas sobre minorias étnicas e culturais; desvio e
transgressão; emigração; juventude e adolescência; feminismo e estudos de
género; mudança social e conflito; movimentos sociais; educação; culturas
populares; pobreza; imaginários e representações sociais. Ou seja, objetos de
estudo reveladores de uma “notável abertura para os temas do mundo” (<i>ibidem</i>).
Nas teses que orientou ressalta uma opção metodológica de fundo: uma lente
progressiva de ver ao perto (práticas sociais) e ao longe (processos
estruturais), tendo em vista uma conjugação dos dois olhares, uma articulação
analítica entre práticas e processos. Daqui decorre a atenção dada aos modos de
vida de uma enorme diversidade de agentes sociais: cangaceiros, jovens,
populações marginais, clandestinos, criminosos, trabalhadores de cana de açúcar,
cordelistas, moradores de periferia, índios, missionários, operários, mulheres
violentadas, crianças tuteladas, meninos de rua, imigrantes, etc. Muitas destas
pesquisas tinham lugar nas periferias urbanas, pouso de vida de muita desta
gente: “ir para a periferia significava tentar entender a vida cotidiana do
trabalhador, da dona de casa, que parecia mais rico do que uma descrição global
relativa ao ‘papel histórico do trabalhador’, etc. Nós achávamos que deveríamos
descobrir o universo mais cotidiano” (entrevista de Ruth a El Far <i>et</i><i> al</i>., 1998, p. 156).</p>

    <p>Professora visitante em várias prestigiadas instituições<a name="top10"></a><sup><a href="#10">10</a></sup></a>, Ruth Cardoso era acarinhada pelos alunos. Gilberto Velho (2008, p.
272) lembra o memorável curso que ela leccionou no Museu Nacional, em 1981.
Yvonne Maggie, que também assistiu ao curso, recorda: “Aprendi muito naquele
curso e, sobretudo, me impressionou a sua forma tão imprevisível de tratar de
um tema canônico como aquele” (entrevista a Gordinho, 2009, pp. 110-111). A
temática do curso comportava uma formulação interrogativa: <i>Por que os
movimentos sociais urbanos despertam a atenção dos antropólogos?</i><a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup></a>. Essa era uma estratégia pedagógica seguida por Ruth Cardoso para
aliciar os alunos: o incitamento da curiosidade e da indagação, a mobilização
da pesquisa para a busca de respostas. Esta sensibilidade captativa, de menina
“perguntadeira”, foi aprofundada com seus mestres, entre os quais Roger Bastide,
de quem recorda, sobretudo, o seu jeito de ser: “nós íamos com o Bastide
visitar favelas. Não era uma pesquisa no sentido rigoroso do termo, mas uma
convivência que nos permitia criar essa relação com o outro” (entrevista a El
Far <i>et</i><i> al</i>.,<i> </i>1998, p.153).</p>

    <p>No livro de Brandão (2010) em homenagem a Ruth Cardoso, Manuel ­Castells assina um posfácio (“Ruth Leite Cardoso, minha
mestra, minha colega, minha amiga”), onde conclui:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Ela desfiava ideias com paixão tranquila em torno
de uma xícara de café, no transcurso de uma viagem, na sala de um seminário ou
numa reunião de um centro comunitário. Semeava. Semeava as sementes do que
aprendeu como pesquisadora, esperando que a colheita fosse algo mais além de
artigos científicos: que fosse uma colheita de humanizar a vida das pessoas que
ninguém via. Foi uma antropóloga para quem as comunidades observadas eram
comunidades vivas e não culturas dissecadas para consumo de elites [Brandão,
2010, p. 253].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Este depoimento de Castells testemunha o grande interesse de Ruth ­Cardoso por projetos de solidariedade social. Constatando
que no Brasil não existiam programas de apoio governamental aos jovens, lançou
o programa <i>Comunidade Solidária</i>, orientado para a alfabetização e
capacitação profissional dos jovens: “nós temos que aproveitar brechas do
mercado de trabalho, onde pessoas de baixa escolaridade possam ter meios para
entrar” (entrevista a Trindade, 2012, p. 129). Com seus programas de
capacitação dos jovens, Ruth Cardoso tentou explorar essas <i>brechas</i><a name="top12"></a><sup><a href="#12">12</a></sup></a> partindo de <i>grounded ideas</i> surgidas no próprio campo de
intervenção: cursos de cabeleireiro-afro raiados no próprio movimento negro,
cursos de separação de lixo, cursos de fazer doces… cursos que Ruth Cardoso
considerava “achados”. Depois das secas de 1998, lançou outro projeto original,
o <i>ArteSol</i><i>,</i> em parceria com a Fundação
Nacional de Artes (Funarte).<i> </i>O projeto, que viria a ser coordenado por Helena Sampaio, uma das mais próximas discípulas de
Ruth Cardoso, contribuiu para a subsistência das famílias, encorajadas a
comercializarem o seu artesanato, ao mesmo tempo que revigoravam as suas
identidades culturais: “Ruth tinha enorme prazer em escolher peças de
artesanato, visitar os núcleos produtores, ouvir as artesãs. A beleza das
cerâmicas, a perfeição dos filés e labirintos, dos bordados, da cestaria, a
simbologia contida na mandala tramada e colorida, que mantinha em seu
escritório, afirmavam o prazer da missão cumprida” (Gordinho, 2009, p. 174). No
dia de enterro de Ruth Cardoso (falecida a 24 de junho de 2008), seu filho
Paulo Henrique colocou no túmulo a bonequinha <i>Esperança</i>, símbolo do
artesanato brasileiro (<i>ibidem</i>, p. 45) que Ruth Cardoso tanto apoiou,
semeando esperança entre as artesãs.</p>

    <p>A discussão teórica da vida quotidiana como espaço vivificante da esperança aparece em muitas pesquisas de Ruth Cardoso: “a
vida cotidiana não é o primado da estrutura restritiva, pois a esperança de
progresso também tem seu lugar” (Cardoso, 2011 [1977], p. 169). O seu texto
“Favela: conformismo e invenção”, originariamente publicado em 1977, antecipa
as conhecidas teses de Michel de Certeau (<i>L’Invention du quotidien</i>, 1980), ao tomar
a vida quotidiana como um palco de criatividade social. Centrando o debate
teórico no “movimento dos sistemas culturais” e no “refazer e repetir” da vida
quotidiana, Ruth Cardoso distanciou-se, como vimos,
das visões estruturalistas que apenas conseguem captar a passividade e o
conformismo das culturas populares: ou porque, na esfera consumista, aparecem
como uma massa desprovida de desejos, na esteira das teses da Escola de
Frankfurt (­Horkheimer, Adorno, Marcuse); ou porque, apegadas a valores
tradicionais, resistem à mudança, num aprisionamento a memórias coletivas e a <i>ethos</i>
sociais que regulariam as práticas sociais, posição defendida por Durkheim e
pelo estruturalismo simbólico, com Lévi-Strauss à cabeça. Ruth Cardoso não nega
os sistemas simbólicos, mas renega-os enquanto simples metáforas cristalizadas
da vida social. Para Ruth Cardoso (2011 [1977], p. 161), mesmo Victor Turner
acaba por deixar de fora do seu modelo a dinâmica social pois,
quando analisa os processos rituais, “a dinâmica vem ‘de fora’, da situação
limiar em que a estrutura é posta entre parêntesis”. Em contrapartida, Ruth
Cardoso busca a dinâmica na própria estrutura social, mais precisamente nos
cenários da vida quotidiana. E de que modo o faz? Centrando-se nas estruturas
cognitivas e na <i>praxis</i> dos artesãos do quotidiano – em suas <i>arts de
faire</i> – sem as dissociar dos processos sociais que as geram. Para Ruth
Cardoso, ela própria cultora da prática artesanal de pesquisa (Pais, 2013;
2014), a dinâmica social vem de dentro. Por isso, para melhor compreender essa
dinâmica, segue uma estratégia <i>emic</i> (Headland, 1990) na exploração do
universo cultural dos favelados: “estamos tomando fragmentos de entrevistas
obtidas em situações normais da vida […], opiniões sobre assuntos cotidianos”
(Cardoso, 2011 [1977], p. 163). Com uma notória influência de Richard Hogart (<i>The
Uses of Literacy</i>), conclui: “Colocamo-nos no ângulo de visão da classe
baixa e dentro de suas próprias formulações para poder reconhecer o elo entre
as situações de vida e suas explicações manifestas” (Cardoso, 2011 [1977], p.
168). O reconhecimento desse elo passa pela exploração de <i>brechas</i> nos
enlaces entre objetos de estudo, teorias, conceitos, interpretações e projetos
de intervenção social. Foi na exploração dessas brechas que Ruth Cardoso
procurou avanços na captação e transformação do social.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <!-- ref --><p>BÁRCENA, A., PRADO A., HOPENHAYN, M. (2010),&nbsp;<i>La Hora de la igualdad: brechas por
cerrar</i>, Santiago do Chile, Caminos por Abrir,&nbsp;CEPAL/Nações Unidas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087579&pid=S0003-2573201700010000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BRANDÃO, I.L. (2010), <i>Ruth Cardoso. Fragmentos de uma Vida</i>, São Paulo, Editora Globo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087581&pid=S0003-2573201700010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CALDEIRA, T.P. do R. (org.) (2011), <i>Ruth Cardoso. Obra Reunida</i>, São Paulo, Mameluco Edições e Produções Culturais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087583&pid=S0003-2573201700010000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CARDOSO, R. (org.) (2011 [1959]), “O papel das associações juvenis na aculturação dos japoneses”. <i>In</i> T.P. do R. Caldeira, <i>Ruth Cardoso.
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    <!-- ref --><p>CARDOSO, R. (org.) (2011 [1963]), “O agricultor e o profissional liberal entre os japoneses no Brasil”. <i>In</i> T.P. do R. Caldeira, <i>Ruth Cardoso.
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    <!-- ref --><p>CARDOSO, R. (1975), “Subcultura: uma terminologia adequada?”. <i>Cadernos de Pesquisa,</i>
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    <!-- ref --><p>CARDOSO, R. (2011[1977]), “Favela: conformismo e invenção”. <i>In</i> T.P. do R. Caldeira, <i>Ruth ­Cardoso.
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    <!-- ref --><p>CARDOSO, R, (org.) (2004 [1986]), <i>A Aventura Antropológica: Teoria e Pesquisa</i>,
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    <!-- ref --><p>CARDOSO, R. (1991), “A sociedade em movimento: novos atores dialogam com o Estado”. <i>Revista
Crítica de Ciências Sociais</i>, 32, pp. 129-134.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087595&pid=S0003-2573201700010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

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Brasil</i>, São Paulo, Editora Brasiliense, pp. 81-90.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087597&pid=S0003-2573201700010000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CARDOSO, R., SAMPAIO, H. (1995), <i>Bibliografia sobre a Juventude</i>, São Paulo,
Editora da Universidade de São Paulo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087599&pid=S0003-2573201700010000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CORRÊA, M. (1998), “Traficantes do excêntrico: os antropólogos no Brasil dos anos 30
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    <!-- ref --><p>DEBERT, G., GREGORI, M.F., COELHO, S.C.T. (2008),“Ruth Cardoso (1930-2008). <i>Revista Brasileira de Ciências Sociais</i>, São Paulo, 23, 68, outubro, pp.
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    <!-- ref --><p>DURHAM, E. R. (2004 [1986]), “A pesquisa antropológica com populações urbanas: problemas e perspectivas”. <i>In</i> R. Cardoso, <i>A
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    <!-- ref --><p>HEADLAND, T.P., PIKE, K.L., HARRIS, M. (eds.) (1990), <i>Emics</i><i> and Etics. The Insider/Outsider Debate</i>, Londres, Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087611&pid=S0003-2573201700010000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>KISHIMOTO, T.M., DEMARTINI, Z. de B.F. (eds.) (2012), <i>Education and Culture: Brazil and Japan</i>, São Paulo, Edusp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087613&pid=S0003-2573201700010000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>KUPER, J. (ed.) (1985), <i>La Cocina de los Antropólogos</i>, Barcelona, Tusquets.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087615&pid=S0003-2573201700010000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MAGNANI, J.G.C. (1984), <i>Festa no Pedaço. Cultura e Lazer na Cidade</i>, São Paulo, Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087617&pid=S0003-2573201700010000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MAGNANI, J.G.C. (1992), “Tribos urbanas: metáfora ou categoria?. <i>Cadernos de Campo (USP)</i>, 2, pp. 48-51.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087619&pid=S0003-2573201700010000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MAGNANI, J.G.C. (2012), <i>Da Periferia ao Centro: Trajetórias de Pesquisa em Antropologia
Urbana</i>, São Paulo, Editora Terceiro Nome.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087621&pid=S0003-2573201700010000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MAGNANI, J.G.C., MANTESE, B. (org.) (2007), <i>Jovens na Metrópole: Etnografias de Circuitos de
Lazer, Encontro e Sociabilidade</i>, São Paulo, Terceiro Nome.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087623&pid=S0003-2573201700010000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARTINS, J.S. (2014), Penúltimas palavras. <i>Revista Brasileira de Ciências Sociais</i>, 29, 85 (junho), pp. 195-210.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087625&pid=S0003-2573201700010000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARTINS, P. (2014), “O centenário de nascimento de Egon Schaden: entrevista com Antonio Candido”. <i>Revista
Brasileira de Ciências Sociais</i>, 29, 85 (junho), pp. 23-31.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087627&pid=S0003-2573201700010000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MERTON, R. (1957), <i>Social Theory and Social Structure</i>, Glencoe, Free Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087629&pid=S0003-2573201700010000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PAIS, J.M. (2003), <i>Culturas Juvenis</i>, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087631&pid=S0003-2573201700010000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PAIS, J.M. (2013), “O cotidiano e a prática artesanal de pesquisa”. <i>Revista Brasileira de Sociologia, Sociedade Brasileira de Sociologia</i>, 1,
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    <!-- ref --><p>PAIS, J.M. (2014),“As tramas da criatividade na produção artesanal da sociologia. <i>In</i> L.M. da S. Blass
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    <!-- ref --><p>PEIXOTO, F.A., SIMÕES, J.A. (2003), “A revista de antropologia e as ciências sociais em São Paulo: notas sobre uma cena e alguns
debates”. <i>Revista de Antropologia</i>, 46 (2), pp. 383-409.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087637&pid=S0003-2573201700010000600030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SAKURAI, C. (2008), “Commentaire à l’agriculteur et le professionnel libéral chez les japonais au Brésil
de Ruth Cardoso”. <i>Cahiers</i><i> du Brésil contemporain</i>, 71/72, pp. 21-24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087639&pid=S0003-2573201700010000600031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SCHADEN, E. (1956), “Aculturação de alemães e japoneses no Brasil”.&nbsp;<i>Revista de
Antropologia</i>, 4 (1), pp. 41-46.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087641&pid=S0003-2573201700010000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p>STIGLITZ,<i> </i>J.E. (2015), <i>La gran brecha: qué hacer con las sociedades desiguales</i>,
e-book, Taurus.</p>

    <!-- ref --><p>STOCKING, G.W. Jr. (ed.) (1983), <i>Observers Observed. Essays on Ethnographic Fieldwork</i>, ­Madison e Londres, The University
of Wisconsin Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087644&pid=S0003-2573201700010000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>TRINDADE, H. (org.) (2012), <i>Ciências Sociais no Brasil: Diálogos com Mestres e Discípulos</i>, São Paulo, Anpocs/Liber Livro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087646&pid=S0003-2573201700010000600035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TURNER, V. (1977), <i>The</i><i> Ritual Process: Structure anti Anti-structure</i>, Ithaca (NY), Cornell
University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087648&pid=S0003-2573201700010000600036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>VELHO, G. (2008), “Ruth Corrêa Leite Cardoso”. <i>Dados–Revista de Ciências </i>Sociais, 51 (2), pp. 271-274.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087650&pid=S0003-2573201700010000600037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>WATSON, G. (1987), “Make me reflexive. But not yet. Strategies for managing essencial reflexivity in ethnographic discourse”. <i>Journal</i><i> of Anthropological Research</i>, 43 (1), pp. 29-41.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087652&pid=S0003-2573201700010000600038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ZALUAR, A. (2004 [1986]), “Teoria e prática do trabalho de campo”. <i>In</i> R. Cardoso (org.), <i>A Aventura Antropológica: Teoria e
Pesquisa</i>, São Paulo, Editora Paz e Terra, pp.107-126.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087654&pid=S0003-2573201700010000600039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>


    <p>Recebido a 17-11-2015. Aceite para publicação a 21-06-2016</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>NOTAS</b></p>

    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Agradeço a Susana Matos
Viegas o convite para escrever este artigo sobre Ruth Cardoso. Queria também
agradecer o excelente acolhimento que tive no Centro Ruth Cardoso, em São
Paulo, na pesquisa de alguma bibliografia e documentação de difícil acesso.
Para os leitores interessados em aprofundar o conhecimento da vida e obra de
Ruth Cardoso recomendo uma visita à página do Centro: <a href=" http://www.centroruthcardoso.org.br" target="_blank">
http://www.centroruthcardoso.org.br/</a>.</p>


    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Nessa publicação, que
reunia um amplo levantamento de trabalhos publicados no Brasil e no estrangeiro
sobre juventude, entre mais de duzentos títulos recenseados e comentados,
apareciam referências ao meu livro <i>Culturas Juvenis</i> (Pais, 2003), a seis
publicações da coleção Estudos de Juventude do ICS-ULisboa, a dois artigos da <i>Análise
Social</i> e a outro da <i>Revista Crítica de Ciências Sociais</i>.</p>


    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> Reunida numa excelente
publicação, cuidadosamente organizada por Teresa Caldeira (2011).</p>


    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> Schaden ocupou a cadeira de antropologia na USP de 1947 a 1967. Em 1953 fundou, em São Paulo, a <i>Revista de Antropologia</i>.</p>


    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Eunice Durham orientou o
doutoramento de Ruth Cardoso, só concretizado em 1972, vinte anos após a
obtenção da sua graduação em ciências sociais. O retardamento deveu-se ao
exílio político de Fernando Henrique Cardoso, por efeito do golpe militar de
1964.</p>


    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> O papel da educação na
integração dos japoneses imigrados no Brasil é uma problemática de estudo que
não perdeu atualidade. Veja-se, por exemplo, Kishimoto e Demartini (2012).</p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> Em
japonês <i>sei</i> significa geração. <i>Issei</i> é o japonês, de primeira
geração, que emigra para outro país. Os <i>nisseis</i> são os filhos (de
segunda geração) dos <i>isseis</i>, já nascidos nos países de acolhimento.</p>



    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> O conceito de circulação
viria a ser aprofundado por Magnanini no livro que co-organizou
sobre <i>Jovens na Metrópole: Etnografias de Circuitos de Lazer, Encontro e
Sociabilidade</i> (Magnani e Mantese, 2007).</p>

    <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> Esta partilha de
conhecimento não se circunscrevia aos seus doutorandos. Irlys&nbsp;Barreira,
professora da UFC, informou-me que quando chegou à USP (1982) para iniciar o doutoramento
(<i>Refazendo a Política: as Múltiplas Faces dos Movimentos Sociais</i>,
orientação de Heinrich ­Rattner), Ruth Cardoso a recebeu em casa, passando-lhe
referências bibliográficas.</p>



    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> Faculdade Latino-Americana
de Ciências Sociais (Flasco/Unesco), Universidade do
Chile, Maison des Sciences de L’Homme (Paris), Universidade de Berkeley e
Universidade de ­Columbia.</p>


    <p><sup><a name="11"></a><a href="#11">11</a></sup> O programa do curso pode ser
consultado no Museu Nacional, encontrando-se disponível em: <a href=" http://www.museunacional.ufrj.br/ppgas/RC1983-2(4).pdf" target="_blank"> http://www.museunacional.ufrj.br/ppgas/RC1983-2(4).pdf</a>
(consultado em 01-10-2015).</p>


    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> O conceito de <i>brecha</i>
foi provavelmente levado para a CEPAL (Comissão Económica para a América Latina
e o Caribe) por Ruth Cardoso e Fernando Henrique Cardoso, durante o seu exílio
no Chile. O conceito de <i>brecha</i> continua a ser usado como um preciso
instrumento conceptual das pesquisas da CEPAL (Barcena, Prado e Hopenhayn,
2010) e foi recentemente apropriado por Joseph E. Stiglitz (2015), prémio Nobel
de Economia.</p>


     ]]></body>
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<name>
<surname><![CDATA[BÁRCENA]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
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<surname><![CDATA[PRADO]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[HOPENHAYN]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La Hora de la igualdad: brechas por cerrar]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[Santiago do Chile ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[CEPAL/Nações Unidas]]></publisher-name>
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<person-group person-group-type="author">
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<surname><![CDATA[BRANDÃO]]></surname>
<given-names><![CDATA[I.L.]]></given-names>
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