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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="JUSTIFY"><I>Yan Yunxiang,</I> <B>Private Life under Socialism. Love,    Intimacy and Family Change in a Chinese Village, 1949-1999,</B> Stanford, Stanford    University Press, 2003.      <P ALIGN="JUSTIFY">      <P ALIGN="JUSTIFY">      <P ALIGN="JUSTIFY">Em 1929, no pref&aacute;cio da obra <I>A Vida Sexual dos Selvagens    no Noroeste da Melan&eacute;sia,</I> do famoso antrop&oacute;logo Bronislav    Malinowski (1884-1942), o psic&oacute;logo brit&acirc;nico Havellock Ellis (1859-1939)    sugeria que o livro s&oacute; vinha confirmar a ideia de que o dom&iacute;nio    at&eacute; ent&atilde;o praticamente virgem da &#171;vida sexual dos selvagens&#187;    &#151; ou o que hoje se entenderia por &#171;vida privada de povos tribais ditos    n&atilde;o modernos&#187; &#151; teve de esperar muito tempo para ter o seu    grande &#171;historiador natural&#187;. Julgo que o mesmo se poderia dizer,    em muitos aspectos, do livro que aqui apresentamos no que diz respeito &agrave;    vida privada na China rural. <I>Vida Privada sob o Socialismo</I> representa    efectivamente um grande acontecimento editorial tanto no dom&iacute;nio mais    estrito dos estudos etnogr&aacute;ficos da China rural contempor&acirc;nea como    no dom&iacute;nio mais amplo dos estudos etnogr&aacute;ficos do parentesco,    da fam&iacute;lia e da vida privada no s&eacute;culo xx. Trata-se, na minha    opini&atilde;o, de uma das melhores etnografias existentes sobre fam&iacute;lia    e vida privada numa aldeia chinesa, contendo um significativo corpo de dados    de primeira m&atilde;o referentes a nada mais nada menos do que &agrave;s &uacute;ltimas    cinco d&eacute;cadas de socialismo na Rep&uacute;blica Popular da China (RPC),    incluindo o primeiro per&iacute;odo mao&iacute;sta (1949-1976), de reformas    colectivistas &agrave; porta fechada, e o segundo per&iacute;odo dito p&oacute;s-Mao    (1976-), em que foi implementado todo um conjunto de reformas de mercado visando    a mais r&aacute;pida moderniza&ccedil;&atilde;o, industrializa&ccedil;&atilde;o    e crescimento econ&oacute;mico da sociedade (v. cap&iacute;tulo 1 para uma vis&atilde;o    de conjunto das v&aacute;rias etapas desta aventura socialista).      <P ALIGN="JUSTIFY"><I>Vida Privada sob o Socialismo</I> &eacute; o mais recente    livro de Yan Yunxiang, um antrop&oacute;logo chin&ecirc;s radicado nos Estados    Unidos (UCLA), que j&aacute; anteriormente nos tinha oferecido em <I>The Flow    of Gifts</I> (1996) uma etnografia do sistema de d&aacute;divas da China rural    na qual a tem&aacute;tica do parentesco (no sentido mais lato do termo) j&aacute;    estava tamb&eacute;m muito no centro da sua aten&ccedil;&atilde;o. O percurso    intelectual de Yan dever&aacute;, ali&aacute;s, ser situado no seio de uma recente    vaga inovadora de estudos do parentesco na antropologia da China que tem vindo    a questionar a validade etnogr&aacute;fica de velhos (e ainda hoje dominantes)    modelos de parentesco e de fam&iacute;lia e que foi particularmente estimulada:      <P ALIGN="JUSTIFY">1. por um lado, pela abertura da RPC e pelos enormes desafios    de terreno levantados pelo extraordin&aacute;rio impacto s&oacute;cio-econ&oacute;mico    das reformas estatais do per&iacute;odo p&oacute;s-Mao;      <P ALIGN="JUSTIFY">2. por outro lado, por todo um conjunto de novas tend&ecirc;ncias    anal&iacute;ticas na antropologia contempor&acirc;nea que tem procurado redefinir    o dom&iacute;nio do parentesco de uma forma mais universalista e actual, capaz    de dar melhor conta da diversidade hist&oacute;rica e cultural da experi&ecirc;ncia    humana e de melhor corresponder aos reptos intelectuais lan&ccedil;ados seja    pelos novos achados das ci&ecirc;ncias cognitivas, seja pela crescente popularidade    de novas tecnologias de reprodu&ccedil;&atilde;o e de novas estruturas familiares    nas sociedades industrializadas.      <P ALIGN="JUSTIFY">Como veremos, a grande contribui&ccedil;&atilde;o do novo livro    de Yan para esta recente vaga inovadora de estudos de parentesco reside precisamente    no facto de o seu enfoque primordial n&atilde;o ser o dom&iacute;nio at&eacute;    aqui sempre privilegiado da &#171;esfera p&uacute;blica&#187; do parentesco,    mas o dom&iacute;nio claramente negligenciado da &#171;esfera privada&#187;:    aquela &#171;zona de imunidade para indiv&iacute;duos&#187;, como o autor (p.    9) lhe chama, no centro da qual se encontra a fam&iacute;lia e a experi&ecirc;ncia    dom&eacute;stica da emocionalidade e da privacidade nos seus v&aacute;rios registos    poss&iacute;veis. Trata-se de uma nova abordagem antropol&oacute;gica &#151;    claramente inspirada no trabalho de historiadores, como Philippe Ari&egrave;s    e Georges Duby, sobre a hist&oacute;ria da vida privada na Europa &#151; que    est&aacute; a pedir mais aten&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rico-etnogr&aacute;fica    ao mundo da vida privada chinesa. Mas passemos de imediato &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o    daquelas que s&atilde;o as duas quest&otilde;es centrais deste livro.      <P ALIGN="JUSTIFY">Tendo em conta a proemin&ecirc;ncia ideol&oacute;gica da fam&iacute;lia    na civiliza&ccedil;&atilde;o chinesa, o estudo da fam&iacute;lia e da mudan&ccedil;a    familiar sempre esteve muito no centro das reflex&otilde;es dos estudiosos da    China rural (como, ali&aacute;s, da Europa rural). A verdade &eacute; que, como    o autor nota logo na introdu&ccedil;&atilde;o (pp. 1-13), grande parte desta    literatura d&aacute; a impress&atilde;o reducionista de que o &#171;sistema    familiar chin&ecirc;s&#187; constitui uma estrutura corporativa atemporal cujos    membros n&atilde;o possuem qualquer esp&eacute;cie de vida privada familiar    ou individual, uma vez que s&atilde;o meros instrumentos de uma forma de racionalidade    econ&oacute;mica extrema assente numa estrutura linhageira de descend&ecirc;ncia    e de sucess&atilde;o patrilineares. A primeira quest&atilde;o do livro &eacute;,    pois, a de averiguar por que &eacute; que a representa&ccedil;&atilde;o dominante    do &#171;sistema familiar chin&ecirc;s&#187; &eacute; t&atilde;o corporativista,    economicista e racionalista: ser&aacute; que os membros de fam&iacute;lias chinesas    rurais n&atilde;o possuem vidas privadas e s&atilde;o totalmente indiferentes    ao mundo da intimidade, da sexualidade e das emo&ccedil;&otilde;es? Respondendo    negativamente a esta primeira quest&atilde;o, Yan levanta ainda uma segunda    quest&atilde;o fundamental que se prende com a natureza hist&oacute;rica da    vida privada humana e que nos transporta muito directamente para o pr&oacute;prio    percurso biogr&aacute;fico do autor, como ele o apresenta. Logo quando o autor    tinha pouco mais de 12 anos de idade, no in&iacute;cio da revolu&ccedil;&atilde;o    cultural (1966-1976), a sua fam&iacute;lia foi for&ccedil;ada a mudar-se de    Beijing para a aldeia natal do pai, na prov&iacute;ncia de Shandong (Leste da    China). Depois de a&iacute; viver com os pais durante cerca de cinco anos, Yan    seria obrigado a mudar-se em 1971 para outra aldeia, na prov&iacute;ncia de    Heilongjiang (Nordeste da China), onde viveria durante cerca de sete anos at&eacute;    receber uma bolsa para estudar na Universidade de Beijing e, depois, na Universidade    de Harvard. &Eacute; sobre esta aldeia, a aldeia de Xiajia, que Yan tem trabalhado    ao longo dos anos, e em muitos aspectos o seu novo livro &eacute; o resultado    da sua confronta&ccedil;&atilde;o directa com a quest&atilde;o de mudan&ccedil;a    nesta aldeia. Trata-se de uma tentativa de responder etnograficamente &agrave;    quest&atilde;o de saber como &eacute; que a estrutura familiar e a vida privada    dos residentes desta aldeia se t&ecirc;m transformado (se &eacute; que se t&ecirc;m    transformado de todo) ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Ser&aacute;    que a vida privada &eacute; um fen&oacute;meno recente na hist&oacute;ria da    China rural, ou ser&aacute; que &eacute; uma realidade &iacute;ntima e secreta    que sempre existiu mas que tem vindo a tornar-se mais vis&iacute;vel durante    as &uacute;ltimas d&eacute;cadas? Qual &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre    a evolu&ccedil;&atilde;o da vida privada e a das estruturas familiares? Ser&aacute;    que os padr&otilde;es de mudan&ccedil;a na China rural socialista s&atilde;o    os mesmos que foram encontrados por historiadores, soci&oacute;logos e antrop&oacute;logos    da fam&iacute;lia no processo de industrializa&ccedil;&atilde;o da Europa?      <P ALIGN="JUSTIFY">Metodologicamente, o autor sugere que uma das melhores maneiras    de responder &agrave;s duas grandes quest&otilde;es que levanta &eacute; atrav&eacute;s    da realiza&ccedil;&atilde;o do que designa por &#171;etnografia centrada no    indiv&iacute;duo&#187; (p. 10), isto &eacute;, uma forma de etnografia cujo    enfoque principal &eacute; mais na ag&ecirc;ncia e experi&ecirc;ncia individuais    do que na estrutura social ou nas normas culturais e que por isso mesmo depende    imenso de trabalho do campo repetido e de longa dura&ccedil;&atilde;o numa mesma    comunidade. O resultado desta metodologia em termos de dados &eacute; absolutamente    espantoso. Julgo, no entanto, que, das duas quest&otilde;es acima mencionadas,    o autor &eacute; mais convincente a responder &agrave; primeira na forma como    articula os seus dados. Comecemos ent&atilde;o por essa primeira quest&atilde;o.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Como o autor nota no pref&aacute;cio, existem tr&ecirc;s modelos    antropol&oacute;gicos fundamentais da fam&iacute;lia chinesa e todos eles pecam,    por assim dizer, por aquilo que tem vindo a designar-se por &#171;fal&aacute;cia    corporativa&#187;. O modelo econ&oacute;mico &#151; proposto principalmente    por antrop&oacute;logos sens&iacute;veis &agrave;s quest&otilde;es econ&oacute;micas    &#151; olha para a fam&iacute;lia chinesa como uma organiza&ccedil;&atilde;o    dom&eacute;stica corporativa fundamentalmente caracterizada por uma l&oacute;gica    de gest&atilde;o econ&oacute;mica assente na acumula&ccedil;&atilde;o dos rendimentos    de todos. O modelo pol&iacute;tico &#151; proposto sobretudo por antrop&oacute;logos    de orienta&ccedil;&atilde;o marxista e/ou sens&iacute;veis &agrave; quest&atilde;o    feminista &#151; olha para a fam&iacute;lia chinesa como uma organiza&ccedil;&atilde;o    dom&eacute;stica corporativa essencialmente caracterizada por desigualdades    profundas (e. g., de g&eacute;nero, de gera&ccedil;&atilde;o) nas suas din&acirc;micas    de poder. Finalmente, o modelo cultural &#151; provavelmente, o mais influente    e tamb&eacute;m o mais elaborado por membros da elite liter&aacute;ria e cultural    chinesa &#151; define a fam&iacute;lia como uma organiza&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica    corporativa cuja grande particularidade reside sobretudo na centralidade da    rela&ccedil;&atilde;o patriarcal pai-filho e do princ&iacute;pio de descend&ecirc;ncia    e de sucess&atilde;o patrilineares. Mas ser&aacute; que a falta de aten&ccedil;&atilde;o    nestes modelos &agrave; quest&atilde;o da experi&ecirc;ncia e ag&ecirc;ncia    individuais tem a ver com raz&otilde;es culturais fundamentais que fazem com    que esta fam&iacute;lia tenha assim t&atilde;o pouco espa&ccedil;o para a floresc&ecirc;ncia    da vida privada? O autor julga que <I>n&atilde;o</I>. Ele sugere que, se a fam&iacute;lia    chinesa tem sido representada como uma organiza&ccedil;&atilde;o corporativa    de orienta&ccedil;&atilde;o fundamentalmente econ&oacute;mica, &eacute; porque    grande parte dos estudiosos da fam&iacute;lia chinesa se tem preocupado sobretudo    em enfatizar as suas particularidades, acabando por omitir elementos da vida    quotidiana que a fariam parecer bem menos <I>sui generis</I> do que eles sugerem.    Para o autor, um dos resultados nocivos desta exagera&ccedil;&atilde;o descritiva    &eacute; que o <I>indiv&iacute;duo</I> &#151; isto &eacute;, o indiv&iacute;duo    cujas emo&ccedil;&otilde;es, pensamentos, ju&iacute;zos de valor, ideais, etc.,    o antrop&oacute;logo sistematicamente confronta no terreno &#151; permanece    incompreensivelmente nas margens dos modelos antropol&oacute;gicos dominantes    da fam&iacute;lia chinesa.      <P ALIGN="JUSTIFY">Este argumento &eacute; particularmente elaborado em termos    etnogr&aacute;ficos ao longo dos cap&iacute;tulos 2, 3, 4 e 5, nos quais o autor    demonstra de forma detalhada, convincente, e por vezes comovente, que os seus    interlocutores no terreno (novos e velhos, homens e mulheres) est&atilde;o longe    de serem as m&aacute;quinas corporativas dos modelos antropol&oacute;gicos tradicionais,    mas s&atilde;o tamb&eacute;m indiv&iacute;duos com sensibilidades, desejos,    viv&ecirc;ncias sexuais e, acima de tudo, aspira&ccedil;&otilde;es de autonomia    e de privacidade. Veja-se, a t&iacute;tulo de exemplo, o cap&iacute;tulo 3 e    os v&aacute;rios relatos a&iacute; citados referentes a experi&ecirc;ncias individuais    de sexualidade e de intimidade na aldeia. Estes relatos demonstram de forma    bem clara que a China rural n&atilde;o &eacute;, nem nunca foi, &#171;o canto    esquecido do amor&#187; dos modelos antropol&oacute;gicos tradicionais. &Eacute;    que, como Yan (p. 75) nota, &#171;qualquer gesto e acto do dia a dia pode ser    encarado como um sinal de amor, mesmo se s&oacute; os que est&atilde;o envolvidos    num contexto interactivo o possam apreciar&#187;. Mas o autor n&atilde;o est&aacute;    apenas interessado em demonstrar que a vida familiar chinesa tem uma dimens&atilde;o    mais privada e &iacute;ntima (mesmo se por vezes secreta), sem a qual a sua    dimens&atilde;o mais p&uacute;blica e partilhada n&atilde;o seria obviamente    poss&iacute;vel. Ele est&aacute; tamb&eacute;m interessado em demonstrar que    a forma como esta vida privada se tem manifestado no terreno n&atilde;o foi    sempre a mesma, mas tem sofrido importantes transforma&ccedil;&otilde;es ao    longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Chegamos ent&atilde;o &agrave; segunda    grande quest&atilde;o do livro.      <P ALIGN="JUSTIFY">Passo a descrever algumas das principais tend&ecirc;ncias de    mudan&ccedil;a documentadas pelo autor ao longo do livro. Logo no cap&iacute;tulo    2, Yan descreve aquilo que designa por &#171;a emerg&ecirc;ncia da fam&iacute;lia    privada&#187; atrav&eacute;s da cuidadosa documenta&ccedil;&atilde;o de mais    de 500 casamentos referentes ao per&iacute;odo entre 1949 e 1999. O autor procura    demonstrar que, quando se chega aos anos 90, o foco de mudan&ccedil;a na selec&ccedil;&atilde;o    de parceiros j&aacute; tinha passado da quest&atilde;o da subleva&ccedil;&atilde;o    da gera&ccedil;&atilde;o jovem contra o poder parental patriarcal sobre o seu    casamento para a quest&atilde;o da sali&ecirc;ncia da experi&ecirc;ncia individual    do romance e da intimidade. Esta mudan&ccedil;a radical &eacute; tamb&eacute;m    explorada no cap&iacute;tulo 3, onde o autor examina a popularidade crescente    do sexo pr&eacute;-marital na aldeia e desenvolve o argumento de que a intimidade    sexual contribui para o desenvolvimento do amor afectivo. As suas descri&ccedil;&otilde;es    <I>malinowskianas</I> do processo de transforma&ccedil;&atilde;o das formas    locais de express&atilde;o do amor e de idealiza&ccedil;&atilde;o do c&ocirc;njuge    sugerem uma vez mais que tem estado a ocorrer na aldeia uma verdadeira &#171;revolu&ccedil;&atilde;o    rom&acirc;ntica&#187; no processo de selec&ccedil;&atilde;o de c&ocirc;njuges.    No cap&iacute;tulo 4, o autor chama a aten&ccedil;&atilde;o para as transforma&ccedil;&otilde;es    ocorridas em tr&ecirc;s importantes aspectos da viv&ecirc;ncia da conjugalidade    na aldeia (a intimidade e o amor conjugal, a divis&atilde;o do trabalho e da    tomada de decis&otilde;es e a redefini&ccedil;&atilde;o do papel do g&eacute;nero    na rela&ccedil;&atilde;o marital) e sugere que o la&ccedil;o horizontal da conjugalidade    tem vindo a substituir o la&ccedil;o vertical da rela&ccedil;&atilde;o pai-filho    enquanto eixo central das rela&ccedil;&otilde;es familiares. No cap&iacute;tulo    5, o autor descreve a recente vaga de remodela&ccedil;&atilde;o de casas na    aldeia como o resultado de uma busca espacial da privacidade que representa    um desenvolvimento l&oacute;gico da crescente centralidade do amor, da intimidade    e da individualidade na aldeia. O mesmo se pode dizer da crescente import&acirc;ncia    da propriedade privada individual na pol&iacute;tica de propriedade familiar    da aldeia, realidade essa que &eacute; posta em evid&ecirc;ncia no cap&iacute;tulo    6 no &acirc;mbito de uma discuss&atilde;o do processo de transforma&ccedil;&atilde;o    dos padr&otilde;es locais de divis&atilde;o da fam&iacute;lia e de transac&ccedil;&otilde;es    de casamento.      <P ALIGN="JUSTIFY">No cap&iacute;tulo 7 s&atilde;o ainda examinadas as condi&ccedil;&otilde;es    de vida dos mais velhos e o seu sentimento de crise no que diz respeito &agrave;    sua seguran&ccedil;a na velhice. Tomando em conta as posi&ccedil;&otilde;es    dos mais velhos e dos mais novos, o autor sugere que a l&oacute;gica moral de    &#171;piedade filial&#187; por detr&aacute;s do mecanismo tradicional de reciprocidade    intergeracional das fam&iacute;lias da aldeia est&aacute; em crise e est&aacute;    a ser substitu&iacute;da por uma nova l&oacute;gica moral de &#171;troca balan&ccedil;ada&#187;    na qual os mais velhos est&atilde;o a come&ccedil;ar a recorrer a estrat&eacute;gias    alternativas para investir na sua seguran&ccedil;a na velhice, pois j&aacute;    n&atilde;o confiam nos filhos. Esta alegada crise na l&oacute;gica moral de    &#171;piedade filial&#187; &eacute; tamb&eacute;m, como o autor sugere no cap&iacute;tulo    8, uma das poss&iacute;veis raz&otilde;es por detr&aacute;s da recente emerg&ecirc;ncia    na aldeia de uma nova &#171;cultura da fertilidade&#187; que tem sido marcada    pelo aumento do n&uacute;mero de fam&iacute;lias que escolhem ter apenas uma    crian&ccedil;a (seguindo as directrizes algo draconianas da pol&iacute;tica    estatal de planeamento familiar), em vez de tentarem ter muitas crian&ccedil;as    e de darem prefer&ecirc;ncia a filhos do sexo masculino (como os valores locais    ditos mais tradicionais nos fariam esperar). Enfim, parece claro que as mudan&ccedil;as    ocorridas nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas nas estruturas familiares e nos    padr&otilde;es de viv&ecirc;ncia da vida privada da aldeia de Xiajia s&atilde;o    simplesmente colossais e ecoam mesmo, em muitos aspectos, todo um conjunto de    mudan&ccedil;as similares que t&ecirc;m vindo a ser documentadas um pouco por    toda a China urbana. Vejamos agora como o autor interpreta estas mudan&ccedil;as    no seu conjunto.      <P ALIGN="JUSTIFY">&Eacute; na conclus&atilde;o do livro que o autor retoma esta    quest&atilde;o e procura elaborar um pouco melhor a sua linha interpretativa,    entrando em di&aacute;logo com debates fundamentais sobre a rela&ccedil;&atilde;o    entre fam&iacute;lia e moderniza&ccedil;&atilde;o/urbaniza&ccedil;&atilde;o/industrializa&ccedil;&atilde;o.    Neste aspecto, o seu livro mostra uma vez mais ser de interesse n&atilde;o apenas    para estudiosos da China, mas tamb&eacute;m para a comunidade mais alargada    de cientistas sociais em geral. O autor sugere que as transforma&ccedil;&otilde;es    que ocorreram nas &uacute;ltimas cinco d&eacute;cadas de socialismo na aldeia    de Xiajia operaram uma verdadeira <I>transforma&ccedil;&atilde;o estrutural</I>    das rela&ccedil;&otilde;es familiares que conduziu ao aparecimento da fam&iacute;lia    privada <I>e</I> das vidas privadas dos indiv&iacute;duos dentro da fam&iacute;lia    (v. p. 219). Trata-se de uma transforma&ccedil;&atilde;o estrutural que foi    largamente posta em marcha pelo estado socialista e que &eacute; claramente    sintom&aacute;tica de um ponto de viragem fundamental na evolu&ccedil;&atilde;o    da fam&iacute;lia chinesa rural: o <I>triunfo da conjugalidade e da individualidade</I>    sobre o regime patriarcal. O autor considera, por isso, que o caso de Xiajia    &eacute; claramente relevante para a discuss&atilde;o de teses cl&aacute;ssicas    da sociologia da fam&iacute;lia como a de William Goode em <I>World Revolution    and Family Patterns</I> (1963), que defende a exist&ecirc;ncia de um padr&atilde;o    universal de mudan&ccedil;a na hist&oacute;ria da vida familiar humana segundo    o qual o processo de industrializa&ccedil;&atilde;o e urbaniza&ccedil;&atilde;o    conduzir&aacute; inevitavelmente &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o do &#171;sistema    de fam&iacute;lia extensa&#187; num &#171;sistema de fam&iacute;lia conjugal&#187;.    &Eacute; que, apesar de esta tese ter sido posta em causa por v&aacute;rios    estudos hist&oacute;ricos demonstrando que as fam&iacute;lias nucleares j&aacute;    existiam na Europa ocidental muito antes da industrializa&ccedil;&atilde;o e    tamb&eacute;m por v&aacute;rios estudos antropol&oacute;gicos em pa&iacute;ses    em desenvolvimento demonstrando que a fam&iacute;lia extensa pode ajustar-se    perfeitamente a economias de mercado em industrializa&ccedil;&atilde;o, a verdade    &eacute; que a parte mais importante desta tese n&atilde;o &eacute; a oposi&ccedil;&atilde;o    &#171;fam&iacute;lia extensa-fam&iacute;lia conjugal&#187;, mas &eacute; a sugest&atilde;o    de que existe um padr&atilde;o universal de mudan&ccedil;a em direc&ccedil;&atilde;o    &agrave; centralidade da conjugalidade, da individualidade e da emocionalidade    na vida familiar. Para o autor, o caso de Xiajia constitui precisamente uma    poderosa valida&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica deste &uacute;ltimo padr&atilde;o    universal de mudan&ccedil;a.      <P ALIGN="JUSTIFY">Yan sugere ainda que o que torna o caso de Xiajia particularmente    interessante n&atilde;o &eacute; tanto esta converg&ecirc;ncia (em muitos aspectos,    nada surpreendente), mas a forma particular como ela foi produzida no terreno.    O autor chama a nossa aten&ccedil;&atilde;o a este respeito para o papel fundamental    desempenhado neste processo pelo indiv&iacute;duo e pelas aspira&ccedil;&otilde;es    de autonomia e independ&ecirc;ncia dos mais jovens (as raparigas em particular),    papel esse que p&otilde;e, obviamente, em causa a vis&atilde;o corporativa da    fam&iacute;lia dos modelos antropol&oacute;gicos tradicionais e que p&otilde;e    tamb&eacute;m em causa (ainda que o autor n&atilde;o o mencione) uma certa tend&ecirc;ncia    na antropologia do parentesco contempor&acirc;nea para fazer do &#171;indiv&iacute;duo&#187;    uma mera constru&ccedil;&atilde;o cultural euro-americana. O indiv&iacute;duo    de que o autor fala &eacute; um indiv&iacute;duo que n&atilde;o quer mais estar    &#171;debaixo da sombra dos antepassados&#187;, mas que quer procurar a autonomia    e independ&ecirc;ncia da sua fam&iacute;lia privada, bem como a sua autonomia    e independ&ecirc;ncia pessoais. Para o autor, o poder crescente deste indiv&iacute;duo    em aldeias como Xiajia &eacute; sintom&aacute;tico do aparecimento no mundo    rural p&oacute;s-Mao de uma China em plena globaliza&ccedil;&atilde;o de um    novo esp&iacute;rito individualista de origem euro-americana, o qual, apesar    de ter sido denunciado durante o per&iacute;odo mao&iacute;sta devido ao seu    car&aacute;cter utilitarista, ego&iacute;sta e hedonista, acabou por ser reabilitado    na era p&oacute;s-Mao como uma esp&eacute;cie de &#171;mal necess&aacute;rio&#187;    para a acelera&ccedil;&atilde;o do processo de moderniza&ccedil;&atilde;o e    de industrializa&ccedil;&atilde;o. Trata-se, no entanto, de uma forma de individualismo    desequilibrada e incompleta, uma vez que tende a enfatizar os direitos individuais    e os interesses pessoais, mas minimizando a import&acirc;ncia das obriga&ccedil;&otilde;es    de cada um para com a comunidade e para com os outros indiv&iacute;duos, e da&iacute;    o autor falar de uma &#171;crise de civismo&#187;. Apesar de concordar plenamente    com o autor que &eacute; importante chamar a aten&ccedil;&atilde;o para o papel    do indiv&iacute;duo e da vida privada no estudo do parentesco, acho que &eacute;    algo prematuro, mesmo se tamb&eacute;m bastante estimulante, falar de &#171;individualismo&#187;    ou de um &#171;triunfo da conjugalidade&#187; na China rural como um todo. Mas    a melhor maneira de se entender o que quero dizer &eacute; olhar para algumas    das quest&otilde;es a que o autor presta menos aten&ccedil;&atilde;o nas suas    conclus&otilde;es.      <P ALIGN="JUSTIFY">O autor presta, por exemplo, menos aten&ccedil;&atilde;o &agrave;    quest&atilde;o dos custos em termos de desigualdades sociais do tipo de transforma&ccedil;&otilde;es    sociais que descreve. &Eacute; que s&oacute; uma pequena parte da popula&ccedil;&atilde;o    da China rural tem sido directamente afectada em termos materiais por estas    transforma&ccedil;&otilde;es. Por exemplo, nem todas as fam&iacute;lias camponesas    contempor&acirc;neas t&ecirc;m dinheiro e recursos para construir as novas casas    (ou os novos &#171;ref&uacute;gios de privacidade&#187;) que o autor descreve    no cap&iacute;tulo 5. Uma outra quest&atilde;o a que o autor n&atilde;o presta    assim tanta aten&ccedil;&atilde;o &eacute; a quest&atilde;o do papel das rela&ccedil;&otilde;es    de parentesco para l&aacute; da fam&iacute;lia conjugal ou extensa nas estrat&eacute;gias    econ&oacute;micas de reprodu&ccedil;&atilde;o social dos camponeses, papel esse    que pode ser mais ou menos proeminente, mas que est&aacute; longe de ter perdido    a sua centralidade pol&iacute;tico-econ&oacute;mica e simb&oacute;lica um pouco    por toda a China rural p&oacute;s-Mao. Em zonas como o Sudeste da China, por    exemplo, esta centralidade tem mesmo vindo a ser objectificada no terreno na    forma de novas &#171;velhas&#187; estruturas e idiomas linhageiros de identidade    e de organiza&ccedil;&atilde;o social que foram apenas parcialmente dissolvidos    durante o per&iacute;odo mao&iacute;sta e que parecem p&ocirc;r em causa a tese    do autor de um &#171;triunfo da conjugalidade e da individualidade&#187;. Uma    outra quest&atilde;o que o autor n&atilde;o leva assim t&atilde;o a s&eacute;rio    &eacute; a de que o processo de transforma&ccedil;&atilde;o social que descreve    &eacute; um processo <I>ainda em curso</I> sobre o qual apenas se podem fazer    conjecturas quanto &agrave; sua futura evolu&ccedil;&atilde;o. Afinal de contas,    se tivermos em conta, por exemplo, o facto de que muitas das mudan&ccedil;as    descritas resultaram em larga medida da impot&ecirc;ncia econ&oacute;mica das    gera&ccedil;&otilde;es mais velhas, bem como da sua incapacidade em se adaptarem    com rapidez e efic&aacute;cia &agrave;s novas regras do jogo da era p&oacute;s-Mao,    torna-se bem dif&iacute;cil de dizer o que acontecer&aacute; quando os jovens    de hoje forem velhos e tiverem nas suas m&atilde;os as posses e os recursos    que t&ecirc;m vindo a adquirir.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mas aquele que &eacute;, provavelmente, o aspecto mais intrigante    das conclus&otilde;es do autor &eacute; o seu &#171;individualismo anal&iacute;tico&#187;    (a express&atilde;o &eacute; minha), que o leva mesmo a sugerir que o individualismo    &#151; fen&oacute;meno que o autor n&atilde;o define de forma precisa, mas que    poder&aacute; ser entendido como a <I>convic&ccedil;&atilde;o social generalizada</I>    de que o valor e potencial dos seres humanos resulta da sua individualidade    &#151; est&aacute; em plena ebuli&ccedil;&atilde;o na China rural p&oacute;s-Mao.    Se esse &eacute; o caso, como explicar, por exemplo, que os jovens de aldeias    como Xiajia se sintam intitulados a extrair dinheiro dos pais para se casarem,    mas fiquem ainda assim orgulhosos de serem &#171;individualistas&#187; e &#171;modernos&#187;    ao fazerem-no? Para o autor, o comportamento destes jovens reflecte em muitos    aspectos a forma como o individualismo euro-americano foi sempre mal interpretado    pela elite pol&iacute;tica e cultural chinesa, pelo que se trata de um comportamento    nada positivo e muito pouco c&iacute;vico que resulta em larga medida de um    equ&iacute;voco interpretativo. N&atilde;o ser&aacute; isto olhar para o comportamento    destes jovens sem tomar assim tanto em considera&ccedil;&atilde;o as realidades    materiais e s&oacute;cio-culturais mais profundas que o informam? Sem d&uacute;vida    que a conjugalidade e a individualidade est&atilde;o a desempenhar um papel    cada vez mais central nas rela&ccedil;&otilde;es familiares de aldeias como    Xiajia, mas n&atilde;o poder&iacute;amos n&oacute;s falar da emerg&ecirc;ncia    de uma nova forma de &#171;familismo&#187; mais aburguesada, em vez de falarmos    de um &#171;triunfo da conjugalidade e da individualidade&#187;? Em suma, eis    um livro pol&eacute;mico ilustrativo da vitalidade da antropologia contempor&acirc;nea,    que ser&aacute; bastante apelativo para os leitores de uma revista interdisciplinar    de ci&ecirc;ncias sociais como a <I>An&aacute;lise Social</I>.      <P ALIGN="RIGHT">      <P ALIGN="RIGHT">Gon&ccedil;alo Duro dos Santos     ]]></body>
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