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Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

versão impressa ISSN 2182-5173

Rev Port Med Geral Fam vol.32 no.1 Lisboa fev. 2016

 

DOCUMENTOS

A doença pneumocócica e recomendações GRESP para a vacinação antipneumocócica na população adulta (≥18 anos)

Rui P. Costa, MD,* Carlos Gonçalves, MD, MBA,** Jaime Correia de Sousa, MD, MSc, PhD***

*Mestre em Gestão e Economia da Saúde. Diretor Adjunto e Médico de Família. Sãvida Medicina Apoiada, SA (Porto). Coordenador do GRESP.

**Diretor Clínico e Médico de Família. Serviços de Medicina do Millennium BCP - Norte.

***Professor Associado. Instituto de Ciências da Vida e da Saúde (ICVS), Escola de Ciências da Saúde, Universidade do Minho. ICVS/3B´s Laboratório Associado. Médico de Família na USF Horizonte, Matosinhos.


 

Sumário da Recomendação

1. As vacinas pneumocócicas recomendadas para a prevenção da doença pneumocócica na população adulta são a vacina pneumocócica polissacárida 23-valente (VPP23) e a vacina pneumocócica conjugada 13-valente (VPC13).

2. Na Tabela I constam os grupos com risco acrescido de contrair doença invasiva pneumocócica (DIP) em idade adulta (≥18 anos), para os quais a vacinação contra infeções por Streptococcus pneumoniae está recomendada.

 

 

3. Em adultos não previamente vacinados com VPP23 ou VPC13 é recomendado o seguinte esquema de vacinação:

 

 

4. Em adultos previamente vacinados com 1 ou 2 doses de VPP23, o esquema de vacinação recomendado é o seguinte:

 

 

5. Em concordância com outros consensos e recomendações internacionais, o GRESP recomenda que a vacinação antipneumocócica deve ser aconselhada a toda a população imunocompetente com ≥ 65 anos, do seguinte modo:

 

 

Documento da exclusiva responsabilidade dos autores e do grupo GRESP/APMGF.

Não foi sujeito a revisão por pares.

Justificação da recomendação

A doença pneumocócica e recomendações GRESP para a vacinação antipneumocócica na população adulta (≥18 anos)

A doença pneumocócica nos adultos

A infeção por Streptococcus pneumoniae (S. pneumoniae) é uma causa importante de morbilidade e mortalidade, sendo responsável, segundo a OMS, por aproximadamente 1.6 milhões de mortes por ano em todo o mundo, constituindo globalmente a principal causa de morte prevenível através da vacinação.1-3

A infeção por este microrganismo pode provocar um largo espectro de patologias, geralmente classificadas em doença não invasiva (otite média aguda, sinusite) ou doença invasiva pneumocócica (DIP - pneumonia acompanhada de bacteriemia, meningite, septicémia). A DIP é definida pelo isolamento do S. pneumoniae no sangue, líquido céfalorraquidiano, líquido pleural ou peritoneal, ou noutro local do organismo habitualmente estéril.4-8

Nos países industrializados, a incidência anual de DIP varia entre 8 e 34 casos por 100.000 habitantes, sendo mais elevada no grupo etário abaixo dos dois anos de idade e nos adultos com idade ≥ 50 anos.9-10

Na Europa e nos Estados Unidos da América, o S. pneumoniae é o agente etiológico de cerca de 30 a 50% dos casos de pneumonia adquirida na comunidade (PAC) com necessidade de internamento.11-12

Um estudo revelou que, no período de 2000 a 2009, a PAC representou 3,7% do total de internamentos na população adulta em Portugal Continental. A média anual de internamentos por PAC foi de 3,61/1.000 habitantes, aumentando para 13,4/1.000 habitantes nos adultos com idade ≥ 65 anos.13 Um outro estudo mostrou que, de 1.265 isolados de S. pneumoniae responsáveis por doença invasiva na população adulta em Portugal, entre 2009 e 2011, cerca de 27,9% ocorreram em pessoas com 18-49 anos, 21,5% em pessoas com 50-64 anos e 50,6% em pessoas com idade ≥ 65 anos.14

Para além da idade, a presença de comorbilidades crónicas (doença cardiovascular, pulmonar, renal, hepática e diabetes mellitus), situações de imunodeficiência ou imunocompromisso e alguns estilos de vida (como o alcoolismo ou o tabagismo) podem aumentar o risco de doença pneumocócica.8,15-19

Recomendações para a vacinação antipneumocócica nos adultos

Atualmente, as vacinas pneumocócicas aprovadas e utilizadas para a prevenção da doença pneumocócica na população adulta são a vacina pneumocócica polissacárida 23-valente (VPP23) com 23 serotipos (1, 2, 3, 4, 5, 6B, 7F, 8, 9N, 9V, 10A, 11A, 12F, 14, 15B, 17F, 18C, 19A, 19F, 20, 22F, 23F e 33F) e a vacina pneumocócica conjugada 13-valente (VPC13) com 13 serotipos (1, 3, 4, 5, 6A, 6B, 7F, 9V, 14, 18C, 19A, 19F e 23F).

Sendo consensualmente reconhecido o papel da vacinação antipneumocócica como medida essencial na prevenção deste conjunto de patologias, em Portugal a Sociedade Portuguesa de Pneumologia e a Direção-Geral da Saúde emitiram recentemente recomendações para a vacinação contra infeções por S. pneumoniae. Ambas as entidades recomendam a utilização da VPP23 e da VPC13 para a prevenção da doença pneumocócica.20-21

O Grupo de Doenças Respiratórias (GRESP) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar disponibiliza, neste documento, as suas recomendações de vacinação antipneumocócica para a população adulta, em concordância com a norma 011/2015 da Direção-Geral da Saúde, atualizada a 6/11/2015 (Tabela I).20

Salienta-se que na norma 011/2015, da Direção-Geral da Saúde, se definiram grupos de risco para os quais a vacinação antipneumocócica passou a ser gratuita (Tabela II). Os adultos que têm direito à vacinação gratuita serão vacinados mediante apresentação de declaração médica, referindo a sua inclusão num grupo de risco, de acordo com as recomendações constantes nesta Norma. A declaração deve ter assinatura legível e vinheta do médico ou o seu código de barras.20

 

 

Os esquemas propostos para a administração sequencial das vacinas antipneumocócicas, que definem a ordem de administração e os intervalos mínimos e recomendados entre as múltiplas doses, seguem a proposta constante na norma 011/2015 da Direção-Geral da Saúde,20 a saber:

• Em adultos não previamente vacinados com VPP23 ou VPC13 é recomendado o esquema de vacinação (Figura 1):

 

 

• Em adultos previamente vacinados com 1 ou 2 doses de VPP23, o esquema de vacinação recomendado é apresentado na Figura 2:

 

 

A DGS emitiu orientações com vista a otimizar a prevenção de infeções por S. pneumoniae, através da administração das vacinas pneumocócicas em períodos de maior capacidade de resposta do sistema imunitário (vide Figura 3 da norma n.o 011/2015)20 e atualizou ainda os grupos com risco acrescido de DIP em idade pediátrica (<18 anos), para os quais a vacinação antipneumocócica é recomendada e gratuita.22

Em concordância com outros consensos e recomendações internacionais, somos da opinião de que a vacinação antipneumocócica deveria ser recomendada a toda a população imunocompetente com ≥ 65 anos, do seguinte modo:21,23-24

 

 

Propomos que a população adulta imunocompetente com ≥ 65 anos, sem vacinação antipneumocócica prévia com VPC13 ou VPP23, seja vacinada primeiro com a VPC13 e, após pelo menos um ano, com a VPP23. Os indivíduos com ≥ 65 anos que já fizeram previamente a vacinação com a VPP23 deverão fazer a VPC13, desde que tenha passado pelo menos um ano após a última vacinação com VPP23. Os indivíduos que já fizeram a vacinação com VPP23 antes dos 65 anos deverão fazer a VP13 após essa idade, desde que tenha passado pelo menos um ano após a vacinação com VPP23. Passado pelo menos um ano deverão ser revacinados com VPP23, desde que tenham passado ≥ 5 anos desde a dose anterior de VPP23.

Conclusões

A vacinação antipneumocócica afigura-se como a principal forma de proteção das populações em risco para a doença pneumocócica. Por este motivo, é fundamental que as autoridades de saúde, as sociedades médicas e os profissionais de saúde promovam políticas, recomendações clínicas e ações de sensibilização, tendo como objetivo atingir uma maior taxa de crianças e adultos vacinados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Conflitos de interesse

Os autores declaram não ter conflitos de interesse relativamente à recomendação desta publicação.

O GRESP/APMGF realiza a sua atividade com independência técnica e científica em relação à indústria farmacêutica. Contudo, usufrui de apoio da indústria farmacêutica para a realização de eventos e patrocínio de prémios científicos.

Em relação à presente recomendação, e posteriormente ao lançamento e sua divulgação nos sites do GRESP e da APMGF, existirá um apoio dos Laboratórios Pfizer exclusivamente com o intuito de divulgação do sumário das recomendações junto dos profissionais de saúde.

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