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versão impressa ISSN 1646-107X

Motri. vol.14 no.1 Ribeira de Pena maio 2018

 

ARTIGO ORIGINAL   |   ORIGINAL ARTICLE

 

Estado nutricional e aceitação da dieta por pacientes cardiopatas

 

Nutritional status and acceptance of diet by cardiopathic patients

 

 

Maria Camila Gonçalves Campos Souza1; Ana Luiza de Rezende Ferreira Mendes1; Geam Carles Mendes dos Santos1; Fernando César Rodrigues Brito1; Vanessa Duarte de Morais1; Francisco Regis da Silva2

1Centro Universitário Estácio do Ceará
2Universidade Estadual do Ceará

Correspondência para

 

 


RESUMO

Objetivou-se identificar o estado nutricional, a satisfação e aceitação da dieta hospitalar. Estudo de delineamento transversal, com 50 pacientes diagnosticados com alguma patologia cardiovascular. Foi realizada a identificação do estado nutricional através dos questionários Avaliação Nutricional Subjetiva Global (ANSG), Nutritional Risk Screening (NRS-2002), e através do IMC, comparando os diferentes métodos. Depois foi aplicado outro questionário para identificação da satisfação e da ingestão da dieta oferecida, adaptado de Pfaffenzeller. De acordo com a ANSG nenhum paciente foi constatado com desnutrição, já o NRS-2002 mostrou que 30% dos pacientes estavam em risco nutricional; o IMC mostrou que 52% dos pacientes estavam acima do peso recomendado. Sobre as variáveis que influenciaram na aceitação da dieta, percebeu-se que 80% dos pacientes estavam com o apetite preservado, e 52% faziam uso de sal reduzido antes da internação. Os pacientes relataram estar satisfeitos com a dieta oferecida, tanto no almoço (87,6%) como no jantar (80%). Sobre a quantidade, a maioria dos pacientes consumiram as refeições completamente, no almoço (66%) e jantar (68%). A NRS-2002 mostrou-se mais eficiente no rastreio do risco nutricional, quando comparada a ANSG. Os pacientes apresentaram boa aceitação da dieta oferecida, tanto em relação as variáveis como em relação a quantidade ingerida.

Palavras-chave: doenças cardiovasculares, estado nutricional, avaliação nutricional, dieta.


ABSTRACT

The objective was to identify the nutritional status, satisfaction and acceptance of the hospital diet. Cross-sectional study with 50 patients diagnosed with some cardiovascular disease. Nutritional status was identified through the Global Subjective Nutrition Assessment (ANSG) and Nutritional Risk Screening (NRS-2002) questionnaires, and also through BMI, comparing the different methods. Then another questionnaire was applied to identify the satisfaction and intake of the diet offered, adapted from Pfaffenzeller. According to the ANSG, no patient was found to be malnourished, whereas the NRS-2002 showed that 30% of the patients were at nutritional risk; The BMI showed that 52% of the patients were overweight recommended. Regarding the variables that influenced the acceptance of the diet, it was observed that 80% of the patients had their appetite preserved, and 52% used reduced salt before hospitalization. Patients reported being satisfied with the diet offered, both at lunch (87.6%) and at dinner (80%). About the amount, most patients consumed meals completely, at lunch (66%) and dinner (68%). NRS-2002 was more efficient in the screening of nutritional risk when compared to ANSG. The patients showed good acceptance of the diet offered, both in relation to the variables and in relation to the amount ingested.

Keywords: cardiovascular diseases, nutritional status, nutrition assessment, diet.


 

 

INTRODUÇÃO

A Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) as doenças cardiovasculares (DCV) são as principais causas de mortes em todo o mundo, com números maiores do que qualquer outra causa de morte, além disso, contribuem para o aumento do período de internação. O risco para o desenvolvimento de DCV é estimado na observação dos fatores de risco, com o intuito de planejar estratégias de prevenção. São diversos os fatores de risco para o desenvolvimento de DCV, porém os principais incluem: hereditariedade, raça, sexo, idade, excesso de peso, sedentarismo e ingestão elevada de sódio e gorduras (Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2016).

A desnutrição energético-proteica é um dos mais importantes problemas enfrentados pela saúde pública, sendo que a desnutrição associadas a cardiopatias aumentam em duas vezes as chances de óbito (Yamauti et al., 2006). A desnutrição é definida como o desequilíbrio metabólico proveniente principalmente pela baixa ingestão de nutrientes em relação a sua necessidade. Em hospitais é preocupante os níveis de desnutridos, podendo chegar a 80% dos pacientes hospitalizados. Portanto a desnutrição hospitalar aumenta o risco de morbimortalidade, o período de internação e os custos hospitalares (Malafaia, 2009).

A identificação precoce do risco nutricional é de suma importância para que as estratégias de tratamento possam ser planejadas da forma mais rápida e efetiva possível. Assim, sabe-se que a principal forma de avaliar o estado nutricional em pacientes internados é através da avaliação nutricional, que se inicia pela triagem nutricional. A triagem avalia o risco nutricional do paciente e caso o referido seja constatado com risco a avaliação nutricional detalhada deve ser realizada para obtenção do diagnóstico (Oliveira, Rocha, & Silva, 2008).

São vários os questionários para realização de triagem nutricional validados, cabe ao profissional escolher o que melhor se aplica ao seu público, dentre eles a Avaliação Nutricional Subjetiva Global (ANSG) e o Nutritional Risk Screening (NRS-2002), são os mais utilizados no meio hospitalar (Araújo, Lima, Ornelas, & Logrado, 2010). Após identificação do estado nutricional do paciente, cabe ao profissional planejar a terapia nutricional (TN), afinal, a alimentação é a principal forma para recuperação do estado nutricional, devendo ser planejada de forma individual (Aquino & Philippi, 2011; Ferreira, Guimarães, & Marcadenti, 2013).

A aceitação da dieta hospitalar é fundamental, pois essa tem como objetivo principal o fornecimento de calorias e nutrientes aos pacientes, podendo contribuir ainda com a melhora da qualidade de vida no período de hospitalização (Filipini, Gomes, Carvalho, & Vieira, 2014). Estas são prescritas de acordo com a necessidade patológica do paciente, o que pode acarretar modificações de consistência, chamadas dietas de progressão, e ainda podem ser alteradas com a inclusão ou exclusão de algum nutriente, chamadas dietas especiais (Casado & Barbosa, 2015).

Nota-se que as restrições dietéticas causam influência na aceitação das refeições por parte dos pacientes, principalmente quando se trata de dietas hipossódicas (com restrição de sal), pois este mineral tem importante influência cultural, acarretando repetidas reclamações de falta de sabor nos alimentos (Santos, Cammerer, & Marcadenti, 2012). Vale salientar que a comida do hospital é alvo de críticas por parte dos pacientes, que constantemente é vista como sem sabor, fria e de aparência ruim (Sousa, Glória, & Cardoso, 2011). A alimentação tem ainda valores psicosenssoriais e simbólicos, de reconhecimento individual e coletivo, o que pode contribuir de forma positiva ou negativa no sofrimento que o indivíduo está passando (Garcia, 2006).

Visto a relevância da alimentação em ambiente hospitalar e os fatores que contribuem para a não aceitação das dietas, devem ser desenvolvidas instrumentos para a avaliação da aceitação das refeições oferecidas, com o objetivo de desenvolver estratégias para melhorar o serviço e qualidade de vida dos pacientes (Coloço, Holanda, & Portero-Mclellan, 2009). Dessa forma, objetivou-se com esse estudo avaliar o estado nutricional e a aceitação da dieta por pacientes cardiopatas em um hospital de referência cardiovascular.

 

MÉTODO

Este estudo possui abordagem quantitativa, descritivo e delineamento transversal. A população desse estudo compreende indivíduos maiores de 18 anos, ambos os sexos e internados com patologia cardiovascular. A amostra consistiu em 50 pacientes, adultos e idosos que voluntariamente aceitaram fazer parte do estudo e possuíam capacidade comunicativa e de locomoção.

Para avaliação do estado nutricional foi realizada a triagem nutricional individual através de dois questionários, a Avaliação Nutricional Subjetiva Global (ANSG) sistematizada por Detsky et al., (1987), e adaptado conforme descrito por Waitzberg e Ferrini (1995), e o Nutritional Risk Screening (NRS-2002) desenvolvido por Kondrup et al., (2003). O primeiro consiste em uma avaliação de anamnese, exame antropométrico e físico, os itens têm pontuações especificas, onde foi marcado de acordo com os relatos do paciente. O somatório desses itens varia de 0 a 27 pontos, e a classificação dessa pontuação indica o diagnóstico nutricional (Yamauti et al., 2006).

O segundo questionário identifica o risco de desnutrição, levando em consideração aspectos nutricionais, como a porcentagem de perda de peso, o Índice de Massa Corporal (IMC), a aceitação da dieta, a gravidade da doença e ainda a idade do paciente. O IMC foi classificado segundo a OMS para adultos (Organização Mundial da Saúde, 1997) e de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS para idosos (Lebrão & Duarte, 2003). A classificação do NRS-2002 foi feita através do somatório dos escores, que quando maior ou igual a três, o paciente foi classificado com risco nutricional. Para os pacientes com idade maior que 70 anos, foi adicionado um ponto ao somatório, devido a maior probabilidade de desnutrição nesse público (Araújo, Lima, Ornelas, & Logrado, 2010).

O peso foi obtido com balança eletrônica portátil, marca Camry®, com capacidade máxima de 150 kg e com precisão de 0,1 kg. A estatura foi aferida com fita métrica fixada em uma parede sem rodapé, com apresentação em centímetros e extensão de 2m. Os indivíduos foram pesados descalços e com trajes leves e a altura foi aferida com os indivíduos descalços e em posição ortostática.

Após a identificação do estado nutricional, foi aplicado um questionário individualizado para a avaliação da aceitação das refeições oferecidas pelo hospital, adaptado de Pfaffenzeller (2003). Este é composto por questões vistas como possíveis variáveis para aceitação ou não das dietas, são elas: aparência, temperatura, sabor/tempero, horário, atendimento da copeira, alterações no apetite e consumo de sal anterior a internação. As perguntas foram feitas aos pacientes após o término da refeição e a quantidade ingerida foi observada de forma direta.

A classificação da quantidade ingerida pelo paciente foi utilizada conforme um estudo realizado por Casado & Barbosa (2015), e adaptado de acordo com as características do estudo, classificadas em: nada (0%), menos da metade (25%), metade (50%), mais da metade (75%) e tudo (100%). As refeições observadas foram almoço e jantar, sendo dietas nomeadas “hipossódicas” ou para Hipertensão Arterial Sistêmica – “HAS”, que consiste em dietas preparadas com diminuição ou exclusão de sal e no momento da distribuição é entregue um sachê contendo 1g de sal.

Os dados foram tabulados no programa Microsoft Excel®, 2013, sendo realizada análise descritiva inferencial dos dados coletados relativos ao estado nutricional, a satisfação e a quantidade das refeições servidas. Os resultados da análise foram expressos em gráficos e/ou tabelas.

A pesquisa foi desenvolvida de acordo com as determinações da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que descreve a importância do respeito à dignidade humana e da proteção aos participantes das pesquisas científicas (Brasil, 2012). A coleta de dados teve início após a submissão e aprovação do estudo pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Estácio do Ceará, via Plataforma Brasil, sob o número do parecer: 2.101.714.

 

RESULTADOS

O estudo teve participação de 50 pacientes, com idade entre 30 e 85 anos, com 56% (n=28) idosos e 44% (n=22) adultos e com a média de 60,2 anos e desvio padrão de ± 13,6 anos. Sobre o sexo, 58% (n=29) eram do sexo masculino e 42% (n=21) do sexo feminino.

De acordo com o diagnóstico clínico, a maioria dos pacientes estavam em tratamento clínico de Insuficiência Cardíaca Congestiva, com 48% (n=24) e Síndrome Coronariana Aguda, com 34% (n=34) (Tabela 1).

 

 

Dentre os 50 formulários aplicados da ANSG todos os pacientes apresentaram-se bem nutridos, com a variação da pontuação final de no mínimo de 2 e máximo de 11 pontos, a média de 6,8 e o desvio padrão de ± 1,8. Diferentemente da ANSG, os formulários aplicados do NRS-2002, mostrou que 30% (n=15) dos pacientes estavam em risco nutricional, com maior prevalência sobre os idosos, 26% (n=13). O restante dos pacientes apresentou-se sem risco nutricional, com 70% (n=35), a variação da pontuação total foi de no mínimo 1 e no máximo 5 pontos, com média de 2 e desvio padrão de ± 1.

O estado nutricional de acordo com o IMC mostrou que grande parte dos pacientes estavam com excesso de peso 52% (n=26), seguidos de eutrofia 36% (n=18) e apenas 12% (n=6) com baixo peso (Tabela 2).

 

 

Em relação ao apetite foi observado que 80% (n=40) dos pacientes apresentavam o apetite preservado e 20% (n=10) relataram alterações no apetite. Foi visto ainda que 52% (n=26) dos pacientes já faziam uso reduzido de sal antes da internação, enquanto que 48% (n=24) utilizavam normalmente esse componente.

Das dietas prescritas, a maioria era de consistência geral, 90% (n=45) das prescrições. Já as especificações das dietas foram em sua maioria para Hipertensão Arterial Sistêmica, 96% (n=48) das precisões, seguidas de 40% (n=20) para Diabetes Mellitus (DM) (Tabela 3).

 

 

Dentre as variáveis investigadas para a aceitação das dietas (aparência, temperatura, sabor/tempero, horário e atendimento da copeira) foi observado que a média de satisfação no almoço foi em sua maioria de 67% (n=34) dos pacientes satisfeitos e 20% (n=10) muito satisfeitos. Sobre a quantidade ingerida no almoço foi constatado que 66% (n=33) dos pacientes ingeriram tudo e 12% (n=6) mais da metade, no jantar 68% (n=34) relataram comer tudo e 4% (n=2) mais da metade.

Foi observado que os homens tiveram maior aceitação da dieta oferecida, com 51% (n=25,5), enquanto apenas 16% (n=8) das mulheres disseram ter consumido tudo. Já com relação a idade, não foi observado diferenças significativas, sendo que 34% (n=17) dos adultos comeram tudo, e 33% (n=16,5) dos idosos também disseram ter ingerido toda a alimentação ofertada (Tabela 4).

 

 

 

DISCUSSÃO e CONCLUSÕES

Ao se avaliar o estado nutricional e a aceitação da dieta por pacientes cardiopatas, no presente estudo, foi observado que a maioria dos pacientes eram do sexo masculino (58%), comprovando o encontrado por alguns estudos que avaliam o estado nutricional de pacientes hospitalizados (Sampaio, Pinto, & Vasconcelos, 2012; Padre, Leitão, & Moura, 2015). A Sociedade Brasileira de Cardiologia afirma que há uma prevalência de homens com hipertensão arterial, atualmente, esta é uma das patologias que contribui diretamente para o desenvolvimento de outras DCV (Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2016).

Foi visto que 56% dos pacientes desse estudo eram idosos. Dados similares foram entrados por Santos, Cammerer, e Marcadenti (2012), que investigaram a aceitação de dietas com reduzido teor de sódio em pacientes cardiopatas, com predominância 58% de pacientes idosos. Lima et al., (2014)investigou a relação entre instrumentos de triagem nutricional, com prevalência de 60,42% dos pacientes com idade superior a 60 anos. Isso se deve pela associação direta entre o envelhecimento e o aparecimento de doenças, dentre elas as cardiovasculares, que atualmente são responsáveis por altos índices de internação e consideradas as principais causas de morte no mundo (Silveira, Santos, Sousa, & Monteiro, 2013; Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2016).

Sobre o diagnóstico clínico, 48% dos pacientes foram identificados com Insuficiência Cardíaca Congestiva, corroborando novamente com o encontrado por Santos, Cammerer, e Marcadenti (2012), que também identificaram que a grande parte (35%) dos pacientes possuíam Insuficiência Cardíaca, e ainda com outro estudo que avalia o estado nutricional em pacientes cardiopatas através da ANSG, que encontrou 52,8% dos pacientes com o mesmo diagnóstico (Yamauti et al., 2006).

De acordo com a ANSG os pacientes foram classificados todos como bem nutridos. Essa prevalência pode ser observada em alguns estudos que avaliaram o estado nutricional de pacientes hospitalizados, como o de Rosa et al., (2014) (92,2%), Sampaio, Pinto, e Vasconcelos (2011) (82%)e Ferreira, Guimarães, e Marcadenti (2013) (67%).

Ainda segundo Rosa et al. (2014) a ANSG não tem a opção de classificação desnutrido leve, o que pode levar a classificação de pacientes nesse estado a serem classificados como bem nutridos, ao passo que os pacientes classificados como desnutridos moderado, poderiam estar desnutridos. Por esse motivo, nesse estudo essa ferramenta não foi capaz de identificar o verdadeiro comprometimento do estado nutricional, o que se configura como uma limitação da própria pesquisa.

Ao contrário da ANSG o NRS-2002 identificou que 30% dos pacientes estavam com risco nutricional no presente estudo, semelhante ao encontrado por Leite, Souza, e Sacramento (2016) (46,1%), ao investigarem o risco nutricional pela NRS-2002 em pacientes no pré-operatório. Assim como, outro estudo que compararam duas ferramentas de rastreio nutricional (38,6%) (Bretón et al., 2012), e ainda, Gheorghe et al., (2013) valores um pouco menores (17,1%), em uma pesquisa sobre o rastreio do risco nutricional na admissão de um departamento de gastroenterologia.

Foi observado que 52% dos pacientes desse estudo apresentavam-se com excesso de peso. Filipini, Gomes, Carvalho, e Vieira, (2014) também observaram em seu estudo que avaliou a aceitação de dietas hospitalares, a grande porcentagem de pacientes com excesso de peso, sendo homens (43,2%) e mulheres (29,5%). Assim como o encontrado em outro estudo que avaliou o estado nutricional de pacientes em um hospital geral, com 45,1% (Rosa et al., 2014). Neste sentido, Arruda, Pinho, e Santos (2014), perceberam em seu estudo que avalia as repercussões nutricionais em pacientes com IC, em que 38,5% dos pacientes encontravam-se acima do peso recomendado.

Os dados expostos acima, podem ser justificados por meio da transição nutricional, que nos últimos anos vem convertendo o quadro da população brasileira, diminuindo a desnutrição e aumentando consideravelmente o sobrepeso e a obesidade. A alta prevalência de sobrepeso e obesidade está diretamente relacionada as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), dentre elas as doenças cardiovasculares, que são uma das principais causas de morte no mundo. Dessa forma, o excesso de peso associado a DCV tem grande impacto sobre os serviços de saúde, estando diretamente ligadas ao aumento dos custos e do período de hospitalizações (Portero-McLellan et al., 2010).

Sobre o apetite, foi percebido que 80% dos pacientes observados no presente estudo apresentavam o apetite preservado. Em uma pesquisa que verificou a aceitação de dietas hospitalares em cardiopatas, foi observado que 88% referiram não ter alterações de apetite (Santos, Cammerer, & Marcadenti, 2012), e em outro estudo com o mesmo objetivo, porém em um público com câncer, foi visto que 79% destes não apresentaram alterações no apetite(Ferreira, Guimarães, & Marcadenti, 2013). Confirmando os estudos acima com valores menores, porém consideráveis, em uma verificação de repercussões nutricionais em pacientes com IC, mostrou que 61,2% não apresentaram modificações de apetite (Arruda, Pinho, & Santos 2014).

Em relação ao consumo de sal anterior a internação, foi visto que 52% dos pacientes já reduziam esse nutriente, desses, 28% ingeriram toda a refeição oferecida. Entre os pacientes que disseram fazer utilização normal desse componente foi visto que 32% relataram ter ingerido a refeição completa, mostrando que nesta pesquisa a restrição do sódio não teve influência significativa sobre a aceitação da dieta. Em alguns estudos que investigam a aceitação de dietas com restrição de sódio foi observado a que a maior parte dos pacientes tinham um consumo reduzido de sódio anterior a internação (Casado & Barbosa, 2015; Santos, Cammerer, & Marcadenti, 2012), facilitando assim a aceitação da dieta hospitalar hipossódica.

No tocante as prescrições dietéticas a maioria era de consistência geral, com 90% das prescrições. Resultados similares foram encontrados na pesquisa sobre aceitação de dietas em pacientes com câncer, onde também foi identificado que a maior parte (70%) das dietas eram gerais (Ferreira, Guimarães, & Marcadenti, 2013). Entretanto, em outros estudos que avaliaram o estado nutricional e o consumo alimentar, foi observado valores menores de dietas gerais (Leandro-Merhi, Srebernich, Gonçalves, & Aquino, 2015), provavelmente devido as características patológicas do público avaliado. Sobre as especificações, a maioria das prescrições encontradas nesse estudo eram para dietas hipossódicas (96%). Semelhantemente ao encontrado por Sousa, Glória, e Cardoso (2011) (74,3%) e com Ribas, Pinto, e Rodrigues (2013) (68,9%), que investigaram a aceitação de dietas em ambiente hospitalar.

Quanto a satisfação das dietas oferecidas, foi verificado que nesta pesquisa 87,6% dos pacientes relataram estar satisfeitos (67,2%) e muito satisfeitos (20,4%) com o almoço. Já no jantar, foi visto 80% disseram estar satisfeitos (60,8%) e muito satisfeitos (19,2%). Corroborando com Leandro-Merhi, Srebernich, Gonçalves, e Aquino (2015) que investigaram a aceitação da dieta por três dias seguidos, no terceiro dia 83,2% dos pacientes classificaram a dieta como “boa”. Em outro estudo que avaliou o grau de satisfação de usuários de um hospital privado, foi observado que em torno de 84% estavam satisfeitos com a dieta oferecida (Pena, & Melleiro, 2012). E ainda, em outra pesquisa que investiga a aceitação de dietas hipossódicas, foi visto que 81,8% dos pacientes qualificaram as dietas como ótima (3%), muito boa (9,1%) e boa (69,7%) (Casado & Barbosa, 2015).

Sobre a quantidade ingerida no almoço, foi constatado que 66% dos pacientes ingeriram toda a refeição oferecida enquanto 12% consumiram mais da metade. No jantar, 68% relataram comer tudo e 4% consumiram mais da metade, ou seja, de forma geral os pacientes apresentaram boa aceitação das refeições oferecidas. Em um estudo que investigou a real ingestão alimentar do almoço e jantar de pacientes internados, observou-se que 69% dos pacientes ingeriram completamente as refeições ofertadas (Barbio et al., 2012). Com valores um pouco menores, porém consideráveis, outra pesquisa que investiga o impacto da hospitalização no consumo alimentar, verificou que 48,2% dos pacientes consumiram toda a alimentação oferecida no almoço e 53,7% no jantar (César et al., 2013). Ainda de acordo com Ribas, Pinto, e Rodrigues (2013), foi visto que 61,4% dos pacientes ingeriram completamente as refeições oferecidas, confirmando os dados encontrados no presente estudo.

Evidenciou-se que dentre os métodos de avaliação do estado nutricional utilizados no estudo, a NRS-2002 apresentou o maior grau de sensibilidade e confiabilidade na identificação do risco nutricional.

A desnutrição em si não teve números consideráveis, sendo o excesso de peso encontrado com maior prevalência, isso deve-se ao fato do público que foi estudado possuir patologias cardiovasculares. Sabe-se, portanto, que um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento dessas patologias são o sobrepeso e a obesidade.

Sobre a aceitação da dieta, observou-se, de modo geral, que os pacientes estavam satisfeitos com as refeições oferecidas pelo hospital, tanto em relação as variáveis apresentadas, como em relação a quantidade ingerida.

 

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Agradecimentos:
Agradecemos ao Centro Universitário Estácio do Ceará, pelo total apoio na realização desta pesquisa
Conflito de Interesses:
Nada a declarar.
Financiamento:
Nada a declarar.

 

 

Correspondência para: Centro Universitário Estácio do Ceará. Rua Eliseu Uchoa Beco, 600, Água Fria. CEP: 60810-270, Fortaleza, CE, Brasil. E-mail: aninharez@yahoo.com.br

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