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Psicologia, Saúde & Doenças

versão impressa ISSN 1645-0086

Psic., Saúde & Doenças vol.21 no.3 Lisboa dez. 2020  Epub 31-Dez-2020

https://doi.org/10.15309/20psd210325 

Artigo

Utilização da SenseCam como prótese mnésica: revisão da literatura

Use of SenseCam as a memory prosthetics: literature review

Catarina Baptista1 

Rosa Marina Afonso1  2 

Ana Rita Silva3 

1 Universidade da Beira Interior, Departamento de Psicologia e Educação, Covilhã, Portugal, catarina.baptista@ubi.pt

2 Center for Health Technology and Services Research (CINTESIS), Faculty of Medicine University of Porto, Portugal, rmafonso@ubi.pt

3 Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, Portugal, anaritasilva@cnc.uc.pt


Resumo

Os dispositivos de registo pessoal digital, são usados como forma de estimulação e reabilitação da memória autobiográfica (MA). A SenseCam, uma pequena câmara digital, permite aumentar a especificidade das memórias, que são recuperadas com a visualização das fotografias capturadas pela mesma. Este estudo pretende: 1) descrever o dispositivo SenseCam e as características que justificam a sua utilização para reabilitação da MA; 2) sistematizar os principais estudos acerca do impacto da utilização da SenseCam ao nível dos indicadores de eficácia de funcionamento cognitivo e bem-estar de indivíduos e 3) dar pistas para futuras investigações e aplicações da SenseCam. Foi usada a metodologia de revisão integrada da literatura, tendo sido analisados 11 estudos. Os resultados demonstram que a SenseCam apresenta um efeito significativo na estimulação e recuperação de MA. Contudo, os estudos são escassos, sendo fundamental em investigações futuras realizar mais estudos que avaliem o impacto da SenseCam em indivíduos que não apresentam défices cognitivos, de forma a averiguar mais pormenorizadamente as suas potencialidades.

Palavras-Chave: SenseCam; memória autobiográfica; funcionamento cognitivo; bem-estar

Abstract

Lifelogging devices are used as a way of stimulating and rehabilitating autobiographical memory (AM). SenseCam, a small digital camera, allows to increase the specificity of memories, which are recovered by viewing the photos captured by it. This study aims to: 1) describe the SenseCam device and the characteristics that justify its use for AM rehabilitation; 2) systematize the main studies about the impact of the use of SenseCam at the level of indicators of the efficiency of cognitive functioning and well-being of individuals and 3) provide clues for future investigations and applications of SenseCam. The integrated literature review methodology was used, and 11 studies were analyzed. The results demonstrate that SenseCam has a powerful effect on the stimulation and recovery of AM. However, studies are scarce, and it is essential in future investigations to carry out further studies to assess the impact of SenseCam on individuals who have not cognitive deficits, in order to investigate its potentialities in more detail.

Keywords: SenseCam; autobiographical memory; cognitive functioning; well-being

O uso de recursos externos que auxiliam a memória pode ajudar as pessoas a compensar os seus défices de memória, constituindo uma das formas mais eficazes de auxílio na reabilitação da mesma (Kapur et al., 2002). O desenvolvimento de dispositivos digitais leves e de pequeno tamanho, com sensores de captura, que registam imagens, sons e localização, foram uma das conquistas do início de século. Como consequência do avanço tecnológico, surgiram várias ideias para sistemas para suporte ao registo de vida, sendo uma delas o desenvolvimento de um dispositivo denominado SenseCam (Sellen et al., 2007). A SenseCam é uma pequena câmara digital desenvolvida pela Microsoft Research Cambridge e a sua primeira versão comercial denominou-se de Vicon Revue, detida pela Oxford Metrics PLC e posteriormente desenvolvido com o nome de Autographer, incluindo GPS e Bluetooth (Silva et al., 2016).

A SenseCam foi desenhada com o objetivo de capturar fotografias automaticamente, a partir da perspetiva do utilizador (Hodges et al., 2006) e sem que o mesmo tenha uma intervenção direta na ação de tirar fotografias dos acontecimentos. Esta prótese é um “lifelogging device”, ou seja, um dispositivo de registo pessoal digital, (Berry et al., 2007; Doherty et al., 2011; Silva et al., 2016), que permite a captura discreta de fotografias de experiências pessoais da vida dos sujeitos (Finley et al., 2011). O aparelho denomina-se SenseCam devido às suas principais funcionalidades que são permitir criar sensações em relação ao ambiente e captar fotografias (Hodges et al., 2011).

Funcionamento da SenseCam

A SenseCam é uma pequena câmara equipada por uma lente angular (fish-eye) que permite aumentar o seu campo de visão, capturando desta forma fotografias que alcancem todo o campo de visão do utilizador (Berry et al., 2007; Hodges et al., 2011). A SenseCam incorpora vários sensores eletrónicos, que funcionam através de um microprocessador e qualquer alteração recebida através dos mesmos leva a que seja capturada uma fotografia automaticamente (Finley et al., 2011; Hodges et al., 2011). Estas alterações podem ser por exemplo, a deteção de movimento ou de uma pessoa em frente à câmara (Hodges et al., 2006), uma mudança significativa no nível da luz, (Hodges et al., 2011), da temperatura ou no nível de áudio (Hodges et al., 2006). No interior da SenseCam existe um cronómetro que dispara fotografias automaticamente após um determinado número de segundos (normalmente capta a cada trinta segundos). Desta forma, a captura de imagens é efetuada através de três métodos diferentes, (1) manualmente, ao pressionar o botão de disparo manual, (2) por temporizador e (3) pelos sensores (Finley et al., 2011), permitindo a captura de várias fotografias por minuto no intercâmbio destes três métodos (Silva et al., 2016). As imagens capturadas e armazenadas pela SenseCam podem, após a sua utilização, ser carregadas para um computador através de ligação USB, para serem visualizadas (Hodges et al., 2011).

Com o avançar das versões e com o desenvolvimento destes dispositivos de registo pessoal digital, é possível constatar a diminuição da intervenção pelo utilizador, o que permite que os dados sejam capturados com a mínima intervenção, por parte do mesmo.

Potencialidades da SenseCam no funcionamento cognitivo

A principal finalidade da SenseCam passa por capturar um número de imagens suficientes para armazenar os elementos significativos de um episódio, de modo a aumentar a especificidade das memórias que são recuperadas com a visualização das imagens capturadas pela câmara (Silva et al., 2016). Segundo a literatura, as imagens capturadas pela SenseCam possibilitam o acesso a memórias que se encontram inacessíveis, dado que tanto as fotografias capturadas pela SenseCam como a memória humana, partilham o aspeto de apelarem ao sentido da visão, recorrerem à experiência e surgirem na forma como o sujeito perspetiva visualmente o momento em que os acontecimentos são registados (Loveday & Conway, 2011).

Hodges e colaboradores (2011) consideram que a SenseCam apresenta um efeito poderoso, visto que apenas uma imagem, de entre muitas, pode levar à recuperação de memórias associadas. Assim sendo, é possível que, pelo menos uma das centenas de imagens capturadas pela SenseCam, tenha capturado um momento em que ocorra a codificação de uma memória, permitindo a recuperação do acontecimento que teve lugar no passado. Tal permite que ocorra o “Proustian moment”, situação de intensa experiência de lembrança do acontecimento, proporcionado pela visualização das imagens desse mesmo evento (Loveday & Conway, 2011; Silva et al., 2016).

A SenseCam permite compensar e otimizar o funcionamento cognitivo, sendo uma prótese cognitiva para as pessoas que apresentam défices na memória (Berry et al., 2007) ou um auxiliar de memória para aqueles em que a memória não apresenta défices (Sellen et al., 2007). Desta forma, pode ser utilizada como ferramenta de registo de vida, útil para a reabilitação e recuperação de memórias de acontecimentos específicos (Doherty et al., 2011; Dubourg et al., 2016).

Embora a SenseCam seja utilizada maioritariamente como prótese mnésica, é igualmente útil em outras áreas de aplicação, nomeadamente como ferramenta para ajudar na avaliação de problemas de saúde física e mental. Nestes casos seria feita uma monitorização de comportamentos relacionados com a saúde, como monitorizar a dieta e a quantidade de atividade física, com o fim de promover uma melhor qualidade de vida (Doherty et al., 2013).

Este estudo pretende efetuar uma revisão da literatura e sistematizar os estudos realizados com recurso à SenseCam e que tiveram como objetivo a análise dos efeitos deste dispositivo, como prótese mnésica.

Método

Os artigos selecionados para a presente revisão foram publicados em revistas indexadas que constam nas bases de dados ResearchGate, PubMed, Taylor & Francis Group, ScienceDirect, SpringerLink, Europe PMC, APA PsycNet, SAGE Journals. As palavras-chave de pesquisa usadas foram: “Autobiographical Memory”, “Memory”, “SenseCam”, “External memory aids”, “Cognitive rehabilitation”. Foram igualmente realizadas pesquisas no Google Scholar. Foi ainda efetuada uma pesquisa pelas referências bibliográficas dos artigos disponíveis. Para seleção dos artigos, realizou-se, primeiramente, a leitura dos resumos, sendo selecionados os que cumpriam os critérios de elegibilidade, tendo sido selecionadas 11 referências. As pesquisas realizadas tiveram início a outubro de 2019 e terminaram a julho de 2020. A data de publicação dos artigos não foi delimitada.

Critérios de elegibilidade

Os critérios de inclusão foram os seguintes: 1) estudos quantitativos, qualitativos, ou mistos, publicados em revistas especializadas; 2) estudos que apresentem como amostra grupos clínicos e/ou indivíduos saudáveis; 3) foco em tópicos relacionados com a estimulação e reabilitação cognitiva com a SenseCam e com o impacto da utilização da SenseCam no funcionamento cognitivo e no bem-estar dos participantes; 4) estudos que contemplem comparações entre grupos (grupo clínico vs. grupo não clínico; uso e não uso da SenseCam); 5) referências de estudos redigidos em Português e Inglês. Foram excluídos artigos repetidos, artigos de opinião e revisões sistemáticas. Não foi estipulado o tamanho da amostra, o intervalo do ano de publicação dos artigos e o desenho do estudo.

Características dos estudos selecionados

Relativamente à metodologia dos artigos selecionados, foram identificados 3 estudos de caso (Berry et al., 2007; Browne et al., 2011; Loveday & Conway, 2011), 7 estudos com grupo de controlo (Mair et al., 2017; 2018; Sellen et al., 2007; Silva et al., 2013; Silva et al., 2017a; 2017b; Woodberry er al., 2014) e 1 estudo exploratório (Finley et al., 2011). O número mínimo da amostra, dos estudos em questão, foi de 1 e o número máximo de 51 participantes. Nos estudos selecionados foram estudadas várias populações, nomeadamente indivíduos saudáveis e indivíduos com défice cognitivo ligeiro, doença de Alzheimer e que sofreram de casos de encefalite.

Resultados

Relativamente aos estudos analisados (Quadro 1) é possível concluir que o tempo de uso da SenseCam, pelos participantes, varia de estudo para estudo. Existem estudos em que os indivíduos utilizam a SenseCam durante um dia, entre 2 a 5 dias consecutivos, e entre 1 a 6 semanas. Quanto à duração do estudo, verifica-se a mesma divergência, sendo que varia entre 2 semanas a 20 meses. Em vários estudos os participantes utilizaram a câmara em curtos períodos (2 a 5 dias consecutivos) e noutros a SenseCam teve um uso contínuo. O número de fotografias capturadas por esta prótese teve uma grande variação, entre 27 a 7000, durante o período de utilização do aparelho no estudo. Importa realçar que, nos estudos que compuseram a presente revisão, foram capturadas mais fotografias de forma passiva do que de forma ativa, diretamente pelo utilizador.

Os estudos selecionados demonstraram a eficácia desta câmara portátil como prótese para o comprometimento da memória, em populações clínicas e não clínicas, nomeadamente, em indivíduos com encefalite (Berry et al., 2007; Loveday & Conway, 2011), pessoas com défice cognitivo ligeiro (Browne et al., 2011) e com doença de Alzheimer nas fases leve a moderada (Silva et al., 2017ª; 2017b; Woodberry et al., 2014). Os restantes estudos avaliaram o efeito deste aparelho na memória autobiográfica (MA) de jovens adultos saudáveis e de adultos mais velhos saudáveis (Finley et al., 2011; Mair et al., 2017; 2018; Sellen et al., 2007; Silva et al., 2013).

Indicadores de eficácia a nível do desempenho cognitivo

De uma maneira geral, os resultados dos estudos analisados indicaram que, com a utilização da SenseCam, os participantes conseguiram recuperar mais memórias de acontecimentos experienciados e que essas memórias apresentavam mais especificidade nos detalhes, em comparação com o uso de diários escritos e com a condição de não usarem nenhum recurso externo ou de não visualizarem as imagens da SenseCam (Berry et al., 2017; Browne et al., 2011; Finley et al., 2011; Loveday & Conway, 2011; Mair et al., 2018; Silva et al., 2013; Sellen et al., 2007; Woodberry et al., 2014).

No estudo de Berry e colaboradores (2007), os autores verificaram que após a visualização das fotografias capturadas pela SenseCam, a paciente foi capaz de recuperar aproximadamente 80% dos acontecimentos que experienciou previamente, e que após 3 meses recuperou 76% dos acontecimentos autobiográficos, sem visualizar as imagens da SenseCam durante esse período. Nesta linha, os resultados do estudo de Browne e colaboradores (2011), demostraram que com a utilização da SenseCam, a paciente recuperou 64% dos acontecimentos após a visualização das imagens obtidas pela câmara e 68% passadas duas semanas, sem a visualização das fotografias durante esse intervalo. Foi possível, ainda, verificar que após um período de longo-prazo, 6 meses, a paciente recuperou o dobro de detalhes dos acontecimentos registados pela SenseCam (41%) comparativamente com os anotados no diário escrito (20%). Woodberry e colaboradores (2014), averiguaram que a quantidade de informações recuperadas, pelos participantes, aquando da utilização da SenseCam durante os três meses de acompanhamento, foi superior ao triplo, comparativamente aos participantes que usaram o diário escrito.

Finley e colaboradores, em 2011, demonstraram que visualizar as imagens da SenseCam ao final do dia, promove a estimulação da MA geral. Silva e colaboradores (2013; 2017ª), verificaram que a visualização de fotografias da SenseCam levou à recuperação de MA de acontecimentos não capturados nas imagens, ou seja o impacto foi generalizado à MA global e não apenas reativo ao conteúdo específico das fotografias registadas pela câmara. O estudo de Mair e colaboradores (2018) demonstrou que os participantes recuperaram detalhes para além dos que se encontravam nas fotografias, tais como interações socais, pensamentos e sentimentos que experienciaram durante a tarefa, após a observação de fotografias capturadas pela SenseCam.

Vários dos estudos da presente revisão avaliaram o efeito do modo de captura das fotografias, de forma passiva ou ativa, e através dos sensores ou do temporizador da SenseCam e consideraram ainda, o impacto da visualização das fotografias pela ordem temporal direta ou aleatória. Relativamente ao modo de captura das fotografias, Sellen e colaboradores (2007) avaliaram os efeitos das fotografias capturadas de forma passiva e de forma ativa e constataram que as imagens capturadas de forma passiva foram identificadas como melhores pistas para a recuperação de MA, do que as imagens capturadas ativamente pelo utilizador. Finley e colaboradores (2011) demonstraram que não existem diferenças no desempenho dos participantes quando as imagens foram capturadas através dos sensores ou quando as fotografias foram acionadas pelo temporizador. Os resultados apresentados por Mair e colaboradores (2017) demonstraram que, visualizar as fotografias da SenseCam pela ordem temporal direta, ou seja, a ordem pela qual tiveram lugar os acontecimentos, apresenta uma maior eficácia na recuperação de MA relativa aos conteúdos episódicos apresentados nas imagens. Por outro lado, os resultados do estudo de Mair e colaboradores (2018) confirmam que não foram encontradas diferenças significativas na ordem temporal, pela qual são visualizadas as imagens capturadas pela SenseCam.

Indicadores de eficácia a nível do funcionamento emocional e comportamento

Os estudos selecionados na presente revisão focaram-se também nos efeitos não cognitivos da SenseCam, nomeadamente no impacto da sua utilização em indicadores de bem-estar emocional. Vários estudos concluíram que a utilização da SenseCam permite diminuir os níveis de ansiedade experimentados pelos participantes, aumentar a confiança por parte dos mesmos em relação à sua memória, e ainda, um maior bem-estar, em momentos de interação social (Berry et al., 2007; Browne et al., 2011; Loveday & Conway, 2011; Woodberry et al., 2014). Os resultados do estudo de Silva e colaboradores (2017b), com pacientes com doença de Alzheimer, revelaram que a SenseCam levou a reduções significativas dos sintomas depressivos após o término da intervenção, apesar dessa diminuição na sintomatologia depressiva não ser um efeito mantido a longo prazo.

Quadro 1 Resumo dos estudos que utilizaram a SenseCam 

Discussão

A análise dos 11 estudos sobre a utilização da SenseCam como prótese mnésica, revela grande dispersão do tempo de utilização e do número de fotografias capturadas pela SenseCam e da duração dos estudos. Contudo, os resultados são mais consensuais, na medida em que na maioria dos estudos analisados se constata um maior impacto da SenseCam na recuperação de memórias relativas aos eventos fotografados, comparativamente a outros métodos (diário escrito e exercícios de estimulação das funções cognitivas realizados com lápis e papel). Alguns estudos (Finley et al., 2011; Silva et al., 2013; 2017a) constatam a generalização do impacto positivo da utilização da SenseCam à MA geral. Os resultados destacam, ainda, que a maioria dos estudos (Berry et al., 2017; Browne et al., 2011; Finley et al., 2011; Loveday & Conway, 2011; Mair et al., 2018; Silva et al., 2013; Sellen et al., 2007; Woodberry et al., 2014) revela a eficácia da SenseCam na recuperação de acontecimentos com maior detalhe e especificidade, após visualização das fotografias e que esse efeito se manteve por um período considerável, depois da sua utilização. Os resultados dos estudos de Mair e colaboradores (2017; 2018) destacam que pode existir um défice associado à idade na recuperação de MA novas, visto que os jovens adultos recuperaram mais detalhes de acontecimentos do que os adultos mais velhos. No entanto, ambas as faixas etárias recuperaram mais memórias específicas de eventos, após a visualização das imagens da SenseCam, demonstrando que todos beneficiaram com a câmara.

Os resultados dos estudos integrados na presente revisão da literatura demonstraram, igualmente, que as fotografias capturadas de forma passiva levam a uma maior recuperação de MA, comparativamente às imagens capturadas de forma ativa (Sellen et al., 2007). Ou seja, quanto menor a intervenção e esforço consciente por parte do utilizador, maior o número de MA recuperadas. Tal facto vai ao encontro do objetivo principal da SenseCam, que é capturar fotografias de forma passiva e automática, segundo a perspetiva do utilizador (Doherty et al., 2011; Sellen et al., 2007). Os resultados encontrados por Mair e colaboradores (2017), de que a ordem temporal direta apresenta maior eficácia na recuperação de MA, podem ser explicados pela hipótese de Hodges e colaboradores (2011) que refere que as fotografias da SenseCam são capturadas de forma passiva e na perspetiva do utilizador, aproximando-se da experiência humana. Já os resultados constatados por Mair e colaboradores (2018), que sugerem que não há diferenças significativas na ordem que as imagens são apresentadas, podem ser assegurados pela segunda hipótese de Hodges e colaboradores, que revela que apenas uma fotografia obtida pela SenseCam, no meio de uma grande quantidade de imagens, pode levar à recuperação do episódio, o que leva à suposição de que é indiferente a ordem pela qual são apresentadas as imagens, direta ou aleatória. No entanto, para esta suposição se confirmar dever-se-ia desenvolver um estudo mais alargado, com uma amostra grande e equiparada, que comparasse efetivamente estes modos de apresentação das imagens.

O trabalho desenvolvido, com base na metodologia de revisão da literatura, apresenta potencialidades e um contributo com diversas implicações, nomeadamente uma revisão teórica detalhada acerca do tema em discussão, a análise de contribuições empíricas no contexto da utilização da SenseCam, enquanto prótese mnésica e a análise atual das possibilidades de investigação futura nesta área. No entanto, a presente revisão não está isenta de limitações. Dos estudos analisados muitos deles são estudos de caso ou apresentam amostras reduzidas e verifica-se a existência de grande variabilidade na utilização da SenseCam, o que faz com que as conclusões retiradas desta revisão tenham de ser tomadas com cuidado e não generalizadas.

Os resultados apresentados sugerem diversas possibilidades de investigação futura, tais como a necessidade de se avaliar se a SenseCam é efetivamente utilizada, de que forma e por quem. Para além disso existem, atualmente, muitos estudos que demonstram a eficácia da SenseCam, como prótese mnésica, para estimular a MA e diminuir os efeitos dos défices cognitivos, nomeadamente ao nível da memória. No entanto, são poucos aqueles que avaliaram os efeitos deste dispositivo em indivíduos saudáveis. Os estudos centram-se, maioritariamente, no estudo do impacto da SenseCam na estimulação da MA, em sujeitos que apresentam défices na memória (Berry et al., 2007; Browne et al., 2011; Loveday & Conway, 2011; Silva et al., 2017a; 2017b; Woodberry et al., 2014). Seria pertinente que, em estudos futuros, se realizassem investigações no sentido de avaliar se a SenseCam é igualmente eficaz no auxílio da memória em indivíduos que não apresentem défices mnésicos.

Os resultados alcançados com a análise dos estudos que constituíram a presente revisão, sugerem o impacto positivo da utilização da SenseCam como estratégia para otimizar o funcionamento cognitivo. Adicionalmente esta prótese parece, pelo menos como efeito imediato, diminuir a sintomatologia depressiva e ansiosa e aumentar a perceção de competência e bem-estar, mas os efeitos parecem não se manter após um período espaçado do término da utilização da prótese. O desenvolvimento de estudos futuros com maior amostra e grupos de controlo adequados possibilitará compreender a amplitude dos efeitos encontrados nestes estudos com amostras pequenas, possibilitando assim que a SenseCam possa ser considerada um método cientificamente válido na reabilitação neuropsicológica da MA.

As informações recolhidas com base nos resultados encontrados dos estudos selecionados, permitiram concluir que as imagens obtidas pela SenseCam são um estímulo poderoso na recuperação de memórias armazenadas no passado, aumentando a especificidade e recuperação de MA (Berry et al., 2007). Desta forma, esta prótese permite compensar os défices na memória episódica associada à idade, quando é solicitado que os participantes recuperem detalhes que não estão presentes nas imagens. Ou seja, a SenseCam permite a recuperação de detalhes do evento original, e não apenas o reconhecimento das informações visualizadas nas fotografias da SenseCam (Silva et al., 2013; Mair et al., 2018). A utilização da SenseCam, bem como os seus efeitos, levam a que os indivíduos se sintam mais confiantes quanto à sua memória, o que por sua vez, aumenta os níveis de bem-estar pessoal e social (Berry et al., 2007; Browne et al., 2011; Loveday & Conway, 2011; Woodberry et al., 2014).

A SenseCam, a partir dos estudos apresentados, parece constituir um método muito relevante para a reabilitação da MA, porém é necessário o desenvolvimento de estudos que apresentem uma maior robustez e amostras com vários grupos, com vista à validação destes resultados e que possibilite o uso desta prótese mnésica na prática clínica.

Referências

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Recebido: 10 de Outubro de 2020; Aceito: 17 de Novembro de 2020

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