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Revista Portuguesa de Imunoalergologia

versão impressa ISSN 0871-9721

Rev Port Imunoalergologia vol.26 no.4 Lisboa dez. 2018

 

 

PÁGINA EDUCACIONAL

 

FRASIS – Monitorização da função respiratória na asma utilizando os sensores integrados do smartphone

FRASIS – Respiratory function monitoring in asthma using embedded smartphone sensors

 

Ana Almeida4,9, Rita Amaral1,8, Ana SaSousa1, Constantino Martins4,9, Tiago Jacinto1,6,8, Mariana Pereira6,7, Bernardo Pinho7, Pedro Pereira Rodrigues1,5, Alberto Freitas1,5, Goreti Marreiros4,9, Altamiro Costa Pereira1,5, Susana Caldas Fonseca7

1 CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto

2 CMUP – Centro de Matemática, Universidade do Porto

3 Lab3R, Laboratório de Investigação e Reabilitação Respiratória, Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro (ESSUA)

4 GECAD – Grupo de Investigação em Engenharia e Computação Inteligente para a Inovação e o Desenvolvimento

5 MEDCIDS – Departamento de Medicina da Comunidade Informação e Decisão em Saúde, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto

6 Imunoalergologia, CUF Porto Instituto & Hospital, Porto

7 MEDIDA – Serviços em Medicina, EDucação, Investigação, Desenvolvimento e Avaliação, LDA

8 Escola Superior de Saúde – Politécnico do Porto

9 Instituto Superior de Engenharia do Porto, Politécnico do Porto

 

Correspondência para:

 

 

RESUMO

O projeto FRASIS pretende desenvolver, integrar e validar um conjunto de tecnologias de informação e comunicação (TIC) de saúde móvel (mHealth) para a monitorização remota da função respiratória na asma, usando apenas o smartphone e os seus sensores integrados. As ferramentas atuais de automonitorização e autogestão da asma são complexas, pouco atrativas, não individualizadas e obrigam os profissionais de saúde a análises trabalhosas, desmotivando a sua utilização e integração nos cuidados de saúde. Existe uma clara oportunidade para soluções tecnológicas avançadas económicas para os doentes e atrativas para os diferentes intervenientes do setor da saúde. A estratégia do FRASIS é desenvolver e integrar tecnologias de automonitorização e autogestão sem a necessidade de dispositivos adicionais, fazendo uso da presença dos smartphones na vida diária e da sua futura integração com sensores ambientais em cidades inteligentes. O FRASIS pretende assim contribuir para a concretização dos princípios da saúde digital e inovar nas tecnologias de monitorização remota da função respiratória. Espera‑se que os resultados do FRASIS tenham um impacto relevante na inovação em serviços de saúde para a asma, com maior envolvimento e capacitação do doente, fornecendo informação prospetiva e de qualidade para uma melhor decisão clínica, tornando assim os cuidados de saúde mais eficientes e sustentáveis.

Palavraschave: Automonitorização, autogestão, aplicações móveis, asma.

 

ABSTRACT

The FRASIS project aims to develop, integrate and validate a set of information and communication technologies (ICT) of mobile health (mHealth) for remote monitoring of respiratory function in asthma, using only the smartphone and their embedded sensors. Current tools for asthma self‑monitoring and self‑managing are complex, unattractive, not individualized and require laborious analysis by health professionals, discouraging their use in healthcare. There is an opportunity for cost‑effectiv and easy‑to‑disseminate advanced technological solutions directed to patients and attractive to the different stakeholders. The strategy of FRASIS is to develop and integrate self‑monitoring and self‑managing tools, making use of the smartphones presence in everyday life and their future integration with environmental sensors in smart cities. It is expected that FRASIS results may have a large impact on the innovation of asthma care, with increased patient empowerment, providing quality prospective information for better clinical decisions and making healthcare more efficient and sustainable.

Keywords: Self‑monitoring, self‑managing, mobile applications, asthma.

 

INTRODUÇÃO

A asma é um problema de saúde pública com crescente sobrecarga para os sistemas de saúde, economia e sociedade. Assim, há necessidade de soluções que potenciem a redução dos custos e que simultaneamente melhorem os resultados e a qualidade clínica. 

A deterioração da asma depende primariamente da ocorrência de agudizações frequentes, necessitando os doentes de consultas médicas regulares e de monitorização constante do seu estado de saúde. Tradicionalmente, os cuidados de saúde são fornecidos através de interacções presenciais entre o doente e o profissional de saúde, separadas por períodos e sem apoio estruturado. As pessoas com asma começam a ter um papel mais ativo na gestão da sua doença, em parte devido à elevada prevalência da asma, com consequente pressão dos sistemas de saúde e seus financiadores, e também devido à eficácia comprovada das estratégias de autogestão. Nestes casos, os doentes utilizam ferramentas tradicionais de automonitorização (ex. debitómetros, espirómetros portáteis, oxímetros) e autogestão (ex. diários de sintomas, manuais, panfletos e recursos web) da doença entre consultas.

Neste âmbito, ainda que dirigido à doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), o Serviço Nacional de Saúde Português estabeleceu recentemente um programa de incentivo a instituições (modalidade de pagamento) que inclui a monitorização remota1.

A avaliação e monitorização da função respiratória é central na gestão da asma, sendo a manobra de expiração forçada o componente principal2. Comummente realizada através de uma espirometria em ambiente clínico, esta medição é não invasiva e extrai parâmetros clínicos relacionados com o volume e fluxo. Com o aparecimento dos primeiros dispositivos portáteis, que permitiriam uma monitorização regular da função respiratória pelo doente, surgiu a oportunidade de detetar alterações da função respiratória na vida diária da pessoa com asma que necessitassem de avaliação médica ou mudanças no tratamento.

No entanto, as ferramentas atuais de monitorização não estão generalizadas no dia‑a‑dia dos doentes e ainda não demonstraram valor adicional fora do contexto de investigação.

Os poucos estudos e resultados inconsistentes da automonitorização da função respiratória têm limitado a generalização do seu uso na prática clínica3.

Os debitómetros (peak‑flow meters), uma opção debaixo custo, são equipamentos analógicos que só medemo débito expiratório máximo instantâneo, um parâmetrode baixa sensibilidade e que reflete apenas a função dasgrandes vias aéreas. A utilidade deste parâmetro na monitorizaçãoda asma é muito limitada, uma vez que estacondição afeta primariamente as pequenas e médias viasaéreas4. Para colmatar algumas das desvantagens conhecidasdos dispositivos mecânicos, foram desenvolvidos e validados espirómetros eletrónicos que fornecem parâmetrosde maior sensibilidade, como é o caso do volumeexpiratório máximo no 1.º segundo – FEV1)5. Contudo,alguns destes equipamentos não comunicam com aplicaçõespara smartphones (ex. PIKO‑6)5. O National Institute for Health Research Horizon Scanning Research and Intelligence Centre Work Programme avaliou as tecnologias maisrecentes de monitorização da função respiratória6. Trêsespirómetros portáteis com conexão ao smartphoneforam identificados (MySpi‑roo – Polónia, MIR Smart One – Itália, Smartphone spirometer – EUA). Estas foram consideradas tecnologias promissoras com grau elevado de inovação, potencial impacto e probabilidade de adoção pelo Serviço de Saúde do Reino Unido e simultaneamente, consideradas aceitáveis pelos doentes. Contudo, estes sistemas têm um custo significativo e obrigam a canais de distribuição que dificultam a sua generalização.

Desde o aparecimento dos dispositivos portáteis, a evidência da sua utilidade na monitorização da função respiratória tornou‑se mais relevante. Agudizações da DPOC foram identificadas através de sistemas de monitorização da função respiratória que comunicavam com o smartphone7,8. No entanto, apesar do avanço tecnológico que se tem vindo a verificar e da evidência científica crescente, o uso de dispositivos externos aos smartphones constituirá sempre uma solução complexa, com custo adicional para o doente e para os sistemas de saúde, de maior complexidade e acrescida dificuldade de disseminação junto dos doentes comparativamente com soluções que usem o smartphone e os seus próprios sensores.

O uso generalizado dos smartphones, o seu crescente poder computacional e as potencialidades dos seus sensores integrados possibilitam avanços significativos na sua utilização para aplicações móveis (app) de saúde. Estas características, aliadas às vantagens de serem de uso pessoal, portáteis e interoperáveis, conectados ao ambiente tecnológico que os rodeia, e de cada vez menor custo, tornam os smartphones plataformas bastante atractivas para fornecer ferramentas de auto‑monitorizacao, em qualquer lugar e sem requerer dispositivos adicionais. Têm surgido nos últimos anos algumas soluções de análise automática da função respiratória baseada em manobras expiratórias forçadas gravadas com o smartphone, como são exemplos o SpiroSmart (EUA)9, o mCOPD (EUA)10, o BKSpiro (Vietname)11, o sistema de Hasan et al. (Emirados Árabes Unidos)12 e de Teixeira et al. (Portugal)13 e o MobSpiro (Emirados Árabes Unidos)14. Usando o registo de som durante a expiração forçada como surrogate da curva de débito de volume, são estimados parâmetros clínicos de caracterização de função respiratória, validados com respeito à espirometria. Estes métodos são tipicamente específicos para registos efetuados com um único smartphone e nem todos foram adequadamente validados.

O mCOPD foi validado em 40 voluntários, registando o som respiratório durante a espirometria, ou seja, durante a utilização do bucal, que condiciona a posição da boca.

Assim, não é possível inferir sobre o desempenho do método sem a utilização deste dispositivo. O sistema proposto por Hasan et al.12 foi validado em voluntários saudáveis e um único caso de asma, enquanto o BKSpiro foi testado num conjunto de 17 estudantes voluntários e ainda assim com precisão limitada. Estes sistemas carecem por isso de uma validação efetiva junto dos utilizadores finais – os doentes. Os métodos recentemente desenvolvidos dentro do nosso grupo de I&D por Teixeira et al.13, embora com resultados muito encorajadores em cerca de 60 doentes, carecem de validação em ambiente real, já que os registos foram efetuados em ambiente controlado. Este método exige ainda que a manobra seja efetuada maximizando a distância ao microfone para reduzir problemas de saturação e não inclui verificação da qualidade da manobra. O MobSpiro foi validado em 10 doentes, 5 fumadores e 5 voluntários saudáveis, sendo também reportados problemas com a distância ao microfone. O SpiroSmart é a solução que se encontra numa fase mais madura de desenvolvimento, possuindo uma base de dados de 4000 doentes e estando atualmente em processo de aprovação pela Food and Drug Administration (Comstock). No entanto, o SpiroSmart não tem capacidade de analisar os dados em tempo real e os modelos de análise implementados não são personalizáveis às características do doente.

As orientações nacionais e internacionais recomendam a capacitação dos doentes na autogestão da sua doença. Existe evidência de que o fornecimento de cuidados de saúde via TIC tem efeitos benéficos na gestão das doenças crónicas15. Estudos com doentes asmáticos demonstraram que estes têm interesse e estão dispostos a usar as TIC na gestão da sua doença16,17. Uma revisão sistemática recente sobre as apps na melhoria do controlo dos sintomas da asma encontrou apenas dois estudos randomizados controlados entre centenas de artigos18. Assim, está ainda por determinar o potencial e valor acrescentado das apps na autogestão da asma.

É urgente o desenvolvimento de soluções tecnológicas de automonitorização que sejam atrativas, de baixo custo e de rápida disseminação, para que, ao envolver os doentes na monitorização e gestão da doença, os capacite para reconhecer precocemente os sinais de agudização e para desenvolver competências para melhor gerirem a sua doença e travar a sua deterioração. Estas soluções ainda podem transmitir aos doentes a perceção de acompanhamento entre consultas e de segurança quanto às suas decisões diárias relacionadas com a sua saúde.

O FRASIS desenvolverá e validará um conjunto de TIC de mHealth com abordagens inovadoras e eficientes para a monitorização remota do doente e suporte à gestão da asma. Pretende‑se o desenvolvimento, validação e avaliação de um sistema que constitua uma ferramenta de baixo custo e fácil disseminação para complementar a prestação de cuidados de saúde de elevada qualidade, não se pretendendo interferir com os processos iniciais de diagnóstico da asma ou de prescrição de terapêutica. O sistema centrar‑se‑a na capacitação do doente para monitorizar e melhorar a sua saúde e dos prestadores de serviços de saúde para uma decisão clínica apoiada por melhor informação, tornando os cuidados de saúde mais eficientes e sustentáveis.

Este projeto pretende, por isso, responder a desafios atuais dos cuidados de saúde, ao providenciar suporte ao recurso adicional dos cuidados, que apoiará o próprio doente na melhor gestão da sua doença. Simultaneamente, o projecto pretende apoiar os profissionais e os sistemas de saúde, que, através do acesso a informação clínica de elevado valor, poderão reconhecer e atuar precocemente em situações de risco e/ou deterioração, melhorando assim a qualidade da prestação de cuidados de saúde.

OBJETIVOS

As ferramentas atuais de monitorização da função respiratória fornecem parâmetros de baixa sensibilidade (levando a falsos negativos) que não demonstraram ainda valor adicional fora do contexto de investigação, limitando a generalização do seu uso. Uma das estratégias para integrar a monitorização da função respiratória no dia‑a‑dia das pessoas com asma, em qualquer local, e sem a necessidade de dispositivos adicionais, é fazendo uso da ubiquidade dos smartphones, dos seus sensores integrados (ex. microfone, câmara), da sua capacidade avançada de processamento de sinal e de comunicação. Neste sentido, o projecto FRASIS tem como objetivo 1) desenvolver tecnologias inovadoras, efetivas e fiáveis de 1.1) automonitorização para pessoas com asma, baseadas em sensores existentes no smartphone e que 1.2) permitam extrair parâmetros de caracterização da função respiratória (TRL 2‑4) que reflictam o estado do doente, nomeadamente índices de variação com respeito à última prova de função respiratória laboratorial disponível. Estas tecnologias de automonitorização, aliadas às tecnologias dos smartphones podem auxiliar na gestão e transação de dados entre o doente e o clínico/serviços de saúde e, simultaneamente, promover uma gestão da doença mais informada e participada.

De forma a colocar as tecnologias de monitorização da função respiratória ao serviço efetivo da pessoa com asma e dos serviços de saúde, o projeto pretende também 2) desenvolver um sistema baseado numa aplicação móvel (app) para smartphone que implemente as tecnologias inovadoras desenvolvidas em 1) (TRL 2‑4). Esta app de saúde digital constitui um sistema de informação, de monitorização e de gestão remota e de interação medico‑doente que é uma oportunidade para a prestação de cuidados de saúde adicionais, inovadores e de elevada qualidade. Constitui, portanto, uma solução digital de grande potencial na melhoria dos sistemas de saúde, não só em Portugal como internacionalmente.

Para assegurar que as tecnologias inovadoras desenvolvidas são adequadas às necessidades e expectativas das pessoas com asma, o projeto FRASIS irá validar e testar as tecnologias e metodologias inovadoras em ambiente clínico laboratorial e em ambiente real, junto dos utilizadores finais. Os estudos de teste e validação ocorrerão em duas fases, uma inicial em ambiente clínico laboratorial mais focada na exequibilidade, utilidade e usabilidade da app, e outra na comunidade, com foco na avaliação da magnitude do efeito da app nos resultados clínicos (TRL 5‑6).

Ao construir estes produtos de saúde digital em colaboração com as pessoas com asma e com os serviços de saúde, o FRASIS facilita a transferência desta tecnologia da área do conhecimento para a sociedade e para o setor económico.

MÉTODOS

Soluções propostas pelo FRASIS

O FRASIS pretende inovar essencialmente no âmbito das tecnologias de avaliação e monitorização da função respiratória.

Neste âmbito, foram desenvolvidos recursos para gravação de sons de manobras respiratórias forçadas através de dispositivos móveis, complementada pelos respectivos dados clínicos, e algoritmos iniciais de processamento e classificação de função respiratória, os quais servirão de base aos desenvolvimentos no projeto. Estes algoritmos podem ser divididos em três grandes componentes: 1) a componente de pre‑processamento, cujo objetivo é identificar as secções das gravações que correspondem às expirações forçadas; 2) a componente de processamento, onde se transformam essas secções em gráficos com formato similar aos obtidos por espirómetros em ambiente clínico; e 3) a componente de estimação de parâmetros clínicos standard (ex. FEV1), onde se procura estabelecer uma equivalência entre os resultados obtidos a partir das gravações com dados obtidos a partir de um espirómetro. A definição de novos índices/parâmetros que reflitam o estado do doente, nomeadamente índices de variação com respeito à última prova de função respiratória laboratorial disponível, é uma questão pertinente a ser explorada. Ainda assim, os maiores desafios estão associados à componente de aquisição e pré‑processamento.

Por um lado, os algoritmos têm de ser robustos a variáveis difíceis ou mesmo impossíveis de controlar, como variações entre dispositivos nas especificações técnicas dos microfones, a localização física nos mesmos, a distância do utilizador ao microfone durante a manobra, a posição da boca na expiração forçada. Por outro lado, é necessário desenvolver algoritmos que lidem adequadamente ruídos indesejados (ex. tosse, ruído ambiente).

A arquitetura da solução proposta está esquematizada na Figura 1. Com o doente no centro deste paradigma, o FRASIS pretende capacita‑lo para a automonitorização e autogestão da asma através de uma app, a face mais visível de um sistema integrado mais complexo. A app permitirá a aquisição de sons respiratórios para avaliação da função respiratória e de parâmetros diversos autorreportados que permitirão a caracterização do doente, seus comportamentos e circunstâncias. As tecnologias móveis de processamento de som respiratório incorporadas na app permitirão a estimação de parâmetros adicionais de monitorização com base nos sinais adquiridos. Uma interface para acesso à informação clínica, sempre autorizada pelo doente, permitirá a visualização pelo profissional de saúde, extração de relatórios de monitorização do doente e dados para estudos. Adicionalmente serão constituídas bases de dados alojadas em servidor: um repositório dos sons para investigação (público) e bases de dados (privada), incluindo a informação (parâmetros reportados ou estimados, informações de monitorização do sistema, etc.) e dados de comunicação com a app.

 

 

Estrutura do plano de trabalho

O FRASIS desenvolve‑se ao longo de duas atividades, a atividade A1 dedicada ao desenvolvimento das tecnologias e app, e a atividade A2 destinada à sua avaliação, num total de 11 tarefas. Foram ainda definidos 6 pontos cruciais de controlo do desenvolvimento do projeto (metas), os quais permitirão acompanhar o mesmo e detetar atrasos. A organização temporal das tarefas e as suas interdependências são explicitadas na Figura 2.

As tarefas T1.1 a T1.5 da atividade de desenvolvimento visam a consecução dos objetivos 1 e 2, relativos às tecnologias de automonitorização e sua integração numa app. Em particular as tarefas T1.1 a T1.4 terão como resultado final o sistema computacional de análise e processamento dos sinais e dados, adquiridos com o propósito de avaliação da função respiratória, sendo que a sua conclusão constitui a 1.ª meta do projeto (M1). Da tarefa T1.5 resultará o protótipo para as tecnologias móveis de processamento de som respiratório integrados numa app orientada ao doente com asma, que responde ao objectivo 3 do projeto e constitui a 2.ª meta do projeto (M2).

Este protótipo será utilizado nos estudos da atividade de avaliação (tarefas T2.1 a T2.4).

Os estudos de validação (T2.2 e T2.3) serão desenvolvidos segundo o especificado em T2.1 e devolverão informação que permitirá o aperfeiçoamento dos protótipos em T1.6. A versão final das tecnologias móveis de monitorização e a conclusão dos estudos de validação das mesmas constituem respetivamente a 3.ª e 4.ª metas do projeto (M3 e M4). O 3.º ano do projeto será dedicado ao estudo de avaliação prospetiva da magnitude do efeito do sistema desenvolvido (T2.4), com o apoio técnico de T1.7, e à divulgação técnico‑científica dos resultados do projeto. Dada a sua importância, foi definida como 5.ª meta (M5) o fim do recrutamento, sendo que 6.ª e última meta do projeto (M6) corresponde à conclusão dos estudos de avaliação, incluindo a análise dos dados.

No contexto deste projeto, a privacidade e segurança da informação de saúde são indispensáveis. Será definido um plano de gestão de ética, segurança e privacidade, ao qual caberá a salvaguarda dos direitos de todos os utilizadores envolvidos. Deste plano constará a lista de aprovações e autorizações necessárias, de forma a cumprir todos os requisitos legais e regulamentares aplicáveis. Será assegurado um sistema de controlo de acesso seguro e partilha fácil e segura de informação com profissionais de saúde.

Serão elaborados e submetidos os consentimentos informados e pedidos de autorização e aprovação identificados como necessários, incluindo a Comissão Nacional de Proteção de Dados, comissões de ética para a saúde e instituições envolvidas na recolha de dados e recrutamento de doentes. Para além de seguir o descrito na legislação Portuguesa de Proteção de Dados sobre o tratamento de dados pessoais e identificáveis dos doentes, o FRASIS irá também, no âmbito do novo Regulamento Europeu de Proteção de Dados, apresentar de uma forma clara e objetiva (de preferência visual) como os dados estão a ser tratados, por quem, e a alteração nesses procedimentos, incluindo a opção de autoexclusão (opt‑out) dos doentes, caso haja alterações no tratamento ou utilização dos seus dados.

No decorrer da atividade A1 serão desenvolvidas as tecnologias móveis para auto‑monitorização da asma e App (tarefas T1.1 a T1.7), como detalhado na Quadro 1.

Assim pretende‑se:

• definir e desenvolver estratégias inovadoras de aquisição, processamento e análise de sinal e dados que respondam aos desafios específicos da monitorização da função respiratória em sistemas móveis;

• desenvolver as metodologias e tecnologias necessárias à construção dos produtos de processamento e análise da função respiratória;

• integrar informação adicional de monitorização (incluindo informação autorreportada), desenvolvendo produtos completos de monitorização de asma;

• especificar e desenvolver as interfaces de comunicação entre diversos componentes, assim como com os utilizadores;

• implementar as ferramentas desenvolvidas numa app de mHealth.

Na atividade A2 pretende‑se planear e conduzir os estudos em doentes com asma para validação do protótipo do sistema de automonitorização da asma e avaliação da sua versão final (tarefas de T2.1 a T2.4), como detalhado no Quadro 2. Os dados gerados por estes estudos irão também criar novas oportunidades para investigação e para desenvolvimento de cuidados de saúde inovadores.

O recrutamento dos doentes para os estudos coloca ao projeto um desafio, cujos riscos são desde já antecipados.

Como medida preventiva a equipa efetuou inquéritos online dirigidos a profissionais de saúde para aferir da disponibilidade de recrutamento dos seus doentes para estudos com utilização de app de saúde cujos resultados antecipam uma ampla colaboração dos mesmos. Por outro lado, o acesso da equipa a unidades de saúde, profissionais de saúde, doentes e associações de doentes está garantido, reduzindo substancialmente as dificuldades no recrutamento.

Foi prevista uma duração das tarefas T2.2, T2.3 e T2.4 que acomodem as dificuldades de recrutamento e a eventual perda de participantes por dificuldades de adesão à app.

RESULTADOS ESPERADOS

Preve‑se que do projeto FRASIS resultarão:

• um modelo computacional para processamento de som respiratório para automonitorização de doentes com asma;

• um protótipo de tecnologias móveis para processamento de sons respiratórios implementado numa app a validar nos estudos em monitorização de asma;

• um produto de tecnologias móveis para monitorização da função respiratória validado em doentes com asma;

• uma base de dados de sinais de som respiratório organizada para disponibilização à comunidade científica.

CONCLUSÃO

O FRASIS pretende desenvolver e validar um conjunto de tecnologias de informação e comunicação com abordagens inovadoras e eficientes para a monitorização remota da função respiratória, utilizando os próprios sensores dos smartphones para a recolha de dados. Estas tecnologias de saúde móvel digital serão cruciais para facultar ao doente formas efetivas de monitorizar a asma, identificando precocemente agudizações e contribuindo para a melhor gestão da doença.

Espera‑se assim que o FRASIS contribua para a concretização dos princípios da saúde digital e para a inovação em tecnologias de monitorização remota do doente.

Espera‑se que os resultados do FRASIS tenham um impacto relevante na inovação em serviços de saúde para a asma, com maior envolvimento e capacitação do doente no seu tratamento, fornecendo informação prospectiva de qualidade para uma melhor decisão clínica, tornando os cuidados de saúde mais eficientes e sustentáveis.

 

REFERÊNCIAS

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Contacto:

Rute Almeida

CINTESIS – Rua Dr. Plácido da Costa, s/n

4200‑450,

Porto, Portugal

email: rutealmeida@med.up.pt

 

Declaração de apoios financeiros: Este trabalho foi parcialmente financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) no âmbito da operação POCI‑01‑0145‑FEDER‑007746 financiado pelo COMPETE2020 e por fundos nacionais através da FCT – CINTESIS, Unidade de I&D (referência UID/IC/4255/2013) e GECAD, Unidade de I&D (referência UID/EEA/00760/2013).

Cristina Jácome é bolseira de pós‑doutoramento (SFRH/BPD/115169/2016) financiada da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Portugal. Rute Almeida é financiada pelo Projeto NORTE‑01‑0145‑FEDER‑000016 (NanoSTIMA), financiado pelo NORTE 2020, através do Portugal 2020 e do FEDER. Rita Amaral e Ana Sa‑Sousa são bolseiras financiadas pelo “Programa de Doutoramento FCT” (PD/0003/2013), relativo ao “Programa Doutoral em Investigação Clínica e Serviços de Saúde – PDICSS”.

 

Agradecimentos

A equipa do projeto agradece o empenho colocado pelo Professor Doutor João Almeida Fonseca na elaboração deste projeto, em particular pela disponibilização de meios e envolvimento da equipa da MEDIDA – Serviços em Medicina, EDucação, Investigação, Desenvolvimento e Avaliação, LDA. Agradecemos à equipa de gestão do CINTESIS, em especial à Isabel Costa Pereira, à Paula Abrantes, à Catarina Alves Neves e ao António Soares, pelo tempo dedicado a apoiar a elaboração do FRASIS.

 

Prémio SPAICASTRAZENECA 2017

 

Data de receção / Received in: 16/11/2017

Data de aceitação / Accepted for publication in: 02/12/2017

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