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Arquivos de Medicina

versão On-line ISSN 2183-2447

Arq Med vol.27 no.5 Porto out. 2013

 

ARTIGO DE REVISÃO

Obesidade e imunodepressão - Factos e números

Obesity and immunodepression -Facts and Figures

Ana Inês Grenha1*, Fernanda Alves1*, Filipa Ribeiro1*, Tânia Cavaco1*

 

1Faculdade de Medicina Universidade do Porto

 

Correspondência

 

RESUMO

Plano de Fundo: A obesidade tem sido associada a uma diminuição da resposta imune a certos patogénios. O despertar para este assunto deu-se há três décadas, tendo-se intensificado nos últimos anos com o aumento da incidência mundial da obesidade. Estudos têm tentado explicar a base molecular e celular subjacente aos mecanismos da imunodepressão na obesidade. O interesse da nossa revisão advém da clarificação desta associação numa tentativa de otimizar planos e intervenções terapêuticas.

Resultados/discussão: Foram encontradas evidências de imunodepressão associada à obesidade: menor libertação de citocinas, défice numérico e funcional de células dendríticas e células NK (natural killer), menor ativação macrofágica e menor proporção de células T CD8+. Os obesos são mais suscetíveis a infeções, principalmente do foro respiratório. Em resposta à vacinação apresentam uma menor proporção de células T memória CD8+ e de IgG (imunoglobulina G) anti-antigénio. A imu­nodepressão nas grávidas obesas tem implicações na defesa imunológica do feto. Há evidência de um envolvimento da resistência à leptina na base destas alterações.

Conclusão: Apesar de haver estudos que não verificam alteração na resposta imunológica dos obesos, outros há que comprovam a imunodepressão na resposta às infeções respiratórias víricas, à vacinação contra o tétano, hepatite B e Influenza e nas grávidas obesas. Deste modo, é imperativa a realização de mais estudos com validades interna e externa que elucidem acerca da real associação entre a obesidade e a resposta imune.

Palavras-chave: Obesidade, Imunodepressão, Imunidade, Infeções, Vacinação, Grávidas Obesas

 

ABSTRACT

BackgRound: Obesity has been associated with an impaired immune response to certain pathogens. The awakening for this subject has occurred three decades ago, having intensified in the last few years with the increase of worldwide incidence of obesity. studies have been trying to explain the molecular and cellular basis of the immunodepression mechanism in obesity. The aim of our review is to clarify this association in an attempt to optimize plans and therapeutic interventions. Results/discussion: Evidence of immunodepression associated with obesity was found: lower cytokine release, numeric and functional deficits of dendritic cells and NK (natural killer) cells, lower macrophage activation and lower proportion of T CD8+ cells. Obese are more susceptible to infections, mainly respiratory ones. In response to vaccination they present a lower proportion of memory T CD8+ cells and anti-antigen IgG (immunoglobulin G). The immunodepression in obese pregnant has an implication in the fetus’ immunological defense. There is evidence of an involvement of a leptin resistance on the basis of these alterations. Conclusions: Although there are studies that don’t verify any alteration of the immune response in obese, there are others that prove there is an immunodepression in response to viral respiratory infections; tetanus, hepatitis B and Influenza vaccination and in obese pregnant. Thus it is imperative to achieve more studies with internal and external validity which elucidate about the real association between obesity and the immune response.

Key-words: Obesity, Immunodepression, Immunity, Infections, Vaccination, Obese pregnant

 

Introdução

A obesidade é um problema de saúde a nível mundial, atingindo cerca de 500 milhões de adultos e quase 43 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade. Em 2015, estima-se que estes valores aumentem para números próximos dos 700 milhões. Define-se como um excesso de adiposidade de causa multifatorial, primariamente devido a um balanço energético positivo prolongado (ingestão calórica excessiva associada a estilo de vida sedentário). Caracteriza-se por um estado de inflamação crónica, com níveis perturbados de nutrientes em circulação e hormonas metabólicas, mas que não confere vantagem no combate a infeções.1,2,3 Várias comorbilidades estão associadas à obesidade, nomeadamente a disfunção imunitária. Há evidência de associação entre o tecido adiposo e as células imunocompetentes, na qual a relação entre a obesidade e uma função imunitária diminuída tem sido descrita em humanos. Uma possível explicação está nas adipocinas pró-inflamatórias induzirem stress oxidativo e resistência à leptina, com disfunção quer na imunidade inata quer na adquirida.1,4,5 Com este trabalho pretendemos clarificar a influência da obesidade nas alterações do sistema imune. Evidenciamos a resposta às infeções respiratórias, vacinas e durante a gravidez, explicando os mecanismos imunológicos implicados.

 

Materiais e métodos

Foi efetuada uma revisão de artigos publicados na pubmed, relacionados com o tema Obesidade e Imunodepressão. Os nossos critérios de inclusão foram que o seu propósito fosse o estudo da função imunitária na obesidade, escritos em inglês e disponibilidade de texto completo. Excluímos os estudos sem referência a obesidade e imunidade, com foco central em inflamação crónica na obesidade ou que estudassem apenas os efeitos no sistema imune de certas comorbilidades frequentes em indivíduos obesos. Inicialmente, pesquisámos pela querie “obesity” [mesH Terms] Or “obesity”[All Fields]) AND immunodepression[All Fields], tendo sido obtidos 5 resultados, dos quais nenhum cumpria os critérios de inclusão. Para contornar o problema decidimos utilizar várias queries específicas para os diversos subtemas que pretendíamos abordar e que se encontram referenciadas na Tabela 1 (em anexo).

 

 

A seleção dos artigos incluiu duas fases. Numa fase inicial foram lidos os títulos e resumos dos 59 obtidos tendo aplicado aos mesmos os critérios de inclusão e exclusão. Passaram para a fase seguinte 16 artigos, os quais foram divididos pelos elementos do grupo que procederam à leitura completa do artigo. Na fase de leitura completa foram aprovados 14. Este grupo inclui estudos experimentais, revisões e estudos observacionais, entre os quais estudos transversais e caso-controlo. Os tipos de estudos, os seus objetivos e os principais resultados encontram-se descritos na Tabela 2 (em anexo). Após a análise crítica dos artigos e discussão dos principais achados pelo grupo, redigiu-se esta revisão.

 

Resultados / Discussão

Alterações no Balanço Nutricional na Obesidade

Os processos imunitários envolvidos na defesa do organismo são afetados pelo estado nutricional, tanto por défice como por excesso. Assim, um balanço energético positivo e a qualidade dos nutrientes ingeridos na obesidade poderão influenciar as respostas imunológicas inatas e adquiridas. Na obesidade é comum um aporte excessivo de determinados nutrientes em detrimento de outros que são ingeridos de forma deficitária. A ingestão excessiva de certos nutrientes poderá estar relacionada com o aumento da imunocompetência mas poderá também induzir imunodepressão. Esta redução de função também se verifica quando há menor ingestão de outros micronutrientes.4

Alterações da Imunidade inata e adquirida na Obesidade

O tecido adiposo produz proteínas relacionadas com o sistema imune como a adipsina, adiponectina, TNF-α (fator de necrose tumoral, do inglês tumor necrosis factor-α), IL (interleucina) 6, IL-1ß e leptina.1,6

A adiponectina encontra-se diminuída num estado de obesidade, o que se pensa estar associado a alterações da citotoxicidade das células NK e produção de citocinas. Por outro lado, a produção de TNF-α, IL-6 e IL-1ß encontra-se bastante aumentada no tecido adiposo branco. Coloca-se a hipótese de que estas alterações dessensibilizem as células imunitárias na resposta inflamatória. No entanto, o seu impacto precisa de ser melhor estudado.1

A adipsina (aumentada nos obesos), por sua vez, tem atividade fator complemento D, estando relacionada com a via alternativa do complemento.6 Os PPARγ (recetores γ ativados pela proliferação de peroxissomas, do inglês peroxisome proliferatoractivated receptors γ), altamente expressos nos adipócitos, parecem também estar relacionados com o sistema imune, estando envolvidos na função macrofágica.4

A leptina tem mostrado particularmente um papel importante na regulação da função imune, nomeadamente efeitos pleiotrópicos na função linfocitária, regulação da apoptose, desenvolvimento do timo, proliferação e maturação de células T, na modulação da expressão de marcadores ativados nas células T CD4+ e CD8+ e na produção de citocinas. Desempenha também um papel relevante na regulação de apoptose de monócitos, proliferação de células mielóides, no restabelecimento da depressão da imunocompetência induzida pelo jejum e na regulação da atividade dos neutrófilos e macrófagos.1,4,7 As células NK são também bastante influenciadas pela leptina, quer na sua diferenciação e proliferação, quer na sua ativação e funcionalidade.1 A leptina aumenta a produção de IL-2 (promove a proliferação e diferenciação de células T citotóxicas e estimula as células NK) e a resposta dos Th1 (T helper 1), aumentando a produção de interferão γ (estimula a resposta fagocitária dos macrófagos) e TGF-ß (fator transformador de crescimento ß, do inglês transforming growth factor-ß), enquanto inibe a resposta pelas Th2 (T helper 2), ou seja, vai diminuir a produção de IL-4, IL-5, IL-6, IL-10, IL-13.1,3,4,8

Indivíduos obesos têm hiperleptinemia e estudos em ratinhos obesos demonstraram que células NK, monócitos e células T desenvolvem resistência à leptina. A leptina, através da via JAK/STAT, vai provocar a ativação da transcrição de SOCS1 e 3 (gene supressor de sinalização das citocinas 1 e 3). Os SOCS têm um efeito de feedback negativo na via de sinalização JAK/STAT, pelo que os seus níveis elevados, encontrados nos obesos, vão resultar numa dessensibilização à leptina, contribuindo para a resistência central e periférica.1,8,9 Em relação ao efeito da leptina nas células T, tem sido sugerido que as alterações nos linfócitos se encontram implicadas no efeito da obesidade nas respostas inflamatória e imunitária. A obesidade também foi associada a alterações na frequência de subpopulações linfocitárias no sangue periférico. Foi observado um aumento de células T CD4+ em indivíduos obesos com diferença média de 11,9% para os não obesos; um decréscimo das células T CD8+ em obesos com diferença média de 9,4% e uma elevação nas células T CD8+CD95+ com diferença média de 13,3%. Uma grande percentagem de células T CD8+ expressa CD95 (recetor Fas que leva à apoptose). Este aumento poderá explicar a predisposição das células T CD8+ à apoptose nos obesos.7

Em ratinhos obesos com mutações no gene da leptina ou no recetor da leptina (OB-rb) tem sido também observada linfopenia em todos os tipos de células T, uma diminuição de células B, decréscimo da resposta linfocitária a mitogénios e uma menor produção de IL-2, o que explica uma diminuição da capacidade das células T proliferarem. Um decréscimo na captação de glicose pelos linfócitos poderá também explicar este facto. Para além disso, a produção de TNF-α pelo Tecido adiposo em ratinhos geneticamente obesos tem-se verificado aumentada, o que afeta o desenvolvimento do tecido linfóide, induzindo apoptose. Tem-se reportado também que a produção deste fator se encontra amplificada em indivíduos obesos, o que poderá explicar a linfopenia de células T também observada em humanos.6

Adicionalmente, em ratinhos Zucker obesos, a atividade das células NK tem sido encontrada diminuída, bem como o burst oxidativo (61,93±2,89% em ratinhos obesos e 75,52±4,47% em ratinhos controlo) relacionado com o aumento dos níveis de mRNA de UCP2 (proteínas desacopladoras mitocondriais 2, do inglês mitochondrial uncoupling proteins 2) no baço (1,25±0,23% em ratinhos obesos e 0,61±0,09% em ratinhos controlo). sabe-se que na presença de UCP2 a capacidade de os macrófagos gerarem rOs (espécies reativas de oxigénio, do in glês reactive oxigen species) diminui. A menor atividade fagocítica verificada também poderá estar associada aos níveis aumentados de TNF-α.6

No entanto, como já foi referido, não tem havido concordância entre os vários estudos realizados. Uns apontam para um aumento do número de linfócitos na obesidade, outros referem não haver diferença nas células circulantes.7 Outros estudos referem que há um número elevado de leucócitos sem alteração no número de células NK e uma reduzida proliferação de linfócitos acompanhada de uma maior atividade fagocítica e burst oxidativo. Todavia, é de salientar que vários estudos conseguiram estabelecer uma correlação positiva entre tecido adiposo e o número total de leucócitos, neutrófilos, monócitos e linfócitos. Mas por outro lado, não encontraram relação com a fagocitose, apesar do burst oxidativo se encontrar aumentado.4 Põe-se a hipótese de os altos níveis de colesterol, de triglicerídeos e de glicose associados a um índice de massa corporal elevado sejam um dos motivos pelo qual se pensa haver discrepância dos resultados entre os vá rios estudos já realizados -a obesidade está associada a múltiplas comorbilidades. Para além do mais, o facto de os indivíduos precisarem de tomar várias medicações, o envolvimento do SNC e do sistema endócrino, as diferenças de IMC (índice de massa corporal), de idade, de comportamentos e dieta são outros fatores de confundimento.

Adicionalmente, ainda muito poucos estudos foram feitos comparando as respostas imunes entre indivíduos obesosenão obesos e os que foram feitos incluem um número muito limitado de indivíduos e de determinações imunológicas.1,4,6,7

Obesidade e infeções

Diversos estudos referem que os obesos hospitalizados estão mais suscetíveis a desenvolver infeções secundárias e complicações como infeções relacionadas com cateteres, bacteremias, sépsis e pneumonias. Na população obesa geral, as infeções são maioritariamente causadas pelos seguintes patogénios: Mycobacterium tuberculosis, coxsackievirus, Helicobacter pylori, vírus da encefalomiocardite e vírus Influenza.10 As infeções respiratórias são as mais frequentemente associadas ao estado de imunodepressão da obesidade. Como tal, os mecanismos subjacentes a este fenómeno serão detalhados de seguida.

Infeções Respiratórias nos Obesos

Em 2009, com a pandemia do vírus H1N1, a obesidade foi reportada, pela primeira vez, como fator de risco independente para um aumento da severidade do vírus Influenza.11 Este aspeto abriu precedentes e surgiram estudos sobre a forma como a obesidade afeta a resposta imunológica inata e adquirida em caso de infeção respiratória vírica primária e secundária.

No caso de infeção pelo vírus da influenza A, a primeira linha de defesa (imunidade inata) passa pela ativação de células NK que vão destruir as células infetadas e recrutar, por libertação de IFN (interferão, do inglês interferon) γ, macrófagos e células dendríticas. Estas vão produzir IFN-α e ß e apresentar antigénios para ativar linfócitos T naïve, fazendo a ligação para a imunidade adquirida.

No entanto, em estudos com ratinhos DIO (obesidade induzida pela dieta) demonstrou-se uma menor produção nos pulmões de IFN-α/ß e IL-10 e um atraso na expressão de IL-6 e TNF-α (aos 3 dias após infeção por Influenza A), ainda que depois se mantenham em níveis elevados durante mais tempo.5,11 Há ainda uma capacidade funcional das células dendríticas alterada e uma menor percentagem e citotoxicidade das células NK, apesar de nos obesos pré-infetados o número de NK nos pulmões ser igual ao dos não obesos. Esta menor toxicidade referida pode dever-se ao défice de IFN-α/ß e à resistência à leptina dos obesos, como se viu anteriormente. um número reduzido de células dendríticas nos pulmões também se verifica mas tal não acontece nos nódulos linfáticos (onde há mais do que nos não obesos) sugerindo que a obesidade não afeta a migração das células dendríticas.11

Ora, tal ocorre com as infeções respiratórias víricas, mas relativamente à suscetibilidade dos obesos às bacterianas, ainda pouco foi descrito e este é um problema sério visto que o Influenza está muitas vezes associado a pneumonias bacterianas secundárias.

Assim, estudos indicam que os indivíduos obesos têm um maior risco de desenvolver pneumonias da comunidade (que são a maioria das vezes bacterianas), embora outros estudos mostrem que a mortalidade é menor, sugerindo uma potencial proteção pela obesidade. Esta poderá ser explicada pelo facto de um baixo ImC se relacionar com doenças crónicas que aumentam a mortalidade por pneumonia.5

No que toca a obesidade e pneumonias nosocomiais, que são sobretudo bacterianas, a informação existente não é clara. Certos estudos admitem que doentes obesos admitidos no hospital para serem sujeitos a cirurgias não têm risco acrescido de terem pneumonia nosocomial, enquanto outros estudos referem que obesos politraumatizados têm maior risco.5

Perante isto, não há ainda conclusões claras quanto à associação entre obesidade e pneumonias bacterianas. Sabe-se apenas que a resistência à leptina típica da obesidade leva a menor produção macrofágica de leucotrienos, com consequente decréscimo da função imunológica perante pneumonias bacterianas.5

Outros dados contraditórios prendem-se com a adiponectina e a lipocalina 2. Enquanto a primeira está diminuída nos obesos, o que leva a menor ativação dos macrófagos alveolares, a segunda está aumentada e isso potencia a proteção contra E.Coli pneumoniae e Klebsiella.

Alteração da função das células T memória e vacinação

Antes pensava-se que a alteração da resposta à vacinação nos indivíduos obesos estava unicamente relacionada com fatores mecânicos, tais como as diferenças na concentração e volume de distribuição em comparação com indivíduos de peso normal. Além disso, algumas vacinas têm recomendação de administração por via intramuscular, o que em indivíduos obesos pode resultar numa administração no tecido adiposo que culminará numa menor absorção. Mais tarde começou-se a atribuir essa resposta alterada ao estado inflamatório crónico característico da obesidade, expresso por um aumento de citocinas, como a IL-6 e TNF-α. Hoje em dia fala-se em alterações da função do sistema imune.12

Em 2006 realizou-se um estudo sobre a influência do excesso de peso e obesidade na vacinação do tétano em crianças. Verificou-se que os marcadores anti-tétano (IgG anti-tétano) estavam diminuídos de forma estatisticamente significativa em comparação com indivíduos não obesos [anti-tétano IgG (Iu/ml):4,2±0,5 em indivíduoscomImC<percentil 85 ajustado para a idade; 2,6±0,5 em indivíduos com ImC> percentil 85 ajustado para a idade], sem que se alterassem as concentrações de imunoglobulinas globais. No entanto, estas concentrações mantêm-se bem acima das recomendadas (>0,1Iu/ ml), pelo que não há evidência de aumento da prevalência de tétano nos indivíduos obesos.12

Além dos efeitos dos fatores mecânicos, os autores referem ainda como explicação possível para os níveis de IgG diminuídos um aumento de IL-6 produzida ao nível do tecido adiposo, que contribui para o estado inflamatório crónico.12 Avançou-se com a possibilidade das citocinas inflamatórias também reduzirem a reposta celular imune, possivelmente através da alteração da função das células T memória. Isto foi demonstrado pela resposta blastogénica linfocitária diminuída, principalmente por redução das células CD45rO+ (presente em células T memória), à concanavalina A e à fitohemaglutinina.12

Mais tarde foi realizado um estudo sobre a influência da obesidade na vacinação da hepatite B, desta vez em ratinhos WNIN/Ob, que apresentam ImC elevado, hiperfagia, elevada razão de eficiência na alimentação, atividade locomotora reduzida, polidipsia, poliúria, proteinúria, euglicemia, hiperinsulinemia, hipertrigliceridemia, hipercolesterolemia e hiperleptinemia. Os ratinhos obesos vacinados apresentaram marcada diminuição da resposta proliferativa linfocitária no baço em resposta ao HBsAg (antigéniode superfície do vírus da Hepatite B, do inglês Hepatitis B surface Antigen), que leva a diminuição de resposta IgG específica. Este facto tem implicações na manutenção da proteção e memória imunológica. referem ainda que as percentagens de células Beníveis totais de IgG no soro eram comparáveis entre ratinhos obesos e de peso normal mas que foram encontradas alterações a nível das percentagens das diferentes células T (diferentes em ratinhos macho e fêmea e, por vezes, contraditórios com estudos anteriores).13

De acrescentar que estados hormonais e metabólicos alterados, característicos da obesidade, parecem estar relacionados com diferentes alterações da função imune, o que pode explicar diferenças encontradas entre estudos que utilizam modelos de ratinhos diferentes. por exemplo, os ratinhos WNIN/ Ob têm ainda elevados níveis de corticosterona, conhecido supressor da função imune. Já tanto estes como a maioria dos indivíduos obesos têm hiperinsulinemia e hiperlipidemia, que diminuem a resposta celular imune por alteração das células NK e da proliferação de linfócitos a nível periférico.13

Atualmente sabe-se um pouco mais sobre o assunto, dando acentuado destaque à diminuição da resposta imune mediada por células, protagonizada pela alteração da função das células T memória.

Mais recentemente, com a pandemia da estirpe do vírus Influenza H1N1, os investigadores têm-se debruçado mais em estudos que avaliem a eficácia da vacina contra o Influenza em indivíduos obesos.2 Sabendo que o vírus influenza sofre mutações contínuas nos antigénios de superfície e rearranjos genéticos resultando em novas estirpes, uma vacina que promova a habitual resposta por parte de células B memória baseada em anticorpos para a superfície do vírus poderá ser ineficaz para estirpes na estação seguinte. Já as células T memória, que conseguem detetar proteínas menos variáveis na superfície do vírus, são mais eficazes neste aspeto e promovem um certo grau de imunidade para as estações seguintes. No entanto, é este mecanismo que parece estar alterado em indivíduos obesos.2,9

Foi verificado em ratinhos DIO, num segundo momento de contacto com o vírus Influenza (1º contacto com vírus X-31, 2º contacto com vírus pr8), um aumento da morbilidade e mortalidade. Apresentavam aumento discreto e em menor grau do que em ratinhos não obesos de IFN-ß; um não aumento de IFN-α e níveis diminuídos de IFN-γ. Este último resulta habitualmente da ação das cé lulas T CD8+ memória, que se encontravam diminuídas nos tecidos periféricos destes ratinhos. Com o decorrer do tempo, 84 dias após 1º contacto, há maior decréscimo de células T memória específicas para o vírus Influenza em ratinhos obesos – 10% em comparação com ratinhos não obesos. Não houve, no entanto, alteração da percentagem geral de células T memória. Os níveis de interferão reduzidos conduzem a uma menor capacidade de com bate do sistema imune a infeções virais.2,9

A expressão de IFN-α e IFN-ß parece estar envolvida na sobrevivência das células T memória na res posta ao primeiro contacto. Também a densidade de anticorpos, o tempo de contacto com células apresentadoras de antigénios, níveis de citocinas inflamatórias e toda a resposta ao primeiro contacto afetam o desenvolvimento de células T memória. memória. Para a sua manutenção e sobrevivência parecem ser essenciais a IL-7 e IL-15. Foi encontrada evidência que os níveis de IL-7 se encontram diminuídos em ratinhos obesos em comparação com ratinhos não obesos (50% mais baixa), enquanto que os níveis de IL-15 se encontram elevados (três vezes mais) aos 84 dias após infeção. No entanto, sendo a IL-15 importante para a manutenção da proliferação basal/ homeostática das células TmemóriaCD8+específicas para o antigénio, os seus níveis aumentados não traduzem aumento destas células. Existia a possibilidade de isto se dever a uma redução da expressão do recetor do IL-15 [complexo heterotrimérico: IL 15ra, IL-2/15rß (CD122) e subcadeias γc]. De facto, os ratinhos obesos apresentaram expressão reduzida de CD122 33 dias após o 1º contacto mas não aos 84dias, nem demonstraram alterações nas outras subunidades,pelo que esta hipótese foi desacreditada.

Outra possibilidade será a de que a resistência à leptina bloqueie a ação de IL-15 por interferência das SOCS-1 aumentadas (ratinhos sem SOCS-1 acumulam células T memória CD44+/CD8+).2,9

No local da infeção, que se encontra num estado inflamatório elevado mesmo antes do momento da segunda infeção, foi encontrada uma incapacidade dos ratinhos elevarem os níveis de IL-6 e TNF-α. Esta incapacidade de aumentar os níveis de citocinas pode levar a uma diminuição da resposta de memória imunitária. Contraditoriamente a outros artigos, estes autores revelam um aumento na resposta antigénio-células T durante o 1º contacto que poderá também contribuir para a diminuição desta resposta de memória imunológica. Além disso, foi verificado um nível diminuído de células dendríticas no local da infeção e eficácia reduzida na apresentação de antigénios às células T memória em ratinhos obesos (mas tinham função normal ex-vivo em células T memória de ratinhos não obesos). Uma possível razão para essa função alterada poderá ser uma menor apresentação de IL-15 pelas células dendríticas às células T memória, mecanismo importante para a sua manutenção. Foi ainda sugerida uma dificuldade de migração das células T memória para o local da infeção.2

Por fim, os autores ressalvam que a resistência à leptina poderá ser o elemento comum em todos os achados.2

Obesidade na gravidez

A obesidade afeta muitas das mulheres em idade reprodutiva, comoé de esperar numa população do mundo moderno que tende a ter cada vez mais excesso de peso. Quer a obesidade, quer a gravidez são dois estados de saúde com associação independente à modulação do sistema imune.14

Estudos mostram que, por si só, a gravidez leva a uma redução do nível circulante dos macrófagos, células dendríticas, NK, entre outras, pois estas são direcionadas para a placenta para defesa do embrião. Também o funcionamento das células T é alterado pois a produção de IFN-γ e TNF-α é suprimida para não pôr em risco a sobrevivência do feto. Os elevados níveis de IL-10 e de progesterona típicos da gravidez também levam à supressão funcional das células T.14

Apesar de serem ainda em pequeno número e com alguma limitação metodológica, há estudos recentes que investigam a associação entre obesidade materna (conjugando gravidez e obesidade mas indo para além dos seus contributos individuais) com um maior risco de infeções tanto para a mulher como para o feto.14

Sarbattama et al. fizeram um estudo que se focou em 15 grávidas com 28 semanas de gestação em que mediram diferentes marcadores da resposta imunológica. Concluíram que as grávidas obesas tinham menor proporção de linfócitos T CD8+ (obesas 16.4±5.8% vs controlos 23.5±7.4%) e igual proporção de células T CD4+ quando comparadas com grávidas não obesas, embora a proporção total de linfócitos T fosse igual nas duas populações. Não havia diferença nas células T CD8+ memória ou naïve mas havia menor percentagem de NK e maior proporção de linfócitos B nas grávidas obesas (Obesos 21.9±6.2% vs Controlos 13.3±5.3%).14

Nas obesas, a síntese intracelular de TNF-α e IFN-γ pelas células CD4+ e CD8+ foi menor aquando estimulação, mas sem diferença estatisticamente significativa em condições basais.14

Para além destas variâncias nas grávidas obesas, sarbattama refere ainda uma incapacidade da proliferação linfocitária em resposta a estímulos com anti-CD3/CD28.14

O estudo incluiu ainda a medição de indicadores de inflamação e stress oxidativo, como a proteína C reativa e a glutationa oxidada (aumentadas nos obesas) e os níveis de leptina e a diponectina que se revelaram aumentados e diminuídos, respetivamente, nas obesas.14

Os níveis serológicos de IL-10 e progesterona não se revelaram alterados nas obesas, embora seja levantada a hipótese de no tecido adiposo haver mais progesterona e, portanto, mais inibição funcional das células T.14

Perante tudo isto entende-se que a obesidade cause imunodepressão pois há diminuição das células CD8+ e NK, alteração da libertação de TNF-α e IFN-γ e menor proliferação de linfócitos T. No entanto, há aumento dos linfócitos B e sarbattama avança com a explicação de que tal pode ocorrer por a obesidade ser um estado pró-inflamatório e de stress que aumenta a transcrição de fatores que aumentam a diferenciação de células B em detrimento da linhagem T, ou ainda por grávidas obesas terem uma alteração de hormona esteróide.14

Sarbattama sugere que, tal como as CD4+e CD8+ nos obesos não produzem tantas citocinas, também as células trofoblásticas da interface materno-fetal podem não o fazer nas grávidas obesas, pondo em causa a defesa imunológica do feto.14

Apesar de ainda haver poucos estudos e, os que há, não terem amostras suficientemente grandes ou válidas para se inferir com certeza, a verdade é que começam a surgir provas da relação da obesidade coma imunodepressão que alertam para a urgência de vigiar e controlar clinicamente as grávidas obesas de forma a evitar infeções na mãe e/ou no bebé.14

 

Conclusões

Há estudos que indicam que pelo facto da obesidade ser um estado de inflamação crónica há uma resposta imunológica exacerbada. No entanto, na literatura mais recente foram encontradas evidências de que há imunodepressão nos obesos, ainda que os mecanismos que a justificam não estejam completamente clarificados.

É estritamente necessária mais investigação neste âmbito, já que conhecendo de forma específica as alterações que surgem associadas à obesidade (nomeadamente as subpopulações celulares e as vias de sinalização alteradas), a intervenção terapêutica poderá ser dirigida e eficaz. Um dos exemplos mais notórios é o das vacinas, em que é forte a evidência de que nos obesos estas não são tão eficazes. No entanto, como ainda não há um número suficiente de estudos que determinem a alteração subjacente a esta menor eficácia, ainda não há uma adequação da vacina ao IMC do doente. Quando estes mecanismos forem determinados, a profilaxia das vacinas poderá ser maior e, consequentemente, a intervenção terapêutica mais adequada. Também nas infeções respiratórias é necessário compreender o que provoca a imunodepressão associada à obesidade, para se intervir no sentido de minimizar o número de infeções e a morbilidade e mortalidade associadas. O mesmo se passa nas grávidas obesas, em que se poderá adequar o nível de acompanhamento durante a gravidez e o tipo de parto no sentido de evitar infeções quer na mãe, quer no bebé.

Nesta revisão reconhecem -se limitações metodológicas que resultam sobretudo do baixo número de artigos referenciados, 14, e destes terem já por si algumas limitações. são estudos com tamanhos amostrais pequenos, critérios de inclusão pouco precisos, fatores de confundimento não medidos e resultados contraditórios e pouco esclarecedores. Para além disso, não nos foi possível aceder a toda a literatura pretendida visto que determinados artigos não se encontravam disponíveis de forma gratuita e não nos foram cedidos pelos autores.

 

Referências

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Correspondência:

Tânia Cavaco

Faculdade de Medicina Universidade do Porto

4200-319, Porto, Portugal

Email: taniacscavaco@gmail.com

 

Notas

* Igual contribuição para este trabalho.

 

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