INTRODUÇÃO
O solo, a par do clima e da topografia, determina a produtividade das videiras e a qualidade das uvas, constituindo uma importante variável dos “terroirs” (Ghilardi et al., 2023). As videiras podem prosperar numa enorme variedade de solos (Van Leeuwen & Seguin, 2006), mas a relação entre uma ou mais características destes e o carácter do vinho de um dado terroir apenas tem sido observada para a disponibilidade de água, nas vinhas não regadas (White, 2015). Entre nós, as áreas vitícolas ocorrem numa grande variedade de solos, mas o conhecimento, à escala da exploração ou da parcela, da relação entre as suas características e o desempenho das videiras é muito reduzido. É, por isso, essencial conhecer a variação espacial das características do solo para planear a instalação e gestão de vinhas e alocar castas ou porta-enxertos a locais específicos (Vaudour & Shaw, 2005).
A informação cartográfica tradicional tem pouca utilidade para suporte de decisões inerentes à condução dos sistemas vitícolas à escala local, dado não ostentar a necessária resolução espacial das características dos solos em áreas de reduzida dimensão (Madeira, 2021). A cartografia à escala local terá de ser pormenorizada e detalhada e considerar as características do solo mais relevantes (e.g., profundidade e textura) para o desempenho da vinha e a quantidade e qualidade das uvas (Payares et al., 2023). Para isso, além das técnicas tradicionais de cartografia de solos, pode recorrer-se a novas tecnologias para aumentar o rigor e reduzir os custos (Van Leeuwen & Bois, 2018), destacando-se os sistemas de informação geográfica, os modelos de elevação do terreno, as técnicas geofísicas (por exemplo, sensores baseados na indução eletromagnética - medição da condutividade elétrica do solo), a deteção remota e as técnicas estatísticas que convertam dados pontuais em distribuições contínuas de características a considerar (White, 2015). Os resultados de sensores geofísicos, por exemplo, podem originar mapas de alta resolução que expressem a variabilidade espacial dos solos de uma dada área, permitindo “orientar” as observações e amostragens do solo para identificar a(s) causa(s) da variabilidade detetada (Van Leeuwen & Bois, 2018).
Neste contexto, numa área destinada à instalação de uma nova vinha recorreu-se à indução eletromagnética para antever a variabilidade das características dos solos e, naturalmente, para contribuir para a delimitação de áreas homogéneas que possam futuramente consubstanciar futuros “terroirs”.
MATERIAIS E MÉTODOS
Área de estudo
O estudo abrangeu uma área de 7,2 ha, localizada na Herdade do Martinel, freguesia de Canha, concelho do Montijo (coordenadas ETRS89 -39321.87324,-106254.1021), previamente ocupada por um povoamento de eucalipto com 40 anos de idade (Figura 1). O clima da área (classificação de Köppen) é do tipo Csa (Mediterrânico de verão quente) e a precipitação média anual atinge cerca de 700 mm. A paisagem apresenta relevo pouco ondulado e insere-se em formações pliocénicas - Complexo Greso-Argiloso de Pegões (Zbyszewski & Veiga Ferreira, 1968), a que correspondem areias e arenitos, associados a leitos de argilas. De acordo com a Carta de Solos de Portugal (SROA/CNROA), na escala 1:25000 (DGADR-SNIS, 2022), os solos dominantes correspondem a associações de Podzóis com surraipa de ou sobre arenitos com Solos Argiluviados Para-Solos Hidromórficos de arenitos ou conglomerados argilosos ou com Solos Litólicos Não-Húmicos de arenitos, e a associações dos últimos com Litossolos de arenitos (Figura 1). Em áreas reduzidas ocorrem Solos Hidromórficos Para-Aluviossolos.

Figura 1 Área de estudo e as unidades de solo (SROA/CNROA) que nela ocorrem. Ppt - Podzóis com surraipa de ou sobre arenitos; Vt - Solos Litólicos Não-Húmicos de arenitos; Pag - Solos Argiluviados Para-Solos Hidromórficos de arenitos ou conglomerados argilosos; Et - Litossolos de arenitos; Ca, Cal - Solos Hidromórficos Para-Aluviossolos de textura ligeira e mediana, respetivamente.
Mapeamento da condutividade elétrica aparente do solo
Dada a heterogeneidade das unidades de solos presentes e o desconhecimento da distribuição espacial de cada uma delas, mapeou-se a área em apreço com recurso à técnica geofísica da indução eletromagnética (EMI) para medição da condutividade elétrica aparente do solo (CEa) - que se relaciona com a textura, a mineralogia, o teor de humidade e a concentração de sais solúveis no mesmo (Ylagan et al., 2022) -, a 0-50 e 0-100 cm de profundidade. Utilizou se um sensor EM38-MK2, da Geonics Limited, instalado num motociclo de quatro rodas, tendo os dados sido recolhidos em linhas contíguas de 10 em 10 m e com uma frequência de recolha de segundo a segundo. Os dados foram obtidos em 19 de novembro de 2021, quando a humidade do solo estaria aproximadamente a 2/3 da capacidade de campo. O mapa da CEa foi obtido por krigagem com blocos de 10 x 10 m e variograma com modelo exponencial.
Observação e amostragem dos solos
O mapeamento da CEa permitiu orientar devidamente a localização da observação dos perfis dos solos, em covas abertas (por retroescavadora) até pelo menos 150 cm, que representassem os tipos de solos ou as características associadas às diferenças de CEa. Foram observados e amostrados seis perfis de solos (Figura 2). Os solos foram descritos de acordo com FAO (1990) e foram colhidas amostras no horizonte superficial e no horizonte subsuperficial; além disso, fizeram-se sondagens até 50 cm de profundidade. As amostras foram caracterizadas analiticamente no Laboratório de Solos e Plantas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) pelas metodologias padrão seguidas no mesmo.
Outra informação
Através do modelo digital do terreno (MDT) avaliaram-se outras variáveis consideradas importantes para a instalação de uma vinha, tais como a dinâmica hidrológica (linhas de drenagem e zonas de acumulação de água), o declive, a orientação do declive e a exposição solar.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A área em estudo apresentou uma forte variação espacial de valores da CEa, tanto a 0-50 como a 0-100 cm de profundidade (Figura 2). Essa variação de CEa permitiu antever diferenças substanciais quanto aos tipos de solos e às respetivas características.

Figura 2 Variação espacial da CEa a (A) 0-50 e a (B) 0-100 cm de profundidade e localização de observação de perfis de solos.
Consequentemente, foram abertos perfis de solos tanto nas áreas de elevada como de baixa CEa (Figura 2). Os solos representativos das áreas de elevada CEa revelaram um perfil com diferenciação textural abrupta a menos de 100 cm de profundidade e cujo teor de argila pode atingir mais de 50% (Figura 3, Quadro 1); trata-se, então, em geral, de solos denominados por Planossolos (IUSS Working Group WRB, 2015) - equivalentes em geral aos Solos Argiluviados Para-Solos Hidromórficos (DGADR-SNIS, 2022) - e que se caracterizam por má drenagem e hidromorfismo temporário e que estão em correspondência com “formação argiláceas”. Os solos das áreas com CEa mais baixa correspondem, por seu turno, a solos que apresentam textura muito grosseira a grosseira (arenosa a franco-arenosa) ao longo do perfil, correspondendo genericamente, conforme a textura, a Arenossolos ou Regossolos (IUSS, 2015) e que, em geral, apresentam boa drenagem, estando em correspondência com as formações de materiais arenáceos não consolidados e consolidados (arenitos) - “formações arenáceas”. Tal variabilidade de solos determina decerto diferenciação no comportamento das videiras (Gatti et al., 2022).
Os resultados do presente estudo indicam que é de grande interesse considerar o legado de informação de solos. De facto, alguns dos tipos de solos considerados nesse legado (DGADR-SNIS, 2022) prefiguram as diferenciações de perfil obtidas através da variação dos valores da CEa. Porém, a informação do legado de informação é manifestamente insuficiente para a rigorosa espacialização das diferentes características do solo, o que só foi possível com recurso aos valores da CEa.

Figura 3 Perfis representativos dos solos de áreas com valores de CEa contrastantes. Planossolo (perfil 1) nas áreas consideradas argiláceas e Regossolo (perfil 10) nas áreas consideradas arenáceas.
Além das diferenças morfológicas mencionadas, os solos da área de estudo apresentam outras características que deverão ser devidamente consideradas. Com efeito, os dados analíticos indicam que as camadas argiláceas dos Planossolos apresentam elevado teor de Fe e de K extraíveis (Quadro 1), mas um baixíssimo ratio Ca/Mg. Por seu turno, os solos arenáceos apresentam um elevado grau de saturação em alumínio e baixíssimos teores de Ca e Mg de troca, mormente na camada superficial.
Quadro 1 Classificação e algumas características de perfis dos solos representativos na área de estudo. AG, AF, LM e AR - areia grossa, areia fina, limo e argila, respetivamente; CTC - capacidade de troca catiónica a pH 7; GSA - grau de saturação em alumínio; PER e KER, respetivamente fósforo e potássio extraídos pelo método de Egnér-Rihem; FeED - ferro extraído pelo EDTA
| Prof. | AG | AF | LM | AR | pH | Ca2+ | Mg2+ | K+ | Na+ | CTC | Al3+ | GSA | Ca/Mg | PER | KER | FeED | |
| cm | % | H2O | cmolc kg-1 | % | mg kg-1 | ||||||||||||
| Perfil 1 [Eutric Planosols (Ochric, Magnesic, Raptic)] | |||||||||||||||||
| 0-30 | 68 | 20 | 5 | 8 | 5,1 | 1,2 | 0,6 | 0,2 | 0,1 | 2,6 | 0,6 | 22 | 2,0 | 4,0 | 76 | 81 | |
| >30 | 4 | 16 | 23 | 57 | 4,6 | 1,7 | 7,5 | 0,4 | 1,3 | 14,5 | 3,7 | 25 | 0,2 | 2,0 | 226 | 216 | |
| Perfil 10 [Dystric Regosols (Loamic, Ochric)] | |||||||||||||||||
| 0-45 | 68 | 23 | 5 | 4 | 5,50 | 0,1 | 0,1 | 0,1 | 0,0 | 0,9 | 0,5 | 58 | 0,9 | 1,0 | 50 | 51 | |
| >45 | 71 | 9 | 5 | 15 | 5,20 | 0,2 | 0,5 | 0,1 | 0,1 | 2,2 | 1,3 | 59 | 0,5 | 1,0 | 67 | 18 | |
A variação espacial evidenciada pela CEa expressa inequivocamente que a área de estudo se caracteriza por forte variação de características e de tipos de solos. Com efeito, essa variação apresenta-se, por um lado, associada à textura ou, melhor, à grande diferenciação da textura observada ao longo do perfil do solo e, por outro, a tipos de solos diferentes quanto á drenagem e ao potencial enraizamento das videiras. Assim, a partir da carta de CEa do solo delimitaram-se todas as zonas com CEa do solo superior 15 mS/m, representando locais onde existe descontinuidade textural em profundidade e que representam condicionantes importantes á instalação da vinha. Estas áreas passaram a designar-se por argiláceas e as outras (com CEa inferior a 15 mS/m) por arenáceas. No Quadro 2 mostra-se a estatística de cada uma dessas áreas quanto aos valores da CEa do solo.
Quadro 2 Estatística da CEa (mS/m) nas áreas consideradas arenáceas e argiláceas
| Prof. (cm) | Média | Mediana | DP | Mín | Máx | Amplitude | Variância | CV(%) |
| Áreas arenáceas | ||||||||
| 0-50 | 9,2 | 9,1 | 1,3 | 6,4 | 21,4 | 14,9 | 1,6 | 13,6 |
| 0-100 | 10,6 | 10,4 | 2,1 | 6,3 | 15,0 | 8,7 | 4,5 | 20,1 |
| Áreas argiláceas | ||||||||
| 0-50 | 19,4 | 17,1 | 8,8 | 9,2 | 70,0 | 60,8 | 76,6 | 45,1 |
| 0-100 | 27,4 | 23,3 | 13,4 | 15,0 | 99,1 | 84,1 | 179,9 | 48,9 |
A informação obtida sobre os tipos e as características dos solos, mediante o prévio mapeamento da CEa, considerou-se ainda insuficiente para o planeamento da vinha (Fayolle et al., 2019). Recorreu-se, pois, a outras camadas de informação obtidas a partir do MDT (drenagem, declive, exposição solar) para possibilitar delimitar zonas homogéneas e a partir daí o encepamento da futura vinha (Figura 4).
CONCLUSÕES
O mapeamento da CEa constitui um instrumento adequado para especificar a variação espacial de características do solo, bem como para a identificação dos tipos de solos, mas o recurso aos legados de informação pode ser um complemento de grande interesse. Essa informação e outra, respeitante à dinâmica hidrológica, ao declive, à orientação do declive e à exposição solar, permite fornecer as bases essenciais para o planeamento e gestão de vinhas a instalar: delimitar parcelas homogéneas (possíveis “terrois”), alocar castas e porta-enxertos e planear a gestão da vinha













