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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0870-8967versão On-line ISSN 2183-9174

Diacrítica vol.38 no.1 Braga abr. 2024  Epub 14-Mar-2025

https://doi.org/10.21814/diacritica.5598 

Articles

A CONCEÇÃO GRAMATICAL DE JOAQUIM GONÇALVES: UMA ANÁLISE DA SUA VISÃO SOBRE A FORMAÇÃO E A CLASSIFICAÇÃO DAS PALAVRAS CHINESAS

THE GRAMMATICAL CONCEPTION OF JOAQUIM GONÇALVES: AN ANALYSIS OF HIS VIEW ON CHINESE WORD FORMATION AND CLASSIFICATION

* Centro de Estudos Humanísticos, Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Braga, Portugal.


Resumo

Este artigo investiga a visão gramatical do padre lazarista português Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1841) através da análise das suas reflexões metalinguísticas presentes na Arte China (1829), um compêndio gramatical elaborado para o ensino-aprendizagem do chinês a europeus em Macau no início do século XIX. Iniciando-se com as referências gramaticais incluídas nos capítulos III (Grammatica) e IV (Syntaxe) deste manual didático, a pesquisa centra-se na formação e classificação das palavras chinesas sob a perspetiva contrastiva do gramático português. O estudo revela que os processos de formação de palavras distinguidos no seu método gramatical se fundamentam nas características morfológicas dos vocábulos chineses. Além disso, as partes da oração utilizadas para classificar o léxico chinês não apenas herdam o modelo analítico e descritivo greco-latino como também incorporam aspetos da tradição local e adotam novas categorias para retratar os aspetos mais peculiares do chinês, em comparação com a língua materna de Gonçalves. Esta análise visa lançar luz sobre as interpretações gramaticais do sinólogo português, originalmente destinadas aos discípulos diretos, que podem parecer incompletas e obscuras para os leitores contemporâneos.

Palavras-chave: Gramática comparativa português-chinês; História da gramática chinesa; Historiografia linguística; Linguística missionária; Sinologia portuguesa.

Abstract

This article delves into the grammatical perspective of Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1841), a Portuguese Lazarist. The study focuses on his metalinguistic reflections, as evident in his grammatical primer, Arte China (1829), designed to teach Chinese to Europeans in 19th-century Macao. Specifically, this research centers on the grammatical references found in the third and fourth chapters of the manual, namely Grammatica and Syntaxe. It explores Gonçalves' observations regarding Chinese word formation and parts of speech, both perceived from a contrastive perspective. The analysis reveals that Gonçalves’ proposed word formation patterns are rooted in the morphological characteristics of Chinese words. Additionally, the parts of speech used to classify the Chinese lexicon inherit the Greek-Latin analytical and descriptive model, incorporate local traditions, and embrace new categories to capture unique aspects of Chinese compared to his native language. This research seeks to illuminate Gonçalves’ grammatical conception, originally intended for direct disciples but potentially challenging for contemporary readers.

Keywords: Portuguese-Chinese comparative grammar; History of Chinese grammar; Historiography of Linguistics; Missionary Linguistics; Portuguese sinology.

1. Introdução

A interseção entre a linguística e a missiologia desempenha um papel fundamental na documentação e preservação das línguas nativas nos destinos das missões evangelizadoras. As obras gramaticais produzidas por missionários, enquanto primeiros testemunhos do contacto linguístico e cultural entre o Ocidente e o Oriente, constituem um terreno fértil para estudos contrastivos entre as línguas alvo do ensino-aprendizagem e as respetivas metalínguas descritivas. No contexto específico da língua chinesa, cujos estudos gramaticais têm uma história relativamente curta em comparação com as línguas europeias, as gramáticas missionárias representam as primeiras tentativas sistemáticas de análise gramatical, antecedendo os estudos modernos nativos. No entanto, uma grande parte das visões gramaticais, direta ou indiretamente refletidas nestas gramáticas, que não apenas abrangem as tradições gramaticais europeias, mas também abraçam os costumes linguísticos locais, ainda não foram estudadas da forma que mereciam (vd., Zwartjes, 2012), sobretudo quando uma língua europeia relativamente minoritária é usada como metalinguagem, como é o caso do português.

O padre lazarista português Joaquim Gonçalves (1781-1841) foi uma das figuras mais relevantes da sinologia europeia do século XIX, 1 tendo dedicado a maior parte da sua vida, desde a sua chegada a Macau em 1813 até à data do seu falecimento, ao ensino-aprendizagem da língua chinesa por ocidentais e para ocidentais. Este estudo busca examinar a conceção gramatical de Joaquim Gonçalves refletida no núcleo da sua trilogia, composta pela Arte China (1829), Diccionario Portuguez-China (1831) e Diccionario China-Portuguez (1833), para o ensino-aprendizagem do chinês aos europeus que se encontravam no território de Macau. Nas últimas duas décadas, as obras metalinguísticas de Gonçalves têm recebido cada vez mais atenção: (Aresta, 2000) estudou as notas biográficas e bibliográficas deste professor e sinólogo português; (Levi, 2007) analisou os aspetos inovadores do seu método didático da gramática chinesa; (Liu, 2009) fez um estudo comparativo entre a Arte China de Joaquim Gonçalves e a Chinese Grammar do sinólogo russo N. J. Bichurin; (Ye, 2010) reafirmou a importância do sacerdote português na academia sinológica; (Uchida, 2011) investigou as características linguísticas das obras de Gonçalves, concluindo que este era um dos primeiros europeus que privilegiavam o mandarim de Pequim. Posteriormente, a academia minhota testemunhou a realização de um conjunto de dissertações de mestrado sobre diversos aspetos das obras bilingues de Joaquim Gonçalves, desde a exploração das fontes deste sinólogo português à variação linguística preservada nas suas obras (vd., exemplos: L. Li, 2020; Mao, 2018; Ng Cen, 2015; Tao, 2013; X. Wang, 2015), as quais foram orientadas por Anabela Leal de Barros, docente e investigadora que indagou para além dos aspetos diacrónicos da língua portuguesa, conforme refletidas em fontes metalinguísticas monolingues e multilingues (Barros, 2012, 2015), as referências interculturais específicas nestas obras gramaticais de Gonçalves (2014). Além destas, (Wang e Lu, 2015) publicaram uma tradução do prólogo da Arte China de Joaquim Gonçalves, com o intuito de promover estudos das obras deste sinólogo português na academia chinesa, após a qual, (Ai, 2016) analisou o sistema fonético do chinês, conforme apresentado no Diccionario China-Portuguez de Gonçalves, enquanto (Wang, 2019) examinou as características linguísticas das palavras chinesas usadas como tradução e explicação das entradas portuguesas no Diccionario Portuguez-China do mesmo autor. Mais recentemente, (Li, 2023) abordou as estratégias e práticas do docente português através da análise dos textos bilingues documentados na sua trilogia.

Apesar do aumento contínuo de interesse nos estudos metalinguísticos de Joaquim Gonçalves, uma grande parte dos estudos já realizados centram-se apenas numa das línguas em contacto, seja o português, seja o chinês. Muitos aspetos da sua visão sobre a gramática chinesa ainda não foram sistematicamente estudados, devido à insuficiência de explicações didáticas2 e à distância entre as duas línguas essenciais para a decodificação do seu trabalho. Como uma das poucas exceções, (Zhu, 2016) publicou um estudo introdutório da análise gramatical de Joaquim Gonçalves com base nas categorias gramaticais registadas no manuscrito prévio à publicação da Arte China, 3 focando-se nas classes de palavras por este propostas e analisadas para a descrição da língua chinesa. Contudo, uma análise detalhada da interpretação dos termos gramaticais portugueses neste estudo revelou preocupações substanciais que afetam a compreensão da conceção gramatical de Joaquim Gonçalves. Por exemplo, o modo verbal “conjuntivo” é tratado repetitivamente como “conjunção” no estudo de Zhu, conforme se lê nas alíneas 14 a 17 da segunda secção do seu artigo intitulada “动词和连词的时态与语气 [Dòngcí hé liáncí de shítài yǔ yǔqì ‘Tempo e modo dos verbos e conjunções’]”: “14) Conjuntive (连接词 [Liánjiē cí ‘conjunção’])”, “15) Conjunctive Imperfeito (连接词的未完成时 [Liánjiē cí de wèi wánchéng shí ‘imperfeito da conjunção’])”, “16) Conjunctive Perfeito (连接词的完成时 [Liánjiē cí de wánchéng shí ‘Perfeito da conjunção’])” e “17) Conjunctive Plusquam (连接词的过去完成时 [Liánjiē cí de guòqù wánchéng shí ‘Pretérito perfeito da conjunção’])” (vd., 2016, pp. 32-33). Isto deve-se possivelmente à falta de conhecimento da língua portuguesa, e sobretudo da terminologia linguística portuguesa. Neste sentido, é essencial reexaminar com cautela a análise gramatical de Gonçalves, recorrendo fielmente às reflexões metalinguísticas preservadas no seu método de ensino.

Este artigo parte do prólogo que precede o terceiro capítulo da Arte China, no qual o autor começa por mencionar a variação diafásica da língua chinesa, enfatizando a importância de dominar tanto o estilo coloquial ou típico da fala como o estilo literário ou típico da escrita. Nesta página introdutória, o autor expõe ainda algumas características do chinês, comparando-as com as das línguas europeias, e apresenta o seu raciocínio pedagógico para a conceção dos capítulos subsequentes. Juntamente com as categorias gramaticais, presentes nos capítulos III e IV do mesmo compêndio, as reflexões metalinguísticas explícitas e implícitas serão apreciadas como uma parte intrínseca da análise gramatical de Gonçalves (Secção 2). Com base nisto, o presente estudo foca-se na visão do autor sobre a formação das palavras chinesas (Secção 3) e a classificação do vocabulário sínico (Secção 4). Nas considerações finais, destaca-se a importância da compreensão da conceção gramatical de Gonçalves para futuras pesquisas sobre os exemplos bilingues preservados na sua obra, um verdadeiro tesouro textual do século XIX. Ao explorar as obras de referência de uma figura missionária portuguesa de grande relevância, esta pesquisa não apenas engrandece a literatura da linguística missionária como também contribui para estudos sobre a história da gramática da língua chinesa e estudos contrastivos entre o português e o chinês.

2. Da análise gramatical de Joaquim Gonçalves

As poucas explicações gramaticais disponíveis na Arte China concentram-se no prólogo que precede o primeiro capítulo, Alphabeto China, ou seja, o alfabeto chinês, no qual o autor apresenta o seu método de ensino-aprendizagem da língua chinesa, com ênfase nos constituintes básicos, i.e., os carateres chineses, equiparados às letras europeias, e no prólogo inserido numa página não numerada antes do terceiro capítulo, Grammatica, onde o autor expõe um conjunto de reflexões no âmbito da conceção gramatical da língua chinesa, numa perspetiva contrastiva. Considerando que as palavras, em vez das letras, formam a unidade base para a análise gramatical, este estudo limita-se às observações do autor no domínio da gramática chinesa, abstendo-se de considerações específicas sobre os carateres chineses, as quais serão abordadas num estudo separado.

No prólogo que antecede a Grammatica, o autor realça desde logo a importância do ensino-aprendizagem dos dois estilos da língua chinesa, i.e., o registo oral e o registo escrito ou literário:

Sendo indespensavel, que o Estudante aprenda os dois estilos, de fallar, e escrever, e sendo geralmente as regras as mesmas; na Grammata, posta a regra, ponho cada exemplo nos dois estilos, com o que abreviei, e com huma vista se nota facilmente a differença delles, e quando se naõ virem dois estilos correspondendo a huma palavra, ou sentença Portugueza, he porque a letra, ou frase he cŏmum a ambos, excepto nos Exercicios de Syntaxe, que saõ inteiramente em estilo sublime. (1829, página não numerada entre pp. 127-128)

Gonçalves declara que procurou proporcionar, sempre que possível, os dois estilos do chinês, um ao lado de outro, apesar da semelhança geral entre as regras gramaticais dos dois registos. A expressão “estilo sublime”, encontrada no final da última frase desta anotação, referindo-se aos exercícios de sintaxe do capítulo seguinte, é usada como formulação alternativa do “estilo de escrever”. A sua contraparte, o “estilo vulgar”, ocorre frequentemente desde o início do segundo capítulo, onde o autor mostra, de forma intercalada, as frases “vulgares” e “sublimes”, construídas a partir dos carateres chineses compreendidos no seu alphabeto sinico. Dado que essas duas designações são consistentemente utilizadas em contraste ao longo do compêndio, podem ser consideradas sinónimas dos estilos de escrita e fala, ou seja, o estilo sublime caracteriza o registo literário, da escrita, enquanto o estilo vulgar se refere à forma coloquial da língua chinesa.

Logo a seguir, o sinólogo português introduz a principal diferença entre a língua chinesa e as línguas europeias, que se traduz na inexistência de declinações, na abundância de partículas e ainda na flexibilidade posicional das palavras nesta primeira: “Ainda que nesta lingua naõ hajaõ declinaçoẽs, há com tudo particulas, ou posiçaõ das palavras, porque se exprimem os differentes casos, e tempos o que devo praticamente ensinar” (Gonçalves, 1829, página não numerada entre pp. 127-128). Tanto as partículas, cujo uso se restringe ao registo literário, como a ordem sintática são abordadas no quarto capítulo, dedicado à sintaxe sublime do chinês.

De seguida, o autor volta a chamar atenção para a ordem das partes da oração, assim como para as figuras frequentemente utlizadas, advertindo para o perigo da pura transposição:

Do sobredito se infere, que a syntaxe China se reduz à média, e figurada: he preciso pois huma grande attençaõ á ordem das partes da oraçaõ, e as figuras usadas (algumas vezes a figura so se mostra no estilo sublime) e naõ tomar a liberdade de limitar a ordem, figuras, ou tropos Europeos, se se naõ quizer expor a fallar, ou escrever obcura, ou ridiculamente. (Gonçalves, 1829, página não numerada entre pp. 127-128)

No início deste parágrafo, o autor descreve a sintaxe chinesa como “média” e “figurada”, destacando a importância de respeitar a ordem das partes da oração da língua sínica e distinguir as figuras de retórica chinesas das europeias. A posição relativa das partes da oração é o conteúdo principal do quarto capítulo, no qual se estuda a sintaxe figurada, na penúltima secção, a seguir às partículas chinesas e antes dos exercícios de sintaxe sublime.

Quanto às regras sintáticas introduzidas, o autor alerta para a existência de um conjunto de exceções, identificadas numa visão comparativa e não absoluta:

As regras da ordem das partes da oraçaõ talvez, sò ao parecer, tem excepçoês; porque o que nos tomamos v. g. por preposiçaõ, o China o toma por substantivo: assim em lugar de dizer: Entre elles, diz: No meio delles ficando na regra do genitivo, e naõ do accusativo; mas como para nos a difficuldade he a mesma, para a resolver, fui obrigado a apontar, como excepções, o que para nos o parece. (Gonçalves, 1829, página não numerada entre pp. 127-128)

Gonçalves alerta os seus discípulos para a potencial divergência na identificação das diferentes partes da oração, razão pela qual foram propostas as regras excecionais da sua análise sintática, pois a diferença de perspetiva pode levar a interpretações diversas e resultar na necessidade de classificar tais particularidades contrastivas como exceções.

Quanto à terminologia utilizada para a descrição metalinguística da língua chinesa, o mestre explica que o seu método adota as designações latinas por serem a metalinguagem mais esclarecedora:

Servi-me dos casos Nominativo Genitivo &c. como o meio mais claro para exprimir as regras, devendo-se subentender: O que em Latim he Nominativo &c. &c.; e delles, e das particulas tratei so na syntaxe, para a hum tempo ver o modo de os formar, usar, e o lugar, que occupaõ na oraçaõ. (Gonçalves, 1829, página não numerada entre pp. 127-128)

Nesse contexto, para compreender o raciocínio pedagógico de Gonçalves é essencial dominar os conceitos terminológicos intrínsecos à análise da gramática latina. Na segunda parte deste parágrafo, o professor revela a intenção de tratar tanto as regras sintáticas como as partículas chinesas no capítulo da sintaxe, permitindo que os discípulos observem naturalmente a formação, o uso e a colocação dessas estruturas por meio da prática.

Por fim, Gonçalves realça o seu objetivo de indicar, dentro das suas possibilidades, as maiores diferenças e dificuldades gramaticais do chinês numa perspetiva comparativa com a sua língua materna, salientando os principais objetivos didáticos dos capítulos seguintes, os quais compõem um método de ensino-aprendizagem abrangente e progressivo:

Ainda que procurei incluir todos os torneios mais avessos a nossa lingua na Grammatica, foi necessario para o exercicio do estilo vulgar multiplicar os dialogos, pela falta de livros neste estilo; e para a intelligencia do sublime, dar noticia da Historia, e differentes Composições Chinas. (Gonçalves, 1829, página não numerada entre pp. 127-128)

Para o autor, dominar a língua chinesa implica adquirir um conjunto de competências, como as capacidades de comunicação oral, leitura e produção escrita e a vertente cultural e literária que a língua transporta, não bastando compreender somente as regras gramaticais e sintáticas.

Este prólogo é uma das poucas testemunhas explícitas e diretas da análise gramatical do autor. Todavia, estas notas introdutórias não são suficientemente esclarecedoras da conceção gramatical de Joaquim Gonçalves. Tal como referido na introdução deste artigo, as categorias gramaticais propostas no terceiro capítulo e na análise sintática do quarto capítulo do seu compêndio gramatical Arte China são igualmente importantes para a decodificação da visão gramatical do sacerdote português.

A fim de permitir uma visualização rápida e simplificada, as Tabelas 1 e 2 apresentam uma visão geral das secções e subsecções abordadas respetivamente nos capítulos III e IV da Arte China, excluindo os exemplos bilingues reunidos em cada parte.

Tabela 1: Síntese do capítulo III da Arte China. 

Secção Subsecções Gonçalves (1829)
[Formação de palavras] Palavras Simplices - com addição - compostas - repetidas - negativas pp. 128-129
Artigo p. 129
Plural p. 129
Generos pp. 129-130
Adjectivo p. 130
Comparativo p. 130
Superlativo pp. 130-131
Numeros p. 131
Addições numeraes pp. 131-132
Ordinaes p. 132
Pronome Que (relativo) Quem? Que? Qual? Ambos Nenhum Algum Qualquer Muitos Outro Mesmo pp. 132-136
Verbo Presente [Pretérito] Imperfeito [Pretérito] Perfeito [Pretérito] Plusquam Futuro Imperativo Conjunctivo - Imperfeito - Perfeito e futuro - Plusquam Infinito Gerúndios Particípio Passivo Participio Presente Imperfeito Perfeito Gerúndio Impessoal pp. 136-141
Verbos Difficeis, e Chinismos pp. 141-145

Fonte: elaborada pela autora de acordo com as categorias propostas no capítulo III da Arte China. Nota. A grafia dos títulos e subtítulos segue a impressão original; informações entre parênteses retos foram acrescentadas pela autora.

O terceiro capítulo tem como título completo “Grammatica Vulgar e Sublime”, acompanhado pelo título chinês “文法 wénfǎ ‘lei da língua’” (Gonçalves, 1829, p. 128). Conforme demonstrado na Tabela 1, este capítulo, com a extensão de 17 páginas, dispõe de 13 secções numeradas, todas inequivocamente intituladas, com exceção da primeira, que é dedicada à formação das palavras chinesas, simples e compostas, conforme revelam as designações das subsecções a esta subordinadas. As primeiras 12 secções destinam-se às diferentes partes da oração e às respetivas propriedades, não havendo uma distinção hierárquica entre as duas a nível tipográfico, enquanto a última secção acolhe um conjunto de exemplos bilingues que representam as maiores dificuldades do chinês, numa perspetiva comparativa com o português.

O quarto capítulo tem 68 páginas e subdivide-se em 12 secções, conforme demonstrado na Tabela 2:

Tabela 2: Síntese do capítulo IV da Arte China. 

Secção Subsecções Gonçalves (1829)
[A posição do nome em relação ao verbo] [1.1.] Nominativo antes do Verbo Excepçaõ [1.2.] Genitivo antes do regente: o regido de verbo reputa-se accussativo Excepção [1.3.] Dativo depois do verbo, antes do accusativo e, se com partícula, antes do verbo Excepções [1.4.] Accusativo depois do verbo Excepções [1.5.] Vocativo antes do verbo [1.6.] Ablativo antes do verbo Excepções [1.7.] Os abstractos, ou verbos se tomão como causa, e naõ como nominativo Excepção pp. 146-149
[A posição do adjetivo em relação ao verbo] [2.1.] O Adjectivo antes do susbtantivo, não sendo, ou comprehendendo verbo Excepções [2.2.] Todo [2.3.] Provavel [2.4.] Meio pp. 149-150
[A posição da preposição em relação ao nome] [3.1.] A Preposição antes do nome [3.2.] As preposições de quietaçaõ, e movimento se tomão como substantivos, e estaõ depois do nome. pp. 150-152
Adverbio antes do verbo pp. 152-156
Conjunção tem a mesma posição das nossas: mas muitas vezes se occulta pp. 156-158
A oração incidente precede Excepções p. 158
Interjeição - interrogativa p. 159
Vozes de animaes p. 159
Tratamentos p. 160
PARTÍCULAS SUBLIMES 虚字 [xūzì ‘palavra vazia’] pp. 161-178
SYNTAXE FIGURADA. pp. 179-183
EXERCICIOS DE SYNTAXE SUBLIME. [I.] Diversa Sentença com diversa posição das mesmas palavras II. A mesma sentença com deversa posição III. A mesma Sentença com differentes letras IV. Diversa Sentença com a mesma posição: amphibologias V. Sentenças difficeis pp. 184-214

Fonte: elaborada pela autora de acordo com as categorias propostas no capítulo IV da Arte China. Nota. A formatação dos títulos e subtítulos segue a impressão original; informações entre parênteses retas foram acrescentadas pela autora

As primeiras seis secções dedicam-se à ordem sintática das diferentes partes da oração; a sétima, a oitava e a nona são atribuídas às três partes da oração não abordadas no capítulo anterior; a décima e a décima-primeira correspondem respetivamente às partículas e figuras chinesas, e a última apresenta um conjunto de exercícios de sintaxe sublime. O título chinês que consta na primeira página deste capítulo é o mesmo do capítulo anterior: “文法 wénfǎ ‘lei da língua’”, ou seja, embora os dois capítulos sejam dedicados distintivamente à gramática e à sintaxe, não havia termos específicos na tradição linguística chinesa para os dois campos de estudo diferentes.

A falta de termos correspondentes comprova a ausência de análise gramatical sistemática na história dos estudos linguísticos chineses, em contraste com a importância que o léxico sempre recebeu, diferindo das abordagens comuns em línguas sintéticas, conforme comenta Harbsmeir:

One reason why the Chinese did not (need to) develop systematic grammar is that in an analytic language like Chinese the lexicon of words plus the lexicon of grammatical particles taken together go a long way towards accounting for what it takes to understand the text - a much longer way than would be possible in more synthetic languages like Greek or Sanskrit…. In general a great deal of the grammar of Classical Chinese can be formulated as an extended dictionary entry under the various grammatical particles of that language. Grammars could therefore take the form of dictionaries of grammatical particles, which is exactly what happened. (1998, p. 87)

Portanto, a análise gramatical do chinês por parte dos missionários e académicos ocidentais, que estavam acostumados a fazer análise gramatical sob o modelo analítico greco-latino, assume uma importância significativa na história da linguística chinesa.

Em síntese, a análise gramatical de Joaquim Gonçalves, conforme se nos oferece na Arte China, pode ser categorizada como abordagem direta e indireta. O prólogo que precede o terceiro e o quarto capítulos emerge como a fonte primária das suas observações, enquanto as categorias gramaticais, identificadas ao longo dos dois capítulos, representam uma reflexão implícita da sua conceção gramatical. A partir dessas informações metalinguísticas é possível extrair a sua visão linguística sobre diversos aspetos da língua chinesa, como a formação de palavras e a classificação das partes da oração. A adaptação dos seus estudos a uma língua tão diferente em termos gramaticais desafia as estruturas conceptuais previamente estabelecidas, destacando a necessidade de métodos e perspetivas inovadoras na compreensão da linguagem chinesa.

3. Da formação de palavras

Sendo o primeiro tópico discutido no terceiro capítulo da Arte China, a exploração da formação de palavras oferece uma compreensão facilitada da composição dos elementos fundamentais do chinês, a partir dos quais estruturas mais complexas são construídas. As subsecções desta análise abrangem cinco tipos de palavras, a saber, palavras simples, palavras com adição, palavras compostas, palavras repetidas e palavras negativas. Somente a segunda e a terceira dispõem de uma breve explicação entre parênteses, nomeadamente, “- com addição (que na grammatica sublime so os adjectivos, e numeros tem.)” e “- compostas (ás vezes saõ duas sinonymas para evitar os equivocos)” (Gonçalves, 1829, p. 138). Para as restantes categorias, o autor apresenta apenas um conjunto de exemplos bilingues, supondo que os mesmos falarão por si.

A escassez de explicações metalinguísticas referentes aos critérios de classificação dos cinco tipos de palavras chinesas torna os exemplos coligidos em cada categoria indispensáveis para a compreensão do raciocínio categorial subjacente. Ao contrário dos estudos linguísticos ocidentais, a abordagem da formação de palavras na história da linguística chinesa surgiu consideravelmente mais tarde, como um tema subordinado à criação do sistema oficial de romanização da língua chinesa, o Pinyin, nos anos 50 do século passado, devido à necessidade imposta pelo próprio, que exige a segmentação das palavras chinesas ao serem transcritas com recurso ao alfabeto latino (Packard, 2000, p. 16). Portanto, pode-se afirmar que os sinólogos missionários, cuja língua materna era uma das línguas ocidentais, enfrentaram o desafio de desenvolver um sistema próprio para analisar as palavras chinesas, um conceito essencialmente ausente na tradição chinesa. Além de compreender os carateres chineses como elementos constituintes, essa criação foi motivada não apenas pela familiaridade dos sinólogos com o conceito tradicional e intuitivo de “palavra”, mas também pela necessidade de transcrever foneticamente a língua sínica alvo de estudo.

Para uma interpretação mais direta do ensaio de Gonçalves sobre a formação de palavras em chinês, os exemplos chineses apresentados nas cinco categorias serão acompanhados por glosas interlineares, morfema por morfema, conforme as Leipzig Glossing Rules, 4 especialmente quando a palavra chinesa é complexa. Além disso, serão utilizados os termos e conceitos descritivos dos morfemas chineses que Packard propõe para a análise morfológica dos morfemas em palavras dissilábicas chinesas, nomeadamente a classificação dos cinco tipos de morfemas chineses, conforme transcritos na Tabela 3:

Tabela 3: Cinco tipos de morfemas chineses. 

É livre ou preso? É lexical ou gramatical? Então o morfema é: Exemplos
Livre Gramatical Palavra funcional de 的 mod le 了asp he 和 Conj.
Livre Lexical Palavra (radical) bīng 冰 ‘gelo’
Preso Lexical Radical preso -fáng- 房 ‘casa’
Preso Gramatical Afixo
O afixo altera a classe formal, aplica-se seletivamente, etc.?
Sim Afixo formador de palavra wú- 无 neg wèi- 未 neg -zi 子 nom -zhě 者 ‘alguém que’ -huà 化 vrb -tou 头 nom etc.
Não Afixo gramatical -le 了 v asp -men 们 pl -zhe 着 v asp -guo 过 v asp

Fonte: elaborada pela autora com base na tradução e adaptação da Tabela 12 de Packard (2000, p. 74).

3.1. Palavras simples

Começando com as “palavras simplices”, todos os cinco vocábulos chineses que constam nesta primeira categoria, conforme transcritos nos exemplos 1a - 1e, são palavras monossilábicas e monomorfémicas que possuem somente um caráter chinês, enquanto os equivalentes portugueses variam não só em termos de número de sílabas e morfemas como também em termos de classe de palavras. 5

  • 書 [shū] Livro

  • 惡 [è] Maŏ

  • 想 [xiǎng] Pensar

  • 只 [zhǐ] Somente

  • 不 [bù] Não

A partir deste conjunto de exemplos, é difícil afirmar se o critério de Gonçalves, para palavras simples, tem como ponto de partida o número de sílabas/carateres6 ou morfemas chineses, porque não há nenhuma palavra dissilábica, que seja simultaneamente monomorfémica, 7 colecionada nesta categoria. Esses casos, pelo contrário, costumam ser incluídos no grupo de palavras simples em estudos do chinês moderno, como, por exemplo, no compêndio didático do chinês moderno de Huang e Liao (1979/2002), que é um dos mais usados no ensino superior chinês. O certo é que, para Gonçalves, os carateres, ou os morfemas monossilábicos de funções lexicais e gramaticais variadas, constituem a base dos processos morfológicos de formação de palavras em chinês.

3.2. Palavras com adição

Na categoria das palavras com adição encontram-se quatro exemplos nos dois estilos da língua chinesa, isto é, o sublime e o vulgar, 8 conforme transcritos nos exemplos 2a-2d.

  • 屋子 [wū-zi] △室 [shì] Quarto quarto-aff △ quarto ‘quarto’ △ ‘quarto’

  • 頭児 [tóu-r] △領袖 [lǐngxiù] Chefe cabeça-aff △ pescoço-manga ‘chefe’ △ ‘líder’

  • 石頭 [shí-tou]△石 [shí]。Pedra pedra-aff △ pedra ‘pedra’ △ ‘pedra’

  • 黄的 [huáng-de]△黄者 [huáng-zhě] Amarello amarelo-mod △ amarelo-aff ‘amarelo’ △ ‘amarelo’

As “adições”, na terminologia de Gonçalves, dizem respeito aos cinco afixos formadores de palavras, 9 presentes nos quatro exemplos, a saber: o -zi, o -r, o -tou, o -de10 e o -zhě, sendo os primeiros quatro habituais do estilo oral e o último reservado ao estilo literário/escrito. De acordo com a nota de rodapé inserida no final da palavra huáng-zhě - “A addiçaõ do adjectivo he ti, cho, chē: para as mais naõ há regra.” (Gonçalves, 1829, p. 128) -, o -de e o -zhě do exemplo 2d, correspondentes respetivamente à transcrição em ti e cho de Gonçalves, são considerados como adições adjetivais. Quanto ao chē, recorrendo à romanização dos carateres chineses, pode-se inferir que se trata do caráter “之 zhī”, 11 12 que costuma ser visto como o equivalente sublime do de. Tanto zhě como zhī constam na lista das partículas sublimes chinesas, sendo o primeiro identificado como “artigo” e “terminação do particípio” (Gonçalves, 1829, p. 167) e o segundo descrito como “terminação de genitivo e expletiva”, podendo ser utilizado e considerado simultaneamente como pronome e como verbo (Gonçalves, 1829, pp. 161-162). Quanto ao de, não se encontra mais descrição metalinguística quanto ao seu uso enquanto morfema funcional, 13uma vez que se acha restrito ao estilo vulgar.

No que diz respeito à adição sufixal do exemplo 2a, encontra-se inserida uma breve explicação gramatical numa página posterior do capítulo seguinte, como nota de rodapé do substantivo “腰刀 yāodāo ‘espada de cintura, espada lateral’”:

O tau naõ tem a costumada addiçaõ tzu porque vem acompanhada de huma letra, que determina huma expecie de tau: assim tambem dizemos 房子 [fáng-zi] casa, mas dizemos 茅房 [máofáng] secreta. (Gonçalves, 1829, p. 147)

Ou seja, para o autor, este sufixo nominalizador14 contribui para a constituição de palavras dissilábicas quando o núcleo possuir apenas um morfema, podendo ser dispensado quando a palavra já possui dois morfemas. Quanto às adições dos exemplos 2b e 2c, no Valor das Letras Europeas na Pronuncia do China, disponível no início do compêndio, Gonçalves faz a seguinte observação:

As addições toū, olr saõ so para encher, e nada significaõ: ellas se pronunciaõ breves, e o olr fica fazendo huma syllaba com a antecedente: assim t’ou olr, chefe, soara t’oulr. (1829, p. VIII)

Os dois elementos são considerados como constituintes morfofonéticos que não alteram o significado dos substantivos aos quais se anexam. Estes dois morfemas também costumam ser vistos como nominalizadores na gramática moderna. Vale realçar que Gonçalves chama a atenção para a alteração fonética no caso do caráter “儿 ér”, cuja pronúncia se reduz a um som retroflexo ligeiro, resultando numa pronúncia mais suave e arredondada, característica do mandarim falado no Norte da China.

Em síntese, as palavras com adição na perspetiva de Joaquim Gonçalves são palavras criadas através da junção de uma palavra primitiva (i.e., uma palavra radical15 ou um radical preso16) a uma adição (i.e., um sufixo formador de palavra) substantival ou adjetival.

3.3. Palavras compostas

No âmbito das palavras compostas, o autor oferece uma coleção muito maior de exemplos que apresentam cinco padrões, conforme demonstrado nos exemplos 3-7. O primeiro tipo, observável nos exemplos 3a-3d, inclui palavras compostas por dois sinónimos, para evitar a ambiguidade, conforme anotado pelo próprio autor logo a seguir ao título desta subsecção.

  • 行為 [xíngwéi] Acçoẽs fazer fazer ‘ação’

  • 驕傲 [jiāoào] Soberba arrogante arrogante ‘arrogante

  • 厨房[chúfáng]△庖廚[páochú] Cozinha cozinhar quarto △ cozinhar cozinhar ‘cozinha’ △ ‘cozinha’

  • 良善的 [liángshàn-de]△ 良善者Manso [liángshàn-zhě] bom bom-mod △ bom bom-aff ‘o que é bom’ △ ‘quem é bom’

  • 思想 [sīxiǎng] Pensar pensar pensar ‘pensar’

As palavras dissilábicas apresentadas em 3a, 3b e 3e são compostas por dois carateres/morfemas sinónimos; no caso de 3c, o termo sublime mantém a composição por dois constituintes de significado aproximado, porém, no caso do seu equivalente, os dois constituintes apresentam uma relação hierárquica de “modificador e modificado”, 17 18 sendo o segundo morfema, que é um radical preso, o local de execução do primeiro. 19 Quanto ao 3d, os dois elementos do seu núcleo possuem igualmente uma relação paralela, a que se acrescentam duas “adições” adjetivais acima abordadas.

Entre os dois constituintes das palavras abrangidas pelo exemplo 4 existe também uma relação hierárquica de modificador e modificado. Em 4a e 4b, os elementos que ocupam a posição final das palavras, nomeadamente, -fū, ‘homem’, -jiàng, ‘artesão’, e gōng, ‘trabalhador’, são radicais presos usados como sufixos para indicar uma determinada profissão, equivalendo aos sufixos -or e -eiro na tradução para português. Em 4c e 4d, o segundo morfema jiā, que é uma palavra (radical) livre, implica profissionais de uma determinada indústria ou escola académica.

  • 農夫 [nóngfū] Lavrador agricultura homem ‘agricultor’

  • 鞋匠 [xiéjiàng]△履工 [lǚgōng] çapateiro sapato artesão △ sapato trabalhador ‘sapateiro’ △ ‘sapateiro’

  • 醫家 [yījiā] Os medicos médico família ‘médicos’

  • 道家 [dàojiā] A Seita Tau Dao família ‘Daoísmo’

No exemplo 5, destaca-se a presença do prefixo adjetival xiǎo-, correspondente ao sufixo diminutivo, na terminologia da linguística portuguesa atual, -inho na tradução para português.

  • 小屋子 [xiǎo wū-zi] △小舍 [xiǎo shè] Quartinho

  • pequeno quarto-aff△ pequena casa

  • ‘quartinho’ △ ‘casinha’

Os exemplos aduzidos em 6 são verbos resultativos20 compostos por dois ou três constituintes verbais. Os elementos do lado esquerdo, ná, xié, tí, são verbos de movimento, enquanto os restantes morfemas, lái e qǐ, correspondem a verbos de direção, indicando os últimos o resultado ou a direção dos primeiros. 21

  • 拿来 [ná lái] △ 攜來 [xié lái] Trazer pegar vir △ pegar vir ‘trazer’ △ ‘trazer’

  • 拿起来 [ná qǐ lái] △ 提起 [tí qǐ] Levantar pegar levantar vir △ levar levantar ‘levantar’ △ ‘levantar’

Por último, no grupo das palavras compostas de Gonçalves encontram-se ainda os seguintes advérbios, cujos componentes não parecem apresentar nenhuma relação específica.

  • 到底 [dào dǐ] △ 然 [rán] Porem chegar fundo △ porém ‘no fim das contas’ △ ‘porém’

  • 實在 [shí zài] △ 其實 [qí shí] Realmente verdadeiro estar △ 3sg verdade ‘verdadeiramente’ △ ‘na realidade’

  • 自然 [zì rán] Naturalmente próprio assim ‘naturalmente’

Em suma, as palavras compostas, na perspetiva de Joaquim Gonçalves, abrangem um conjunto de vocábulos de classes de palavras e composições variadas, mas todos construídos por mais que um caráter primitivo. Os morfemas constituintes dos exemplos recolhidos pelo autor apresentam tanto relações hierárquicas de modificador e modificado como relações paralelas de sinonímia.

3.4. Palavras repetidas

Relativamente às palavras repetidas, o autor proporciona aos seus alunos e leitores sete exemplos que podem ser subdivididos em três grupos, consoante os respetivos padrões de reduplicação, nomeadamente, “AA”, “A yi A” e “AABB”, os quais são reorganizados nos exemplos 8-10.

  • 黑| 的 [hēi hēi-de] △ 黑狀 [hēi zhuàng] Apretalhado preto preto-mod △ preto estado ‘apretalhado’ △ ‘estado preto’

  • 重|的 [zhòng zhòng-de] △ 甚重 [shèn zhòng] Mui gravemente pesado pesado-mod △ bastante pesado ‘muito gravemente △ ‘bastante pesado’

  • 單| [dān dān] △ 惟 [wéi] Somente somente somente △ somente ‘somente’ △ ‘somente’

  • 人|都是這樣 [rén rén dōu shì zhè yàng] △ 人皆如此 [rén jiē rú cǐ] Todos saŏ assim. pessoa pessoa tudo ser dem.prox. forma △ pessoa tudo como assim ‘As pessoas são todas assim.’ △ ‘As pessoas são todas assim”

  • 講一講 [jiǎng yi jiǎng] △ 畧講 [lüè jiǎng] Contar n'hum instante. / 言少頃 [yán shǎo qīng] contar um contar △ pouco contar / falar pouco tempo ‘contar um pouco’ △ ‘contar um pouco’ / ‘contar um pouco’

  • 良|善|的 [liáng liáng shàn shàn-de] △ 殊善 [shū shàn] Mansinho bom bom bom bom-mod △ particular bom ‘bonzinho’ △ ‘particularmente bom’

  • 時|刻|罵人 [shí shí kè kè mà rén] △ 時刻詈人 [shí kè mà rén] Injuria os mais em todos os instantes. hora hora quarto quarto injuriar pessoa △ hora quarto injuriar pessoa ‘Estar sempre a injuriar pessoas’ △ ‘estar sempre a injuriar pessoas’

Os exemplos 8 - 10 são vocábulos formados através da reduplicação, a qual, segundo (Xu, 2012, p. 44), se caracteriza pela denotação de “quantidade aumentada”. O fenómeno da reduplicação de morfemas na língua chinesa, que não é comum na língua materna de Gonçalves, foi considerado como um dos processos morfológicos de derivação de léxico. Em termos de interpretação, as expressões formadas através da reduplicação são traduzidas como mecanismos de intensificação através dos sufixos aumentativo -lhado (8a) e diminutivo -inho (10a) e do advérbio muito (8b); de distribuição todos (8d e 10b); e de ênfase (8c). O exemplo 9 é um caso excecional, no qual a forma reduplicada do verbo, com a presença de um numeral yi no meio, sugere que a ação não é intensiva ou prolongada, mas sim feita de maneira breve ou intermitente.

Em resumo, a reduplicação, que é frequentemente usada em chinês para indicar uma função gramatical ou pragmática, é registada como um procedimento formal de palavras na análise morfológica de Joaquim Gonçalves.

3.5. Palavras negativas

A subsecção das palavras negativas apresenta doze exemplos bilingues, os quais podem ser divididos em quatro grupos, conforme a palavra de negação introduzida. O primeiro grupo engloba paradigmas adjetivais constituídos a partir do advérbio de negação bù, conforme ilustrado em 11.

  • 不便 [bú biàn] Inconveniente neg conveniente ‘inconveniente’

  • 不小心 [bù xiǎo xīn] △ 失顧 [shī gù] Descúido neg pequeno coração △ perder cuidado ‘descuido’ △ ‘descuido’

  • 不相对的 [bù xiāng duì-de] △ 不相合者 [bù xiāng hé-zhě] Discordante neg mútuo correspondente-mod △neg mútuo concordante-mod ‘não correspondente’ △ ‘discordante’

  • 不順的 [bú shùn-de] △ 不順者[bú shùn-zhě] Contrario neg favorável-mod △ neg favorável-aff ‘desfavorável’ △ “desfavorável’

As construções transcritas em 12 também incluem o uso do advérbio de negação bù, mas em estruturas de verbos resultativos:

  • 樂的了不得 [lè de liǎo-bu-dé] △ 喜不自勝 [xǐ bú zì shèng] / 不勝喜 [bú shèng xǐ] Alegria infinita Alegre mod concluir- neg-poder △ alegre neg se suportar / neg suportar alegria ‘extraordinariamente alegre’ △ “tão alegre que nem se pode suportar / ‘não suportar a alegria’

  • 想不到的 [xiǎng-bú-dào-de] △ 想所不到者 [xiǎng suǒ bú dào-zhě] Imprevisto pensar- neg-chegar-mod △ pensar por neg chegar-aff ‘não imaginável’ △ ‘não atingível através da imaginação’

  • 不可赦的 [bù kě shè-de] △ 不可赦者 [bù kě shè-zhě] Irremissivel neg poder perdoar-mod △neg poder perdoar-aff ‘não perdoável’ △ ‘não perdoável’

  • 挽不過來的 [wǎn-bú-guò lái-de] △ 不能挽回者[bù néng wǎn huí-zhě] Irreparavel remediar- neg-passar vir-mod △ neg poder remediar voltar-aff ‘irremediável’ △ ‘irremediável’

Os exemplos (13) referem-se a construções com o advérbio de negação da existência ou posse méiyǒu e wú.

  • 沒有規矩的 [méi yǒu guī ju-de]△ 無規矩者 [wú guī ju-zhě] Irregular neg ter regra regra-mod △neg regra regra-aff ‘o que não tem regra’△ ‘algo sem regras’

  • 無数的 [wú shù-de] △ 不勝數之 [bù shèng shǔ zhī] Inumeraveis neg número-mod △ neg suportar contar 3sg ‘inumerável’ △ ‘incontável’

  • 一點児也沒有 [yì diǎn-r yě méi yǒu] △ 毫無 [háo wú] / 全無 [quán wú] Nada tem. um ponto-aff também neg ter △ milímetro neg / tudo neg ‘nem um pouco tem’ △ ‘nem um milímetro tem’ / ‘sem nada’

O último exemplo é uma ocorrência isolada do advérbio de negação fēi.

  • 非理的[fēi lǐ-de] △ 非理者 [fēi lǐ-zhě] Irracionavel, ou illícito neg razão-mod △neg razão-aff ‘irracionável’ △ ‘irracionável

Para resumir, as palavras de negação, na classificação de Gonçalves, englobam palavras que possuem constituintes de negação, as quais, na sua tradução para o português, correspondem ao emprego de prefixos de negação. Na análise morfológica das palavras chinesas de Joaquim Gonçalves, os constituintes morfológicos chineses consistem principalmente em morfemas. Os vocábulos chineses são divididos em palavras simples e palavras complexas: o primeiro grupo refere-se às palavras constituídas por um único morfema, geralmente correspondente a um caráter chinês, enquanto o segundo grupo abrange quatro processos de formação, a saber, a afixação, a composição, a reduplicação e a negação.

4. Das partes da oração

As primeiras descrições metalinguísticas da língua chinesa, destinadas ao público-alvo ocidental, como as gramáticas missionárias, recorreram inevitavelmente à transposição bidirecional das categorias gramaticais. Isso significa que não apenas os conceitos existentes nos estudos das línguas europeias foram adaptados para descrever as características do chinês, mas também alguns conceitos tradicionais chineses, assim como categorias novas, foram adotados para retratar as particularidades da língua sínica (Gianninoto, 2014, p. 137). O método de Joaquim Gonçalves também não é exceção. As classes de palavras mencionadas na Arte China incluem: nome, artigo, adjetivo, numeral, pronome e verbo no terceiro capítulo e substantivo, verbo, adjetivo, preposição, advérbio, conjunção, interjeição, vozes de animais, tratamentos, e partículas sublimes, no quarto capítulo. Para algumas destas classes, o autor explora ainda propriedades mais específicas, por exemplo, o número, o género e o caso dos substantivos, os graus comparativo e superlativo dos adjetivos, as adições numerais e os números ordinais dos numerais e o tempo, o modo, o aspeto e a voz dos verbos. As categorias propostas por Gonçalves serão organizadas em três grupos: categorias adaptadas do modelo ocidental, categorias tomadas de empréstimo à tradição local e categorias novas, criadas para apresentar os aspetos especiais que não encaixam nas categorias anteriores.

4.1. Tradição ocidental

Com base no desenvolvimento histórico da classificação das palavras, desde as primeiras menções de Platão até às tradições modernas, Robins (1967/1997, p. 42) apresenta o seguinte resumo da sua evolução, desde a divisão dicotómica entre sujeito e predicado até à fixação das nove categorias geralmente utilizadas nas gramáticas modernas (Figura 1).

Figura 1: Desenvolvimento das classes de palavras, reproduzido de (Robins, 1997, p. 42).  

Todas estas nove classes de palavras tradicionais-modernas estão presentes na Arte China, conforme se demonstra na Tabela 4:

Tabela 4: Classes de palavras da tradição gramatical ocidental. 

Classe Especificações Contexto
Nome Número: singular e plural Gramática Género: masculino e feminino Gramática Caso: nominativo, genitivo, dativo, acusativo, vocativo, ablativo Sintaxe Conteúdo: abstrato Sintaxe
Artigo Definido Gramática
Adjetivo Grau: comparativo e superlativo Gramática
Pronome Relativo: que Gramática Interrogativo: quem, que, qual Gramática Indefinido: ambos, nenhum, algum, qualquer, muitos Gramática Demonstrativo: mesmo Gramática
Verbo Tempo: presente, pretérito, futuro Gramática Finito: indicativo Modo: formas verbais Infinito: infinitivo, gerúndio, particípio, finitas e infinitas imperativo, conjuntivo Gramática Gramática Gramática Aspeto: perfeito, imperfeito, plusquam Gramática Voz: ativa e passiva Gramática Outro: impessoal Gramática
Preposição Sintaxe
Advérbio Sintaxe
Conjunção Sintaxe
Interjeição Sintaxe

Fonte: elaborada pela autora com base nas categorias gramaticais dos capítulos III e IV da Arte China.

Assim como é comum nas gramáticas missionárias, o cerne do método gramatical de Gonçalves também se baseia na transposição do modelo analítico e descritivo greco-latino. Devido a restrições de espaço, o estudo atual concentra-se na análise dos nomes e dos verbos chineses, dada a importância e a complexidade destas duas categorias na história da linguística e a presença de especificações mais detalhadas sobre esses elementos gramaticais no estudo de Gonçalves.

Os cinco atributos aplicados aos nomes, a saber, o género, o tipo (primário ou derivado), a forma (simples ou composto), o número (singular, dual, plural) e o caso (nominativo, vocativo, acusativo, genitivo ou dativo), conforme especificado em Robins (1967/1997, pp. 43-44), também marcam presença no método de Gonçalves. 23 Quanto ao conteúdo, que também é distinguido na análise do professor português, a única menção sobre os nomes abstratos, que surge como exceção no âmbito da ordem sintática dos diferentes casos substantivais em relação ao verbo, diz o seguinte: “Os abstractos, ou verbos se tomão como causa, e naŏ como nominativo (Gonçalves, 1829, p. 149)”, oferecendo um exemplo único (15) e uma exceção (16).

  • 因多念書死了[Yīn duō niànshū sǐ le]△ 為讀甚而亡[Wèi dú shèn ér wáng] O muito estudo, ou estudar o matou. Por muito ler livro morrer asp △ Por ler demais então morrer ‘Morreu por ter estudado muito.’ △ ‘Morreu por ter estudado demais.’

No exemplo 15, o sujeito da frase portuguesa, que é uma frase simples, apresenta duas formulações alternativas, sendo a primeira um substantivo abstrato e a segunda um verbo infinitivo, ou, caso estudar substitua apenas estudo, como parece ser a intenção de Gonçalves, um verbo recategorizado como substantivo, O muito estudar o matou. Por outro lado, os sujeitos frásticos são omissos em ambas as frases complexas chinesas, que dispõem de uma oração subordinada adverbial causal. Os sujeitos das duas orações subordinadas, nomeadamente, o niànshū e o dú, correspondem aos designados “abstractos, ou verbos” na categorização de Gonçalves.

  • 一个小虫子也能彀杀人 [Yígè xiǎo chóng-zi yě néng gòu shārén] △ 一虫之微亦可斃人[Yì chóng zhī wēi yì kě bì rén] A pequenez de hum bicho pode matar o homem. Um clf pequeno bicho-aff também poder chegar matar pessoa △ Um bicho mod pequenez também poder matar pessoa ‘Até um bicho pequeno também pode matar um homem.’ △ ‘A pequenez de um bicho também pode matar um homem.’

Como exceção a esta regra particular, numa visão contrastiva entre o português e o chinês, no exemplo 16, o sujeito da frase chinesa no estilo sublime é um sintagma substantival construído através da partícula ou marcador de genitivo zhī, do qual o núcleo é um adjetivo recategorizado como substantivo.

Em relação aos verbos, as categorias relevantes para a flexão verbal na análise da língua chinesa do sinólogo português são o tempo, o modo, o aspeto e a voz, podendo as categorias gramaticais presentes na sua obra ser reorganizadas conforme exibido na Tabela 5.

Tabela 5: Categorias verbais. 

Voz Modo Tempo Aspeto
Ativa Indicativo Presente
Pretérito Imperfeito
Perfeito
Plusquam
Futuro
Imperativo
Conjuntivo Presente
Pretérito Imperfeito
Perfeito e futuro
Plusquam
Infinito
Gerúndio
Particípio
Passiva Particípio
Indicativo Presente
Pretérito Imperfeito
Perfeito
Gerúndio
Impessoal

Fonte: elaborada pela autora com base nas propriedades do verbo referidas no capítulo III da Arte China.

A estruturação desta análise verbal evidencia mais uma vez o método contrastivo de Joaquim Gonçalves, dada a presença das categorias características da gramática portuguesa. Já que a língua chinesa é uma língua livre da flexão verbal, não é de admirar que as categorias verbais na análise de Gonçalves tenham sido transpostas das propriedades da sua língua materna.

A maior parte destas categorias verbais permanece inalterada nos estudos gramaticais contemporâneos, porém há dois termos cujo uso necessita de ser verificado no método de Gonçalves: o gerúndio e o particípio, que surgem tanto na voz ativa como na passiva. Os gerúndios na voz ativa abrangem um total de 18 exemplos bilingues. Os exemplos portugueses subdividem-se em quatro tipos:

  • a) o sintagma preposicional “para + verbo no infinitivo”;

  • b)a oração subordinada “que + verbo no conjuntivo”;

  • c)o sintagma preposicional “de + verbo no infinitivo”;

  • d)o verdadeiro gerúndio.

Os primeiros três tipos correspondem maioritariamente às construções de verbos seriais em chinês, 24 e o último refere-se sobretudo ao uso da partícula chinesa “着 zhe”, marcador do aspeto contínuo de uma ação, conforme demonstrados nos exemplos 17 a 20. Cada estrutura portuguesa acima apresentada dispõe de um exemplo ilustrativo de acordo com a ordem sequencial.

  • a.我煮飯吃[Wǒ zhǔ fàn chī] △ 我煮飯食[Wǒ zhǔ fàn shí] Eu côso arrôz para comer. Eu cozer arroz comer △ Eu cozer arroz comer ‘Eu cozo arroz para comer.’ △ ‘Eu cozo arroz para comer.’

  • a. 我呌他来[Wǒ jiào tā lái] △ 吾呼之以至 [Wǔ hū zhī yǐ zhì] Eu chamo-o que cenha. Eu chamar ele vir △ Eu chamar pron para vir ‘Eu chamo-o para vir.’ △ ‘Eu chamo-o para vir.’

  • a.不得空児作書[Bù dé kòng-r zuò shū] △ 未暇修書 [Wèi xiá xiū shū] Naŏ tenho vagar de compor obras. Neg conseguir vagar compor livro △ Neg vagar compor livro ‘Não tenho vagar de compor livros.’ △ ‘Não tenho vagar de compor livros.’

  • a. 他在那裡等着你[Tā zài nà-li děng zhe nǐ] △ 其在彼相候汝 [Qí zài bǐ xiānghòu rǔ] Está alli esperando por ti. Ele estar dem.dist.-loc esperar asp tu △ 3sg estar dem.dist. esperar tu ‘Ele está ali à tua espera.’ △ ‘Ele está ali à tua espera.’

Nos primeiros três exemplos, as locuções verbais justapostas nas frases chinesas são traduzidas consoante a relação lógica entre as respetivas ações verbais em causa, enquanto no último exemplo o valor aspetual de continuidade, assinalado pelo marcador chinês zhe, é destacado pelo gerúndio atualmente conhecido na frase correspondente em português.

Por outro lado, os gerúndios na voz passiva possuem apenas dois exemplos, conforme transcritos e anotados em 21:

  • a.可爱的[Kě ài-de] △ 可愛者[Kě ài-zhě] Que deve ser amado. Poder amar-mod △ Poder amar-aff ‘Que deve ser amado’ △ ‘Que deve ser amado’

  • b.該讃美的[Gāi zànměi-de] Que deve ser louvado, ou louvavel.△ 可欣可美者[Kě xīn kě měi-zhě] Dever louvar- mod △ Poder apreciar poder louvar-aff ‘Que deve ser louvado’ △ ‘Que deve ser louvado’

Ambos os exemplos seguem a estrutura de “[algo ou alguém] Que deve ser + particípio passivo”, enquanto o segundo dispõe de uma formulação alternativa de “raiz verbal + sufixo ‘-ável’”. No chinês, trata-se de palavras com as adições adjetivais de e zhě, ambas identificadas na segunda categoria da formação de palavras (vd., Subsecção 3.2).

Quanto ao particípio, esta conta com dois exemplos na voz ativa, conforme transcritos e anotados em 22:

  • a. 行水路的不如行旱路的[Xíng shuǐlù-de bù rú xíng hànlù-de] △ 行程者則水路不如陸路矣[Xíngchéng-zhě zé shuǐlù bù rú lùlù yǐ] Melhor he o viájante que o navegante. Andar água caminho- mod neg como andar seco caminho-mod△ Andar viagem-aff então água caminho neg como terra caminho ptc ‘Quem viaje por terra é melhor que quem viaje por água.’ △ ‘No tocante à viagem, por terra é melhor que por água.’

  • b. 過海的人都坐船[Guò hǎi de rén dōu zuò chuán] △ 涉海者无不渡舟也[Shè hǎi-zhě wú bú dù zhōu yě] Os que passão o mar todos se embárcăo. Passar mar mod pessoa todos sentar-se barco △ Passar mar-aff neg passar barco ptc ‘Todos os que passam o mar se embarcam.’ △ ‘Não há quem passe o mar sem se embarcar.’

O primeiro é um substantivo derivado de verbo através da associação do sufixo “-ante” a uma raiz verbal, correspondendo ao particípio presente latino e à elipse com o marcador de modificação de chinês; o segundo é uma oração subordinada substantiva relativa usada como sujeito frástico. Os seis exemplos do português na voz passiva correspondem todos ao particípio atualmente conhecido, enquanto os equivalentes chineses destacam mais uma vez a junção de de e zhě a sintagmas verbais da voz passiva. Abaixo se transcreve apenas o primeiro texto paralelo a título exemplificativo:

  • a.人厭惡的[Rén yànwù-de] △ 人所嫌者[Rén suǒ xián-zhě] Aborrecido. Pessoa amar-mod △ Poder amar-aff ‘Que/quem é odado por outros.’ △ ‘Que/quem é desamado por outros.’

A razão por trás da diversificação dos exemplos oferecidos nas duas categorias, diferentemente das respetivas identificações contemporâneas, pode estar relacionada com a evolução histórica da gramática portuguesa ou pode, em alternativa, ser vista como uma tentativa de adaptação da terminologia portuguesa às particularidades da língua chinesa. Em resumo, a análise gramatical das partes da oração na obra de Joaquim Gonçalves tem como fundamento o modelo analítico e descritivo greco-latino, sendo influenciada pela tradição gramatical da sua língua materna. No entanto, essa abordagem não é uma simples transposição, pois destaca-se o esforço notável de Gonçalves em adaptar as categorias existentes para se adequarem às particularidades da língua chinesa.

4.2. Tradição local

Na tradição filológica chinesa, a conceção da divisão dicotómica das palavras em palavras cheias e vazias remonta ao século XIII, enquanto a distinção entre palavras vivas e mortas está associada à criação do primeiro dicionário de partículas gramaticais, de 1324, intitulado “语助 yǔzhù ‘auxílio linguístico’”. Essas classificações, representando algumas das poucas perspetivas gramaticais indígenas, foram adotadas em várias obras metalinguísticas por missionários e académicos ocidentais, principalmente no século XIX (Gianninoto, 2014, p. 142). A análise gramatical de Joaquim Gonçalves segue a tradição local do estudo das palavras vazias, pois a palavra chinesa “虚字 xūzì ‘palavras vazias’” marca presença logo no título da décima subsecção “Partículas Sublimes” do capítulo IV Syntaxe da sua Arte China - “Algumas são às vezes partes principaes da oração: às expletivas se corresponde na nossa lingua so com hum requebro da voz (Gonçalves, 1829, p. 161)” -, na qual o autor apresenta um conjunto de 21 partículas gramaticais do estilo sublime. A Tabela 6 expõe resumidamente as partículas que constam do glossário de Gonçalves, na subsecção acima identificada, sem contar com os exemplos bilingues oferecidos pelo mesmo.

Tabela 6: Partículas sublimes. 

N.ºPartícula Definição em chinês Definição em português
1.之 zhī Che 之語助辞也 O CHE he terminação de genitivo, e expletiva.
又有所指之辞也 Tambem he pronome. Elle.
又至也 Tambem he verbo. Chegar.
2.于 | 於 yú Iu 于 | 於語助又在也 IU he preposição Em, a.
3.夫 fú Fu 夫語端辞也 FU he expletiva inicial.
又語巳辞也 Tambem he expletiva final.
又有所指辞也 Tambmem he artigo e pronome.
4.而 ér Olr 而語相属辞也 OLR he conjunctiva.
又語助辞也 Tambem he expletiva final.
焉語巳辞也 IEN he expletiva final: indica émphase.
5.焉 yān Ien 又語助辞也 Tambem he expletiva media, ou pausa na oraçăo.
又語端辞也 Tambem he expletiva inicial interrogativa.
6.哉 zāi Çai 哉助語詞也 ÇAI he expletiva interrogativa final.
又聞辞也 Tambem he expletiva média de admiraçāo.
又始也 Tambem significa Principiar.
7.者 zhě Choŏ 者語助也 CHOŎ he artigo.
又有所指之詞也 Tambem he terminação de participio.
8.耳 ěr Olr 耳决詞也 OLR he expletiva final terminante.
又語助也 Tambem he expletiva média.
9.耶 yé Ie 耶語助也 IE he expletiva final interrogativa.
又疑辞也 Tambem he expletiva de duvida.
10.也 yě Ie 也语助之终也 又决辞也 又語之餘也 又發語 IE he expletiva final. Tambem he expletiva terminante. Tambem he expletiva suspensiva. Tambem he expletiva inicial.
11.乎 hū Hu 乎疑詞也反喝也 又語助辞 HU he expletiva final interrogativa. Tambem he expletiva.
12.乃 nǎi Nai 乃承上起下之詞也 NAI he particula conjunctiva.
13.與 yǔ | 欤 yú Iu 與 | 欤疑辞也 又施也 IU he expletiva de duvida. Tambem significa dar.
14.與 yǔ Iu 與同也 IU significa com.
15.矣 yǐ I 矣語巳辞也 又决辞也 又語助辞也 I he expletiva final. Tambem he expletiva terminante. Tambem he expletiva.
16.蓋 | 盖 gài Cai 蓋 | 盖申明詞也 又不定之詞也 CAI he explicativa. Tambem he expletiva de incerteza.
17.且 qiě Chie 且况且也 又未定辞也 又苟且也 CHIE quanto mais. Tambem he expletiva de duvida. Tambem significa: Sem regra.
18.雖 suī Soei 雖不定也况也 SOEI significa indeterminado, quanto mais.
19.以 yǐ I 以语助也 又有所挾之辞也又用也 將也 I he expletiva. Para. Tambem he expletiva de instrumento.
20.無如 wúrú Vu-Ju 無如無法也 VU-JU Nāo há remedio.
21.將 無 jiāngwú Chiam-Vu 將無得無也 CHIAM-VU Poderà deixar de…

Fonte: elaborada pela autora de acordo com as partículas analisadas na secção 10 Particulas Sublimes do capítulo IV Syntaxe da Arte China.

A definição de cada partícula é oferecida não só em chinês, mas também em português, e os diferentes usos, quando aplicáveis, são igualmente discriminados em ambas as línguas. No entanto, a descrição em português nem sempre corresponde às definições em chinês. Por exemplo, o termo chinês “语助 yǔzhù ‘auxílio linguístico’” é traduzido maioritariamente como “expletiva”, porém, dependendo do contexto, os equivalentes portugueses oferecem informações extra, como, por exemplo, a indicação posicional da partícula: “expletiva final” ou “expletiva média” e o modo sintático: “expletiva final interrogativa”, ou assumem designações da tradição portuguesa, como, por exemplo, a primeira partícula zhī é explicada como terminação de genitivo e a sétima partícula, zhě, é descrita como um artigo chinês, enquanto ambas são definidas como yǔzhù em chinês.

Resumidamente, as partículas estudadas na obra de Gonçalves têm como base a tradição analítica e descritiva local. No entanto, as mesmas foram adaptadas e aprofundadas sob a sua perspetiva contrastiva, visando facilitar a compreensão da matéria por parte dos seus discípulos europeus.

4.3. Categorias novas

Para além das categorias das tradições linguísticas ocidentais e chinesas, no método gramatical de Gonçalves encontram-se ainda as seguintes categorias novas (Tabela 7), criadas para melhor enquadrar algumas características especiais da língua chinesa numa visão comparativa.

Tabela 7: Outras categorias. 

Categoria Especificações Contexto
Numeral Números (cardinais) Gramática
Adições numerais
(Números) ordinais
Vozes de animais Sintaxe
Tratamentos Sintaxe

Fonte: elaborado pela autora com base nas categorias gramaticais dos capítulos III e IV da Arte China.

Na tradição linguística ocidental não existe uma classe de palavras equivalente aos classificadores chineses (Gianninoto, 2014, p. 139), os quais, no método de Gonçalves, assumem a designação de “adições numerais”, que se encontra na nona secção do Capítulo III da Arte China, juntamente com a seguinte nota de rodapé: “Para saber a addiçaõ numeral de qualquer coisa consulte-se o uso, e diccionario; por que naõ há regras geraes, pode usar-se porem sempre do 个 [gè] (Gonçalves, 1829, p. 131)”. Esta secção surge logo a seguir à dos números cardinais e antes da dos números ordinais, duas categorias existentes nas línguas portuguesa e chinesa. Como exemplos ilustrativos da arbitrariedade em termos da atribuição dos classificadores chineses, o autor oferece quatro exemplos bilingues que abrangem sete classificadores, aplicados a sete substantivos aleatórios e distintos. Abaixo se transcrevem os primeiros dois exemplos para demonstrar a variedade dos classificadores chineses:

  • 他養一百口牲口[Tā yǎng yì bǎi kǒu shēngkou] △ 其養畜一百頭[Qí yǎng chù yì bǎi tóu] Elle cria cem cabeças de gado. Ele criar um cem clf animal boca △ 3sg criar animal um cem clf ‘Ele criou cem cabeças de gado.’ △ ‘Ele criou cem cabeças de gado.’

  • 一條路上有两根木頭[Yì tiáo lù shàng yǒu liǎng gēn mù-tou] △ 一路中有木二根 [Yí lù zhōng yǒu mù èr gēn] Em hum caminho há duas traves Um clf caminho cima ter dois clf madeira-aff △ Um caminho dentro ter madeira dois clf ‘Num caminho há duas traves’ △‘Num caminho há duas traves’

No exemplo 24a, as duas adições numerais chinesas, kǒu e tóu, dispõem de uma tradução equivalento no texto português, cabeça, um substantivo comum utilizado para quantificar os indivíduos do substantivo coletivo gado, enquanto no exemplo 24b, os dois classificadores chineses, tiáo e gēn, aplicados respetivamente aos susbtantivos lù e mù-tou, não são traduzidos no texto paralelo em português, pois uma vez se que tratam de susbtantivos comuns contáveis, as respetivas traduções não são necessárias em português.

As vozes de animais e as formas de tratamento surgem como as últimas secções do capítulo IV, antes da introdução das partículas chinesas. No caso do primeiro, uma vez que o verbo que retrata a voz de um animal varia substancialmente, tanto em português como em chinês, dependendo do sujeito em causa, pode-se presumir que esta categoria surgiu como uma secção autónoma devido à discrepância interlinguística. Já no caso das formas de tratamento, Gonçalves deixa evidente, através de uma lista de modos de tratamento variados, numa página inteira, que a diferenciação linguística depende não só da hierarquia social (superior e inferior), mas também do estatuto civil (criminoso), grau de familiaridade (amigo), género (mulher), idade (mancebo e velho) etc., alertando ainda que se deve consultar a entrada “Tratamento” do seu dicionário português-chinês para conhecer o assunto de forma completa25 (vd., Gonçalves, 1829, p. 160).

Na entrada deste lema, o autor introduz uma regra de tratamento de acordo com a categoria ("de que ordem") do empregado a que se destina:

  • O tratamento da 1a., 2a., e 3a., ordem he 大人

  • da 4a. ate a 6a. he 大老爺 [dà lǎoyé]

  • da 7a., e 8a. 太爺 [tàiyé]

  • das extravagantes 老爺 [lǎoyé]] Ve EMPREGADO

  • dos legados, e syndicos he 大人 [dàren] Ve INSIGNIA

  • (Para saber de que ordem he hum tal empregado, procura-o no seu lugar.) (1831, pp. 321-322)

Portanto, presume-se que a intenção do autor ao propor especificamente as formas de tratamento como uma parte da oração independente, em paralelo às restantes partes da oração tradicionalmente conhecidas na gramática ocidental, é sublinhar a importância de dominar as regras sociais do império chinês - uma sociedade altamente hierarquizada.

Em resumo, as novas categorias propostas para classificar o vocabulário chinês no método gramatical de Joaquim Gonçalves foram concebidas levando em consideração não apenas a distância interlinguística, mas também as diferenças socioculturais entre a China e Portugal.

5. Nota final

Este estudo investigou a conceção gramatical de Joaquim Gonçalves, analisando as reflexões metalinguísticas presentes no seu método gramatical para o ensino do chinês a europeus no século XIX, com ênfase no prólogo que antecede os capítulos três e quatro da Arte China, bem como nas categorias gramaticais desses capítulos. A pesquisa centrou-se na visão de Gonçalves acerca da formação e classificação das palavras chinesas. Os resultados destacam que o autor categoriza palavras com base nos morfemas chineses, dividindo-as em simples e complexas. As palavras complexas, segundo a sua análise, resultam de processos como adição, composição, reduplicação e negação. No que diz respeito às partes da oração, a categorização de Gonçalves é baseada não só na tradição gramatical ocidental, tendo proposto todas as nove classes de palavras da gramática tradicional-moderna do modelo analítico e descritivo greco-latino para a análise do vocabulário chinês, como também incorpora a tradição local de classificação de palavras cheias e vazias. Além disso, o sinólogo português introduz ainda três categorias novas para retratar os aspetos singulares da língua e da cultura chinesas, como classificadores chineses, vozes de animais e formas de tratamento.

Este ensaio pretende ser um contributo para a compreensão da estrutura conceptual da análise gramatical de Joaquim Gonçalves, sendo relevante para estudos sobre os recursos bilingues abundantes na sua obra. Com base nessa análise estrutural, é possível aprofundar a análise dos exemplos bilingues que constituem património textual de relevo do século XIX, os quais são essenciais para examinar as categorias gramaticais inventariadas, mas não investigadas neste trabalho. Como em qualquer pesquisa, há aspetos que podem ser aprimorados ou expandidos em trabalhos futuros. Primeiramente, a análise poderia ser enriquecida com um estudo comparativo entre as obras de Gonçalves e outros missionários europeus que trabalharam no Oriente. Tal comparação poderia oferecer insights adicionais sobre as influências mútuas e as particularidades das abordagens de cada autor. Além disso, uma análise detalhada das restantes categorias gramaticais da tradição linguística europeia que não chegaram a ser abordadas em pormenor neste estudo poderia completar a compreensão da visão gramatical do sinólogo português. Entre estas, já se encontra em revisão um estudo sobre os artigos chineses na Arte China que se traduz numa observação pioneira da gramaticalização do demonstrativo distal chinês no século XIX. Outro ponto a ser considerado é a análise de manuscritos inéditos ou menos estudados de Gonçalves, sobretudo a comparação entre a versão impressa e o manuscrito. A inclusão de fontes primárias adicionais poderia revelar novas facetas de seu trabalho e enriquecer a compreensão da sua metodologia e influência. Por fim, futuros estudos poderiam explorar a aplicação prática das teorias gramaticais de Gonçalves no ensino da língua chinesa em contextos missionários. Essa linha de pesquisa poderia contribuir para uma melhor compreensão da eficácia e impacto das suas obras na educação linguística.

Agradecimentos

Agradece-se à Professora Doutora Anabela Leal de Barros do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho pela leitura crítica e revisão linguística deste estudo.

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1O século XIX marca o início da sinologia especializada, com o aumento progressivo e contínuo de complexidade e rigor dos estudos linguísticos realizados por missionários e académicos ocidentais (Zhang & Li, 2011).

2O tríptico de Gonçalves é um método de ensino completo e sistemático que cobre de forma ampla e detalhada todos os aspetos necessários para dominar a língua chinesa. Para não engrossar os volumes e sendo muito diretamente dirigidas aos seus alunos, as suas obras não contam com muitas explicações, que certamente lhes forneceria no decurso das aulas, conforme presume (Barros, 2014, p. 110).

3A autora refere-se ao manuscrito 7975 da Biblioteca Nacional de Portugal, editado dois anos antes por (Barros e Ng Cen, 2014), sob o título Gramática e Diálogos em Português e Chinês: um manuscrito inédito do P. e Joaquim Afonso Gonçalves, com introdução e edição crítica de Anabela Leal de Barros e fixação dos carateres chineses por Ana Ng Cen, e em edição interpretativa três anos mais tarde (Barros & Ng Cen, 2017).

4Disponíveis em https://www.eva.mpg.de/lingua/pdf/Glossing-Rules.pdf, consultado em 14 de novembro de 2023. Encontra-se no Anexo 1 a Lista de Abreviaturas, Siglas e Acrónimos.

5As classes de palavras dos vocábulos chineses descontextualizados não são especificadas neste estudo, devido ao facto de uma grande parte das palavras e morfemas chineses poder pertencer a mais de uma classe de palavras. No entanto, é importante destacar que não há ambiguidade em relação a essa classificação quando essas palavras estão inseridas em contextos específicos (vd., Packard, 2000, pp. 35-36).

6Os carateres chineses são todos monossilábicos.

7Na verdade, as palavras dissilábicas que contêm apenas um morfema são casos excecionais na língua chinesa, motivo pelo qual, para Packard, cada zì ‘carácter’ equivale a um caráter na escrita e um morfema na fala (Packard, 2000, pp. 3, 8).

8Separados por um triângulo em toda a trilogia de Joaquim Gonçalves.

9Corresponde ao “word-forming affix” na terminologia de (Packard, 2000).

10Na verdade, o morfema de costuma ser visto como uma palavra funcional, nomeadamente um marcador de modificação na perspetiva de Packard (vd., 2000, p. 74), sendo este um morfema livre e gramatical ou uma partícula possessiva (vd., Partee, 2006). Na perspetiva de Gonçalves, é uma adição adjetival.

11A transcrição fonética dos três carateres “的 de”, “者 zhě” e “之zhī” pode ser consultada no Diccionario China-Portuguez do autor (vd., Gonçalves, 1833, pp. 637, 518, 13). Vale referir que, para o segundo caráter, a romanização apresenta uma pequena variação tanto no dicionário como no capítulo VI, onde o mesmo é transcrito como “choŏ”. Ainda assim, uma vez que o mesmo consta como um dos exemplos das adições adjetivais, não há ambiguidade quanto à sua identificação.

12A correspondência entre o genitivo em línguas ocidentais e a palavra zhī também é referida em (Harbsmeir, 1998, p. 87)

13No Diccionario China-Portuguez, o de dispõe das seguintes traduções: “Claro. Certo, dar no alvo” (Gonçalves, 1833, p. 627), referindo apenas ao uso como uma palavra lexical e não gramatical.

14Corresponde ao “nominalizing suffix” na terminologia de (Packard, 2000).

15Corresponde à “root word” na terminologia de (Packard, 2000).

16Corresponde ao “bound root” na terminologia de (Packard, 2000).

17Corresponde à “hierarchical ‘modifier-modified’ relation” na terminologia de (Packard, 2000).

18As palavras chinesas também podem ser caracterizadas mediante a relação de modificação entre os morfemas constituintes, ou seja, “qual modifica e qual é modificado” (Packard, 2000, p. 23)

19A palavra do estilo vulgar do 3c, na verdade, poderia ficar acomodada no exemplo seguinte, mas para não separar os dois estilos, a autora deste trabalho decidiu preservar a organização original de Gonçalves.

20Os verbos resultativos são verbos compostos do tipo [ V1V2 ], no qual o V2 indica o resultado do V1 (Packard, 2000, p. 95).

21Na análise de Packard, 2000, p. 98), o verbo qǐ não se encaixa na lista fechada de verbos de direção para a constituição de verbos resultativos direcionais.

22Conforme anotado nas “Abbreviaturas e Signaes”, anexadas no final do Prólogo da Arte China, o símbolo “|” denota a repetição do caráter atrás escrito nas obras de Joaquim (Gonçalves, 1829, p. VIII).

23O tipo e a forma refletem-se na análise da formação das palavras chinesas.

24Na terminologia de (Li e Thompson, 1981/2009, p. 594), a expressão “construção de verbos seriais” enquanto tradução literal do termo original em inglês “serial verb construction”, refere-se a uma frase que contém duas ou mais locuções ou orações verbais, justapostas sem qualquer marcador que indica qual é a relação entre as mesmas.

25A este assunto já se referiu (Wang, 2015, pp. 13-24) na sua dissertação de mestrado dedicada ao eufemismo e disfemismo em português e chinês na obra de Joaquim Gonçalves.

Anexo 1

(Tabela 8)Lista de Abreviaturas, Siglas e Acrónimos

Tabela 8:  Lista deAbreviaturas, Siglas e Acrónimos 

3 Terceira pessoa
aff Afixo
asp Marcador de aspeto
clf Classificador
Conj. Conjunção
dem Demonstrativo
dist Distal
loc Locativo
mod Marcador de modificação
neg Negação
nom Sufixo nominalizador
pl Plural
prox Proximal
ptc Partícula
sg Singular
v Verbo
vrb Sufixo verbalizador

Recebido: 22 de Janeiro de 2024; Aceito: 27 de Maio de 2024

Autor correspondente: liling@elach.uminho.pt

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